Sine Cordi

72 CAPÍTulo 72 - עב


Notas iniciais
Eu sei que vocês devem estar assustadas por eu estar demorando a postar. Mas não é por mal. Eu só sou de carne e osso e, vez ou outra, uns corpos estranhos resolvem me molestar e eu não consigo escrever :'( Enfim, espero que dê para vocês lerem, apesar de já ser segunda-feira (odeio)... Mas ficará por aqui até que dê para ser lido! Obrigada e perdoem por ainda não responder aos comentários. Farei isso!

Olá escuridão, minha velha amiga,

Eu vim conversar com você outra vez,

Porque uma visão que se aproximou suavemente

Deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo.

E a visão que foi plantada em minha mente

Ainda permanece

Entre o som do silêncio.

Em sonhos agitados eu caminho só

Em ruas estreitas de paralelepípedos,

Sob a luz de uma lamparina de rua

Virei o meu colarinho contra o frio e a umidade

Quando os meus olhos foram apunhalados

Pelo flash de uma luz néon,

Que rachou a noite

E tocou o som do silêncio.”

The Sound Of The Silence por Simon & Garfunkel -

Rachel sentiu o ar lhe faltar e virou a face para a latina que não entendia nada com coisa nenhuma, entretanto sentia que havia algo distinto e fora de lugar naquela cena.

Berry, lo estoy esperando”, pregou os olhos sobre a figura de Quinn, que ainda parecia muito atordoada (o que era normal… já a viu assim antes), porém a gentileza no tom de voz não fazia sentido para seus ouvidos. Era como se estivesse, há muito tempo, ouvindo-a cantar desafinado e então, de repente, ela voltava a cantar afinadamente.

Seus ouvidos teriam se enganado?

Os olhos verdes casaram com os seus e ali havia algo estranho. Cambiava entre o nada e um destelho de reconhecimento.

“Céus, Sant! Eu estou com dor de cabeça e você só reclama! Deixe a Rach quieta”, pediu num aborrecimento que passou longe da frialdade esperada.

A latina sentiu que o ar não lhe chegou aos pulmões.

O coração deu um descompasso.

Um pequeno aperto.

Um nó na garganta.

E, por mais que aspirasse, o ar ali dentro não era bastante.

O que havia com Quinn?

Inspirou fundo outra vez. E, novamente, a estranha sensação de que ao ar não lhe alcançava os pulmões se fez. A pressão era maior do que poderia suportar.

Deu as costas, caminhou às pressas até a janela mais próxima e a abriu, em desespero, de par em par e aspirou o ar poluído da grande maçã como se fosse o mais puro que havia. E este, sim, lhe alcançou os pulmões.

Apoiou as mãos ali, mareada, atontada e um pouco trêmula.

Riu com sarcasmo e meneou a cabeça em negativa.

Mirou o nada, apenas preocupada em conseguir respirar o suficiente para oxigenar o cérebro e tentar entender o que achava que tinha visto, mas não tinha certeza. Até porque parecia insano! Na realidade, após algumas respirações, pensou que, vindo de Quinn Fabray, qualquer coisa poderia lhe parecer insana. A questão a se analisar com mais profundidade era: até onde Quinn estava apenas jogando e até onde era a mente dela se manifestando? E, diante do olhar de Rachel Berry, a segunda opção parecia a mais provável. E, de tudo isso, o que mais lhe apavorava era a sensação de que aquela mulher que lhe chamou a atenção em defesa de Rachel cantava tão afinado quanto cantou, um dia, uma amiga que teve e que acabou com a própria vida após enfiar o carro embaixo de um caminhão.

Lembrou de sua abuela e suas histórias sobre os espíritos. Ela dizia que quando “Uno se muere”, devemos agradecer por sua existência e passagem por nossas vidas e deixá-lo ir.

Ela nunca quis deixar Quinn ir.

E Rachel tão pouco.

O que elas haviam, então, trazido da morte?

“Quinnie”, Rachel chamou a esposa, ainda insegura.

Os olhos de um verde tão claro que beirava o âmbar a miraram com um sorriso.

“Tem Aspirina, Rach?”, perguntou de novo.

A cantora sentiu o coração palpitar. Feliz por tê-la outra vez; triste porque não seria para sempre; atordoado pelas explicações que teria que dar para Santana e Britt.

“Sim… Eu só não sei se você pode… Já tomou seus medicamentos mais cedo…”, tentou explicar a razão de não buscar o remédio que a loira pediu.

Quinn sorriu e franziu o cenho.

“Eu não tomei nenhum medicamento, Rach”, avisou.

A cantora sabia que ela havia tomado! Por que ela insistia que não?

“Quinn, hoje de manhã, você tomou seus remédios”.

A expressão confusa na face da loira a fez cair em si. Estava confundindo as duas “personalidades” de Quinn. Isso era muito ruim?

Não. Era normal e altamente aceitável se toda a situação fosse analisada até ali. Em alguns meses após reencontrar Quinn, precisou lidar com a frieza e o deboche dela. Arrastou-se sem mais poder com pedidos de perdão para descobrir que, no fim das contas, ela – Quinn – não se lembrava de que a havia traído porque sofria de amnésia. E Quinn sofria de amnésia porque tentou se matar após tê-la flagrado em pleno ato de traição com Jesse que, aliás, foi assassinado sem mais nem menos, impactando-a de maneira tão forte que, vez ou outra, achava que o escutava.

Poderia parecer estranho. Mas não era. E não cabia discussão. Agora, o melhor seria se concentrar em Quinn. E uma insanidade (uma a mais para se acrescentar à conta) lhe assomou a mente e escorreu pela boca…

“Pense que são gêmeas! A gêmea boa me ama; a gêmea má me odeia. E esta, agora, é a gêmea boa”, murmurou para si mesma.

A loira a mirou com espanto.

“Rach, você está bem?”, indagou, esfregando delicadamente a fronte a fim de amenizar o pequeno incômodo.

A judia a fitou e sorriu. Assentiu e acariciou-lhe, delicadamente, a face.

“Estou… Bem. Eu só estou meio assustada… Eu acho que a sua dor de cabeça foi muito forte dessa vez”, tentou uma desculpa tolerável.

A loira assentiu. E voltou a perguntar se ela tinha o remédio.

“Eu vou buscar”, Britt se ofereceu, percebendo, ainda que meio atordoada, que havia alguma coisa que não captou na situação, exceto o fato de Quinn, a sua Quinn, parecer estar de volta. No mais, tudo era, definitivamente, muito confuso!

Rachel agradeceu e explicou-lhe onde ficavam guardados os medicamentos, enquanto a ex-namorada lhe segurava uma das mãos, ajudando-a a se erguer e sentar ao seu lado no sofá.

“Eu acho que estou um pouco confusa agora, Rach”, confessou e deitou a cabeça no ombro da morena.

A judia dobrou o braço com cuidado e começou a afagar a cabeleira dourada.

“Eu também, Quinn. Eu também…”, suspirou.

“Por quê?”, a loira ficou interessada.

“Porque você não deixa de me surpreender e, vez ou outra, me colocar em situações um pouco… Estranhas”, não encontrou outro adjetivo.

A ex cheerio não conseguiu evitar um sorriso. E Rachel se deu conta.

Quinn ergueu a cabeça e a fitou.

“Você vai e vem…”, a cantora quase desfalecia ao ver os olhos doces da ex-namorada. Recompôs-se e continuou:

“Eu nunca sei quando vai aparecer…”, confessou.

O som de um bater de palmas cadenciado e solitário chamou a atenção de Rachel e a aterrorizou e fez Quinn mirar mais confusa, enquanto Brittany estancava com o copo de água e a Aspirina para a ex-capitã das cheerleaders do WMHS.

Santana Lopez queria muito entender o que estava acontecendo. Mais: ela queria saber quem era a alma penada que vinha lhe assombrar depois de tanto tempo oculta nas sombras da memória falecida de Quinn Fabray.

“¿Qué es esto que está pasando?”, indagou e cruzou os braços sob os seios turbinados com muito orgulho e ergueu uma sobrancelha.

Rachel se sentiu como no colegial outra vez, acossada pela Trindade Profana, um pouco dispersa neste momento, porém não menos aflitiva. O olhar inquiridor de Santana Lopez causava aflição.

“É só a Quinnie com dor de cabeça”, Britt explicou, porque não entendia a razão de tanta confusão, e se moveu, a entregar o copo com água e o comprimido para a outra loira, que os tomou com um sorriso de agradecimento.

Um sorriso que parecia sincero.

Era isso que confundia Brittany! Era a Quinnie. Mas também não era. Na verdade, quase poderia ter certeza de que essa Quinnie não sabia que a Rach a havia traído. Precisaria ficar atenta ao que Sant fosse falar, analisou a bailarina.

Justo así!”, cuspiu a latina. “Es por ser a Quinn que me está dando em los coños, porque não consigo entender”, suspirou, “o no lo puedo aceptar, porque aún me duele”, murmurou.

“Sant…”, Rachel quase quebrou. Mas não podia. Essa confusão toda poderia ser ruim para Quinn. Embora se perguntasse se o quadro poderia piorar. Não. Não poderia. Exceto se aparecesse uma terceira personalidade…

Rachel balançou a cabeça em negativa e empurrou com força esse pensamento para fora de sua mente. E conseguiu perceber que só se mantinha sã porque teve o mau senso de se automedicar com a ajuda de Holmes para não surtar e sair cantando alguma daquelas canções sem nenhum senso de musicalidade ou poesia em suas letras, dançando num poste de pole dance e fazendo caras e bocas vestida em minúscula roupa íntima com luzinhas pisca-pisca de árvores de Natal adornando-lhe as curvas.

Era perturbador.

“Sant”, retomou a palavra, mais segura, porém não tanto quanto necessário, “eu ainda não sei explicar… Mas é a Quinn…”, deu ênfase no nome como se isso pudesse despertar alguma lógica dentro da cabeça atormentada de Santana, explicitada na expressão de sua face.

Sí. Eso lo puedo ver. Pero, por qué luce como se no fuera la fría Reyna Del Hielo”, argumentou, em dúvida.

Essa era uma resposta simples, pensou Rachel.

“Porque agora ela não é”, sorriu com a lógica da resposta.

Um instante…

Lógica?

Santana suspirou. Não estava claro ainda. O eso le parecía

Britt a enlaçou num abraço e a latina se deixou envolver, escutando a esposa lhe falar docemente ao ouvido:

“Eu acho que o que a Rach quer dizer é que é tipo o interruptor de luz lá de casa, Sant. Talvez ela tenha acendido a luz que fica dentro da parte escura da cabeça da Q, aí a Q, que estava perdida lá no escuro, apareceu”, beijou-lhe o canto dos lábios e sorriu, mirando-a com amor. Era así de simples! Por que as pessoas complicavam as coisas?

A morena não despregou os olhos duros dos azuis que transbordavam doçura e amor devoto.

Pero no es cierto…”, sussurrou e tentou segurar a emoção. Ela não poderia ter lugar neste momento. Não! Era necessário ser pragmática!

Respirou fundo e sorriu para a esposa:

Gracias, Britt”.

“Amo você”, sussurrou a bailarina.

A latina se voltou para o casal Faberry, com a expressão dura no rosto, e indagou tentando não soar ríspida por causa da insanidade do momento:

“Apenas me diga sim ou não, Hobbit”, pediu.

“Sant…”, Quinn abriu os olhos e a mirou, “pare de chamá-la assim. Já não estamos mais no colegial”.

!Puta la mierda! Bem que a Dra. Parker avisou das prováveis fugas da mente da loira. E aí estava! Uma personalidade alternativa! Só poderia ser isso! Uma personalidade que lhe permitia estar perto de Rachel e depois… Olvidar!

A Hobbit já não precisava lhe responder.

“O ‘fenômeno’ dura quanto tempo?”, perguntou cética, olhando diretamente para a judia.

Rachel analisou… Ela não sabia ao certo…

“Não sei… Eu experimentei três momentos…”, murmurou, sabendo que Santana ficaria intrigada. “Desde ontem…”, falou devagar, “e duraram entre cinco e trinta minutos… Eu não fiquei em todos eles para ver”, esclareceu.

Quinn ergueu a cabeça que descansava no ombro da cantora e a mirou e, depois, mirou a latina.

“Do que vocês estão falando?”, perguntou, confusa.

“Volte a dormir, Fabray. Depois a ‘minion’ lhe explica”, espetou.

“Sant…”, o tom de voz de Quinn saiu ameaçador.

Santana quis rir. Rir porque era muito fora de lugar a Rainha de Gelo parecer derretida neste momento, a defender Rachel de seus pequenos insultos, como fazia antes do acidente, quando ainda a amava. Antes de ser traída…

Pero… Até onde essa “personalidade alternativa” sabia sobre a traição?

“O que o fantasma sabe sobre o falecido?”, tentou ser bem sutil.

Rachel não entendeu.

Fantasma?

Falecido?

Santana suspirou. Rachel era um gênio na música e atuação, mas em certas nuances deixava muito a desejar…

“Tipo a Q e o Jesse?”. Brittany realmente entendia a latina.

Santana filmou a esposa com um sorrisinho orgulhoso, que fez desaparecer assim que voltou o olhar para a judia.

“¿Es necesário que lo dibuje ahora?”, inquiriu, seca.

Quinn ainda estava perdida na conversa cifrada entre as duas e a cantora, finalmente, entendeu.

“Não, Sant. Não precisa desenhar”, avisou.

“Ótimo!”, agradecia por Britt compreendê-la, porque se fosse depender da Berry…

“Entretanto”, a cantora achou pertinente se colocar, “não com a Quinnie com essa dor de cabeça estranha”.

A latina pareceu analisar a situação. Mas ainda queria uma resposta…

“O que o fantasma sabe sobre o falecido?”, insistiu na pergunta.

Quinn olhou de uma para outra com o cenho franzido.

A judia analisou a questão.

Até o momento, essa “personalidade” de Quinn não tocou no nome de Jesse desde que se “manifestou”.

“Talvez nada”, arriscou. Era uma possibilidade viável. E lógica, também. Dentro do quadro, claro.

Dios! Esto es peor de lo que parece”, exclamou a latina que, devagar, aproximou-se e sentou do outro lado de Quinn, na ponta do sofá. Limpou a garganta. Respirou fundo e rasgando-se de um tumulto de sentimentos estranhos, onde o maior era a insanidade, voltou-se na direção dela, que voltou a deitar a face no ombro da cantora, e chamou:

“Quinn?…”, a voz quase falhou.

Os olhos claros se abriram e se direcionaram para ela.

Rachel e Britt apenas observavam, entre incrédulas e curiosas.

“Numa escala de um até cinco, como classificaria a sua dor agora?”, a latina questionou, em tom calmo e didático, embora desejasse se bater por dentro. Que tipo de pergunta era essa? Deveria aproveitar a oportunidade para sondar até onde a mente da loira foi para protegê-la do trauma de lembrar que foi traída e tentou se matar. Entretanto, só conseguiu perguntar o grau da dor de cabeça de Quinn. Hay horas en las que soy una estúpida!, aborreceu-se consigo mesma.

A loira franziu o cenho e se ergueu, mirando-a.

Santana não desviava os olhos dos dela. Havia ali pequenos câmbios de nada com alguma coisa. E era essa alguma coisa, bem frágil, que parecia estar de fora agora, meio que afogando o nada por alguns instantes. Ou isso lhe parecia.

“Escala de um até cinco?”, questionou a loira, realmente parecendo surpresa com a pergunta.

“É para saber o grau da dor…”, explicou. Mierda! Por que continuava com isso? Às favas com a dor de cabeça! Não era sobre isso que queria saber.

Quinn, por sua vez, não entendeu mesmo!

“Qual a relevância do grau da dor de cabeça? Você fala como se eu tivesse crises diariamente. É só um incômodo”, informou.

Okay. Santana deveria estar preparada para escutar isso. Mas não estava. Era muito estranho ouvir Quinn falar como se sua vida após o acidente não fosse dividida em fases boas e fases ruins.

As fases boas era quando ela não tinha dores de cabeça, crises de ausência, o humor era tragável e ela dava bom dia para as pessoas.

As fases ruins era quando as dores e os pesadelos se tornavam mais frequentes, ela tinha longos períodos de depressão, o humor era o pior possível e ela não dava bom dia ou, mesmo, mau dia para pessoa alguma. Ela se escondia do mundo, dentro de sua carapaça escura e sepulcral. Ela era como Perséfone, a deusa grega, que sequestrada por Hades, deus do mundo inferior, passava metade do ano lá (outono e inverno) e a outra metade no Olimpo, junto a sua mãe Deméter (primavera e verão).

Escura e lúgubre.

Brilhante, polida e diplomática.

E agora? O que ela era?

“Então você está se sentindo bem”, a pergunta saiu mais insegura do que deveria.

A loira suspirou.

“Sant, você está realmente estranha…”, murmurou e observou a face da morena latina. Aliás, por que Santana parecia diferente? Mais… Madura?

“Por que você parece mais…”, que palavra usaria para ser diplomática sem ferir os brios reluzentes de orgulho de Santana Lopez sobre sua beleza latina? Não sabia…

“Mais?”, a curiosidade era um bichinho de tirar o juízo, pensou Santana.

“Mais…”. Certo, pensou Quinn, achando as coisas meio estranhas.

“Quinn…”, a latina estava que não se aguentava diante dessa persona que lhe causava um mix de emoções que iam da vontade de estar perto e zelar até nocauteá-la com um soco no nariz perfeitinho.

Quinn perguntaria. Até porque a latina parecia por demais curiosa:

“Mais madura?”.

Mais madura? Santana não acreditou nos próprios ouvidos. Em que ano aquela loira desmiolada achava que elas estavam? Elas todas já tinham trinta anos!

“E estou”, avisou.

“Sant, por favor…”, Rachel implorou. E isso atraiu todas as atenções para a sua figura.

“Na verdade…”, Quinn olhou a face das três mulheres e avaliou, “vocês parecem um pouco melhores. Os cabelos, a maquiagem…”.

“E o quê? Vai nos fotografar agora?”, a latina se sentia confusa e aborrecida. Ao mesmo tempo em que ela queria se sentir alegre pela “personalidade alternativa” de Quinn, ela queria – literalmente – dar-lhe uns tapas bem-dados para que ela não fizesse nenhuma bobagem como tentar se matar.

E aí estava o nó da situação.

E por isso, a vontade de socar Quinn era sempre maior que a de abraçar: esta boa persona de agora desapareceria e, talvez, não aparecesse nunca mais. Então, de que adiantava se comover? Era só ilusão… Uma forma da mente dela se proteger. Aquela ali era só uma projeção de uma Quinn morta.

“Isso é…”, riu da estupidez do momento, “insano!”.

“Sant”, a voz de Brittany a atraiu. A loira lhe abriu os braços e ela meneou a cabeça, aborrecida, ergueu-se e se embrenhou nos braços da esposa, que lhe disse que tudo ficaria bem. Mas só para ela ouvir.

No lo sé, Britt…”, murmurou.

Quinn olhou para Rachel e indagou, no ouvido dela:

“Santana está assim por causa dessa dorzinha de cabeça?”.

Rachel piscou, retirando a atenção da latina e Britt e colocando-a na esposa.

“Desculpa…”, murmurou com ternura, “eu me distraí…”.

Quinn sorriu e a beijou na testa.

Rachel agradeceu o fato de Santana estar de costas para ela e Quinn. Essa cena seria estranha…

Britt, que estava de frente, achou estranho Quinn mudar tão rápido. Mas gostou, embora a atitude de Santana lhe apontasse que tal coisa não era, realmente, boa.

Isso era triste!

Gostava mais desta Quinn antiga do que da “nova”. Esta brincava e se divertia. Ria de coisas bobas e chorava por outras pequenas, mas que lhe comoviam. A Quinn que ela se tornou, depois das coisas ruins que fez a si mesma, apenas debochava e desconfiava. De tudo. Até de si mesma…

“Eu perguntei se a Sant está assim por causa da dor de cabeça”, a fotógrafa explicou.

A judia quase meneou a cabeça para dizer que não. Porém, não o fez. Para que mentir mais? O que de pior mesmo poderia acontecer agora? Oh! Uma outra personalidade aparecer… Não achou que poderia impedir isso. Não sabia como funcionava bem, a nível técnico, essa coisa de outra “personalidade”, porém sabia que existia e estava acontecendo.

Só esperava não precisarem conviver com isso pelo resto de suas vidas…

Santana se afastou da esposa e se virou para a diva. Deu um profundo suspiro e avisou:

“Preciso de sua assinatura em alguns papéis. Podemos ir até o seu estúdio, por favor?”.

A cantora sabia que não havia papel algum para assinar. Era apenas Santana, confusa e tentando disfarçar, desejando tirar dúvidas que, certamente, rondavam-lhe a cabeça como as suas faziam, quase incessantemente, até cansar a massa cinzenta e você ter a impressão de que está preso num pequeno quarto, minúsculo quarto, quadrado, sem portas e janelas.

Asfixiava.

“Quinn? Você ficará bem?”, indagou e a loira, sem entender o que estava acontecendo, respondeu com outra pergunta:

“Por que você precisa assinar documentos? Santana não cuida de contratos…”.

“Eu sei, Quinnie. É só alguma coisa que não deu para o Kurt trazer e a Sant fez esse favor”, mentiu com amor.

Mas mentiu… E se odiou. Estava agindo tal qual os demais… E havia pensado, há pouco, que isso não deveria acontecer de sua parte em relação à esposa. Entretanto, como dizer a verdade? Nem ela, Rachel, sabia ao certo o que estava a acontecer!

“Algum contrato novo?”, desejava entender.

A latina perdeu a paciência e, tomando a cantora pela mão, puxou-a e avisou:

Dios, ¡Fabray! Te la voy a devolver. No me gusta. Soy enamorada de Britt y tú lo sabes”, informou.

“Sant”, Britt afagou as costas da esposa, que estancou e, mais comedida, dirigiu-se a Quinn, que não despregava os olhos da cena:

“Eu não sequestrarei a sua namorada, Quinnie. Ela só precisa firmar uns papéis”.

“Ok…”, a loira assentiu, porém…

“E por que ela não pode assiná-los aqui?”.

Santana contou. Ela não estabeleceu uma meta, do tipo contar de cem até um ou de um até cem. Ela apenas começou a contar. De um a cem pareceu-lhe pouco. E também lhe pareceu muito miserável contar de um até duzentos ou trezentos. Assim, apenas decidiu contar…

“O que foi?”, Quinn franziu o cenho diante do olhar frustrado da latina.

Quédate aquí!”, ordenou para a ex-fotógrafa e pediu, doce (uma mudança misteriosa) para Britt, “você pode fazer companhia para a Quinn? Assim ela não ficará sozinha. E observe se a dor de cabeça dela está cedendo”.

“Eu já volto”, a judia falou, com afeto, para a loira de olhos verdes.

Quinn não entendeu. Mas assentiu.

Assim que a as duas morenas desapareceram sob os olhares das loiras, Britt sentou ao lado de Quinn e a fitou com explícita curiosidade.

Quinn achou estranho.

“Britt, está tudo bem?”.

“Está!”, sorriu, feliz por saber que Quinn – pelo menos agora – importava-se com ela. “E com você?”, devolveu a pergunta, com um pouco de preocupação.

A fotógrafa ainda se sentia estranha. E mais ainda com Britt tão… Mudada?

“O que há de errado?”, respondeu com dúvida. “Por que a Santana levou a Rachel? Algum contrato que deu errado? Eu estou meio perdida aqui, Britt. Se você puder me ajudar, eu ficarei feliz”, informou, tentando se encontrar em meio aos fatos.

“Fique tranquila, Quinn. Está tudo bem. Acho que a Sant só quer falar com a Rach sobre você”.

“Sobre mim?…”, ela ficou mais confusa. “Britt, eu não estou entendendo. Você pode, por favor, me ajudar?”, pediu outra vez, sem querer parecer insistente.

“Posso!”, sorriu.

“Certo…”, Quinn assentiu, “o que há de errado?”, o tom da voz saiu desconfiado.

Brittany não conteve um pequeno sorriso. Quinn não mudaria nunca nesse aspecto! Essa característica de querer saber o que acontecia ao seu redor a fim de tentar controlar a situação não desaparecia nem quando ela ficava diferente. Quinnie não se deu conta, ainda, de que não era capaz de controlar coisa alguma?, indagou-se a esposa de Santana, atrapalhada com tal questão.

“Britt…”.

“Não sei, Quinnie”, respondeu sincera, pegando, cuidadosa, a mão da advogada, que agora não se parecia em nada com a mulher fria com quem aprendeu a conviver sem embates, ao contrário de Sant.

Sentiu a mão da loira como há muito não o fazia.

Quinn não gostava muito de ser tocada. Não esta Quinn. A outra. Enfim, era confuso, Britt sabia, entretanto, não conseguia se conter.

Seu sorriso se alargou quando se deu conta de que não foi rechaçada pela sua ex capitã do time das Cheerleaders do William McKinley. Não que Quinn fosse aborrecida com ela. Não… Ela nunca foi. E também não sabia a razão. E não pensava nela tão pouco. Bastava-lhe poder abraçá-la vez ou outra para sentir que, apesar de tudo, da falta de memória e da presença da dor, a sua para sempre capitã ainda respirava e estava entre os vivos.

Se ao menos Santana enxergasse as coisas dessa maneira, não seria tão defensiva em relação à Quinnie…

“Como você está, Q?”, questionou com doçura, segurando a mão da loira entre as suas, como se esse ato lhe aquecesse o coração e amenizasse a sua saudade desta pessoa que lhe era tão sociável e gentil.

Quinn riu, confusa.

“Britt, você fala como se não nos víssemos há muito tempo! E, se a pergunta for sobre a dor de cabeça, ela amenizou bastante”.

“Não”, suspirou, com olhos azuis cintilando de uma felicidade que lhe estremecia por dentro de uma certa coisa que costumavam chamar emoção. Era como se sentia. Completa e totalmente emocionada. Entretanto, a emoção de Britt era toda diferente. Ela não chorava, porque seu coração não se entristecia com as questões existencialistas e as dúvidas que começavam sempre com “E se?”: “E se a Rachel não traísse a Quinn?”; “E se Quinn não tivesse flagrado Rachel com Jesse?”; “E se Quinn não tivesse tentado se matar?”; “E se Quinn não tivesse perdido a memória?”; “E se Quinn fosse capaz de amar, ela amaria Rachel outra vez?”. Não! De nenhuma maneira! Eram muitas perguntas para as quais não havia uma resposta. As coisas eram o que eram! Quinn não se lembrava! Por que tentar forçá-la? Por que fazê-la sofrer mais? Por que não amá-la, ainda que ela não lhe reconhecesse mais como uma de suas melhores amigas, sem esperar coisa alguma de volta?

“Eu só desejo ficar um pouco pertinho de você, Quinnie”, mirou os olhos âmbar da ex capitã e achou-os mornos…

“Eu senti falta desse seu olhar”, sussurrou, displicente e jorrando sinceridade. Como as crianças, que pela pureza da idade, falam a verdade.

Quinn, definitivamente, não entendeu…

“Britt…”.

E, antes de deixar a fotógrafa falar, indagou:

“Você me responde uma pergunta?”.

Quinn não entendeu que tipo de curiosidade a namorada de Santana poderia ter. Principalmente se fosse sobre ela. Elas se conheciam tão bem! Entretanto, como não entendia mesmo muito o que se passava no momento, assentiu:

“Respondo”.

Brittany sorriu como se houvesse ganhando um sorvete!

“Como é?”, perguntou.

Os olhos verdes não entenderam a questão…

“Como é o quê?”, Quinn perguntou, aturdida.

“Dormir por tanto tempo”, a loira explicou.

Quinn meneou a cabeça. Do que Britt estava falando?

“Eu não dormi…”.

Não conseguiu terminar de falar. A dor foi intensa e “click”.

Tela em branco.

Eu recebi uma mensagem completa,

E não sei para onde estamos indo

Eu envolvo os meus braços sobre os seus ombros descobertos

Eu me abrigo para a noite

Eu vejo você na chuva da manhã

Oh, entre e se deite perto de mim

A ternura pode lhe fazer fechar os seus olhos e me cegar?

Oh, me dê apenas um sorriso…

Antes que eu desapareça no azul prateado”.

— Roxette em Silver Blue

“Quinnie?”, Brittany chamou, quando percebeu a expressão da amiga se fechar em demonstração de dor.

Quinn segurou a cabeça entre as mãos e respirou fundo, enquanto a dor ia, pouco a pouco, latejando menos conforme as batidas de seu coração amenizavam.

Olhou ao redor, enquanto tinha a estranha situação de que retornava ao próprio corpo, e tentava entender onde estava. E o que havia acontecido?

“Quinnie…”.

O tom preocupado da voz a fez girar a cabeça e mirar Britt.

“Estou sonhando?”, murmurou, ainda deslocada, sem noção do que era real ou onírico.

Brittany foi atenciosa:

“Não. Você está acordada… Eu sou real e você também”.

“Tem certeza?”, esticou a mão devagar até que, com a ponta do indicador, tocou-lhe a bochecha e retirou a mão rapidamente. Porém, ainda poderia não ser real.

“Eu sou a Britt”, a esposa de Santana continuou, calma, “e estamos na sala do apartamento da Rachel”.

Quinn respirou fundo e soltou o ar. Recostou-se preguiçosamente no espaldar do confortável sofá e reconheceu o ambiente.

“Quinnie?”, a bailarina a chamou, preocupada.

Voltou os olhos, agora realmente verdes, para a outra loira e murmurou, aborrecida:

“Odeio esse apelido…”. Voltou a passear os olhos ao redor da sala.

A fala de Britt apenas comprovou o que já se dera conta:

“Estamos na casa da Rach”.

Assentiu e voltou a olhar ao redor.

Onde estava Rachel?

Mais: onde estava Santana?

Quando as duas saíram? Por que não viu?

Por que estava sentada ao lado de Britt? Ela estava conversando com Santana quando… Quando acordou agora, sentada no sofá, ao lado de Britt…

Isso lhe cheirava mal…

Voltou os olhos para Brittany.

“Onde elas estão?”.

“A Rach e a Sant? Elas foram para o estúdio para…”, deveria dizer a esta Quinn que elas foram até lá para falarem da outra Quinn?, questionou-se. Essa era uma pergunta difícil…

“Para?”, a voz da advogada soou, querendo que ela terminasse a frase com lógica. “Britt”, insistiu, em tom agastado.

A loira de olhos azuis suspirou e apenas foi capaz de ser evasiva:

“Elas foram conversar no estúdio… Sant quer entender o que está acontecendo”.

“Obrigada, Britt”, agradeceu, mais por gentileza que satisfação (a bailarina lhe respondeu nada com outro nada) e se ergueu devagar. Voltou a se sentir deslocada. Era como se ela e ela mesma caminhassem lado a lado. Era estranho e sem sentido. E assustador, acima de tudo. Deu um passo e estancou. Sentiu que escaparia outra vez. Retrocedeu e se sentou, novamente, ao lado da bailarina e respirou fundo, antes de falar, aborrecida pelo fato:

“Poderia chamar a Rachel para mim, Britt?”, pediu.

A loira achou curioso como a sua ex-capitã se foi e deu vez para a advogada que arrancou o coração do peito, trancou-o numa caixa e o jogou dentro do Ártico, onde jazia nas profundezas, congelado. Ou meio congelado, dada as circunstâncias atuais…

“Você não se lembra?”, averiguou a loira. Sabia o que Santana pensava sobre ela se intrometer nos “assuntos de Quinn”, porém era tão ruim vê-la, ainda, assim, tão desgarrada e solitária! Tão fria e aborrecida! Tão nublada e sem brilho. Pálida luz que apenas podia se manter.

O tom cuidadoso da pergunta não passou em branco para a advogada.

“Lembrar?”, suspirou. E riu-se, sem o menor humor. Do que se esqueceu? Por que, dada a pergunta e o tom de Brittany, certamente fez alguma coisa e esqueceu. E foi há pouco!

Ela lhe contaria? Por que Rachel não o fez. E muito menos Holmes (que, supôs, deveria lhe ser fiel, mas não era). E Santana também não contaria. E sabia de cor a desculpa para que ocultassem, ainda, o fato: a Parker, certamente, ainda estava baratinada com o que estava acontecendo. Ou já estaria sentada diante dela, sendo escrutinada e sabatinada com perguntas aborrecidas. Isso significava que o caso era grave. Ou sério a ponto de ser trabalhoso. Bom! Já havia muita porcaria mesmo em sua vida que uma a mais ou a menos realmente faria muita diferença? Duvidava…

“Britt…”, chamou a outra loira, que havia se distraído com o sutil movimento de Maria que passou para a cozinha e, alguns minutos depois, saiu com uma mamadeira cheia nas mãos.

“Britt”, insistiu, estalando os dedos da mão direita perto do ouvido da loira, que a fitou com atordoamento.

Quinn sabia o quanto isso era desagradável! Alguém estalando os dedos perto dos seus ouvidos quando o que você mais quer é ficar em silêncio, contemplando o nada. Odiava quando faziam isso!

“Doeu? Eu não quis que doesse”. Realmente não queria. Não gostava de estar perto de Santana ou Britt, porém não significava que não reconhecia quando algo que doía fisicamente era desagradável. A dor era desagradável!

“Não… Eu só fiquei surpresa”, a bailarina confessou com um sorriso sincero.

“Certo…”, ela foi cuidadosa, “você sabe, Britt, que após o acidente…”.

“Você tentou se matar”, a bailarina murmurou. Até hoje, não compreendeu por que Quinn fez isso a si mesma. “E eu não entendo”, confessou, desviando os olhos azuis para as próprias mãos, que já não seguravam mais as de Quinn.

Bom, a advogada lamentava. Ela também não entendia a razão…

“Às vezes eu ainda me zango com a Rach…”, confessou a esposa de Santana, causando curiosidade em Quinn. Por que Britt se zangava com Rachel?

“Se ela não lhe magoasse, ainda estaria aqui…”, pensou alto.

A loira de olhos verdes achou o comentário absurdo.

“Eu estou aqui, Britt”, informou, num tom de “isso não é óbvio?”.

Os olhos azuis a miraram com afeto, acompanhados de um doce sorriso que transbordava pureza:

“Eu sei, Q. Mas é que você fica longe por muito tempo… Então, eu não sinto mais como se lhe conhecesse realmente”.

A advogada não levou em consideração o comentário de Britt. Era complicado. Mal se lembrava dela, na verdade. Apesar de ela ser muito compreensiva. Tão compreensiva que, apesar de todo o seu distanciamento em relação as pessoas que um dia fizeram parte de sua vida e hoje eram borrões de um passado mal ajambrado e fortuito, não conseguia tratá-la com indiferença que tratava aos outros. E nem aborrecê-la. Na verdade, desconfiava que era impossível aborrecer Brittany. Ela demorava para entender a provocação. E, se entendia, fingia que não. Ela não gostava de magoar as pessoas. E mesmo Quinn, que não era cuidadosa no trato, tentava não ser tão fria com ela.

Com cuidado, voltou à sua “pesquisa de campo”. Talvez a loira pudesse lhe dar as respostas que Rachel e Holmes lhe ocultavam…

“Britt, ouça-me, eu preciso que me ajude numa coisa”, jogou para ver se a esposa de Sant morderia a isca.

A ex cheerio prendeu a atenção nela.

Quinn apreciou muito isso.

“Você sabe sobre o que eu fiz… Sobre a Quinn… Eu tentar me matar”, falou com estudada tranquilidade, “você falou que não entende a razão dela… Eu ter feito isso. Eu também não entendo”, falou.

“Porque você perdeu a memória”, explicou a loira.

Quinn riu-se. Brittany era portadora de notícias há muito passadas!

“Por isso”, a advogada aproveitou a deixa que a bailarina lhe deu, “eu não me lembro do que aconteceu há pouco, antes de Rachel desaparecer com Santana. Pode me contar, por favor?”.

O tom de Quinn era doce e por demais agradável para que se negasse qualquer coisa para ela. Mas, havia, agora, um porém que a esposa de Santana não deixou passar: se Quinn ignorava o que lhe aconteceu e – soube por Rachel – não era a primeira vez, e pessoa alguma contou-lhe a verdade, era porque havia algo a ser feito antes disso. Talvez, como escutou uma vez Judy falar, precisassem preparar Quinn psicologicamente. Mas não era versada nestes assuntos de mente e memória, de maneira que – para não cometer um erro e danar ainda mais a situação – encolheu-se de ombros e suspirou em desalento, lamentando-se com a ex capitã das cheerleaders que não saberia explicar o que aconteceu.

“Eu tive uma crise de ausência?”, indagou, desconfiada desde já da resposta que receberia de Britt.

A bailarina, por sua vez, mirou-a com expressão pensativa. E analisou de sua maneira peculiar a questão da loira. E pensou que, de alguma maneira, Quinn realmente havia se ausentado, para que a outra Quinn aparecesse. Então, respondeu do modo mais sincero que poderia:

“Sim. Você apenas se foi”, confirmou.

Entrementes, por mais que Quinn percebesse a verdade nas palavras de Brittany, ainda desconfiava. Afinal, como esquecer aquela voz que lhe atormentou mais cedo e lhe vinha atordoando? Isso não era para se ignorar, embora omitisse de Holmes e Rachel (ela não tinha mesmo que saber) que estava a escutar sua própria voz.

Não era tonta! Havia algo de errado. E descobriria.

“Obrigada, Britt”, sorriu polida e se incorporou, erguendo-se do sofá e torcendo para conseguir se manter de pé.

Conseguiu.

Agora, só precisava ir atrás de Rachel e retirá-la das teias de Santana Lopez. E isso, pensou, seria, sim, divertido.

“Já volto, Britt”, avisou, colocando-se a caminhar, meio trocando as pernas, porém parecendo charmosa e engraçada aos olhos de Brittany.

§§

Oye”, Santana iniciou, após cerrar a posta do estúdio e largar a mão da judia, “¿Qué mierda se lo está pasando con la Reyna del Hielo?”, perguntou sem rodeios.

Rachel suspirou.

O que diria? Mentiria? Inventaria uma explicação tosca? Não! Não conseguiria…

“Eu acho que alguma parte adormecida de Quinn está despertando vez ou outra… Uma parte do passado… Como se fosse…”.

Pero no lo és”, cortou, seca. E não deu tempo para a cantora retomar a palavra:

“É só ilusão, Berry! Ella nos es de verdad… Está muerta! Lo comprendes? Aquella mujer es solamente una sombra de Quinn. No te olvides”, falou, agora mais preocupada.

A judia se atarantou com a inquietação da latina, que andava para lá e para cá no ambiente, claramente mais arreliada do que tentava parecer.

“Sant…”, chamou-a, naquele tom tão próprio que lhe caracterizava a teimosia e sua maneira de ser quem era: Rachel Berry, Estrela Mor da Broadway.

A advogada morena estancou diante dela e, após passar a mão pelos cabelos e franzir o cenho em preocupação, questionou:

“Sabe que o que aconteceu há pouco foi sério?”.

Oh! Rachel já desconfiava disso.

A Lopez continuou, tentando se manter lúcida e controlada:

“Não caia na ilusão que a mente dela está causando”, informou, “eu quase tenho certeza que o nome disso é Transtorno Dissociativo de Personalidade”, explicitou, desejando estar errada.

“Não”, a cantora não concordou, “é só a Quinn! Um pouco atrás no tempo, mas é a Quinn”.

“Rachel…”.

A judia não deixou que ela continuasse:

“Ela não assume outra personalidade! Ela não se torna outra pessoa! Ela continua sendo a mesma Quinn. Apenas não se lembra do que eu fiz e age como se vivêssemos, ainda, como namoradas”.

“Berry, a mente dela pode fazer o inexplicável para protegê-la. E é o que está fazendo. Por mais que a outra ‘personalidade’ ainda se chame Quinn Fabray, por favor, enxergue: é só um escape da mente dela, um distanciamento de você, um distanciamento do que pode causar dor e sofrimento para ela. E isso não vai cessar se não sair de perto dela”, informou.

Rachel sorriu amargurada.

Se Santana soubesse que não seria tão simples! Havia um contrato de casamento que assinou, ainda que sob circunstâncias nada agradáveis. E, ainda que Holmes lhe garantisse que a patroa não poderia acusá-la de ser partícipe no assassinato de Jesse, não conseguia deixá-la. E pensar – embora desconfiasse já – que deveria se afastar de Quinn lhe fazia se sentir mais miserável. Não poderia abandonar Quinn! Deveria haver alguma solução para o que estava acontecendo! Uma solução que fizesse com que elas pudessem reconstruir suas vidas.

“Rachel”, a latina a fez mirá-la, “eu não quero que vocês se magoem mais. Eu não quero que você se magoe. Quinn nunca mais será como antes”, falou, num tom de tristeza que quase fez Rachel se desequilibrar em sua fortaleza cuja base de sustentação era um castelo de cartas. Uma brisa caprichosa poderia colocar tudo a perder… E pedia, internamente, que a mulher a sua frente, um verdadeiro vendaval, não se fizesse essa brisa.

“Sant, você acha mesmo que, se eu me mudasse para o outro lado do mundo, ela deixaria de ter essas ‘crises’? Eu não acho, de verdade. Eu tenho consciência de que posso ser o que está fazendo com que isso venha à tona, mas o trauma já existe! Está trancafiado dentro dela há muitos anos! Eu posso desaparecer, entretanto, ainda creio que ela poderá, mesmo com a minha ausência, ter esses episódios”.

Sí… Es possible”, analisou a latina, “pero… Se você ficasse longe dela como eu pedi, Kurt pediu e todos os demais ajuizados nessa história, talvez a Quinn não tivesse que passar por mais esta situação. Você faz ideia do que pode acontecer, Berry? Já pensou no quão embaraçoso pode ser para ela estar num julgamento e a Quinn versão alternativa resolver aparecer? E se ela estiver com Judy ou Russel e isso acontecer? Pior: e se ela estiver sozinha e isso acontecer?”.

“Ela nunca está sozinha”, tentou contra-argumentar, “Holmes sempre está por perto”.

“Holmes? Rachel! Diga-me: o que sabe sobre o que essa persona que se apresenta como a sua namorada de há anos? O que acha que essa personalidade de Quinn poderá fazer? Eu não sei. E, de verdade, tenho medo de, sequer, imaginar”, confessou.

A judia pareceu desconsolada. Mas não a ponto de retroceder. Isso não!

“Sant, eu amo a Quinn”, repetiu o de sempre.

“Então fique longe dela! Por que essa aproximação entre vocês não trará bons frutos! E você já está percebendo isso!”, foi realista e quase cruel. Mas precisava ser assim! Precisava colocar um pouco de juízo na cabeça dura da Berry. E, ainda que a contragosto, proteger o que restou de Quinn…

“E se fosse a Britt? O que você faria, Santana?”.

A pergunta, simples em elaboração e de aparente fácil resposta, calou a latina. Até então, ela não se colocou no lugar de Rachel. Bom, e nem poderia…

“Eu nunca traí o meu amor por ela”.

“Nunca? E quando namorou quase todos os rapazes do colégio a fim de mantê-la afastada de você para não revelar sua sexualidade? Acha que não a magoou? Acredita que não a traiu? A sua sorte, Lopez, é que Britt sempre foi melhor e mais forte que todas nós juntas. Ela suportou o seu desprezo e seguiu adiante”.

“O que a Quinn não conseguiu fazer”, espetou a latina. “E, além do mais, eu sempre disse a Britt o por quê de não conseguir estar com ela naquela época. Mas, quando nos acertamos, eu nunca duvidei do que sentia e sinto por ela. Eu não duvidei de que ela sempre foi a pessoa certa para mim”, despejou.

A cantora meneou a cabeça. Segurou o pranto que queria escapulir junto com um agudo grito de frustração, porque, por um mau passo, seria para sempre julgada! E, aparentemente, nunca mais teria Quinn. E essa ideia lhe parecia inconcebível!

“Eu não vou desistir”, informou.

Santana estreitou os olhos e foi direto na alma:

Ah, ¿no? E se a Dra. Parker achar que você deve sair da vida de Quinn? Acredita que poderá ir contra Judy Fabray ou Frannie? Elas não têm mais a mesma simpatia com a qual um dia lhe agraciaram”.

“Elas não controlam as vontades da Quinn”, insistiu.

“Não… Elas não o fazem. Elas nem ao menos a suportam. E, creia-me, Berry, suportam ainda menos você. Justamente porque Judith Fabray, ainda que pessoa alguma tenha lhe falado a respeito, sabe que foi por sua causa que a filha dela tentou se matar. E quase conseguiu! Ou, dependendo do ponto de vista, talvez Quinn tenha morrido. Como morreu para mim e para o Kurt. Como morreu para o Puck, o Blaine e para a minha Britt. Então, faça como fez com o Jesse: deixe-a descansar em paz”.

Rachel sentiu o sangue subir. E cuspiu:

“Quinn não está morta! Por mais que você não suporte a ideia! Por mais que não goste do que ela se tornou, ela está viva! A sua frustração é que não consegue lidar com ela deste jeito. E acha que ninguém mais conseguirá. Talvez esteja errada, Santana!”.

“Berry…”, a latina tentou continuar. Pero, ela estava discutindo com Rachel Barbra Berry, a mulher que não falava. Ela simplesmente tinha uma verborragia crônica que fazia com que as palavras fossem vomitadas em argumentos e contra-argumentos até terminar suas ideias sem ser interrompida.

Bufou e escutou:

“Eu não quero fazer a Quinn sofrer! Nunca mais! Eu só quero poder ajudá-la! Eu só quero saber que pode haver alguma maneira de ela, pelo menos, voltar a ser um pouquinho como foi antes do que eu fiz e que a magoou tanto! Porque eu simplesmente não consigo, não posso e não quero me afastar dela! Eu a amo! Ainda que ela não acredite e nem você!”.

Silêncio.

A respiração de Rachel era agitada.

Santana ainda esperava. Ela achou que a judia teria mais alguma coisa para dizer. E esperou mais.

Esperou.

Porém, não aconteceu.

Respirou fundo. Buscou controle e falou, a voz num tom profundo:

“Eu sei que ela não morreu, Rach. E eu também sei que não consigo lidar com a pessoa que ela se tornou. Eu sei de tudo isso! Mas precisamos ter os pés no chão: Quinn ficou curiosa porque você foi atrás dela…”.

“Ela lembrou que eu a traí”, informou, meio que em desespero.

“Eu sei! E, para ela, isso não faz diferença, Rach! Esta é a questão que eu quero que você entenda! Quinn não liga os fatos que aconteceram a ela com ela mesma! Ela diz que é como se as lembranças fossem de outra pessoa, e não dela! O que acha que ela pode querer com você, se ela não é capaz de ter ligação afetiva com o que aconteceu no passado dela? As poucas recordações são como a água para ela: incolor, insípida e sem cheiro”.

“Mas ninguém vive sem água”, comentou.

E foi desnecessário. Foi tolo!

“Rachel, por Dios! Você pode fazer melhor que isso. E eu sei que entendeu o que eu quis dizer”, a advogada achou por bem reforçar. “Eu não quero o seu mal, Rachel. Mas que futuro acha que poderá ter com a Quinn?”, quis saber. Para a latina, não fazia sentido a insistência de alguém que estava ciente de que a outra não era capaz de se apegar. No caso, Rachel e Quinn…

E antes que a cantora pudesse falar, ela a cortou:

“E não fale, outra vez, que tem esperança de que ela volte a ser como antes! Ela não voltará”.

“Você não pode afirmar isso, Sant”, observou.

A latina passou a mão pela fronte, claramente desgastada por aquela discussão e pela teimosia de Rachel.

“Sabe, Berry, eu acho que posso afirmar isso sim”, a voz saiu sem gentilezas ou cuidado, “após conviver com a Quinn, esta Quinn que você insiste que pode voltar a amar, eu percebi que não. Eu percebi que para ela não importa o que aconteceu. E que, para se proteger, ela magoa e afasta as pessoas. Ela é fria porque a mente dela achou que, dessa maneira, ela nunca mais sofreria ou sentiria dor. E eu digo dor emocional. Porque a dor física, reflexo brando – embora pareça violento – da dor emocional, ela ameniza com remédios e tranquilizantes. Mas a dor verdadeira… Ela até conseguiu lidar bem durante um tempo. Ficou grávida aos dezesseis, foi expulsa de casa, deu a filha em adoção para a Shelby, rebelou-se e pintou o cabelo de rosa e você foi uma das que a fez entrar em juízo e, depois, ela ficou em cadeira de rodas após o acidente que lhe impediu de se casar e ser a viúva do Hudson e, quando ela, finalmente, pareceu se equilibrar de fato, você cagou tudo. Acho que com assuntos assim, de amor e traição, embora ela não fosse um exemplo no colegial, nunca soube lidar. Então, esquecer, mesmo que com isso ela tenha que ter dores homéricas de cabeça, ainda é menos doloroso que sofrer por amor… Ou, no caso dela, desamor”.

Se Rachel fosse esfaqueada, talvez a dor fosse menor. Isto porque a palavra tem o poder de ser bendita ou maldita. Tem o poder de erguer e abater. Tem o poder de honrar e desonrar. Tem o poder de fazer sorrir ou chorar…

E Rachel sentiu que talvez já não pudesse mais conter suas lágrimas. Por tudo! Pela pressão dos últimos dias, a amargura de ter perdido Jesse – seu único amigo – sem aviso prévio (aliás, adianta aviso prévio para lidar com a morte? Não… Sempre vai doer e, de uma forma ou de outra, parecer injusta), pela frustração de sua situação com Quinn, em que, apesar de parecer que tinha todas as oportunidades estando ao redor dela de reconquistá-la, descobria, um dia depois do outro, que a sua insistência só não seria solitária por dois motivos: a própria Quinn Fabray e Holmes, que acreditava que ela poderia, sim, fazer algum bem para a Rainha de Gelo.

Suspirou.

“Rachel”, Santana a mirou com menos dureza, “eu sei que eu sou dura quando o assunto é a Quinn, mas pense comigo: acha que ela vai se manter curiosa sobre você por quanto tempo?”.

Rachel ia responder, mas a voz cortante de Quinn fez isso por ela:

“Pelo tempo que eu quiser, Lopez! E acho que eu e a Srta. Berry teremos uma amizade bem estreita. Eu tenho muitas perguntas para ela. Muitas dúvidas a tirar”, sorriu e estacionou ao lado da judia.

Santana franziu o cenho.

Onde estava Britt? Aliás, onde estava a outra Quinn?

Balançou a cabeça. Perguntas estúpidas não deveriam ser verbalizadas.

“Sant”, a Fabray a chamou, “tudo bem com você?”.

A pergunta, feita não por preocupação e, sim, mais por curiosidade, trouxe a latina de retorno ao agora.

Porsupuesto que sí…”, murmurou.

“Que bom”, soltou, “e sobre o que as duas estão discutindo?”, outra pergunta que, apesar de ela desconfiar que tinha a ver com a “ausência” que teve há pouco e o fato de se aproximar de Rachel Berry, saiu sem o tom de pertinência que, em realidade, deveria ter.

“Eu estava questionando a Berry sobre o estreitamento da amizade de vocês. Eu acho estranho, haja vista que você não é dada a esse tipo de consideração”, a latina respondeu.

A loira inclinou o rosto para o lado e observou a latina de cima a baixo e sorriu.

“Com ciúmes, Lopez?”.

Santana girou os olhos. E lá iam elas de novo…

“Fabray, sem piadinhas”.

A loira caminhou lentamente ao redor de Santana, estudando-a criteriosamente. Parou em frente a ela e mordeu o lábio inferior. Mordeu o lábio porque queria suprimir um risinhos divertido, mas o brilho de picardia nos olhos, que ela não quis ocultar, fez a latina saber que teria outro tipo de “embate” com a loira.

“Fale-me, Sant: o que aconteceu?”.

“Nós não transamos, Fabray”, informou.

Quinn riu com a resposta.

A latina estancou. E estancou porque a pergunta pegou-a de surpresa, porque ela não sabia se Quinn estava perguntando, em costumeiro deboche, se elas alguma vez haviam feito sexo ou era sobre o que aconteceu há pouco, quando a “personalidade alternativa” deu o ar da graça.

“¿A qué te refieres?”, a pergunta escorreu pelos lábios carnudos e atormentados.

Rachel estava congelada.

Sabia que as duas cheerios ainda tinham discussões agitadas provocadas pela loira. E que o pavio de Santana era “muy corto”. Assim, não sabia como deveria agir.

Quinn provocaria a latina? E, se o fizesse, Santana teria o controle necessário para não perder a cabeça?

“Quinn, a Sant só está preocupada com você”, decidiu se manifestar.

A sobrancelha direita da loira se ergueu.

“Mesmo?”, ela fez questão de derramar incredulidade pela boca.

“Mesmo”, a judia caminhou até ela e lhe parou ao lado.

“Certo…”, murmurou a loira, “então, por que não me diz, Sant, o que lhe preocupa tanto sobre mim?”, a pergunta foi feita com os olhos cravados nos escuros da outra advogada.

Ótimo! A dúvida de Santana já não existia. Quinn não estava de deboche. Estava curiosa e tentando entender o que aconteceu. Ela sempre tentava entender! O que era um problema. Porque nem sempre dava para responder, de imediato, as dúvidas dela. E tudo isso porque ninguém sabia o que poderia acontecer. Quinn era uma caixa bonita lotada de surpresas desagradáveis. E agora, havia isso! Uma outra Quinn que saía fortuita das sombras e desligava esta que agora lhe falava. Como explicar? A Fabray era inteligente! Por certo ela desconfiava. Ou deixaria passar em branco.

“Eu ainda não tenho esta resposta, porque você acabou de interromper a minha conversa com a ‘minion’”, disfarçou.

Quinn franziu o cenho.

Minion?

Olhou para Rachel, que tinha um olhar de desagrado para a latina.

Minion teria a ver com mingnon, pelo fato de Rachel não ser muito alta?

Voltou a atenção para Santana e falou, sem fé:

“Não mesmo? Vocês pareciam acaloradas. E você pareceu aborrecida pela minha aproximação com a Srta. Berry. Por quê?”.

Eis a pergunta! Clara, direta, sem adornos para parecer poética. Crua.

A latina abaixou a cabeça e suspirou. Nesse momento, por mais que odiasse a mulher a sua frente, amava-a mais e não conseguia lhe dizer palavras duras que a machucassem como ela fazia cada vez que aparecia na sua frente, com a aparência de sua amiga Quinn, mais sem o coração dela.

Que lóco!

Porém, aquela atitude de Santana, para Quinn, não era lógica diante da situação. Santana deveria estar encarando-a nos olhos agora. Deveria cuspir palavrões em Espanhol e ameaçá-la. Ela não deveria estar com a guarda baixa. Não era dessa maneira quando se enfrentavam.

Que raios estava, realmente, acontecendo?

“… estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.”

— Clarice Lispector -

CONTINUA.

Notas finais
Tentarei adiantar o 73... E sábado postá-lo (eu acho que ninguém acredita em mim agora...). Beijinhos. - Cal. *-*