Sine Cordi
69 CAPÍTulo 69 - םט
Notas iniciais
“Eu tive um sonho
Vou te contar
Eu me atirava do
Oitavo andar
E era preciso
Fechar os olhos
Pra não morrer e não me machucar”.
— Kid Abelha em Eu Tive Um Sonho—
Rachel suspirou exasperada.
Olhou para Spencer, que brincava distraído sobre a cama com alguns carrinhos que Maria enviou por Holmes na noite em que se casou com a loira.
Era final de tarde e desde que se fechou no quarto, pela manhã, Quinn não voltou a aparecer. A incerteza sobre o que aconteceria entre elas fazia o estômago apertar. A ansiedade era uma companhia malvada. E era assim que se sentia: desesperadamente ansiosa! E, também, preocupada. A confusão nos olhos da loira quando ela pareceu se lembrar de quando Jacob Ben Israel publicou no jornal da escola que estava grávida foi chocante.
“A música…”, murmurou. “A música a fez se lembrar. E esta foi significativa para ela. Quais outras a marcaram?”, inquiriu-se, pensando se usar o artifício de cantarolar algumas dessas músicas poderia despertar a memória adormecida de Quinn.
Entretanto, até onde poderia isso ser saudável para a loira? E, claro, para ela também. Estava enrascada com Quinn, por mais estranha que fosse a maneira. Se algo acontecesse à ex-namorada, ela seria atingida também. E, depois, não queria feri-la mais do que feriu e, parecia, ainda feria com cada crise de dor de cabeça que a atingia ou um pesadelo como o da noite passada.
“Estou me sentindo na corda bamba…”, murmurou pensativa.
Voltou a mirar o filho, em seu próprio mundo perfeito. Ele perguntou, neste dia, três vezes pelo pai. E era difícil dizer que Jesse estava em outro lugar. Para sua sorte, Spencer não perguntava quando o pai voltaria. Dizer nunca para o filho seria muito difícil. O tempo se responsabilizaria por isso. Diferente do que os últimos acontecimentos lhe diziam sobre Quinn. Ela, parecia, nunca voltaria! E precisava ser consciente disso; aceitá-la como era agora… Palavras de Holmes. Estaria o homem certo? Bom. Alex estava com Quinn porque não a conheceu antes do acidente, assim ela automaticamente aceitou a Quinn como era agora. Uma Quinn que, apesar de diferente, ainda era a Quinn. Louco? Talvez. Ou não.
O nome da psiquiatra da ex-namorada lhe veio à mente. Era com ela que precisava conversar. Ela poderia ser um caminho para lidar com a esposa sem qualquer dano colateral. Também precisava ter notícias de Quinn! E precisava que alguém olhasse Spencer por alguns momentos para que pudesse sair e saber da ex-namorada.
“Agatha…”, murmurou o nome da empregada de Quinn e ajudante de Holmes. Talvez ela pudesse olhar o menino enquanto buscava a loira. Estava preocupada com ela! E, além do mais, precisava saber o que Quinn queria de fato! Como aquele casamento funcionaria? Estava às escuras! Porque, parecia-lhe, nada do que a loira leu no contrato parecia valer até o momento.
Após conseguir que a empregada da advogada assentisse em cuidar de Spencer por alguns poucos minutos e saber que a “esposa” estava fechada no próprio quarto, foi a procura dela.
Respirou fundo a fim de apaziguar as batidas do coração. Respirou fundo a fim de que os nervos se acalmassem e o tremor que sentia amainasse. Respirou fundo, desejando profundamente encontrar a loira com o humor tolerável.
Parou em frente a porta da suíte dela e fechou a mão. Ergueu-a para se fazer anunciar. Porém, a mão se negou a fazer o que imaginou ser capaz.
“Rachel, é só a Quinn. E talvez ela não esteja bem e precise de você… E, além do mais, você não pode, a essa altura da vida e do campeonato, apenas temê-la. Se for para ter medo dela, então procure uma maneira de escapar e ir embora. Bata na porta”, falou para si mesma.
Toc, toc, toc.
Quinn sorriu. Por que Rachel ainda batia à porta? Ela sabia que poderia entrar a hora que quisesse. Virou-se na cama e a mirou. Estava linda, num vestido de verão esvoaçante azul bebê acima dos joelhos, com detalhes nas mangas curtas e barra da saia num tom mais escuro.
“Uau! Para onde você vai assim?”. Rachel estava deslumbrante!
“Assim?”, sorriu.
Quinn sorriu sonolenta. Rachel parecia tão insegura às vezes…
“É. Assim”, mirou-a de alto a baixo.
A judia meneou a cabeça. “Eu só precisava lhe ver”, murmurou e sentou na ponta da cama. Fitou a loira com olhos curiosos e um sorriso um pouco desconfiado na face.
“O que foi, Quinnie?”.
“Eu já falei que você está linda?”, sentou na cama. Os cabelos bagunçados fizeram o sorriso da morena mudar de desconfiado para enamorado.
“Eu adoro sua cara quando acaba de acordar”, avisou e olhou diretamente para a boca da loira.
“Eu acho melhor pensar duas vezes… Eu ainda não escovei…”, a boca da morena a calou. Sentiu a língua cálida e úmida invadi-la e sentiu as borboletas revoarem dentro dela inteira. Rachel lhe agarrava pelos cabelos e a mantinha segura, enquanto a beijava com desejo. Soltou-a num empurrão, sem desviar o olhar da boca agora vermelha da loira.
“Uau! O que foi isso?”, Quinn estava ficando excitada com o comportamento da namorada.
“Isso é o que a sua cara quando acorda me causa”, confessou, doce.
A loira pareceu pensar no tema. Deu um sorrisinho e se chegou para mais perto da namorada. Falou, perto do ouvido da morena:
“Acho que preciso dormir mais vezes e você precisa, definitivamente, acordar ao meu lado sempre”.
Rachel a abraçou e suspirou em satisfação.
“Eu amo você, Quinn”.
A loira enlaçou a cintura da namorada e deitou a cabeça no ombro dela.
“Eu sei…”, murmurou antes de soltar um bocejo que não conseguiu segurar, “eu também amo você. Eu hoje te amo mais que ontem e, certamente, menos do que amarei amanhã”, confessou.
Afastou-se e mirou Rachel, que lhe afagou a face com carinho.
“Você é tão especial, Quinn”, e distribuiu beijos estalados pelo rosto da loira e pela boca também. Soltou um suspiro.
“Eu preciso ir agora”, falou e tentou se levantar.
Quinn a prendeu e a fez sentar:
“Só mais um pouco, Rach! Fique só mais um pouco…”, abraçou-a. “Eu sinto a sua falta…”, murmurou.
“Nós nos vemos todos os dias, Quinn”, atentou.
A loira a mirou e passeou a mão sobre a face dela.
“Eu sei… Mas não é o bastante! Você sabe que nunca será o bastante”, beijou a testa da morena.
Rachel a fitou:
“Será o bastante! Eu prometo”, acariciou o rosto bonito da namorada. “Eu já disse que amo você, Quinnie?”, perguntou.
A loira sorriu:
“Falou… Mas é sempre bom ouvir outra vez e outra e outra…”, sorriu.
“Eu vou amar você para sempre”, prometeu. “Mas agora, eu tenho que ir”, lamentou.
Quinn riu e a puxou de volta e a morena caiu deitada sobre a cama. A loira montou sobre o estômago da namorada, que respirava entrecortado agora.
“Quinn…”, a voz saiu rouca e insegura.
“Eu não vou atrasar você…”, afagou a face morena, correndo os olhos por ali. “Eu já disse que eu me arrependo das vezes em que eu lhe magoei? Eu já lhe pedi perdão?”, murmurou.
Rachel sentiu os olhos inundarem.
“Já! Várias vezes! Tantas que eu já parei de contar há muito tempo”, sorriu, a voz emocionada.
Quinn inclinou o corpo para frente e o cheiro do perfume e da pele dela adentraram as fossas nasais da judia.
“Deus, Quinn… Eu preciso, realmente, ir…”, falar estava difícil.
“Eu sei”, a loira sorriu e beijou a testa da namorada. Afastou um pouco o rosto e estudou-lhe a face. “Eu adoro seu rosto… Suas covinhas quando sorri… As suas sobrancelhas e os seus olhos… Você é tão linda, Rachel! A garota mais bela sobre quem eu já coloquei os meus olhos”, confessou e, antes que a judia pudesse falar qualquer coisa, beijou-a com toda a ternura do mundo.
A morena retribuiu ao beijo com toda a candura que lhe foi possível colocar naquele instante. Amava Quinn! E ela a amava! Era só o que importava!
A loira quebrou o beijo devagar e se afastou.
Saiu de cima da morena e sentou na cama, observando-a enquanto mantinha o lábio inferior preso entre os dentes.
Rachel se ergueu devagar, sem tirar os olhos dela.
“Eu acho que poderia beijar você outra vez”, confessou.
“Mas… Você não precisa mais ir?”, a loira perguntou em dúvida.
“É só um beijo”, riu da interpretação que a namorada deu as palavras que proferiu.
“Ah… Só um beijo”, levantou a mão esquerda e fechou-a, erguendo o indicador para representar o número, “um…”.
“Isso… Um beijo”, a judia confirmou e viu a namorada aproximar a face da dela e estancar a escassos centímetros. Sentiu-lhe a respiração morna e sedutora. Entreabriu os lábios e viu como os olhos verdes acompanharam esse pequeno e mui significativo gesto. Inconscientemente, Quinn a espelhou e entreabriu os próprios e encaixou-os, à perfeição, aos da namorada. Seus sabores se mesclaram. E o resultado as embriagava, enquanto o beijo se estendia além do que deveria, ficava mais faminto e exigente.
Quinn puxou Rachel para si, fazendo-a montá-la, enquanto passeava as mãos pelas costas da morena.
“Quinn…”, gemeu, “eu preciso ir…”.
A loira a mirou com os olhos nublados, a respiração agitada. Meneou a cabeça.
“Por que você sempre precisa ir?”, indagou, frustrada.
“Quinnie…”, tomou-lhe a face e a fez mirá-la. “Eu não vou muito longe. É só até ali… Você vai voltar a dormir… E quando acordar, eu já estarei de volta”, pontuou. “Você precisa descansar…”.
“Eu não fotografei hoje…”, observou. “Não estou cansada…”.
Rachel juntou suas testas.
“Eu sei… Mas fotografou ontem. E antes de ontem… E antes… Seu corpo precisa descansar”, sussurrou e deixou um beijo casto nos lábios da loira.
“Okay…”, ela deixou a morena se erguer, “quando eu acordar…”, deitou-se, “você estará aqui?”.
Rachel a ajudou com a coberta e prometeu:
“Eu estarei aqui quando você acordar”, sorriu e beijou-a na testa. “Prometa que descansará”, pediu.
“Eu prometo”, suspirou e fechou os olhos.
“Eu amo você, Rach…”, ronronou a loira, com os olhos cerrados.
“Eu também amo você, Q…”.
“Eu te amo mais…”, o murmúrio falhado, seguido pelo silêncio, mostrou-lhe que a namorada adormeceu.
“O que acha que está fazendo?”, o sussurro zangado de Holmes a fez levar a mão esquerda ao peito e afogar um grito com a direita sobre a boca.
Ele praticamente a arrastou para fora do quarto de Quinn até o escritório e fechou a porta atrás deles.
“O que aconteceu lá?”, perguntou, tão logo a soltou, espantado.
“Ela estava sonhando… Eu acho”, avisou, ainda atordoada.
“Eu percebi”, o cuidador informou, “mas, e a senhorita?”.
“Eu só quis…”, Rachel ainda estava confusa. Respirou fundo, tentando arrumar os pensamentos.
“Só quis?…”, o cuidador estava agitado.
“Ajudar…”.
“Ajudar?”, a voz dele saiu incrédula. “Vocês estavam se beijando e quase… Sei lá!”, passou a mão sobre a cabeça e tornou os olhos para a atriz, “eu não sabia se saia do quarto ou tentava acordar as duas. Por que eu sei que ela tem esses sonhos em que parece estar acordada. Mas que a senhorita também os tinha e sonhava em conjunto com ela, foi uma surpresa!”, avisou, aborrecido. “Eu estou… Senhorita Berry!”, meneou a cabeça, “eu acho que estou decepcionado com você”, suspirou por fim.
Ela, que não despregou os olhos dele, balançou a cabeça em negativa e falou, quase desesperada:
“Eu bati à porta. Ela não respondeu e eu entrei… E então ela me olhou e sorriu”, passou a mão pelos cabelos. “Ela não parecia incoerente! Ela parecia bem… Eu não percebi”, soltou, aturdida.
“Quando se deu conta de que ela não estava acordada?”, o homem perguntou seco.
“Quando ela perguntou ‘eu já falei que você está linda’”, confessou, amargurada.
“Por que não a afastou?”, isso ele queria entender.
“Eu não sabia como reagir”, quase gritou. Buscou calma e prosseguiu:
“Eu só fiquei ali… Ela me olhava e falava… E eu fui acompanhando conforme ela falava e só respondi… Como se ainda estivéssemos namorando…”, fez uma pausa curta, “e para convencê-la a continuar dormindo eu… Eu falei que ela fotografou muito. Porque ela costumava trabalhar demais, às vezes. E ficava tão cansada que eu tinha medo de que adoecesse… Eu só quis cuidar dela!”, secou as lágrimas que ameaçaram escapar.
Holmes a mirava, mudo.
Falou:
“Sabe que ela não fotografou e nem estava cansada por isso”, ele falou o que ela já sabia. Mas não se calou: “e que só voltou a dormir porque, certamente, era um sonho. Sabe a diferença, Srta. Berry?”.
“Eu só queria saber se ela estava bem… Eu só queria saber se ela vai me deixar ir até a minha casa”, falou, frágil, confusa e agitada por tudo o que aconteceu há pouco.
O homem caminhou até ela e, como nunca fez antes, com pessoa alguma exceto Quinn, acolheu-a nos braços fortes e falou que estava tudo bem.
“Eu a levarei a sua casa”, avisou, “e poderá ficar lá enquanto eu tento controlar as coisas daqui. Ela não vai lhe entregar para a polícia. Ela não pode”, avisou.
Rachel se agarrou ao paletó do homem e ficou ali, quieta, sem lágrimas, sem palavras, sem nenhuma outra ação. Apenas se deixou descansar um pouco. Ainda não entendeu o que acontecera entre ela e a ex-namorada. Sabia, apenas, que não imaginou que as coisas aconteceriam da maneira como aconteceram. Beijou Quinn. E foi beijada por ela. Da mesma maneira de quando namoravam. De quando Quinn a amava. De quando a traição ainda não pairava sobre suas existências.
“Eu… Eu não vou deixá-la. Eu não vou sem antes falar com ela”, decidiu.
O cuidador sorriu, achando-a a pessoa mais cabeça dura que conheceu.
“Ela não vai se opor”, tentou convencê-la.
“Eu quero falar com ela”, ergueu a cabeça e buscou os olhos dele. “Eu preciso que ela saiba, ainda que inconscientemente, que pode confiar em mim”.
Ele concordou e, gentil, caminhou com ela até o sofá e, juntos, sentaram.
“Senhorita, eu gosto da sua tenacidade”, ele comentou, enquanto dava espaço entre os dois no sofá. “Apenas, por favor, seja cuidadosa. O que aconteceu há pouco…”, ficou pensativo antes de prosseguir, “e se não conseguisse pará-la? E se ela fosse adiante? Como seria para você? Pense nisso! Ela, talvez se lembrar do aconteceu, não vai ter certeza. O sonho dela e a realidade, dessa vez, foram muito coerentes. Ela não saberá diferenciar. Isso é ruim para ela. E não é bom para você. Ao passo que, se vai continuar aqui, é melhor sabermos como você vai lidar se algo como o que aconteceu agora voltar a se repetir. Ela estava romântica. Mas, e se não estivesse? E se estivesse mais…”, ele realmente não sabia como se referir a Quinn.
“Sexual?”, Rachel sugeriu.
Ele assentiu com a cabeça.
“Eu entendi…”, ela suspirou. E achou que ele tinha razão sobre precisarem de uma estratégia. Ainda que não conseguisse pensar em outra melhor que não fosse tentar, apenas, parar Quinn.
Para Quinn… Analisou. Ela poderia parar Quinn? Não sabia. Não sabia porque não tinha certeza de que conseguiria parar a si mesma se o que aconteceu há pouco se repetisse e a loira quisesse ir mais além dos beijos e declarações de amor.
Deus! Senti-la perto, afetuosa e tão cheia de desejo foi tão inebriante! Manter o controle sobre a situação foi quase impossível. Não soubesse que a loira não estava coerente… Até onde iria com ela?
Droga! Iria até o fim. Até o ápice do prazer! Com coerência ou incoerência!
“Vou precisar ser muito forte”, concluiu.
Holmes concordou com ela. E acrescentou:
“Será bom, como já mencionou, conversar com a doutora Parker”.
Ela ficou mais tensa.
“Quando?”, era – de verdade – assustador.
“Não se preocupe, Srta. Berry. Ela não irá lhe morder. É uma mulher inteligente, gentil e que tem em Quinn a sua paciente mais interessante. Ela vai lhe tratar muito bem. E, depois, provavelmente lhe pedirá um autógrafo”, o homem foi muito seguro em sua fala. “Nós só precisaremos fazer isso sem que Quinn saiba. Exceto se a Dra. Parker pedir a sua presença”, avaliou, pensativo, “mesmo que tente contrariar a médica, mais cedo ou mais tarde ela terá que lhe levar até a doutora”.
Rachel franziu o cenho. Estava tonta ainda ou o cuidador estava insinuando que daria a sugestão para a médica de tê-la em uma sessão? Por Barbra! Isso era…
“Eu ainda estou assustada”, confessou, “eu mal acabei de perder meu marido e estou num casamento com a mulher que eu amo, mas que não se lembra de mim; que parece ainda me amar quando está fora da realidade, apenas me suporta na vida real e, depois de traí-la, ela me põe em expiação pelo pecado da luxúria”, comentou, atormentada.
Holmes franziu o cenho e achou por bem lembrar:
“Eu lhe disse, senhorita, que pode ir embora se desejar. Não tem que passar por isso! A pressão não vai amainar. A tendência é que chegue a níveis insuportáveis! Se sabe que ela só está lhe colocando em ‘expiação’, por que ainda não foi embora? Já pediu perdão para ela! Se ela não foi capaz de lhe perdoar, não é sua culpa”.
Rachel pensou as palavras dele.
Sim. Ela pediu perdão. E, embora ele lhe dissesse que Quinn não aceitou, perguntou-se até onde ele poderia estar certo. Na verdade, a ex-namorada disse que não havia o que ser perdoado, pois não lembrava do que aconteceu.
“Acha que ela lembra do dia em que eu a traí?”, perguntou.
O cuidador foi pego de surpresa pela questão. Estavam se desviando do tema inicial.
“Srta. Berry…”.
“Por favor”, ela pediu, “acha que ela se lembra?”, insistiu.
“Acho que não… O que ela lhe disse”, perguntou.
Rachel não tinha muita certeza. Talvez Quinn tenha insinuado alguma coisa, há alguns meses… Afinal, ela mandou investigar a própria vida. Talvez ela não se lembrasse realmente! Apenas arrumou, de maneira coerente, os recortes que Wilhelm foi lhe dando sobre sua vida conforme a investigação avançava.
Meneou a cabeça, atordoada.
“Eu não sei até onde o que ela me disse de fato é memória dela ou apenas dados compilados de maneira ordenada e falados de maneira tão segura que pode ser que eu tenha acreditado além da conta nela”, analisou.
“Que a senhorita acreditou nela além da conta eu já sei. Ou não estaria aqui, casada com ela”, avisou. E se desculpou em seguida:
“Eu não deveria falar assim. Fui indelicado”.
“Talvez, se estivesse no meu lugar, também acreditasse nela”, acusou.
E o cuidador achou que ela estava certa. Sim. Se estivesse no lugar dela, sob a pressão que Quinn exerceu, talvez acreditasse, até, que era herdeiro da Coroa Britânica. Mesmo diante de toda a impossibilidade do fato.
“Há uma lógica curiosa e convincente, mesmo no mais perverso pensamento humano”.
— Immanuel Kant -
Rachel olhou para o relógio digital, que luzia, em azul, a hora. Três horas. Há pouco era duas horas e cinquenta e nove minutos. O tempo parecia se arrastar, enquanto a mente lhe despejava as imagens do que aconteceu entre ela e Quinn mais cedo.
Quando abriu a porta do quarto da ex-namorada e entrou, ela se virou na cama e a mirou. E sorriu. Nunca pensou, naquele instante, que ela poderia não estar consciente. Ela olhava como se estivesse admirando-a. E Quinn, vez ou outra, mesmo que para aborrecê-la, fazia isso. Tudo bem… Ela parecia muito doce e não tinha o olhar lascivo e debochado como de costume. Era só admiração coberta de amor. Amor? Foi o que viu nos olhos dela? Foi… Os olhos de Quinn estavam amorosos como há muito não via.
“Que loucura, meu Deus”, murmurou para si mesma, atarantada com as sensações que seu corpo não cansava de bombardear por causa do encontro da tarde.
Lembrou de como ficou confusa quando ela perguntou, atordoada, onde iria. Riu-se. Estava muito confusa mesmo para não se dar conta de que a namorada não estava realmente bem. Vestia camisola e penhoar azuis! Para onde iria com essas únicas vestes que a loira permitiu que Holmes lhe trouxesse, aos montes, quando da noite em que se casaram?
Então ela sentou na cama e a fitou com aquele jeito único, de quem acabou de acordar e que a deixava encantada… E perguntou, com a voz débil:
“Eu já falei que você está linda?”. Foi quando precisou ver a realidade. Não era a Quinn cínica e sem coração que lhe perguntou isso. Era a Quinn perdida num lugar escuro da mente da advogada e que, porque reagia a um estado estranho de sono (ou seja qual for o nomedado aquilo), estava na tona, respirando. Era a sua Quinn! Então, contra toda a razão que lhe dizia para sair e chamar por Holmes, puxou-a e a beijou. E quando a língua cálida e úmida de Quinn a invadiu, sentiu as borboletas voarem loucas dentro de sua barriga. Era tão delicioso! Agarrou-a pelos cabelos para mantê-la segura, para que não lhe escapasse, como um sedento a beber da fonte que lhe mataria a sede.
Soltou-a num empurrão quando se deu conta do que estava fazendo. Estava mais sem razão do que Quinn agindo daquela maneira! Não era para acontecer. Não assim… Até que seus olhos caíram sobre a boca da loira, agora vermelha por causa da intensidade do beijo,e escutar a voz rouca dela a lhe perguntar o que havia sido aquele comportamento que, pareceu, ela gostou muito.
Não conseguiu mentir…
“Isso é o que a sua cara quando acorda me causa”, e sorriu, encantada.
Então uma Quinn fingidamente compenetrada deu um sorrisinho e se chegou para mais perto e lhe falou ao ouvido:
“Acho que preciso dormir mais vezes e você precisa, definitivamente, acordar ao meu lado sempre”.
O coração rateou dentro do peito. Era como voltar ao passado! Era louco, confuso e lhe fazia perder a noção com a qual o tempo realmente passava. Era como se Cronos tivesse sido nocauteado e, atordoado, naquele momento, deixou o relógio rodar ao contrário e levá-la de volta ao pretérito.
Puxou-a para um abraço e suspirou toda a saudade que sentia. Toda a mágoa que parecia não existir neste momento. Suspirou em satisfação.
“Eu amo você, Quinn”, murmurou, aproveitando o máximo daquele contato insólito e deliciosamente insano.
Sentiu quando a loira enlaçou-a pela cintura e deitou a cabeça em seu ombro.
“Eu sei…”, murmurou antes de soltar um bocejo que Rachel achou fofo, “eu também amo você. Eu hoje te amo mais que ontem e, certamente, menos do que amarei amanhã”.
Não tivesse um filho para criar, entregaria sua alma a Deus e morreria sorrindo, pensou Rachel.
Quando a loira a afastou e a fitou, Rachel afagou-lhe a face com carinho.
“Você é tão especial, Quinn”, e distribuiu beijos estalados pelo rosto da loira e pela boca.
E se lembrou que aquilo, aquele momento mágico e inexplicável, não poderia continuar. Precisava se afastar e chamar Holmes. Reuniu forças para falar:
“Eu preciso ir agora”. E tentou se levantar. E, para sua surpresa, Quinn a prendeu e a fez sentar:
“Só mais um pouco, Rach! Fique só mais um pouco…”, abraçou-a. “Eu sinto a sua falta…”, murmurou.
Enlaçou-a também e pensou que, até o momento, habitavam sob o mesmo teto. Era, talvez, a razão que precisava para apaziguar a ex-namorada…
“Nós nos vemos todos os dias, Quinn”.
A loira a mirou e passeou-lhe a mão sobre a face. Parecia insegura…
“Eu sei… Mas não é o bastante! Você sabe que nunca será o bastante”, beijou-lhe a testa.
Rachel a fitou:
“Será o bastante! Eu prometo”, acariciou o rosto bonito da esposa. “Eu já disse que amo você, Quinnie?”, perguntou, só para se certificar de que falava com a pessoa certa…
A loira sorriu:
“Falou… Mas é sempre bom ouvir outra vez e outra e outra…”.
“Eu vou amar você para sempre”, prometeu. “Mas agora, eu tenho que ir”, lamentou. Se pudesse, congelaria esse momento. Ali estavam ela e Quinn. E estava tudo bem. Não havia nada de ruim que lhe manchasse a felicidade. Exceto que aquilo não era de verdade. Era um estado delirante de sua ex-namorada e do qual estava participando!
Quinn riu e a puxou de volta, fazendo-a cair deitada sobre a cama. E quase enfartou quando a loira lhe montou sobre o estômago.
Sentiu o quanto aquela ação inconsequente da loira lhe umedeceu desgraçadamente a roupa íntima e sentiu que era melhor se recompor. Só havia um problema: de onde conseguiria tirar forças? Era difícil pensar com clareza com uma Quinn sem noção de tempo e espaço sobre você, apaixonada e disposta a… Não! Não poderia… E se ela acordasse? E se recobrasse a razão?
“Quinn…”, a voz saiu rouca e insegura.
“Eu não vou atrasar você…”, afagou a face morena, correndo os olhos por ali. “Eu já disse que eu me arrependo das vezes em que eu lhe magoei? Eu já lhe pedi perdão?”, murmurou.
Rachel sentiu o coração apertar outra vez e os olhos inundarem. Deus! Quinn nunca pararia de lhe perguntar isso?
“Já! Várias vezes! Tantas que eu já parei de contar há muito tempo”, sorriu, a voz emocionada saiu com muito esforço.
Então, para coroar a situação, Quinn decidiu inclinar o corpo para frente e o cheiro do perfume e da pele dela adentraram as suas fossas nasais. Precisava se agarrar ao mundo real!
“Deus, Quinn… Eu preciso, realmente, ir…”, falar estava difícil. Sentia-se asfixiar.
“Eu sei”, a loira sorriu e beijou-lhe a testa. Afastou um pouco o rosto e estudou-lhe a face. “Eu adoro seu rosto… Suas covinhas quando sorri… As suas sobrancelhas e os seus olhos… Você é tão linda, Rachel! A garota mais bela sobre quem eu já coloquei os meus olhos”.
Rachel sentiu que levava um soco no meio da cabeça. Tentou responder, mas Quinn a beijou com toda a ternura do mundo. Sentia-se numa posição difícil… Literalmente e, por isso, retribuiu ao beijo com toda a candura que lhe foi possível colocar naquele instante. Amava Quinn! E ela a amava! Era só o que importava!
Sentiu a delicadeza da ex-namorada ao quebrar o beijo devagar e se afastar, lentamente.
Quando a loira saiu de cima de seu corpo e sentou na cama, observando-a enquanto mantinha o lábio inferior preso entre os dentes, Rachel sentiu-se incompleta. Ergueu-se devagar, sem desviar o olhar da face da esposa.
“Eu acho que poderia beijar você outra vez”, confessou, provavelmente ensandecida.
“Mas… Você não precisa mais ir?”, a loira perguntou em dúvida.
Por Barbra! Queria abraçar Quinn e apertá-la! E nunca mais deixá-la ir! Mas, como se prende o efêmero? O instante?
Não tinha a resposta. Na verdade, ninguém tinha. Guarda-se o efêmero tangível em imagens congeladas, mas este instante quase mágico que vivia… Ninguém sabia como fazê-lo permanecer. Então, apenas aproveitou um pouquinho mais…
“É só um beijo”, riu da interpretação que a ex-namorada deu as palavras que proferiu.
“Ah… Só um beijo”, levantou a mão esquerda e fechou-a, erguendo o indicador para representar o número, “um…”.
Sentiu que desmancharia. Se transformaria num líquido viscoso, de um rosa brilhante.
“Isso… Um beijo”, confirmou, de maneira nada ortodoxa, e viu a namorada aproximar a face da dela e estancar a escassos centímetros. Sentiu-lhe a respiração morna e sedutora. Deus! Era tão bom! Isso não poderia ser considerado pecado ou crime… Entreabriu os lábios e viu como os olhos verdes acompanharam esse gesto. Inconscientemente, Quinn a espelhou e entreabriu os próprios e encaixou-os, à perfeição, aos seus.
Oh, sim! Isso era o paraíso na terra! Se a loucura era tão devastadoramente deliciosa assim, queria se perder na falta de lucidez de Quinn e nunca mais voltar!
Seus sabores se mesclaram. E o resultado a embriagou. E embriagou Quinn também, sabia, enquanto o beijo se estendia além do que deveria, e ficava mais faminto e exigente. A sanidade voltou para Rachel quando Quinn a puxou para si, fazendo-a montá-la, enquanto passeava-lhe as mãos pelas costas.
“Quinn…”, gemeu, “eu preciso ir…”.
A loira a mirou com os olhos nublados, a respiração agitada. Meneou a cabeça.
“Por que você sempre precisa ir?”, indagou. A cantora percebeu-lhe a frustração na voz.
Oh, não! Não poderia decepcioná-la, pensou Rachel.
“Quinnie…”, tomou-lhe a face e a fez mirá-la. “Eu não vou muito longe. É só até ali… Você vai voltar a dormir… E quando acordar, eu já estarei de volta”, pontuou. “Você precisa descansar…”.
“Eu não fotografei hoje…”, observou.
Rachel juntou suas testas. Não queria que aquele momento terminasse. Mas precisava. E precisava, também, aproveitar a mansidão da ex-namorada. Ela estava conforme e necessário para que pudesse sair dali sem espantá-la. Só precisava convencê-la a voltar a dormir.
“Eu sei… Mas fotografou ontem. E antes de ontem… E antes… Seu corpo precisa descansar”, sussurrou e deixou um beijo casto nos lábios da loira.
“Okay…”, ela deixou a morena se erguer, “quando eu acordar…”, deitou-se e Rachel sorriu. Se os cabelos de Quinn estivessem mais curtos e ela com uns dois quilos a mais, ficaria ainda mais parecida com a garota pela qual perdeu a cabeça.
“Você ainda estará aqui?”.
O enorme olhar verde inseguro e o tom da pergunta quase a tragaram para junto da loira para agarrá-la e nunca mais soltar.
Ajudou-a com a coberta e prometeu algo que poderia cumprir:
“Eu estarei aqui quando você acordar”, sorriu e beijou-a na testa. “Prometa que descansará”, pediu.
“Eu prometo”, suspirou e fechou os olhos.
Observou-a. Linda e plácida.
“Eu amo você, Rach…”, escutou a voz rouca e arrastada lhe confessar e seu coração se encheu de alegria. Como era possível Quinn estar inconsciente e consciente?
“Eu também amo você, Q…”, falar era quase impossível. E o coração quase paralisou no peito quando ela, Quinn, atestou quase inaudivelmente:
“Eu te amo mais…”.
Então, ela se foi! Sua Quinn…
E Holmes quase a matou do coração…
Respirou fundo e soltou o ar.
Relembrou as palavras de Holmes…
“E se não conseguisse pará-la? E se ela fosse adiante?”.
Afagou os cabelos do filho.
Spencer dormia bem na casa de Quinn. Ele tinha dificuldade para dormir fora de casa e em outro colchão que não fosse o seu. Mas, ali, naquele quarto, naquela cama, naquela casa estranha ele dormia bem. Mesmo que acordasse vez ou outra à noite, choramingando por causa de algum sonho ruim ou mesmo estranhamento, ele estava bem.
A pergunta de Holmes voltou a lhe martelar:
“E se não conseguisse pará-la?”. Suspirou. E pensou que seria muito mais difícil do que imaginou conviver com Quinn se ela, em vez de ser cínica com ela, fosse tão afetuosa e sexy como mais cedo enquanto vivia um sonho delirante.
Sentiu que precisava se desligar das imagens de Quinn abraçando-a e mantendo-a perto do seu corpo quente… Precisava se desligar do gosto da boca da esposa.
Pensou em Maria. Aliás, o que Quinn fez Holmes falar para a mulher, de modo que ela não lhe telefonou para saber como estava? E Hiram e LeRoy? Kurt? Blaine…
Buscou o celular pela mesa de noite e o encontrou. Ainda estava com bateria! Mas não tinha chamada de Maria. Havia, de importante, uma mensagem de Brittany perguntando como ela estava. As demais eram do teatro. Deus! Teria peça no final de semana e estava desencontrada! E isolada.
O que Quinn fez que estava mantendo as pessoas longe?
“Ela é tão cheia de truques”, murmurou, intrigada.
Voltou a atenção para o celular e as mensagens do teatro. E pensou que teria, de um jeito ou de outro, ajustar a sua vida até que ela e Quinn se ajustassem. Além, é claro, de encontrar força e resistência se algo como o que aconteceu mais cedo tornasse a ocorrer.
Lembrou-se da pergunta que ela lhe fez na tarde do dia anterior, quando conversavam a sós no escritório…
Os olhos de Quinn, observadores, estavam carregados com um brilho que não dava para classificar. Era difícil saber o que ela pensava. Quinn era uma incógnita. Um labirinto difícil de atravessar sem se perder muitas vezes.
“Quer sair correndo, Rach-Rach?”.
Respirou fundo e soltou o ar.
De verdade, talvez, no futuro, fosse necessário sair correndo para não ceder ao passado que se apresentava naquela Quinn desacordada que agia como se estivesse consciente… A sua Quinn.
“Como ela interagiu comigo?”.
Era uma pergunta pertinente.
“Uma tigresa de unhas negras e íris de mel
Uma mulher, uma beleza me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem é cruel”.
— Caetano Veloso em Tigresa—
CONTINUA (ainda?)
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