Sine Cordi
70 CAPÍTulo 70 - ע
Notas iniciais
“(…) Agora eu estou agarrado ao ‘nada’, tentando esquecer o resto
Eu estou olhando para o meu passado
Pra ver se eu posso encontrar os pedaços
Eu sei que alguns foram roubados e alguns simplesmente
voaram para longe
Bem, em encontrei as partes ruins, encontrei as partes tristes
Mas eu acredito que eu joguei fora
a melhor parte
Deus, os pedaços de minha vida
Eles estão em todos os lugares, em todos os lugares
E eu acho que o que mais senti falta
Foi de você
Você sabe quem…”.
— Pieces Of My Life por Elvis Presley -
Rachel estava tensa, à mesa do café da manhã, com Spencer ao lado, sentado numa cadeirinha para crianças (como Holmes arranjava essas coisas?). Quinn tinha a aparência saudável. E a olhava como se ela fosse um bicho raro. Será que ela se lembrava do que aconteceu no dia anterior quando se beijaram? Pensava que o melhor seria que não se lembrasse. Seria embaraçoso…
Entretanto, um desejo mais profundo e mal disfarçado queria muito, demais, que a ex cheerio fosse capaz de recordar um mínimo do que aconteceu. Talvez isso lhe desse esperanças. Mas… Esperanças? De quê, afinal? Errar outra vez com Quinn, desejando que ela fosse como antes do acidente era contraprodutivo. Precisava se acertar com a Quinn que a mirava agora. Fato!
“Como… Como se sente?”, perguntou, cuidadosa.
A loira recostou na cadeira e a analisou com mais atenção. Como se sentia? Não sabia… Talvez estivesse meio confusa. Talvez estivesse bem. Não tinha muita certeza. E Rachel não precisava, mesmo, saber a verdade de como se sentia…
“Bem. Obrigada…”, mentiu. Agora – analisou – deveria ser atenciosa com ela também…
“E você? Eu não a vi mais depois que…”, estancou. Quando foi a última vez que, realmente, falou com Rachel? Na biblioteca, quando ela a flagrou escutando a conversa que tinha com Holmes?
“Cristo, Quinn! Você é tão desatenta! Não. Foi depois que voltou do consultório daquela médica. Ela estava cantarolando para o garotinho e a música a fez se lembrar de quando eu fiquei grávida!”.
Quinn olhou ao redor. Quem falou com ela?
“O quê?”, perguntou, confusa.
Rachel franziu o cenho.
Holmes ajustou as antenas.
“Quinn?”, a cantora a chamou.
A advogada olhou ao redor novamente.
“Quinn?”, Rachel começou a se preocupar.
A loira sacudiu levemente a cabeça. O que estava acontecendo? Quem falou com ela? De onde veio aquela voz tão semelhante à sua, que apesar de se mostrar aborrecida, tinha um tom tranquilo e delicado?
“Ontem…”, murmurou, tentando fincar a razão. Estava se sentindo um pouco deslocada agora, como se não estivesse ali, com Rachel, prestes a se servir de café. Fitou a xícara vazia, colocada sobre a mesa, diante de seus olhos. Estava ali mesmo, à mesa do café? Por que tinha a impressão de que havia alguém mais ali, além dela, Rachel e seu rebento, Agatha e Holmes? O que estava acontecendo?
“Quinn”, a voz teimosa de Rachel a fez erguer a cabeça e fitá-la. A loira percebeu que os olhos dela estavam… assustados?
“Quinn!”.
O grito afinado de Rachel a trouxe de volta do redemoinho em que quase mergulhou. A voz não voltou a se manifestar.
Localizou-se, com alguma demora, no tempo e no espaço. Retomou o tom cordial e seguro:
“Eu sei que prometi que faríamos compras, haja vista que você está sem as suas roupas sociais”, fitou a morena que a olhava sem piscar. Sentiu uma incômoda pontada na cabeça. Ainda assim, manteve-se como se nada que lhe parecia meio fora de lugar estivesse a acontecer.
“Poderemos ir até a sua casa…”, sugeriu, “já que, por enquanto, eu não poderei ir às compras”, falou, desejando profundamente se fechar dentro do próprio quarto e tentar entender o que aconteceu há pouco. Seria efeito colateral de algum dos medicamentos?
A cantora concordou automaticamente e a tirou das divagações:
“Isso será muito bom para mim, Quinn. E, creio, para o Spencer também, pois ele sente falta do quarto e das coisas dele. Foi uma mudança meio brusca…”, estancou ao perceber a maneira como a advogada a olhava e mantinha a atenção fixada nela.
“Quinn?”.
“Sim. Eu imagino que será bom para ele. Mas não sei se você ficará lá… Pensarei sobre isso”, respondeu, pensando que centrar a atenção, no instante, na mulher a sua frente seria uma maneira de evitar que aquela voz voltasse.
“Eu não falei em ficar lá”, tentou aclarar, mas percebeu que a loira parecia estranha. “Está tudo bem, Quinn…”, a pergunta saiu um pouco insegura.
A advogada recobrou a compostura e sorriu, com ar de deboche. Devolveu a pergunta:
“E você? Você está realmente bem, Rach-Rach?”, essa conversação poderia impedir que a voz voltasse. Se é que ela voltaria. Poderia ter sido, realmente, só um efeito colateral de algum medicamento. Até porque era a sua própria voz quem lhe falou. Não era uma voz diferente! Para que tanto drama? Relaxou. Centrou-se na cantora. Seria o melhor por agora. E notou que ela parecia distinta…
Rachel, enquanto mirava a loira, tentava afastar para longe a lembrança das duas no dia anterior, quando Quinn foi doce e enamorada.
“Eu…”, imagens das duas se beijando pulavam feito milho dentro da panela sobre o fogo, estourando em pipocas dentro da cabeça da cantora. Muitas pipocas saltitantes…
“Eu estou bem… Ainda tentando entender algumas coisas…”, comentou, atordoada com as sensações que as lembranças lhe causavam.
Quinn se mostrou muito interessada por sua fala e se inclinou sobre a mesa, descansou o cotovelo direito sobre a beira e a face sobre a palma da mão, enquanto cravava os olhos na cara da morena.
Rachel a achou descaradamente cínica e linda!
“Tentando entender? O quê, exatamente, Rach-Rach?”, salivou a pergunta. Sim! Conversar seria muito bom… Apesar da maldita pontada que a atordoou um pouco. Porém, não o bastante para fazê-la perder o foco. Foco! Era tudo o que precisava agora. Foco…
“Eu… Você e o casamento”, ouviu a voz de Rachel.
“Wow! Uma coisa de cada vez…”, a loira pontuou, observadora e se encostou no espaldar da cadeira. Rachel estava inquieta. Mais inquieta do que o normal, constatou. Se ela estava assim, o que foi que a deixou de tal maneira dentro do casamento e que estava, diretamente, ligado a sua pessoa? Será que ela se espantou com o fato de ter tido uma lembrança?
“Rachel, sobre a lembrança por causa daquela música…”, serviu-se de café e experimentou um gole. Esperava que a cafeína pudesse, talvez, amainar a dorzinha impertinente na cabeça, e voltou a atenção para a morena, “não fique assustada. Eu fico um pouco…”, estancou e adotou uma expressão de quem examinava bem os verbetes de um dicionário imaginário a fim de encontrar uma palavra que pudesse definir estes raros momentos.
Não encontrou. Ela só sabia que – às vezes – não tinha certeza sobre a realidade. Como há pouco. Mas não contaria isso para a morena. Ela poderia sair correndo. E a brincadeira ainda nem havia começado…
Olhou para Holmes, observador atento, estancado há curta distância dela, com Agatha ao lado. Perguntou-lhe:
“Alguma definição gentil, Holmes, sobre o meu estado após uma lembrança?”, indagou, curiosa.
“Confusa”, o homem não precisou pensar. A resposta era-lhe óbvia e automática.
A loira pareceu analisar a resposta dele. Por fim, suspirou.
“Obrigada”, ela sorriu e se voltou para a cantora.
Rachel observou a interação em silêncio. Por que Holmes não falava a verdade para Quinn? Era algum tipo de cuidado especial não deixá-la a par de como eram horríveis os pesadelos que ela tinha? Ou ele apenas se eximia de comentá-los para que ela não se sentisse pior do que, certamente, já deveria sentir por não se lembrar deles?
A voz da loira, ao questionar o homem de maneira séria, porém não grave, a despertou para a realidade:
“Algum sonho ou coisa parecida que eu deva saber, Holmes?”.
Ele assentiu e, tranquilo, respondeu:
“Um a cada vez que dorme”, comentou.
Quinn franziu o cenho e pareceu analisar a fala do cuidador. E como se fosse um fato corriqueiro, comentou:
“Estamos bem! Acho que já foram mais por soneca”, sorriu lindamente e voltou a atenção para a judia.
“Não fique assustada, Rach-Rach. Depois eu volto ao normal”, troçou.
Rachel não riu. Não achou engraçado. Não era engraçado!
“Acha divertido brincar com sua dor?”, espetou.
A pergunta pegou a advogada de guarda baixa. Epa! Rachel reagindo… Precisava realmente ficar atenta!
“Dor?”, riu-se e, como para lembrar que a judia estava certa, uma pontada generosa a fez franzir o cenho e tensionar a mandíbula de maneira reflexiva.
“Eu fiquei muito assustada e preocupada, Quinn”, confessou, sem despregar o olhar de sobre a esposa. “Você sofre nos seus sonhos”, lembrou do “sonho” do dia anterior e complementou, “pelo menos, na maioria deles…”.
A loira desviou os olhos e voltou a atenção para a xícara do café.
“A que horas quer ir até a sua casa pegar as coisas que precisa? Eu quero me programar”, falou, sem nenhuma intenção de mascarar o desagrado que a conversa lhe causou.
“Precisamos conversar sobre isso, Quinn”, insistiu.
“Não, Rach-Rach. Nós não precisamos”, avisou.
“Eu vou insistir”, informou a morena.
Quinn meneou a cabeça e foi debochada, embora ainda mantivesse os olhos pregados na xícara:
“Por quê? Por que quer tanto insistir em ser minha esposa de verdade, Rach-Rach? Para provar que me ama? Esqueça! Não perca o seu precioso tempo”, foi cruel.
Rachel sentiu vontade de estapeá-la! Como conseguia ser tão infame e fria? Tão nojenta? Sentiu aquele ódio por ela voltar. Quinn não tinha o direito de arrastá-la até ali, expô-la ao seu inferno particular e querer mantê-la à margem! Não enxergava que já sabia mais do que deveria?
“Acho que é tarde demais para você, Quinn”, informou. A voz magoada.
Sabia que os olhos verdes encontrariam os seus. E não errou.
Quinn a mirou e sorriu.
“Tarde?”, a voz incrédula.
“Sim! Desde que nos aproximamos eu já vi pelo menos uma dúzia de crises suas! O que mais quer me esconder? Seus humores? Acho que já os experimentei antes mesmo do seu acidente e da sua falta de memória! Qual seria a próxima novidade? Eu acho meio difícil você me surpreender, Quinnie!”, metralhou, irritada.
“Tão Rachel Berry…”, sibilou, maliciosa.
A judia inspirou fundo.
“Tão Quinn Fabray”, rebateu num tom irritado.
A loira analisou a resposta dela. Assentiu.
“Essa foi boa, Rach-Rach! Se você diz que eu sou tão eu, como posso discutir? Afinal, você me conhece melhor que eu mesma. Sabe, inclusive, mais do meu passado do que eu”, riu, “ponto para você”, consentiu e se serviu de mais café.
A cantora respirou fundo. Sentia-se tremer inteira. Quinn conseguia lhe tirar o equilíbrio! Conseguia levá-la do amor ao ódio numa fração de segundos! Mas não cederia…
Pegou o copo com água. As mão trêmulas. Não se importou se a loira percebesse o quanto seus nervos estavam pulando agora. Era de raiva. Não de medo. Então, se ela falasse uma só coisa que lhe aborrecesse, devolveria na mesma moeda!
Levou o copo até a boca. Inspirou e expirou. Tomou um gole. Sentia o coração bater na cabeça, como um tambor num ritmo acelerado. Inspirou e expirou. Bebeu outro gole de água. As batidas começaram e ficar menos violentas. Repetiu o ato até que recobrou a calma. Pegou o pequeno pote com a papinha de frutas que daria ao filho, enquanto não despregava os olhos da esposa. Então, resolveu sondar…
“Ontem você teve um sonho…”, comentou, enquanto se concentrava e encher a pequena colher com a pasta que levou à boca do filho. A voz saiu cristalina e segura.
Spencer aceitou o alimento de bom grado.
A loira, que levava a xícara aos lábios, estancou e questionou, um pouco curiosa:
“Eu tive?”.
Rachel a mirou fugazmente e voltou os olhos para o filho. E se negou a mirar Holmes.
Quinn ficou cismada com o olhar esquivo da judia. Ela não era assim… O que teria acontecido, neste sonho, que estava causando mais inquietação na já inquieta Rachel Berry?, perguntou-se.
Bebeu o gole do café, depositou a xícara sobre o pires e insistiu:
“Eu tive um sonho, Rachel? E o que aconteceu? Eu sofri muito?”, embora o tom de voz saísse transbordando pouco-caso, queria mesmo saber.
A cantora deu mais uma colherada de papinha ao filho e questionou:
“Até onde você se lembra de ontem?”.
Quinn inclinou o rosto e a franziu o cenho. Onde a Berry queria chegar?
“Qual a relevância do fato?”, sondou.
“Grande. Enorme, eu creio”, respondeu, enquanto voltava a alimentar o filho.
A loira escorregou o olhar até o cuidador e fez para ele uma pergunta muda.
Holmes achou melhor se intrometer, haja vista que a patroa lhe parecia surpresa com a abordagem de Rachel.
“Eu acho que a Srta. Berry ainda está se sentindo meio fora de lugar aqui e com tudo o que está acontecendo”. Foi uma justificativa horrível, ele sabia.
A sobrancelha de Quinn subiu, desconfiada.
Rachel bufou e atraiu a atenção da esposa, que sorriu e falou:
“Okay… Isso está ficando interessante. O que os dois sabem que eu não sei?”.
A cantora, agora, suspirou em desapontamento. O desejou profundo de que a loira lembrasse do dia anterior lhe acossava! Ela se beijaram! Elas conversaram e… E Quinn não se lembrava! Foi como Holmes lhe disse. Um sonho ou uma lembrança que a mente dela ocultaria. Falou:
“Esqueça! Se você não é capaz de lembrar, não tem relevância”, forçou-se a não deixar a decepção escapar pela boca.
A advogada ficou incomodada. Não apreciava aquele tema de conversação em particular…
“Ótimo! Eu esqueço essa sua pergunta e você também! Embora eu realmente não esteja lhe compreendendo”, confessou.
Rachel estancou a colher a meio caminho da boca de Spencer, que reclamou pela distração da mãe com um pequeno soluço. A atriz voltou o olhar para o filho e o alimentou.
“Eu fiquei preocupada”, falou, enquanto se concentrava em dar de comer ao fruto de seu ventre.
Quinn arqueou a sobrancelha e mirou o cuidador outra vez. Não era para a cantora estar lhe questionando sobre esse tipo de coisa…
Voltou-se para Rachel. Avisou:
“Não fique preocupada. Holmes está preparado para qualquer situação…”, analisou as palavras, “estranha que possa acontecer”. Observou como a cantora a mirou sem sinal de fé.
“Cuide de sua vida, Rach-Rach. E eu cuidarei da nossa”, avisou.
A judia riu e meneou a cabeça. Conteve-se por causa do filho, mas não se omitiu:
“Este é um casamento, Quinn. E você o quis. Se pensa que vai me manter à margem do que acontece, está redondamente enganada! Eu quero saber de tudo! Eu quero ser responsável por você como você será por mim. Eu quero amar você completamente, Quinn. E isso envolve cuidar e estar a par de você inteira”, soltou num fôlego só.
A loira franziu o cenho. Espera… O que aquela mulher estava falando? Cuidar dela, como se aquilo fosse um casamento de verdade? Ela só poderia estar de brincadeira.
“Rach-Rach”, dessa vez, bebeu um gole de água a fim de aclarar a garganta, “cuide de você e do seu rebento e eu cuidarei das demais coisas”, insistiu, seca.
A judia bufou baixo e tornou os olhos para a cara da “esposa”:
“Não, Quinn! Eu cuido de mim e de você. E você cuida de você e de mim. Uma cuida da outra! É assim que um casamento funciona”, insistiu.
“Talvez o seu casamento com o seu finado esposo tenha funcionado assim. No meu casamento, as coisas funcionarão do meu jeito”, atestou, seca.
Sentiu uma pontada na cabeça.
Escutou-se, embora não fosse ela quem falasse:
“Quinn! Por favor, seja gentil com ela”. Era a voz dela! E ela parecia nervosa e insegura.
Deus! O que estava acontecendo?
Outra pontada mais forte e mareou.
Para sua infelicidade e humilhação pessoal, sentiu que estava, literalmente, desligando, apavorando Rachel, Holmes e até mesmo Agatha, que nunca viu a patroa passar mal dessa maneira diante de outra pessoa que não fosse o cuidador.
A judia puxou a ajudante de Holmes e entregou a ela o pote com a papinha, a fim de que ela alimentasse Spencer e correu, assim como Holmes, para socorrer a loira, mais pálida do que o normal para a sua pele já muito pálida e à beira do desmaio.
“Quinn!”, gritou e amparou a loira num abraço.
Ela sentiu o cheiro dos cabelos de Rachel adentrarem a suas narinas assim que a cabeça descansou no ombro moreno e preocupado.
“Eu não estou me sentindo muito bem… Minha cabeça dói um pouco”, murmurou.
“Ficará tudo bem! Holmes está aqui… Nós cuidaremos de você”, avisou.
“Holmes?”, perguntou. Quem era Holmes?
“Sim… Nós cuidaremos de você”, atestou.
Quinn percebeu a insegurança na voz da judia.
Afastou-a e a fitou na face.
“Por que está mentindo para mim, Rach?”, perguntou.
“Eu…”, a judia parecia confusa, “não… Estou… Mentindo, Quinn. Eu e o Holmes cuidaremos de você”, foi sincera.
Os olhos da loira atordoada percorreram a face morena. Descansaram ali.
“Você está bem?”, perguntou, afagando o rosto moreno.
A pequena parecia, ainda, um pouco atormentada.
“Estou… E você?”, também quis saber.
“Eu já disse que eu te amo hoje?”, perguntou, sem responder a pergunta.
Rachel pareceu comprimir um choro.
“Não, amor…”, murmurou.
“Okay… Eu amo você”, sorriu débil e voltou a deitar a cabeça no ombro da morena.
“Eu também amo você”, atestou.
“Eu amo mais…”, sussurrou. “E estarei por perto…”, parecia lutar para se manter consciente, “para não machucar…”.
Rachel indagou, num tom de voz confuso:
“Não machucar? Não machucar a você?”, afagou-lhe as costas.
“Eu…”, murmurou e relaxou. Sentia-se cansada.
Os olhos de Holmes agrandaram e Rachel sentiu o corpo retesar.
“Quem?”, a voz da cantora saiu trêmula.
Quinn piscou algumas vezes. Sentia-se partida em duas. A cabeça dando pontadas sem pausa! Respirou fundo e se recompôs, afastando-se dos braços que a enlaçavam. Encostou-se ao espaldar da cadeira e mirou Rachel de maneira confusa. Escorregou os olhos claros para o cuidador e falou, enojada:
“Eu estou…”, com o que estava mesmo? Suspirou, cansada:
“Pode me ajudar a ir para o meu quarto. Eu preciso ficar quieta… Minha cabeça parece que vai explodir”.
“Dra. Fabray?”, ele estava, realmente, confuso e muito inseguro agora. O que aconteceu? Por que Quinn falou que estava ali para não machucar?… Não machucar a quem? E mais: por que teve a impressão de que houve uma interação muito grande entre a patroa e a cantora enquanto ela confessava-lhe seu amor? Espera um pouco… Sacudiu a cabeça para ajustar alguma peça, provavelmente solta, para decodificar o que aconteceu. Ela disse para Rachel que a amava?
“Ok… Eu estou um pouco atrapalhado agora”, resfolegou.
Rachel o fitou. Entretanto, ao contrário dele, ela tinha uma teoria. Uma fala de seu papai LeRoy… Mas não poderia falar sobre isso agora, na frente da Quinn. Na verdade, não tinha muita certeza se deveria verbalizá-la. Era um pouco aterrador…
“Holmes!”, a voz aborrecida de Quinn despertou o homem e a própria Rachel. Ele se aproximou para ajudá-la a se levantar. E a cantora foi fazer o mesmo, mas a advogada a afastou. Meneou a cabeça em negativa:
“Cuide de seu filho…”, falou e se foi com o homem.
A cantora não quis contrariá-la. Não agora. Não depois de ter a Quinn do dia anterior, ainda que muito brevemente, outra vez a lhe confessar o seu amor.
Porém, se o que pensava fosse verdade, ela e Quinn estavam mais encrencadas do que poderiam imaginar. E, talvez, tivesse que se afastar da loira…
Desejou que seu sexto e apurado sentido estivesse muito errado agora.
§§
Quinn sentia-se prostrada. O cansaço que a tomou foi um dos piores que experimentou há muito tempo. Sentia que estava pifando.
Holmes a ajudou a se deitar e lhe deu o medicamento para a dor e um tranquilizante. Tomou-os sem discutir, atordoada demais com o que estava lhe passando.
O cuidador a mirou com atenta preocupação antes de deixá-la.
Ela sentia que quase transpassava a linha que a manteria a salvo e sua mente sã. Desmaiou? Como sua cabeça parou no ombro de Rachel? Por que tinha a impressão de que uma outra consciência estava pairando sobre a sua própria?
“Está com medo?”, a sua voz, outra vez.
“Deus! Não!”, reclamou, num murmúrio aterrado. Deitou-se em posição fetal e prendeu um travesseiro sobre o ouvido descoberto, a fim de não se escutar. Sentiu lágrimas mornas escorrerem pelos olhos. Não poderia perder a razão agora. Não mesmo!
“Não precisa ter medo…”, sua voz saiu terna, “eu sei que vai ficar tudo bem…”.
Quinn afogou o grito de horror com o travesseiro. Estava escapando de si mesma. Podia-se ver escorregar e sair, levando uma parte de sua consciência. E não conseguia impedir. Fugia a sua lógica apurada…
“Não podemos parar a chuva
Vamos encontrar um lugar perto do fogo
Às vezes eu sinto
Por mais estranho que pareça
Que você esteve nos meus sonhos
Por toda a minha vida”.
— Almost Unreal por Roxette -
Rachel relembrou o que aconteceu enquanto voltava a alimentar o filho. Quinn pareceu sentir dor… Dessa vez foi dor de cabeça… Ela passou mal e confessou. Ela confessaria isso, depois de tudo o que lhe disse sobre cuidar do casamento delas à maneira dela? E ela pareceu não se lembrar de Holmes? Foi o que entendeu?
Meneou a cabeça. A voz confusa da esposa ainda a lhe martelar:
“Holmes?”.
O tom de dúvida era tão cristalino! Confirmou e avisou que cuidariam dela, embora se sentisse, particularmente, insegura. E Quinn pareceu perceber. Ela estava atenta as suas necessidades! Então, quando ela disse que a amava, deu-se conta do que estava acontecendo: sua Quinn Fabray, a mesma que a beijou no dia anterior, resfolegou outra vez na tona. Escapou por alguma brecha que a armadura de Quinn pós-trauma possuía! Escapou para… Não machucar? A que ela se referia?
Não percebeu quando Holmes voltou à sala de refeições e a encontrou terminando de alimentar o filho em silenciosa meditação.
Puxou a cadeira ao lado da dela, à mesa, e se sentou.
“Eu a deixei descansando…”, avisou e prosseguiu, “agora eu preciso entender o que aconteceu. Desde quando ela diz que a ama?”.
Ele estava entre aborrecido e curioso. Curioso porque achou que Rachel escondia alguma coisa dele. E aborrecido porque deveria ser mais atento ao que estava acontecendo com Quinn.
Ela suspirou antes de responder, sem tirar os olhos da ação repetitiva de encher a colher com a papinha, erguê-la, retirar o excesso, levá-la à boca do filho. Esperar que ele comesse e voltar ao início novamente. “Desde ontem, quando… ‘interagimos’ enquanto ela dormia… Ou parecia dormir”, agora já não tinha tanta certeza.
O cuidador ficou surpreso.
“Está me dizendo que aquele pequeno delírio de há pouco foi parecido com o sonho que ela teve ontem?”.
“Eu sei que pode parecer estranho, mas eu acho que sim…”, ela confessou o que lhe atordoava. Era preciso dividir isso com alguém. E, no momento, achava que apenas Holmes pudesse – quem sabe – entendê-la. Ou tentar…
O homem analisou os dois acontecimentos. Comparou o que viu hoje com o pouco que flagrou no dia anterior e que lhe assustou deveras. Acrescentou a isso as várias vezes que Quinn acordou e o mirou, ou a Alex, com o olhar doce antes deste ficar atordoado. Seria aquele pequeno vislumbre um despertar dessa Quinn que jazia sob a falta de memória da advogada? A mulher que amou Rachel Berry e tentou morrer por causa desse amor?
“Oh! Isso é muito sério…”, mastigou e passou a mão sobre a cabeça, em claro sinal de preocupação.
A judia arregalou os olhos. Ele acreditava nela? Oh! Ele acreditava!
“Deus! Eu pensei que estivesse enlouquecendo!”, ela quase chorou em alívio.
“Eu não sei se tenho certeza, realmente”, o homem acrescentou, “mas não posso descartar nenhuma hipótese. A pessoa que pode, realmente, ajudar é a Dra. Parker”.
“Quinn terá consulta com ela ainda essa semana?”, perguntou, interessada.
“Agora, acho que sim. Pelo menos, depois que eu relatar o que aconteceu”, assumiu que ele e nem a cantora seriam capazes de lidar com a situação sozinhos. E que a advogada não falaria com a médica. Aliás, ela não se lembrava desses episódios. Não teria como falar deles mesmo! Então, como a médica abordaria o tema se Quinn não tinha como falar sobre eles?
“A Parker é a médica! Saberá como chegar nesse ponto”, Rachel respondeu ao homem, após pensar sobre os questionamentos dele. Também estava preocupada. Não só porque essa “personalidade” de Quinn estava ressurgindo, mas também porque – assim como Holmes pensou e Alex atentou – temia que houvesse o risco de esse lado não retornar ao esquecimento e Quinn se tornar alguém completamente fora de lugar. Não queria isso! Por mais que ela fosse encantadora e sincera nessas horas… E por mais que amasse tê-la outra vez como antes. Não seria justo! Com nenhuma das duas: nem com ela e nem com Quinn.
“Sinto que a estou perdendo”, falou para o cuidador.
Ele não opinou. Não sabia o que poderia dizer.
“Na verdade”, a judia recomeçou a analisar em voz alta, “eu a perdi há muito tempo! Apenas não quis me dar conta”.
“Está desistindo dela?”, o homem ficou surpreso.
“Não”, ela garantiu, “apenas me dando conta da verdade. Talvez, Holmes, eu precise me afastar dela. Se isso significar que ela ficará bem”, explicou.
“Entendo”, ele proferiu, decepcionado. “Talvez, com a ajuda da Dra. Parker, não seja necessário se afastar”, insistiu.
A judia pensou. E foi realista:
“Se eu não for o fator desencadeador disso, sim. Mas, e se isso estiver ocorrendo por causa da minha presença aqui? Nós já falamos sobre isso”.
O homem assentiu. Ele, no fundo, desejava que Rachel pudesse ser a pessoa a manter Quinn nos eixos, pois foi para ela que, um dia, entregou o amor que foi capaz de sentir. E a cantora, por sua vez, demonstrava amá-la realmente, apesar dos erros que cometeu.
“Talvez eu deva pagar pelo que fiz para sempre”, avaliou. E pensou que era pertinente pensar assim. Deveria ter se dado conta de que Quinn nunca baixaria a guarda, mesmo que para isso fosse necessário deixar sua sombra vir à baila e assumir a situação quando ela, Rachel, estava por perto. Embora a “sombra” dela fosse mais interessante que ela, atualmente.
Não deveria pensar isso! Era egoísta e pretensioso! E perdidamente apaixonado! Um alívio! Seu lado enamorado não negaria jamais que adorou cada momento que teve com Quinn no dia anterior. E, embora não fosse correto, desejava ter outra oportunidade. Outra chance de vê-la, de estar com ela novamente.
“Acho cedo para chegarmos a qualquer conclusão. Esperemos até que a Dra. Parker possa avaliar o caso”, a voz de Holmes a trouxe para a realidade, “enquanto isso, Srta. Berry, apenas fique atenta. Pode ser que ela volte a ter esses episódios… E não sei até onde ela poderá pensar que são, realmente, namoradas ou noivas. Precisará ser…”, era embaraçoso para ele abordar a possibilidade de um acontecimento mais íntimo entre as duas mulheres. Principalmente quando uma delas não estava com o pé na realidade. “Forte!”. Péssima escolha de palavra, pensou sem conseguir encarar a cantora.
Esta o mirou confusa. Ele queria que ela fosse forte?
Claro, a ficha dela caiu.
“Aaah! Eu entendi…”, ela falou. E ficou tão embaraçada quanto ele.
“Eu lamento ter que falar sobre isso, senhorita, mas devemos pensar em tudo. Principalmente depois de ontem”, avaliou.
Ela concordou, ainda sob uma capa de torpor. E de decepção. O homem estava certo e ela estava sendo incoerente. Enquanto ele era lógico em ver o quanto algo além de demonstrações de afeto sem sexualização seria ruim para ela e Quinn, estava desejando outra oportunidade com a mulher que parecia renascer do seu passado. “Está certo”, murmurou para ele.
Mirou o filho, sorridente e satisfeito por ser alimentado. Lembrou que ele não ia à escola havia já mais de um mês, desde a morte de Jesse. Talvez fosse bom para ele retornar, conviver com outras crianças.
“Preciso reorganizar a minha vida”, analisou. “Quinn a fez parar por três longos dias…”.
“Eu tenho certeza de que, se ela não se sentir melhor, eu mesmo a levarei até a sua casa a fim de se organizar, Srta. Berry”.
Ela assentiu e se ergueu. Retirou o filho da cadeirinha e, com ele nos braços, mirou ainda o homem e avisou:
“Vou até o meu quarto. Espero que ela melhore logo… E, por favor, não me deixe de fora do que está acontecendo com ela”, pediu.
O homem concordou, embora achasse que, no momento, ela estava a saber mais do ele…
Observou-a se retirar acalentando o filho. E suspirou. Não entendia o que estava acontecendo, mas de uma coisa tinha certeza: a cantora estava correta em pensar que, talvez, este “delírio” de Quinn estivesse ligado a presença dela ali.
Lamentou.
“Adoro quando você faz
Aquela magia comigo
Sua forma de tocar
Você tem o dom da cura
Você me olha de um jeito
É quase irreal…”
— Almost Unreal por Roxette -
Holmes bateu à porta do quarto de Rachel por duas vezes. Aguardou até que esta se escancarasse e viu a cantora abraçar-se a si mesma, ao passo em que vislumbrou a silhueta de um sonolento Spencer deitado na cama, que fazia sons ininteligíveis com a boca, insistindo em brincar com os carrinhos que eram seus companheiros quase permanentes.
“Perdoe incomodá-la, mas como pediu que eu a deixasse a par das decisões acerca de Quinn”, começou, captando a atenção da judia, “eu conversei com a Dra. Parker. Talvez seja necessário ela lhe falar”, informou.
A cantora sentiu o coração disparar e a boca secar. Quinn permitiria?
“Ela vai querer fazer isso com a Quinn presente?”, inquiriu.
“Não. Eu expliquei o que houve ontem e hoje. Na verdade, ela me pareceu um pouco surpresa e imaginou, acertadamente, que a Srta. Fabray não se lembraria dos eventos. Por isso ela gostaria de conversar…”.
Rachel assentiu. E não conteve um desespero que lhe atormentava:
“E se ela disser que eu tenho que me afastar de Quinn?”.
Holmes emudeceu. Franziu o cenho e mordeu os lábios de maneira engraçada, revelando para Rachel mais uma de suas manias de demonstrar confusão ou decepção.
“Eu realmente torço para que isso não seja necessário”, confessou. Esperava não estar errado, pois passou a confiar naquela mulher, responsável direta pelas dores da mulher que ele deveria cuidar e manter a salvo de situações que lhe causassem desconforto, porque ela lhe parecia verdadeira quando manifestava o seu amor por Quinn.
Verbalizou, sem pensar:
“Eu espero não ser decepcionado por você, Srta. Berry. Se achar que tudo isso é demais, avise-me. Ainda está em tempo de sair dessa casa e da vida dela. E eu garanto: nunca mais ela lhe perturbará ou chegará perto de você”.
A cantora piscou algumas vezes. E murmurou, realmente surpresa:
“Holmes! Eu amo a Quinn”.
Ele assentiu e verbalizou:
“Eu só…”, suspirou, “eu só precisava me certificar”.
Ele e Rachel assentiram em sincronia.
“Eu acho que ela está dormindo…”, falou, referindo-se a Quinn. “Eu ainda não a vi desde que a deixei no quarto”.
“Acha que ela está bem?”, indagou. Afinal, a ex-namorada não estava legal.
“Eu acredito que sim. Provavelmente o medicamento a fez dormir”.
Rachel queria ir até a loira. Entretanto, não achava que era boa hora. Quinn precisava descansar. Ela ficava horrível depois dessas crises de dores de cabeça!
“Certo”, o cuidador quebrou o silêncio, “estarei na cozinha, junto com Agatha, a fim de avaliarmos o almoço. Se tiver alguma sugestão sobre o cardápio, esteja à vontade em nos comunicar”.
A cantora sorriu com uma recordação que pareceu-lhe quase morta…
“Não dê bacon para Quinn. Ela é capaz de coisas espantosas por uma fatia… Inclusive corromper as pessoas”.
O homem sorriu agradecido por ela tentar quebrar a tensão do instante. E, mesmo sem querer, estragou a piadinha:
“A Srta. Fabray não come bacon… Uma preocupação a menos, imagino”, sorriu e se retirou.
Rachel encostou no batente da porta, cruzou os braços sob os seios e fez cara de incrédula.
“Quinn não come bacon? Como assim?…”, verbalizou o próprio pensamento. Apesar de não aprovar este “mau” hábito da namorada, nunca implicou demais pois sabia que Quinn Fabray sem comer bacon não seria Quinn Fabray! Meneou a cabeça. Aliás, a essa altura do campeonato, qual era a relevância disso?
Entrou para o quarto e se deparou com o filho adormecido.
Caminhou até a cama, sentou com cuidado e debruçou sobre ele. Observou-o. Era tão lindo e tão puro! E, sem nenhuma razão aparente, a imagem de Quinn lhe veio. Estaria ela adormecida na tranquilidade de um sono reparador, que lhe trouxesse bons sonhos? Estaria ela com a mesma paz de espírito que o seu menino aproveitava?
Beijou-o e afagou-lhe os cabelos lisos como os dela.
Suspirou e pensou na proposta de Holmes sobre o almoço. Não estava com ânimo, porém – talvez – pudesse conversar mais com ele sobre Quinn e descobrir mais coisas de sua esposa.
Beijou outra vez o filho e percebeu que ele não acordaria por agora. Ergueu-se da cama e saiu do quarto. Fechou a porta atrás de si e caminhou até alcançar a porta da suíte de Quinn. Estancou ali e observou. Holmes teria passado por ali e visto se ela ainda descansava?
Escorregou a mão pela madeira até chegar a maçaneta, desejando ter a coragem necessário para abrir a porta e verificar a esposa pessoalmente. A dor teria cedido? Havia cerca de duas horas desde que as coisas aconteceram…
Aproximou-se e colou o ouvido na porta e tentou escutar algum som.
Quase caiu quando a porta se abriu e perdeu o equilíbrio.
Não foi ao chão porque braços a sustentaram e ergueram.
Seus olhos cruzaram com os verdes que a miravam divertidos.
“E-Eu só queria saber se você estava… Bem e eu… Eu sei que isso foi embaraçoso e peço que me desculpe, porque eu não tenho a intenção de que volte a acontecer e…”.
Rachel se calou no momento em que foi literalmente puxada para dentro do quarto e escutou, atordoada, aporta se fechar e sentiu-se ser encostada a ela com o corpo de Quinn espremendo-a ali.
“Por que está me explicando tantas coisas?”, a loira questionou, passeando os olhos sobre a face dela.
Ok. Rachel agora ficou um pouco atrapalhada.
“Quinn?”. Certo… Chamá-la pelo próprio nome não foi inteligente. Ela era Quinn consciente ou inconsciente…
A loira franziu o cenho.
“Você está bem, Rach?”, questionou, roçando o nariz no da morena.
“Eu realmente ainda não sei…”, murmurou meio zonza por sentir o calor da respiração da loira perto de sua boca. Porém, ainda conseguiu perguntar:
“Como está a dor de cabeça? Muito forte ainda?”,
Quinn segurou a face dela entre as mãos e mirando-a com delicadeza respondeu, num murmúrio rouco:
“Dor de cabeça?”, sorriu com encantamento, “não… Eu não estou mais com dor de cabeça…”, afagou-lhe uma das faces.
Rachel sentiu o ar lhe faltar. Era a mesma Quinn do dia anterior e do breve momento no café da manhã?
“Você disse que estaria ao meu lado quando eu acordasse”, a loira observou.
A judia sentiu que seria possível que a violência com a qual o seu coração batia agora pudesse matá-la repentinamente. Estava, de novo, com a sua Quinn!
E deveria chamar por Holmes…
“Isso é tão injusto…”, murmurou, triste.
A loira pareceu não escutá-la e prendeu o lábio inferior da morena entre os próprios e o chupou devagar.
Todos os centros nervosos, vivos e mortos, de Rachel responderam ao contato. As borboletas e mariposas revoaram dentro do estômago. Sentiu-se amolecer e entreabriu os lábios para deixar que a loira fizesse o que desejasse. E ela fez! Quinn a beijou apaixonada e cheia de ânsia. A língua, de início tímida, penetrou a boca judia e roçou de leve a língua morna que a aguardava. E então as bocas começaram a se mover com sincronia e prazer. O ritmo foi se tornando mais faminto e, aos poucos, foi amainando. Devagar, a cheerleader deixou os lábios da pequena e não desviou os olhos dela. Murmurou:
“Eu amo você, Rach”, confessou antes de tomar novamente os lábios morenos entre os próprios e mergulhar a língua neles.
Rachel gemeu e enlaçou o pescoço da loira.
Sabia que estava errada. Toda errada! Mas era só daquela vez! Só um beijo a mais! Um pequeno instante, um ínfimo de milésimo de segundo perto de sua Quinn e seria um pouco mais feliz, mesmo que ela – Quinn – não se recordasse depois.
A cheerleader passou os braços pela cintura dela e a puxou mais. Aprofundou mais o beijo e as duas bocas, tão conhecedoras uma da outra, voltaram a se mover num balé doce e sensual.
Rachel sentiu que a excitação de seu corpo estava aumentando cada vez mais. Sua mente dizia que deveria parar. Mas a sua carne gritava para que os afagos de Quinn fossem adiante. Que suas peles se encontrassem. Que suas bocas passeassem por seus corpos, provando-as inteiras.
Quinn estancou o beijo em busca de oxigênio.
“Eu quero tanto você…”, murmurou, a voz ainda mais rouca pelo desejo que ardia nos olhos verdes agora muito escuros por causa da pupila dilatada, que entregava o quanto o desejar de Quinn não era sereno.
Antes que pudesse proferir qualquer palavra, Rachel sentiu sua boca ser outra vez assaltada pela da loira, que a puxou e a fez andar, de costas e devagar, para algum lugar naquele quarto que exalava à loira. Quando suas pernas tocaram a cama, caiu para trás, com a ajuda de Quinn, que lhe deu um leve empurrão antes de subir sobre ela devagar e encará-la.
“Diz que é minha”, pediu.
Rachel quis sumir. Como esta Quinn poderia querê-la tanto enquanto a outra apenas a rechaçava e se dizia incapaz de amar? Aliás, não sabia como ainda era capaz de ter questionamentos coerentes com a loira lhe passeando as mãos sem o menor pudor pelo seu tronco, enquanto retomava o beijo.
Retesou-se quando sentiu o quadril da loira se mover sobre o seu.
Abriu os olhos de par em par. Não poderia seguir… Precisava parar Quinn!
Quando ergueu os braços para empurrá-la com delicadeza, ela os segurou e os prendeu sobre a sua cabeça.
Gemeu:
“Quinn…”.
A loira a fitou e encostou suas testas. A respiração entrecortada. Insistiu, rouquíssima:
“Eu quero você, Rachel! Você é minha”, roçou a boca sobre a face morena. Chegou até o ouvido dela e repetiu, com a voz entornando querer:
“Você é minha”.
Rachel era humana. E amava e desejava Quinn que, neste momento, estava sobre ela, moendo lentamente o sexo contra o dela. Saudável, seu corpo reagiu e ficou muito molhada. Era uma tortura! Se não conseguisse sair dali, cederia…
“Q…”, falar estava sendo muito difícil.
A loira a mirou e sorriu, enamorada. Murmurou:
“Can anybody find me somebody to love… Each morning I get up I die a little…”.
A voz desafinada e enferrujada de Quinn apertou o coração da judia.
“Quinnie… Você já tem a mim…”, sussurrou, “você não precisa encontrar alguém para amar ou lhe amar. Eu amo você”.
“Então faça amor comigo”, pediu e beijou a testa da morena.
Cristo! Era o que Rachel mais queria. Entretanto, não podia…
“Eu tenho… Teatro daqui a pouco”, resfolegou a mentira, enquanto a boca da loira beijou a ponte de seu nariz, depois a ponta deste e, por fim, os lábios de maneira lenta e deliciosamente excitante. Quinn beijava tão bem! Suas bocas se encaixavam a perfeição. Foram feitas uma para a outra.
Sentiu a mão da loira escorregar por sua coxa. Reprimiu um gemido. O sexo latejou com tanto vigor que sentiu doer.
“Você é tão linda, Rach”, sussurrou com a boca sobre a da morena, que se reprimia enquanto a esposa confusa satisfazia sua necessidade tátil da pele dela.
“Quinn!… Eu tenho peça…”, quase suplicou.
“E eu tenho fome de você”, rebateu com um sorriso enamorado, “muita fome de você! É como se eu não lhe tivesse há muito tempo”.
A judia sentiu a mão da esposa sair da sua perna e parar sobre a sua face, acariciando-a com enamoramento.
Rachel há muito não rezava. E achou por bem voltar a fazer isso. Agora, precisava de um milagre que fizesse Holmes ou Agatha abrir a porta do quarto e tirá-la dali. Porque não se sentia forte o bastante para isso! Era cruel ter a pessoa que se ama e necessitar inventar uma desculpa para não ficar perto dela. Se resistisse agora, como seria das outras vezes? E se Quinn achasse que não a amava? Que não queria os toques dela sobre seu corpo? A última coisa que desejava, agora, era magoar sua Quinn! Sua doce namorada que desaparecia dentro da mente cheia de espaços em branco de uma Quinn sem emoção e apego.
“Quinn, eu tenho peça”, soltou os braços que ela ainda segurava sobre a cabeça e sentou com a namorada sem sair de cima. “Eu a quero tanto… Mas eu preciso ir agora…”.
Sentiu a loira aproximar os lábios de sua orelha e respirar ali, antes de falar:
“Falte hoje… Eu sei que você já deve conhecer o seu texto e todas as músicas de trás para frente e de frente para trás…”.
O hálito de Quinn em sua pele a arrepiou inteira e estava tornando a situação ainda mais difícil para a cantora. E quando ela voltou a mexer o quadril sobre ela, não conseguiu sufocar o gemido de desejo.
“Vê? Você me quer tanto quanto eu quero você, Rach… Faça amor comigo… Deixe eu ter você”, pediu.
“Quinn…”, segurou-lhe a face e a mirou. “Você é o meu amor”, confessou e a puxou gentilmente para um beijo casto. “Mas se eu não for ao ensaio…”, beijou outra vez os lábios da loira, “eu ficarei neurótica. Você conhece a minha mania de perfeição…”, afagou-a na cara bonita.
“Eu prometo aliviá-la de toda a neurose…”, murmurou, com um sorriso saliente nos lábios.
Rachel não teve resposta. Menos ainda quando sentiu-se tomada novamente pela boca da loira, que lhe segurava a face para que não lhe escapasse e voltava a se mover devagar sobre seu ventre, de maneira que o desejo só aumentava. Quando Quinn resfolegou um gemido de puro tesão sentiu que teria de ficar de molho em uma banheira cheia cubos de gelo…
“Quinnie…”, conseguiu chamar entre o beijo.
“Uhum…”.
Cristo, se ela não parasse, gozaria.
“Quinn, meu amor”, afastou-a como se arrancasse uma parte de si mesma, “eu prometo que faremos amor quantas vezes você quiser quando eu voltar…”, respirar era difícil, “mas eu realmente preciso ir agora…”.
“Você promete? Você vai voltar?”.
A pergunta insegura de Quinn foi como uma facada no peito cantora, justo sobre o coração, que encolheu.
“Vou… Até que você diga que não me quer mais”, sussurrou, esforçando-se para não se atirar sobre a loira e fazer amor com ela e para não deixar escapulir as lágrimas que começavam a lhe fustigar os olhos.
Observou a loira fechar os próprios, roubando-lhe o verde profundo que a encantava, e encostar sua face esquerda na direita dela. Falou:
“Eu sempre vou querer você, Rachel Barbra Berry! E apenas você”.
A judia a acolheu num abraço que a prendeu e cada uma descansou o rosto no ombro da outra.
“Para sempre?”, perguntou.
Sentiu o sorriso da loira e como ela roçou o nariz e lhe sentiu o cheiro antes de responder:
“Para sempre!”, garantiu.
A cantora achou pertinente questionar, ainda que a resposta não fosse nenhuma garantia:
“Você ainda estará aqui quando eu voltar?”.
“Sempre estarei”, prometeu.
Rachel ergueu o rosto e a loira a imitou.
Seus olhares se aprisionaram.
A judia buscou dentro do mar verde uma ponta da Quinn fria e sem coração. E não encontrou. E, embora desejasse do fundo d'alma que sua Quinn não sumisse, temeu o fato de a Quinn que a chantageou e era intragável não retornasse. Temeu porque não sabia até onde o que acontecia agora era bom ou ruim para a ex-namorada.
“Beije-me uma vez mais”, pediu, como se nunca mais fosse tornar a ver sua namorada, a Quinn que quis se casar com ela.
Observou com atenção a face pálida e de traços bonitos se aproximar. As respirações se misturaram. A boca de Quinn encaixou na dela. A língua gentil pediu passagem concedida sem cerimônia ou burocracia. Deixou-se beijar e beijou. Aproveitou cada instante, na tentativa desesperada de plasmar o momento para sempre em sua mente que, ao contrário da de Quinn, não sublimaria o que acontecia entre elas.
Afastaram-se. As respirações agitadas. Devagar, Quinn saiu de cima dela, fazendo-a ter uma desagradável sensação de abandono.
“Tentarei não demorar…”, murmurou, pensando que seria bom passar uma segurança que não possuía para a namorada.
Quinn não respondeu.
“Não quer se deitar?”, perguntou, erguendo-se devagar.
“Não… Estou com vontade de você…”, confessou a loira.
“Não faça assim, Quinnie!”, implorou e segurou a face da loira outra vez e deu-lhe um beijo estalado nos lábios. “Eu só vou até ali”, sorriu com necessidade de chorar. Manteve-se firme com vontade de se entregar.
Retirou-se com a dificuldade de quem precisava ficar.
Saiu do quarto sem olhar para trás ou fraquejaria. Fechou a porta atrás de si e se encostou nela. Respirou fundo, segurando as lágrimas que queriam transbordar e lhe salgar a face e arrancar o gosto doce dos beijos de Quinn de sua boca. Não poderia permitir, porque não sabia se voltaria a senti-los assim, tão puros e apaixonados, como deveria ter sido.
“Como deveria ser…”, murmurou e passou os dedos sobre os lábios ainda inchados e quentes pelo atrito com os da esposa.
§§
Rachel entrou na copa e deu com Holmes que acabava de colocar o fone do aparelho fixo à parede no gancho e a mirou com olhar grave.
“O que foi?”, perguntou, ainda atordoada pelo que aconteceu há pouco no quarto de Quinn.
“Era Maria”, ele anunciou.
A morena ficou em alerta.
“Maria? Aconteceu alguma coisa?”, indagou apreensiva.
“Parece que a Dra. Lopez e a esposa estão no seu apartamento”.
“Oh!”, exclamou, sem saber bem o que fazer. Santana não sabia do casamento…
“Ela sabe que estou aqui há três dias?”.
“Creio que Maria foi discreta”, procurou tranquilizá-la.
A cantora piscou algumas vezes. Passou a mão pela testa. O que deveria fazer?
Voltou o olhar para os do cuidador.
“O que eu faço?”, inquiriu totalmente perdida.
Estremeceu quando ouviu a voz serena e brincalhona atrás de si:
“Ora! Iremos até lá! Há algum tempo que não vejo a Lopez. Adoro quando ela perde a paciência”.
A judia se voltou e olhou a esposa.
Por Barbra! Onde foi parar a Quinn amorosa de há pouco?
“Metade da minha vida está escrita nas páginas de um livro
Vivi e aprendi com tolos e sábios
Você conhece a verdade
Todas as coisas voltam para você
Cante comigo, cante pelos anos
Cante pelas gargalhadas, cante pelas lágrimas
Cante comigo, talvez seja só por hoje
Talvez amanhã o bom Deus leve você
Leve-me embora”.
— Dream On por Glee Cast -
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