Sine Cordi
61 CAPÍTULO 61 - סא
“Guardai-vos, que o vosso coração não se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos inclineis perante eles”.
– Deuteronômio 11:16 -
Quinn lhe segurou a mão com uma ansiedade visível. Elas haviam conversado muito sobre o lugar em que morariam após o casamento. Rachel vivia numa luxuosa cobertura perto da Broadway. Ia a pé para o trabalho!
Quinn sempre morou em Upper West Side. Ficava perto do Central Park e a loira adorava passar os fins de tarde nele, entre as crianças. Por que não consentir um prazer às duas? Ela, Rachel, também amava o Central Park! Embora amasse mais ver a namorada espalhada entre as crianças, como se fosse uma delas. Seria uma mãe que, certamente, serviria de cavalinho para os filhos e jogaria videogame com eles. Era o perfil de Quinn Fabray!
A cobertura na Townhouse Apartment era maravilhosa! Quinn vigiou a corretora por dias e espantou possíveis compradores quando pode, a fim de evitar a “concorrência”.
“As vezes, eu acho que me casarei com uma louca”, comentou, brincalhona.
A loira a fitou. Ergueu a sobrancelha direita.
“Só porque eu espantei alguns curiosos que tentaram usurpar o nosso castelo? Você faz muito mal juízo de mim, Lady Berry…”, a voz saiu empostada e engraçada.
Rachel riu e fitou a namorada.
“Deus! Eu amo tanto você, Quinn!”, aproximou-se da loira e enlaçou o pescoço dela com os braços e ficou na ponta dos pés, “Você poderia, por favor, fazer duas gentilezas para mim? A primeira, é usar botas de saltos mais baixos…”, ronronou.
Os olhos verdes a miraram expectantes.
“E qual seria a segunda gentileza?”, perguntou, curiosa.
“Abaixar um pouco o rosto para que eu possa beijar a sua boca”, respondeu.
A loira não esperava pela ordem da namorada.
Piscou algumas vezes e, antes de ordenar os pensamentos, viu-se puxada pelas mãos de Rachel, que lhe reclamou os lábios.
Retribuiu.
“Rachel…”, falou, entre respirações para capturar o máximo de oxigênio possível, “se esta for a sua reação sempre que entrarmos nesta cobertura…”, foi encostada na parede e sentiu a judia se amalgamar ao corpo.
Santo dos Santos!… Isso é muito bom…, pensou, enquanto se deixava devorar pela baixinha cheia de surpresas e rompantes inacreditáveis.
“Eu assinarei amanhã com a imobiliária…”, tratou de avisar.
Rachel a arrastou até o chão.
Foi a primeira e única vez que fizeram amor ali.
“Srta. Berry”, a voz de Holmes a trouxe de volta. “Tudo bem?”.
Ela não sabia o que dizer.
Estava atordoada.
Quais eram as chances de Quinn comprar o lugar em que morariam se não se lembrava?
“Senhorita…”, Holmes a chamou outra vez.
Ela o mirou.
“Algum problema?”, o homem estava preocupado.
Rachel ainda não sabia o que dizer.
E, anestesiada pelo impacto de mil perguntas que lhe rondavam a cabeça nesse exato instante, deixou-se levar (sob o olhar compenetrado de Marco) por um atencioso Holmes.
Ela olhou o foyer já conhecido. Nada foi mudado. Ainda era ostentoso e bonito aos olhos.
“Por aqui, senhorita”, Holmes a encaminhou até o elevador que os esperava.
Ela teve uma sensação de déjà-vu.
Olhou para o homem que a acompanhava em silenciosa atenção.
“Como ela está?”, perguntou, preocupada.
“Melhor…”, ele verbalizou.
Ela não sabia se perguntava para ele há quanto tempo Quinn vivia naquele endereço. Ele saberia?
“Holmes…”, a voz saiu inesperadamente segura, “há quanto tempo está com a Quinn?”, perguntou.
“Desde que ela se acidentou. Eu acompanhei toda a reabilitação dela e, como ela nunca se lembrou, eu passei a fazer parte da vida dela de maneira natural. Porém, há coisas sobre ela que não sei. São fatos que dizem respeito à família, apenas”, explicou.
“Quando ela veio morar aqui?”, precisava saber…
“Desde que recebeu alta da reabilitação e se tornou senhora de si novamente. Parece que a cobertura já estava comprada… Então, ela só mudou”, informou.
“Já estava comprada?”, esta informação, além de pegar Rachel de surpresa (as duas decidiram que comprariam juntas e seria o presente de casamento que estavam dando a si mesmas), “Quinn a comprou como presente de casamento… Ia ser uma surpresa…”, (sentiu o coração estreitar dentro do peito ao se dar conta do fato anos depois) derrubou algumas de suas teorias. O fato de Quinn morar ali foi apenas por praticidade. Ela já possuía o imóvel, então, por que não habitá-lo? “Nem tudo é por sua causa, Rachel Berry”, murmurou para si mesma o que Santana e Quinn costumavam dizer quando estava estressada por algum fato ou situação.
“Ela nunca questionou a razão de ter comprado a cobertura?”, esta era uma pergunta relevante.
“Não… Na verdade, a senhora Fabray…”, ele começou a falar, mas Rachel exclamou, calando-o:
“Judy!”.
“Sim…”, o homem assentiu, “ela contou para a senhorita que a cobertura foi adquirida a fim de investimento”.
Rachel sentiu o ar lhe faltar. Judy sabia que o apartamento seria comprado para elas viverem após o casamento… Ela visitou o lugar e adorou!
“Judith Fabray deve me odiar…”, murmurou.
Holmes não entendeu o comentário. E não se esforçou para isso.
Conforme o elevador avançava em ascendência até o lugar que, um dia, quase foi o seu castelo, sentiu o coração apertar.
Como encontraria Quinn? Ela estaria muito abatida pela crise? Estaria frágil?
“Holmes…”, chamou o homem novamente, sentindo o coração dar rateadas dentro do peito, “Quinn está muito frágil?”, necessitava saber! Necessitava saber tantas coisas sobre a saúde da mulher que a receberia e pela qual nutria um sentimento que conhecia como amor. E, apesar dos encontros que tiveram, nunca conseguiu saber realmente muito sobre ela. Quinn até lhe contou… Mas não foi profunda o bastante! Na verdade, tocar em tal tema a deixou em transparente incômodo. Quinn não gostava de falar de suas limitações físicas… De suas fraquezas.
Também conversou bastante com papai LeRoy… Ele a ajudou muito, apesar das várias possibilidades que ele apontou e meio que a confundiram um pouco. Mas, uma, de seu pai Hiram, ficou. Foi quando ele disse que Quinn seria intocável… Precisava ter isso em mente para conseguir lidar com ela. Afinal, era realmente chocante mirá-la e dar de cara com uma expressão de indiferença homérica. Então, precisava se preparar psicologicamente para isso! Ou não sobreviveria! Quinn era muito intensa! E, agora, ainda descobria que ela morava no castelo que comprariam juntas. O castelo que ela adquiriu sozinha, a fim de presenteá-la…
Suspirou.
Descobrir atos românticos da pessoa que você traiu alguns anos após a infidelidade não é um sentimento muito bom. Você se sente culpado. De uma maneira indescritível. Você se sente o resto, porque conseguiu trair essa pessoa com outra…
Com outra a quem amou, também…
Era pecado amar duas pessoas ao mesmo tempo? Era impossível?
Deus! Por que estava se perguntando isso? Por que estava tão nervosa? Só encontraria com Quinn… Conhecia Quinn. Sabia lidar com ela… Amava Quinn. Precisava saber lidar com ela, sem que isso lhe deixasse com os nervos em frangalhos, como acontecia agora…
Como se percebesse o incômodo da diva, o cuidador avisou, amigável:
“Apenas seja você mesma, Srta. Berry. E não se espante se alguma coisa lhe parecer ‘excêntrica’ demais”, sorriu, acolhedor.
Rachel quis saber interpretar o significado de “excêntrica” naquele contexto…
“O que quer dizer com isso?”, achou melhor não rodear muito e ir direto ao ponto.
“Quero dizer que a Srta. Fabray pode, talvez, ficar um pouco confusa e lhe fazer a mesma pergunta várias vezes…”.
“Isso é sério?”, ela estava ficando realmente alarmada.
“Apenas uma hipótese, senhorita”, ele respondeu, muito tranquilo, “para servir como um panorama do que pode acontecer… Nada para se preocupar”, acrescentou.
A cantora o mirou com visível desconfiança.
“Está tentando me espantar?”, indagou.
Holmes piscou algumas vezes e se empertigou.
Meneou a cabeça em negativa, antes de verbalizar:
“Não, senhorita. Apenas protegendo a Srta. Fabray. E lhe dando a chance de, se achar que não pode lidar com ela, voltar e não aparecer mais. Eu saberei exatamente o que dizer a ela, sem causar nenhuma decepção ou, mesmo, irritação dela para com a sua pessoa. Perguntou sobre a saúde dela… Esta é a saúde dela”, foi sincero.
Rachel rezou. Precisava de força naquele momento. Nunca pensou que haveria tantas muralhas, além das que a própria Quinn já havia imposto, que tentariam lhe obstruir o caminho até a loira.
Sorriu, incrédula.
“Eu… Eu realmente…”, olhou nos olhos do cuidador, “não posso acreditar no que estou ouvindo porque… É muito louco e tão cruel! Parece que a Quinn é insana e… E que não sabe o que faz! E ela é só um ser humano! E eu, embora e apesar de todas as dúvidas, amo aquela mulher! E quero estar ao lado dela”, falou, firme.
Holmes assentiu.
Nenhuma palavra mais foi proferida.
A respiração ofegante de Rachel Berry era escutada, retumbando pelas paredes do retângulo que estava há pouco de chegar ao seu destino.
O coração dela só não batia mais rápido que o do Beija-Flor…
A respiração era curta, quase ofegante.
Nunca pensou que uma pequena subida de elevador lhe pareceria tão longa. Parecia que estava num voo de Nova York para Ohio, em meio as trepidações causadas pela turbulência que, sem nenhuma sombra de dúvida, nesse contexto, levava o nome de Quinn Fabray. Talvez, por causa da unanimidade de opiniões e pareceres, Quinn fosse mesmo alguém complicada de lidar. Talvez ela fosse mesmo incapaz de sentir… Porém, não seria justo que ela mesma, Rachel, pudesse julgar isso por si mesma? Recolheu todos os avisos, colocou atenção e meditou sobre cada um. Estava preparada? Não. Quem está preparado, realmente, para as escolhas feitas na vida? A escolha até pode parecer a melhor e mais segura naquele momento. Entretanto e muito provavelmente, depois de algum tempo, você pensa se aquele foi o melhor caminho que tomou, em meio às opções que você tinha antes. Sempre haverá um “e se…”. Algumas pessoas até mudam o estilo de vida após se depararem com esta pergunta. Rachel estava a passos, ou andares, de fazer o mesmo.
Só que ela ainda não sabia.
E por que ela saberia?
Era apenas uma visita a Quinn Fabray!
Mesmo com toda a coisa estranha de ela morar na Townhouse Apartment… Ainda era só uma visita! O que de mal poderia sair de algo tão simples assim?
A porta do elevador abriu tão logo estancou na cobertura. Ele dava direto dentro do lobby do lar de Quinn Fabray.
Era lindo!
Holmes a encaminhou até a sala de estar.
A decoração não tinha nada em comum com os planos que fizeram à época. Era completamente diferente… Sóbria e elegante. Como a Quinn advogada era. Sóbria e elegante.
“Ela está no escritório… Tem trabalhado, mesmo que não seja bom para ela…”, comentou e pediu licença, caminhando para a porta de correr que, Rachel sabia, daria no cômodo citado pelo homem.
Respirou fundo e olhou ao redor.
Era tão diferente do que sonharam juntas…
Era tão complexo.
Ao mesmo tempo em que era o lugar que escolheram, nada tinha em comum com o local que sonharam juntas, que idealizaram. Sentiu-se como numa realidade alternativa… E essa sensação era estranha.
“Rachel”.
A voz feminina e delicada, embora altiva, trouxe-a para o agora.
Vislumbrou Quinn.
E se assustou.
Ela estava tão magra e abatida! Parecia tão doente…
“Quinn?”, queria ter certeza de que seus olhos não a enganavam.
“Eu sei que pareço um pouco débil, mas não leve em consideração esta aparência… Eu estou bem. Daqui a alguns dias estarei mais…”, pensou numa palavra e sorriu, “apresentável”.
“Não… Você é linda! Eu só não estava preparada para vê-la mais… Magra e…”.
“Entendi”, cortou-a, sabendo que aquela falta de palavras da cantora poderia, como num ato de magia, transformar-se num monólogo extenso.
A cantora a mirou. Ela vestia um legante sobretudo sobre pijamas. Achou engraçado. Quinn era sempre tão elegante… Claro, se ela fechasse o casaco e colocasse botas ou outro sapato, seria difícil saber que ela usava roupas de dormir por baixo. Porém, ainda assim era engraçado… Lembrou-lhe a Quinn que namorou. Ela tinha essa mania. Vestir trench coat por sobre os pijamas e sair para comprar café… Ou ir buscá-la no final da apresentação de algum musical.
“Como você está?”, perguntou primeiro, fitando a loira que lhe tinha os olhos pregados em cima.
“Bem…”, respondeu e analisou a cantora. “Você também parece abatida…”, comentou.
“Eu estou melhor…”, assegurou.
A advogada se aproximou, estudando-a.
Estancou há alguns passos de distância e perguntou, daquele jeito esvaziado de emoção que Rachel já estava a se acostumar:
“Ainda dói?”, e diante do olhar confuso da atriz, acrescentou ao questionamento, “a morte do seu marido. Ainda dói?”.
Rachel pensou que a ex-namorada evitaria este assunto. Mas, pelo visto, ela parecia interessada.
“Dói, Quinn! Parece que foi ontem e…”.
“Entendo”, cortou-a de novo e deu um sorriso. Pegou-lhe da mão e sentiu o quão fria estava, em oposição a sua, quase febril, “está nervosa, Rach-Rach?”.
A atriz meneou a cabeça. Odiava quando a ex-namorada a chamava da mesma maneira que Jesse! Ela parecia escarnecer…
“Quinn, por gentileza, não me chame de Rach-Rach”, olhou-a nos olhos verdes.
“Por quê?”, aproximou-se e parou em frente a morena, tomando-lhe a face entre as mãos e mergulhando os olhos nos dela, como se pudesse ler a alma da judia.
A maneira como Quinn lhe fixou os olhos foi tão intensa que incomodou Rachel, que desviou os olhos.
“Olhe para mim, Rachel”, pediu, baixo.
A cantora engoliu a saliva que não tinha e fitou-a.
“Minhas condolências”, sussurrou.
Rachel assentiu, enquanto o peito lhe ardia como se a loira lhe tivesse cravado uma faca. A voz dela saiu tão desprovida de sentimento! Não conseguiu conter a pergunta:
“Por quê, Quinn?”.
A loira, que havia soltado o rosto dela e dados um passo atrás, quebrando a proximidade, não compreendeu a indagação.
A cantora acrescentou:
“Por que me dá condolências se, na verdade, você não se importa se Jesse está vivo ou morto?”.
A advogada respondeu, inabalável pelo comentário ressentido de sua visitante:
“Eu realmente dou a devida importância ao fato de Jesse não estar mais entre nós. Não sou, realmente, capaz de mensurar ou imaginar a sua dor… Mas…”, correu o olhar por ela, averiguando-a, “Acho que está doendo muito a ausência dele para você”.
A cantora respirou fundo.
Quinn, apesar de Rachel saber que ainda era mesma com quem lidou no colégio, conseguiu chocá-la. Pelo menos, estava assim: pasmada diante da sinceridade dela. Não por ela ser sincera, mas por soar fria e dar um ar de banalidade ao tema. Estes eram os adendos no comportamento ou tom de voz que definiam a maneira como as palavras eram sentidas e tomadas por quem as escutava.
Foi assim que Rachel as tomou.
Estava mais sensível?
A incapacidade de Quinn a estava deixando mais fragilizada?
“Vamos até o escritório? Eu estou fechando um caso…”, comentou sobre o fato de chamá-la não para a sala de estar.
“Eu vim em má hora?”, perguntou um pouco decepcionada.
“Não! Você foi perfeita!”, exclamou e esticou a mão para a morena.
Rachel se perguntou se a tomava ou não.
Que significado teria se tomasse a mão de Quinn?
Lembrou-se de Jesse… Ele não confiaria muito…
“Rachel?”, a loira a chamou e tomou-lhe da mão, levando-a com ela. “Nós não vamos para outro país! Só iremos ao escritório…”, avisou, a fim de tirar aquela expressão insegura da face da cantora.
A judia olhou ao redor do escritório, que parecia uma refinada biblioteca, com as estantes altas e escada de correr para que os livros dispostos nos locais mais altos pudessem ser pegos.
“Uau!”, exclamou. Aquilo era grandioso e completamente distinto do que pensou.
“Você usou todo o espaço!”, estancou no meio do recinto e virou o corpo, olhando-o com atenção.
A loira lhe soltou a mão e a observou, atenta.
“Este sempre foi um dos maiores cômodos…”, sorriu e parou os olhos sobre a loira. Emudeceu e olhou outra vez ao redor. Explicou:
“Eu já estive aqui antes”.
Quinn sorriu, meneou a cabeça e foi se colocar atrás da escrivaninha, sentando na sua confortável cadeira. Abriu a caixa onde ficavam as cigarrilhas, pegou uma e levou aos lábios.
“Você não vai acender isso!”, Rachel arregalou os olhos.
A loira a encarou sem entender.
“Isso faz mal a saúde! E a sua não é das melhores”, e arrancou-a dos lábios da advogada e a jogou dentro da caixa de madeira, fechando-a.
“Isso foi… Inesperado”, Quinn comentou.
Então a judia se deu conta do que fez. Mas não daria marcha atrás…
“Você deveria se cuidar mais”, avisou e, mesmo sem ser convidada, sentou na cadeira que ficava de frente para a loira e a fitou.
“Eu me cuido, Rachel”, achou por bem esclarecer.
“Então, deveria se cuidar mais”, teimou.
“Eu não vou deixar de fumar minhas cigarrilhas porque você não acha saudável”, informou.
A cantora pensou que tais palavras mereciam uma posição mais firme de sua parte, porém, ela e Quinn estavam apenas começando a estreitar laços. Não tinha o direito de se meter no que fosse sobre ela.
“Desculpe. Eu não quis parecer grosseira…”, falou.
A advogada assentiu.
Mas não tocou na caixa onde ficavam as cigarrilhas.
A loira colocou uma pasta de arquivo diante de si na mesa e fitou a morena. Recostou-se no espaldar da cadeira e perguntou:
“O que prefere beber? Chá? Café? Suco?… Algo alcoólico?”.
“Eu…”.
“Na verdade, Rachel, eu pensei que chá seria interessante, embora eu não vá dispensar o café. E você?”.
Rachel não tinha muita certeza. Ela, na verdade, não conseguia concluir muito seus pensamentos, pois Quinn não deixava.
“Você está bem? As dores melhoraram”, a voz saiu atenta e doce.
“Eu acho que já lhe respondi que sim. Eu estou bem. Sem dores…”, inclinou um pouco o rosto e esquadrinhou a face da judia antes de inquirir, “e você? A sua dor melhorou ou ainda lhe incomoda”.
A cantora respirou fundo. A ex-namorada se referia à morte de Jesse.
Não queria falar sobre esse assunto agora…
“Este é o tipo de dor que demora mais para passar, não é mesmo, Rachel?”.
A judia a mirou.
Olhos chocolate nos olhos verdes.
Havia um lampejo de diversão nos olhos claros? Foi realmente isso o que Rachel viu?
“Ainda dói…”, avisou, pois – se houvesse qualquer mal entendido entre as duas – este seria desfeito de imediato, “porque eu amo o Jesse ainda, Quinn. Ele foi meu melhor amigo… Não posso dizer que foi o marido que eu quis, mas havia um lado dele que compensou as falhas”, foi sincera.
A loira assentiu.
“Lembra de algo que se relacione a dor emocional, Quinn?”, questionou, dolorida pela postura de pouco-caso da advogada diante de um tema que lhe era muito sensível ainda.
A advogada meneou a cabeça e pareceu pensar.
Sorriu.
“Aham…”.
“Mesmo?”, o tom de voz de Rachel saiu incrédulo.
A advogada assentiu e respondeu, tranquila:
“Quando tentei me matar por sua causa”.
Rachel perdeu a cor.
Quinn continuou:
“Sabe qual é a graça dessa situação, Rach-Rach? Eu tentei morrer, mas o Jesse… Ele realmente conseguiu!”.
Rachel sentiu-se marear.
“Esperar menos não significa desistir. Antes se surpreender, do que se decepcionar.”
– Clarice Lispector -
CONTINUA.
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