Sine Cordi

59 CAPÍTULO 59 - ןט


Quando não tinha nada, eu quis

Quando tudo era ausência, esperei

Quando tive frio, tremi

Quando tive coragem, liguei”.

– Chico César em À Primeira Vista

Alex seguiu Maria até a sala de estar da enorme cobertura de Rachel Berry. Mas não se impressionou. A sua era de igual tamanho e a de Quinn era maior… A de Quinn era uma mansão incrustada no alto de um arranha-céu!

Quinn… Por que não conseguia parar de pensar nela e no quanto estava à beira de um colapso nervoso?

Foi recebida por uma Rachel com o filho no colo e os pais desta, muito simpáticos. Gostou de conhecê-los.

Gostou mais ainda quando pegaram o neto e se retiraram, deixando-as para a conversa que carecia ser colocada às claras.

Rachel se mexeu no sofá, desconfortável.

Alex a observava. Percebeu que ela estava pouco à vontade.

“Como… Como ela está?”, murmurou a judia, sobre Quinn.

A editora suspirou e desviou o rosto, mirando o vazio.

“Não está bem, Rachel”, falou e voltou os olhos azuis para ela.

“Eu… Eu sei que eu a beijei e que não foi a coisa mais certa, quer dizer, para mim foi certo, mas eu sei que para ela não foi, porque ela parece ter muito respeito pela relação que mantém com você, então não a culpe por uma atitude que eu…”.

“Ela vai se perder!”, falou e estancou o disparar de palavras de Rachel.

“Como?”, piscou, atordoada.

“Quinn não se lembrou porque, provavelmente, Rachel, a traição foi demais para ela. Talvez a amnésia tenha sido uma bênção, eu realmente não sei. Mas eu sei o que estou vendo! Ela está com mudanças de humor cada vez mais frequentes, ela está tendo pesadelos e ausências em quantidades maiores. A mente dela está lutando para protegê-la, enquanto você a convida a – juntas – tentarem quebrar a camada de proteção que ela criou contra a dor emocional, que se apresenta como dor física. Você já viu como ela fica após as crises? Como acha que ela ficará quando a razão se quebrar e tudo o que ela tiver trancado dentro sair?”, respirou fundo, “eu imagino que, talvez, você pense que as minhas palavras façam parte de um discurso para lhe afastar da Quinn para que eu e ela possamos continuar juntas. Mas não é”, asseverou com tanta placidez que a cantora quase não duvidou. Continuou:

“Ela, depois do encontro no café, em que eu estive presente, começou a ficar mais curiosa sobre você. Quinn é o tipo de pessoa que você nunca sabe no que ela está pensando. Até que descobre o ponto de interesse dela. Atualmente, Rachel, o ponto de interesse dela é você. O problema entre você e os outros pontos de interesse que ela já teve é que você causa reações que podem levá-la à incoerência total! Eu não sei como ela conseguirá se manter quando a mente dela se abrir e tudo vier aos borbotões! Quinn já fica perdida com pequenos brancos! Eu imagino o que acontecerá quando… Quando ela souber que tentou se matar por sua causa!”.

Os olhos da cantora não saltaram das órbitas porque não quiseram. Havia abertura suficiente para tal, tamanha surpresa dela ao saber que a jornalista tinha conhecimento de que Quinn tentou a morte.

“Como… Como…”, tentou perguntar.

Alex foi mais rápida:

“Como eu sei? Eu sou jornalista, Rachel! Com os contatos certos, sabe-se de tudo! E eu sei o que ela fez por sua causa”.

Rachel meneou a cabeça.

“Desculpe, Alex! Mas eu não vou abrir mão da Quinn”, garantiu.

“Mesmo que isso signifique tê-la doente?”, havia incredulidade na voz, “não acha isso muito egoísta?”.

“Eu não sei porque vocês têm tanto medo!”, exclamou, com um riso incrédulo e um pouco cínico, “Santana, Kurt, Blaine e Britt tentam me manter afastada dela, pois ela é perigosa e pode me machucar! Você me quer afastada porque eu posso machucar a Quinn! Em quem eu acredito? Em você? Em Santana? E por que eu não posso saber se Quinn me quer ou não ao lado dela por ela mesma?”.

“E como espera que alguém que não entende porque vem até você, mesmo com o sistema dela dizendo que não, possa lhe dar uma resposta coerente?”, inquiriu, tão mordaz quanto Rachel soube ser.

“Você não tem certeza de nada”, a cantora falou, magoada. “Você não sabe se as crises dela são por minha causa”.

“Sim, eu sei”, a jornalista falou com segurança e muita calma, “desde que ela tentou se matar por sua causa, todas as crises dela são por sua causa”, foi direta. E certeira!

A maneira como as palavras penetraram em Rachel Berry causaram-lhe asco. E uma irritação muito peculiar…

“Pode me acusar! Pode falar o que quiser! Eu sei o que eu fiz e assumo! E estou pagando por isso. Um preço nada barato, diga-se, porque a própria Quinn faz a gentileza de me recordar disso quase sempre. E os demais! Inclusive o meu próprio ex-marido! Eu cansei! Amo Quinn e tenho certeza disso, Alex! E vou lutar por ela”.

“Mesmo que isso signifique perdê-la para sempre?”, perguntou, erguendo-se do sofá em que estava sentada.

Rachel a imitou. Porém, atontada pela pergunta.

“Rachel, eu amo a Quinn. E ela terá de fazer uma escolha. Mas eu não esperarei até que ela faça isso. Eu sairei da vida dela antes… Eu não creio que conseguirei vê-la se destruindo por uma ‘curiosidade’ que a move em sua direção e, também, para o poço escuro da falta de lucidez! Cada vez que ela se aproxima de você, há uma reação física negativa que a abate… Eu não sei o que poderá acontecer, mas eu tenho quase certeza de que ela não suportará as pressões que a convivência com você causam nela de fora para e dentro e, pior, de dentro para fora. Ela vai quebrar. E eu também não sei se você será capaz de recolher os cacos. Eu não sei, Rachel, se eu conseguirei viver com alguém que se perdeu. Eu não consigo conceber a imagem de uma Quinn diferente, de uma Quinn que não seja mais senhora de si mesma… Você consegue?”.

Rachel meneou a cabeça e deu um sorriso amargurado antes de se manifestar:

“Como eu posso saber que esse seu discurso não é o de uma mulher que sabe que a pessoa que a Quinn realmente ama e amou sou eu? Se ela vem até mim, Alex, é porque – mesmo que ainda não se lembre – há algo dentro dela que me quer por perto”.

“Eu não me prestaria a este papel, Rachel. Eu não viria até aqui apenas para um ato tão mesquinho”, defendeu-se, “ao contrário de você, que não respeitou e nem está a respeitar a minha relação com ela e, menos ainda, a fragilidade da Quinn. Você diz que a ama, porém é incapaz de dar um passo atrás e esquecer essa sua fixação em tê-la outra vez mesmo vendo o estado em que ela fica”, argumentou.

“Ela vem até mim porque quer!”, a voz saiu mais alta do que deveria, “e eu a amo, mesmo que você não acredite”.

A jornalista suspirou, incrédula:

“Este seu amor é muito estranho, Rachel! Diz que amou a Q no passado, mas a traiu. Diz que ama a Q no presente e, ainda que veja com os próprios olhos o que a aproximação de vocês causa nela, não busca uma maneira de fazer com que ela não sofra. Você é egoísta demais, Srta. Berry. Sempre escutei de colegas de trabalho o quanto você poderia ser egocêntrica… Mas nunca pensei que realmente fosse. Até agora… Você só pensa em si mesma e em realizar as próprias vontades… Egoísta o bastante para, a fim de satisfazer um desejo caprichoso, passar por cima dos claros sinais de que o resultado dessa aproximação com a Quinn não trará bons frutos. Se apenas você se ferisse nessa teimosia, eu me conformaria. Mas… Não! Você vai querer arrastar a Quinn! Está arrastando-a”.

A cantora negou devagar, com a cabeça, antes de retorquir:

“Se eu, pelo menos, soubesse que há neutralidade em você, Srta. Bishop, talvez eu pudesse até lhe dar ouvidos. Mas… Você está defendendo seus interesses. Você fala o quanto eu sou egoísta. E você? Não é egoísmo vir até aqui e jogar toda a culpa sobre o que acontece com a Quinn sobre mim?”.

“Talvez, Berry, se o seu passado não depusesse contra você. Se o seu relacionamento com o St. James não fosse o mais estranho que já vi”.

“Não fale sobre o que não sabe”, cortou, aborrecida.

Alex se aproximou dela. Os olhos azuis presos nos castanhos, como se quisesse tirá-los fora, literalmente.

“Você pensa que conhece a Quinn… Então, assim como pediu que eu não fale sobre você e o seu esposo e da relação que mantêm, eu lhe avisarei sobre Quinn: você pensa que a conhece…”.

“Eu conheço!”, afirmou.

Alex sorriu.

“Não, Rachel. Você não conhece. Você pensa que conhece. Mas não sabe, realmente, quem ela é”.

“Ela é a mesma Quinn que eu conheci no colegial. Com as mesmas características… Apenas mais acentuadas”, retorquiu, com uma segurança que não sabia de onde apareceu.

“A mesma Quinn que você conheceu…”, falou baixo. Suspirou e avisou: “cuidado, Rachel. Quinn sempre pode lhe surpreender”.

Não houve tempo para uma resposta da cantora.

A jornalista virou-se e saiu, sob o olhar assustado da outra.

“Deus! Por que tem que ser tão difícil?”, Rachel indagou em alto e bom som, com os olhos voltados para cima.

Deixou o corpo cair no sofá, sentado.

Passou a mão trêmula por sobre os lábios e os mordeu, segurando as lágrimas que queriam sair.

“Se eu soubesse que seria assim…”, murmurou para si mesma.

“Rachel?”.

A voz de LeRoy a alcançou e ela o mirou. Ergueu-se e se atirou nos braços do homem.

“Ei! Acalme-se”, ele pediu, envolvendo-a num abraço.

“Papai, eu não sei se suportarei tanta pressão! Eu amo a Quinn e não quero que coisa alguma de mal lhe aconteça, mas para isso eu terei que abrir mão dela?… Eu não quero… Eu não sei se consigo perdê-la outra vez”, chorou.

Roy estreitou mais a filha e beijou-lhe os cabelos.

“Rachel, você só precisa acreditar que será capaz de suportar a pessoa que a Quinn é hoje. Ela, definitivamente, mudou. Ainda que você consiga lidar com ela…”, murmurou.

“Mesmo se ela quebrar, como a Alex disse?”, indagou, atenta, entre as lágrimas.

“Sim… Talvez você tenha uma Quinn um pouco avariada… Depois de uma quebra emocional, é difícil voltar ao seu estado completo”, analisou.

“Isso será muito difícil, certo?”.

“Será apenas difícil, Estrelinha. Não é fácil lidar com pessoas assim. Quinn tem uma rachadura emocional… Viver em tempo integral com uma pessoa que tem flutuações de humor, emocionalmente desligada… Eu realmente não sei”, confessou, pensando que a filha teria que ser muito estoica.

“Eu não posso retroceder, papai”, choramingou.

“Eu sei, querida. Mas, talvez, ir mais devagar. Quinn conseguiu se blindar de tal forma que a simples ameaça a sua segurança emocional desencadeia o quadro que vimos ontem. Embora beijá-la não possa ser considerado uma ameaça simples… Você tentou explodir as muralhas dela”.

Rachel riu entre as lágrimas.

“Não é engraçado, papai”, reclamou, embora ainda soltasse uma gargalhada frouxa.

“Eu não disse que era engraçado. Mas você realmente desequilibrou a Rainha de Gelo… Ela praticamente derreteu!”, ele brincou apenas para amenizar a situação.

A verdade era que ele sabia de tudo o que Alex falou para Rachel.

Ele escutou.

Não era uma coisa bonita para se fazer: escutar a conversa alheia.

Porém, sua filha já estava a ser massacrada além da conta pelo erro que cometeu. Nunca achou que ela foi correta. Sempre foi um dos primeiros a erguer o dedo e apontá-la. Mas, após tanto, e após ver o quanto sua filha estava disposta a arriscar para ter a pessoa que amava ao lado, pensou que não era pecado desejar protegê-la um pouco, enquanto ainda era possível. Pois, era claro, se ela assumisse uma relação com Quinn Fabray, teria de ser a capitã de seu próprio barco. Ele poderia, junto com Hiram, ser o apoio emocional que talvez necessitasse. Porém, ela era a única senhora de sua vida e de suas escolhas!

“Papai, o que você sabe sobre as sequelas da Quinn”, perguntou.

Não era uma pergunta apenas curiosa. Era a pergunta de alguém que precisa saber em que tipo de terreno colocaria os pés. Principalmente depois de escutar Alex Bishop!

“Eu acredito que a Quinn poderia ser comparada com um campo minado! E, você sabe, Estrelinha, andar em campo minado é muito perigoso. Porém, não é impossível”, observou.

Rachel Berry estava disposta a tentar. Rachel tentaria sobreviver ao campo minado chamado Quinn Fabray e, quem sabe, desarmá-la inteira.

§§§

Holmes serviu o café para Wilhelm e a patroa, no escritório dela que, contrariando-o, foi ter com o detetive.

Ela não estava bem. Mas a teimosia era tão maior…

“Se eu começar a ter algum tipo de comportamento estranho, Holmes, o Leo saberá onde encontrá-lo”, avisou, a fim de ficar a sós com o detetive que lhe havia abastecido com mais dois arquivos de investigações.

“Certo, doutora…”, ele deixou a bandeja sobre a escrivaninha onde ela e o policial estavam e saiu.

Ela o seguiu com o olhar.

Wilhelm a mirou, enquanto ela via a porta ser fechada.

“Você está abatida”, comentou.

Quinn suspirou.

“Eu sei…”, arrumou duas xícaras sobre seus respectivos pires, “mas ficarei bem”, encheu uma e passou ao convidado mais que especial e serviu outra para si. Sentiu o odor da bebida e soltou um murmúrio de satisfação antes de prová-la. “Ótimo!”, sorriu.

O policial adoçou o próprio e experimentou. Realmente estava muito bom!

“O que trouxe?”, ela inquiriu, descansando a xícara sobre a escrivaninha e abrindo um relatório que continha algumas fotografias.

“Uau! O motorista?”, sorriu.

“Sim…”, o homem concordou.

“E por que o motorista, Sr. Ewing”, ela indagou, muito curiosa, embora já soubesse a resposta.

O loiro sorriu. Adorava quando Quinn se regojizava por pensarem de maneira muito similar.

Ele expôs tudo o que sabia e investigou, embora – observou – ainda precisasse de mais tempo.

“Não muito, Leo”, ela avisou, “preciso chamar o Mathews para conversar tão logo eu esteja melhor”.

“Estou equivocado ou você pretende dar este caso para ele?”, inquiriu.

Quinn soltou uma gargalhada gostosa e olhou para o detetive.

“Esperto, Sr. Ewing! Muito esperto…”, murmurou.

O homem meneou a cabeça.

“Você é louca…”, atestou.

“Não! Apenas prática”, corrigiu.

“Acha que ele terá condições de fazer o mesmo trabalho que você, Quinn?”.

“Mas eu não quero que ele faça o mesmo trabalho que eu. Apenas parecido. Ele será bom, Wilhelm…”, retorquiu.

“Ok… Se você o auxiliar…”.

“Eu auxiliarei”, garantiu.

Ele suspirou, limpou a garganta e, encarando-a, colocou-se:

“Quinn, você sabe que isso é uma insanidade, não sabe?”.

Ela continuou a estudar as fotografias, ângulo a ângulo.

“Você fez as fotos?”, perguntou, indiferente.

“Sim… Somos eu e você apenas nesse trabalho de pesquisa”, lembrou.

“Ficaram muito boas, Leo… Sabe, se eu ainda tivesse o estúdio de fotografias, talvez eu o contratasse”, riu. E estancou. Estúdio de fotografia? Sim. Mas, lembrou que possuiu um estúdio fotográfico ou apenas o cérebro lhe repetiu uma informação contada por outras pessoas? Sim… Santana a levou até lá, para ver se lembrava. Mas não lembrou… Então, sim! Ela realmente teve um estúdio!

“Quinn, você sabe que a sua ideia é ótima, mas arriscada”, o homem loiro a tirou dos devaneios

“Está se acovardando?”, indagou, distraída.

“Não… Estou estudando o caso como você. Sei que está pensando sobre isso há algum tempo…”, ele comentou, e ela o interrompeu:

“Sim, estou pensando há algum tempo. E sei que tudo ficará a contento. Minha única incerteza é se o Sr. Mathews aceitará o meu convite para trabalhar no escritório. Porque, como observado de maneira perspicaz por você, meu querido comparsa, desejo que este caso seja dele. É o homem ideal, o advogado que poderá dar o rumo que eu espero e quero. Ele será ideal… Caso eu não consiga o que quero antes”, lembrou.

“E acha que conseguirá?”, perguntou.

Ela desviou os olhos das fotografias e os cravou nos azuis do policial:

“O que me diz? Eu conseguirei?”, devolveu a pergunta.

O homem, inteligente, soube de imediato que a questão dela se referia diretamente ao trabalho que ele estava realizando para ela.

Ele assentiu e tomou da xícara um pouco mais do café.

Quinn esfregou a testa.

Wilhelm observou-a.

“Dor?”.

Ela sorriu sem vontade e não respondeu.

Não era necessário responder. Estava óbvio que o mal estar a estava por tomar outra vez. Assim, ele achou por bem que ela se recolhesse e os dois se reuniriam no dia seguinte, se ela estivesse melhor.

Quinn assentiu.

Trocaram ainda umas poucas palavras e ele se foi.

Holmes apareceu e a viu com a cabeça deitada, apoiada nos braços que estavam sobre a mesa.

“Senhorita?”, chamou à meia voz, para não assustá-la.

“Estou bem, Holmes… Eu tentarei dormir um pouco…”, murmurou e se levantou. Caminhou a passos meio torpes em direção ao quarto, acompanhada de perto pelo cuidador.

Mas nessa noite ela não dormiu.

Revirou-se na cama, numa insana luta para que o cansaço vencesse a dor e lhe permitisse relaxar.

Entretanto, não conseguiu.

Suspirou e maldisse.

Alex também não voltou.

A dor de cabeça insistia em permanecer.

Até que, derrotada, levantou-se e foi para o escritório, onde passou a noite a estudar, sem muita concentração, pois a dor não permitia.

Holmes a visitou por três vezes até que, na quarta, o sol já havia nascido e a encontrou deitada no sofá, coberta com a manta, adormecida.

Mirou-a.

Parecia tão serena. Tão dócil e sem espinhos… Sem dores. Ainda que abatida.

Desejou que, após a infernal noite, o sono a deixasse melhor e com o humor menos azedo que o dia anterior. Ela precisava de um alívio, de uma pausa entre as seguidas crises.

Assim como Alex, Holmes conhecia quase todos os demônios da loira que dormia no escritório, após larga noite de padecimento.

Apesar de tudo, ela não chorou, não quebrou coisa alguma e nem foi mal humorada com ele. Um pouco seca, talvez, mas esse comportamento era predizível.

Lançou ainda um último olhar sobre ela e, com cuidado, deixou o escritório na penumbra, a fim de que a claridade do dia não despertasse a advogada.

Silencioso, retirou-se e fechou a porta.

Com você eu tenho mesmo que me conformar

Eu tenho mesmo que não me conformar

Sexo heterodoxo, lapsos de desejo

Quando vejo o céu desaba sobre nós

Mucosa roxa, peito cor de rola

Seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pelo

Sua coxa”.

– Cetano Veloso em Deusa Urbana

Jesse mirou a ex-mulher. Ela estava preocupada.

Estava preocupada por Quinn Fabray. Por causa de Quinn Fabray!

Os dois estavam no teatro Gershwin, onde a reestreia de A Bela e a Fera aconteceria no próximo final de semana e Rachel findava o último ensaio. Todas as entradas estavam esgotadas e a atriz deixou o palco e se encaminhava para o camarim.

Lá, ela deu passagem ao ex-esposo e ele se sentou no confortável sofá que havia ali.

“Rach, ela ficará bem”, sussurrou, tentando ser o mais convincente possível.

No fundo, gostou de saber que a advogada que tramava contra a sua família estava de molho por alguns dias, fechadinha em casa, longe das pessoas de bem.

“Eu a beijei, Jesse”, soltou.

O ator sentiu como se fosse atingido por algum objeto pesado na cabeça.

“Você o quê?”, também sentiu que estava ficando surdo.

“Eu beijei a Quinn”, confiou.

Jesse St. James ficou pensativo.

Jesse St. James realmente se pôs a pensar sobre o que escutou.

Rachel beijou Quinn.

Ela não estava indo rápido demais?

“Rachel, você tem noção do que acabou de me dizer?”, conseguiu questionar.

Ela, aparentemente, tinha noção sim.

“Jesse, eu já sei tudo o que você tem para me dizer sobre ser cautelosa com a Quinn, que ela não se apega emocionalmente e todas as demais coisas, mas eu a quero! E eu a beijei e vou arcar com seja lá o que isso possa me trazer. Eu quero cuidar de Quinn! Eu quero amá-la e recuperar o tempo perdido”.

Ele riu, sem humor.

“Você é única, Rachel Berry! Você resolveu amar Quinn Fabray quando ela não pode lhe amar de volta! Vai desperdiçar o seu sentimento mais belo com alguém que não fará o menor caso dele! Por que, Rachel? E por que tanto desespero? Você já não pode recuperar o tempo perdido. Simplesmente porque tempo perdido é tempo perdido. Não há volta! O que foi feito, feito foi. O que não foi feito, não existe. Você não pode recuperar o que nunca viveu com a Quinn, justamente porque o advérbio ‘nunca’ depreende a ideia de jamais, em tempo algum, uma negação ao que você deseja. A sua pressa pode lhe levar a um fim solitário”, contemplou.

A atriz ficou sem palavras. E atordoada ante as divagações agoniadas do ex-marido.

“Jesse…”, murmurou, chocada.

Ele respirou fundo e meneou a cabeça.

“Eu sei que eu pareço grosseiro, mas eu só quero que você enxergue as coisas ao redor, Rach-Rach! Eu sei que você tem muitas razões para querer cuidar da Quinn. Mas entre essas razões, definitivamente, não está o amor! Você ainda não percebeu que jamais a amou de verdade?”, inquiriu. Não era tão difícil de entender!

“Jesse, por favor, não fale dessa maneira! Você me conhece! Melhor que qualquer pessoa…”.

“Por isso, Rach-Rach, eu afirmo que você nunca amou a Quinn! É um capricho seu? Se ela estivesse bem e saudável eu até entenderia… Mas… Quinn é doente! Quinn tem o caráter distorcido e vê as coisas sob um prisma distinto. Ela não vai lhe fazer bem, Rachel”, reforçou.

“Você precisa se mudar com urgência, Jesse! A sua convivência com o Kurt não está sendo positiva para nós dois”, avisou e recolheu as coisas, aborrecida.

“Eu vou levá-la”, falou.

“Não! Marco está lá fora. Ele me levará”, avisou.

“Rachel, por favor…”, ele pediu.

A cantora estancou. Caminhou até ele e acarinhou os cabelos bem cortados. Mirou-o com afeto.

“Eu falei que você está mais bonito?”.

Ele segurou a mão dela e levou a palma até os lábios, beijando-a.

“Eu só quero a sua felicidade”, murmurou, com os olhos presos nos dela.

“Eu sei… E eu serei feliz. Eu só preciso tentar, Jesse! Se não der certo…”, suspirou, “se não der certo, eu saio da vida dela para sempre”.

“Eu só quero que saiba que estarei sempre ao seu lado”, ele reiterou a promessa já feita.

“Eu também sei disso”, ela sorriu.

Os dois saíram juntos, pelos fundos do teatro.

Marco sorriu ao vê-la.

Jesse o cumprimentou e segurou a esposa, fazendo-a mirá-lo.

“Tem certeza de que não quer que eu a leve?”.

“Eu quero que você se mude logo! Spencer sente a sua falta… E eu também”, sorriu.

O cantor assentiu e a beijou na testa, afetuoso.

“Eu me mudarei na segunda, quando não haverá apresentações”, garantiu.

A cantora concordou, beijou-o na bochecha e se virou, encaminhando-se para o carro.

O homem a mirou.

Suspirou.

Preocupava-se por Rachel. Ela não estava apta para Quinn.

É preciso entender as artimanhas do tempo: a hora certa sempre chega”.

– Caio Fernando Abreu -

Quinn estava recostada na cabeceira da cama, a ler os jornais da manhã, após o desjejum à base de pães, frios, café, suco e comprimidos. Muitos comprimidos!

Bocejou. Estava dormindo muito… Às vezes era bom, porque era como se a dor que lhe martelava o juízo há dias não existisse.

Ouviu uma singular batida na porta e esta se abriu. Holmes adentrou ao recinto, levando uma pequena bandeja de prata com um envelope branco para ela.

“O quê?”, ficou surpresa. Não esperava coisa alguma de nenhuma pessoa…

“Um convite, eu acredito”, o cuidador comentou, diante da expressão surpresa dela.

“Tem certeza? E se houver antraz aí dentro”, questionou com uma seriedade quase verdadeira.

“Eu não creio que a Srta. Berry seja uma transgressora da lei e nem alguém com ímpetos terroristas”, avisou.

“Rachel?”, ficou surpresa.

Falou com a cantora havia dois dias. Afinal, precisava acalmá-la. Rachel Berry parecia que havia lhe dado um tiro e não um beijo. Ela era muito dramática! Carregava nas tintas…

Pegou o envelope e o abriu.

Um convite para a reestreia, nesta noite de sexta-feira, do musical A Bela e a Fera, estrelada por Rachel Berry e Andrew Perry…

“Finalmente…”, murmurou e ergueu os olhos para o cuidador, “eu pensei que essa reestreia nunca fosse acontecer. Sempre ocorre algum transtorno que impede que o espetáculo aconteça”, comentou.

“Eu envio flores com um pedido de desculpas pela sua ausência?”, indagou, recolhendo o envelope que ela lhe esticou.

“Sim… Musicais são horríveis! Eu não tenho paciência para essa versão tosca da ópera”.

“A senhorita é muito radical”.

A advogada sorriu, a mirar o homem.

“Por que não aproveita o convite e vai no meu lugar, Sr. Holmes? Eu sei que você adora Rachel Berry e musicaizinhos”, desdenhou.

“Obrigado, senhorita! Foi muito generoso de sua parte pensar em mim com tanto afeto”, sorriu, “mas terei que declinar”.

Ela suspirou.

“Eu não vou morrer se você for a um musical de cerca de duas horas…”, atentou.

Ele não respondeu, a recolher o carrinho onde muito do café da manhã foi largado pela advogada.

“Quase não comeu”, considerou.

Ela voltou os olhos para o jornal.

Ele soube que não adiantaria argumentar com ela. Mas, ainda assim, insistiu.

Quinn fez uma das suas melhores interpretações de alguém surdo. Ignorou-o completamente.

O homem suspirou.

“Se precisar, estarei na copa”, avisou.

A loira concordou com um meneio de cabeça.

Holmes saiu do quarto, embora estivesse muito atento a ela.

§§§

Rachel estava fazendo exercícios de respiração antes de subir ao palco, quando Kurt entrou no camarim.

Ela o mirou e sorriu.

Ele não devolveu o sorriso.

Parecia estranho…

Assustado? Incrédulo?

“Kurt, tudo bem?”, indagou, continuando com os exercícios.

O empresário não respondeu.

Rachel voltou a atenção para o amigo e empresário. Então, viu…

Os olhos azuis dele estavam graves e cheios de dor. E havia lágrimas brotando…

“Kurt, o que foi”, ela ficou tensa, tomada pela tensão dele.

“Rach…”, ele soluçou.

“O que foi? Você e o Blaine se desentenderam”, perguntou, aproximando-se dele e acarinhando-o no braço.

Ele a mirava, apenas.

“Kurt, fale comigo”, pediu, preocupada pelo homem de tez branquíssima, “você está me assustando. Você brigou com o Blaine? Aconteceu alguma coisa com ele?”, indagou, com a cabeça tentando criar possibilidades que explicassem o estado sombrio do contratenor.

Ele a segurou e a levou até o sofá.

A judia se deixou levar, confusa.

Ele e a fez sentar e a sujeitou num abraço forte.

“Kurt…”.

“O Jesse…”, falou com muito esforço, a conter a cantora nos braços, “foi assaltado quando saia do teatro e… Ele levou três tiros… Ele morreu, Rachel! E eu sinto muito…”.

Ela pensou que era uma piada de muito mal gosto.

Dorme que eu vou te embalar

No meu colo quente

Como a lua embala o mar

E a maré embala a gente

Dorme que eu vou te velar

Pela noite quieta

Como a chama do luar

Vela o sono dos poetas

Dorme que eu vou te ninar

No teu canto de criança

Como sempre ouvi o meu pai cantar

Um acalanto de esperança”.

– Caetano Veloso em Acalanto

CONTINUA.

Notas finais
Obrigada por ler. Abraço. - Cal. *-*