Sine Cordi

60 CAPÍTULO 60 - ס


Notas iniciais
Mais unzinho... Por favor, leia a citação ao final do capítulo. Ela fala muito sobre Sine Cordi...

É pecado pensar mal dos outros. Mas raramente é engano.”

– H. L. Mencken -

Quinn acompanhava a odisseia que se transformou a morte de Jesse St. James pela TV do escritório, enquanto esperava por Anthony Mathews.

O cantor e ex-marido da estrela Rachel Berry havia sido vítima de um assalto rude na cidade de Nova York, na noite de sexta-feira. Uma morte tosca, idiota, inesperada.

Um choque para os cidadãos.

Um horror para a família.

Um número a mais nas estatísticas de mortes por assassinato na Big Apple.

Por mais que a família Berry tentasse, não conseguiu evitar o assédio dos fãs e da imprensa.

Rachel agora era ainda mais famosa. Mesmo divorciada do finado cantor e ator (uma perda lastimável para o mundo das artes), recebeu o título de viúva, e não divorciada – que era o que os papéis diziam sobre o seu estado civil – por causa do fato de o ex-marido morrer brutal e covardemente pelas mãos de um insensato sem coração.

“Vi-ú-va”, soletrou devagar, pensando no significado daquela palavra, enquanto olhava para a televisão.

O enterro era transmitido ao vivo, como se fosse um grande acontecimento histórico e o rosto e cenas recortadas aqui e ali de St. James atuando em musicais da Broadway e séries de TV apareciam sempre e outra vez.

Rachel estava destruída.

Ela usava um chapéu preto com véu, que mal conseguia esconder as lágrimas que ela derramava. Não era uma cena bonita de se ver.

“Como as pessoas paravam suas vidas para se regozijar na desgraça alheia?”, pensou a loira. E, no momento, a morte de Jesse St. James cobria quase todos os canais de TV, jornais, tabloides, revistas… Impressões de última hora foram feitas. Vídeos do cadáver, filmado sabe-se por quem e como, passeavam como a coisa mais natural do mundo pelas redes sociais, sites de vídeos e mensagens via aparelhos celulares.

“O homem se alimenta de seu próprio medo”, murmurou.

Viu Santana Lopez e Brittany perto da cantora e dos pais desta, apoiando-a.

Bonita amizade…

E havia outros rostos que ela reconheceu pelos recortes que moravam no pequeno estúdio dentro do escritório.

Eles realmente gostavam de Rachel para despencarem de Lima para Nova York para prestarem suas condolências! Ou… Ou queriam aparecer? Um minuto de fama, por favor!

“Será que ela vai se recuperar da morte dele?”, indagou, pensativa. “Será que ainda vai dizer que me ama?”, esta era uma boa pergunta… Rachel Berry seria capaz de sentir algo mais além da própria dor?

Uma vez escutou Santana falando com Britt que a cantora se afundou na dor e, por isso, não voltou da Europa.

Naquele momento, não entendeu…

Mas, agora, olhando-a pela tela de TV presa à parede, começou a compreender. Rachel parecia ter um apego especial à dor. Era como se ela gostasse de sofrer, de ser vítima…

Será que essa maneira dela reagir perante os infortúnios era uma intenção inconsciente de chamar a atenção materna, que – certamente – deve ter feito falta para a cantora? Ela era um pouco descompensada.

“Mas eu também sou… E tenho mãe”, murmurou, referindo-se ao fato de ter Judy por perto enquanto cresceu. Rachel não teve…

Analisou mais a figura morena, que atirava uma rosa vermelha no buraco onde o caixão com o cantor morto repousaria dali para frente.

“Shelby não foi até lá…”, sussurrou. E pensou que deveria ser doloroso para a atriz e viúva ser preterida por uma criança, Beth, que nem era sangue do sangue de Shelby. Beth, que não era sangue do sangue de Rachel Berry. Mas era sangue do sangue dela, Quinn Fabray.

“Será que ela me odeia inconscientemente por colocar no mundo a criança que tomaria o seu lugar no coração de Shelby?”, perguntou-se, a divagar.

Voltou a atenção para o aparelho.

Havia muita gente no cemitério Greenwood.

Rachel soube escolher onde St. James teria o seu repouso eterno. Greenwood era muito visitado por turistas e havia outros artistas que ali dormiam o sono da morte. Precisava ser muito especial, pensou, para virar comida de minhoca nas terras do Greenwood! E a cantora parecia ser especial para conseguir sepultar o ex-esposo ali…

“Quão poderosa você é, Rachel?”, indagou, curiosa. Aliás, este era o estado de Quinn desde que soube do falecimento do ex-marido da atriz. A estupidez da morte dele a deixava curiosa e atenta para como a sociedade se movia, a polícia trabalhava, a imprensa apurava, Rachel sofria…

Agora, a imagem do pequeno Spencer, filho único do cantor assassinado num assalto estúpido e da cantora mais famosa da Broadway enchia a tela, a fim de tocar os corações. Ele era, agora, órfão de pai. Tadinho… Virou celebridade! Só porque o pai famoso morreu jovem e inesperadamente.

Achou interessante a maneira como a mídia ia formando representações arquetípicas dos personagens daquela tragédia urbana, inflando os espectadores e telespectadores de informações que buscavam alimentar a imensa fome por qualquer migalha de fundo de verdade ou mentira vestida de verdade. Não importava o quanto a informação fosse manipulada, desde que ela seguisse a uma receita pré-fabricada e fosse jogada como o maná para os viajantes do deserto da fofoca e do prazer sobre a desgraça humana.

“Víboras…”, murmurou.

Holmes entrou no recinto e olhou para o aparelho de TV ligado.

“Isso é uma praga”, comentou.

Ela o fitou.

“Por que está a passar em todos os canais?”, inquiriu.

“Não se fala em outra coisa, senhorita”, informou e a mirou. Ela ainda estava muito abatida…

“O Sr. Anthony Mathews chegou”, avisou.

Quinn assentiu distraidamente, com os olhos pregados na tela da TV.

“Senhorita, o Sr. Mathews chegou”, ele repetiu, um pouco preocupado com a distração dela.

A ex-fotógrafa assentiu novamente.

“Mande-o entrar”, pediu.

“Tem certeza de que este é um bom momento?”, ele poderia mandar o advogado engomadinho na sala de estar embora apenas com um pequeno consentimento dela.

Mas a advogada não respondeu, concentrada na TV e nas notícias.

“Ela parece sofrer muito…”, comentou como ao léu.

O cuidador desviou os olhos dela para o aparelho que pendia na parede.

“Ela acabou de perder o companheiro de palco e de vida. O pai do filho dela… Como espera que ela se sinta?”.

“Eu sei… Você disse ‘companheiro de vida’, Holmes…”, a voz saiu tranquila e quase distraída, “acha que esta mulher, Rachel Berry, em algum momento não amou o defunto?”.

Holmes queria não responder. Quinn era sagaz o bastante para ler além das pessoas, entretanto, conseguia distorcer determinadas situações para que estas encaixassem na sua própria lógica.

Ainda assim, não poderia negar que a imagem de uma Rachel aos prantos e sustentada pelos pais e amigos, deixando o cemitério após o corpo do ex-marido descer à sepultura, demonstrava que ela sofria demais a morte. Logo, era possível que a dor correspondesse ao coração ferido por uma perda inestimável.

“Vamos, homem! Responda-me”, ela o tirou das articulações mentais.

“A Srta. Berry parece que amou muito o falecido marido”, contestou e a fitou.

“Certo…”, murmurou, “mande o Mathews entrar… Eu estou bem”, e o olhou com olhos zombeteiros, “prometo que a reunião será curta… Antes de eu entrar em pane”.

“Não foi engraçado”, ele respondeu e se retirou, altivo.

Quinn voltou a mirar a TV.

Sim… Rachel estava sofrendo. Sofrendo muito. Será que o coração dela estava partido?

Quinn recebeu o advogado com um sorriso que exalava simpatia.

Ele a estudou.

Era uma manipuladora descarada e excelente.

Ele sabia que seria manipulado.

E foi.

Saiu sorridente da cobertura de Quinn Fabray com uma proposta de colocação na Fabray&Advogados. Era uma oportunidade para a sua carreira deslanchar se dependesse dele e da mulher com quem conversou de maneira muito prática e fácil sobre fazer parte do staff do escritório. Haveria grandes casos! E ele poderia aprender com a melhor!

Quem não gostaria?

Mas, pediu uns dias para analisar a proposta. Ainda que soubesse que, no final, cederia aos encantos daquela mulher bela e prática, sem rodeios quando desejava obter alguma coisa. Mesmo que essa “coisa” fosse um profissional em quem ela viu grandes possibilidades.

Mathews sorriu. Quinn Fabray era incrível! E acreditava nele!

Sorriu mais.

Sentiu-se envaidecido.

Os dias que se seguiram foram tranquilos para Quinn.

Estava tão concentrada em como a morte de Jesse St. James começava a virar notícia velha que não se deu conta da ausência de Alex.

E não se deu conta de que não foi prestar suas condolências pessoalmente a Rachel…

Ela estaria aborrecida? A cantora sabia que a loira estava em convalescença após a última crise. Então, não cobrou-lhe a presença. Entretanto, analisou Quinn, ela não lhe cobrou a presença porque compreendia de fato que estava adoentada ou porque estava imersa na dor pela morte do ex-marido que tudo ao redor se tornou ausente?

“Será que ela está, como dizem, anestesiada pela dor?”, inquiriu. “Isso exige uma observação in loco”, meditou.

Mas não estava preparada ainda… Sentia-se, a contragosto, fraca. Sabia que se abusasse, seu corpo reclamaria. Não suportaria mais uma “reclamação” como as últimas que experimentou.

Então, decidiu, o melhor seria aguardar um pouco. Enviaria flores para a viúva e, assim que ela, Rachel, estivesse melhor, menos chorosa e dolorida (será que demoraria muito? Não importava, realmente) a convidaria para um chá.

“Um chá aqui em casa…”, falou para si mesma, com um sorriso a se desenhar nos lábios.

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito.”

– Machado de Assis em Verba Testamentária

Hiram entrou no quarto da filha e a encontrou deitada na cama, abraçada ao filho adormecido e abençoado pela inocência da idade, que não lhe permitiu entender e chorar a morte do pai.

Ele perguntaria pelo homem, mas, Rachel sabia, ele não se recordaria para sempre. Jesse seria apenas uma figura de fotos, uma presença ausente. Uma voz calada. O homem com quem nunca teria uma conversa de “pai para filho”.

“Amor, chegaram estas flores…”, ele falou, em tom afetuoso e baixo.

“Agradeça por mim, pai”, ela pediu. A voz quebrada.

“São da parte de Quinn. Há um envelope… Quer que eu o deixe sobre a cabeceira”, indagou.

A cantora suspirou.

Quinn… Esqueceu dela! Como pode?

Mirou o pai e perguntou se ele tinha notícias da advogada.

“Seu pai conversou com o cuidador dela… Parece que está melhor, mas não a ponto de sair de casa…”, respondeu.

Rachel assentiu e mirou o vazio.

“Eu quase perdi a Quinn… E agora eu perdi o Jesse… Eu não quero perder mais pessoa alguma, pai”, lamentou.

O homem sentou na beirada da cama, ao lado dela e lhe tomou das mãos, acarinhando-as.

Falou que ela sofreria por algum tempo o desaparecimento do ex-marido. Mas, conforme este período passasse, os dias virassem semanas, as semanas meses e os meses anos, ela se acostumaria com a ausência permanente dele.

“Eu sei que a dor é grande, querida. Mas você superará”, ele garantiu. “Santana e Brittany telefonaram para saber de você. Kurt avisou que está tudo okay com o musical. A sua substituta está levando bem o espetáculo, mas ele disse que o grande público quer você. Nas três últimas apresentações chamaram o seu nome ao final da peça. Eles a querem, anjo! Então, tente se restabelecer e seguir adiante, querida”.

“Com quem eu conversarei, pai? A quem eu contarei os meus segredos e confessarei os meus medos? Quem me acalmará quando eu estiver insegura? Jesse era o meu confidente, meu amigo…”, engoliu – quase literalmente – o choro que ameaçava aparecer outra vez. Já não aguentava mais chorar… Sentia-se exausta! E precisava ser forte por Spencer.

O homem suspirou.

“Eu sei que você ficará bem. Eu e o seu papai estaremos por aqui pelo tempo que você precisar. E o Kurt e o Blaine sempre cuidarão de você. E também Santana e Britt. Você não ficará sozinha, Estrelinha”, ele foi doce e atencioso.

“Mas, perdoe-me pai, nenhum é como ele… Jesse era… Especial… Compreensivo, companheiro, amante, irmão, pai, muitas vezes mãe”, riu, emocionada de como o marido poderia ser uma matrona quado desejava, “o pai do meu filho…”.

Hiram não tinha muito o que falar. Ele não mensurava a dor da filha. Ele até pensava que conseguia saber como ela se sentia, mas – de verdade – ninguém conhece a dor do outro. Não era algo julgável. Rachel estava sofrendo! E ele não sabia, realmente, quanto.

“Apenas saiba, filha, que estaremos ao seu lado… De uma forma ou de outra”.

“E a Quinn? Acha que ela poderá cuidar de mim?”, perguntou, insegura.

Hiram meditou um pouco. A resposta lhe parecia tão clara. Tão óbvia. Mas não era… O que esperar de Quinn Fabray, realmente, retirando um pouco do peso sobre a personalidade da ex-fotógrafa?

“Eu não sei, querida”, confessou.

Na verdade, ele repensou e achou que era um pouco insano esperar alguma coisa de Quinn Fabray. Pelo que soube de LeRoy e dos médicos à época do acidente, ela não seria muito capaz de se importar com muita coisa que não lhe dissesse muito respeito. E, até onde observou, o pouco que notou, a loira não pareceu fazer caso do falecido St. James.

“Você teme que ela não seja, realmente, capaz de se ocupar de mim e da minha felicidade? Ser companheira?”, mirou o homem, que – neste momento – mirava o chão do recinto, pensativo.

“Pai… Eu quero a Quinn. Eu conversei com papai LeRoy e ele me explicou as limitações dela”, esclareceu.

O homem assentiu. Ele sabia que ela conversou com Roy sobre a ex-namorada. Entretanto, escutar de alguém que sabia muito sobre as hipotéticas teorias sobre Quinn era muito diferente de se relacionar emocionalmente com ela. Quinn não costumava ser a mesma sempre. As mudanças de humor e comportamento poderiam entontecer os desavisados…

“Estrelinha, sobre a Quinn: apenas mantenha os pés no chão. E prenda-se às coisas e aos valores nos quais acredita e foi criada. Creio que o restante virá depois”, elucubrou.

A judia fitou o filho adormecido aconchegado ao seu corpo. Era bom tê-lo nos braços. O pequeno lhe transmitia uma paz que ela não conseguia sentir. Seu coração batia inquieto.

“Você tem medo?”, inquiriu, mirando o pai com aqueles olhos que ele achava os mais lindos e hipnotizantes do mundo, “tem medo de que Quinn possa ser, de alguma maneira, violenta comigo?”.

Hiram suspirou.

“Eu tenho muitos medos, meu amor. E a grande maioria deles está ligada a você e a sua felicidade, porque eu a amo e quero o melhor para você”, acarinhou-lhe a face, “eu acho a Quinn especial… Ela tem senso de humor e aquela garota que corava cada vez que olhava para mim com cara de ‘eu estou fazendo coisas sujas com a sua filha’ desapareceu por completo e deu lugar a uma mulher segura e sem muito verniz quando ela está num de seus dias em que o cérebro nem terminou de pensar, mas a boca já soltou o pensamento”, suspirou outra vez, “porém, eu acho que esta mulher é uma persona ensaiada, uma Quinn irreal. E sinto que ela tem alguma coisa de intocável… Algo como… Você vai desejá-la, Rachel, mas ela não se importará com isso… Compreende?”, inquiriu, inseguro com a coerência de sua explanação.

“Está querendo dizer que Quinn não se importará comigo? Ela será indiferente a mim?”.

O homem assentiu bem devagar, antes de exclamar:

“Isso!”.

Mas foi uma exclamação vazia.

Uma exclamação de um homem decepcionado.

“Pai, eu sei que você e papai se preocupam comigo, mas se eu não me arriscar, perderei uma chance única com a Quinn. Ela está num momento em que, como disse Alex Bishop, eu sou o seu ponto de interesse e preciso usar isso a meu favor e me aproximar o máximo possível dela”.

“Eu sei… Apenas seja cuidadosa”.

“Eu serei…”, murmurou e cheirou os cabelos do filho. Falou para Hiram:

“Eu só não sei quando estarei realmente bem para vê-la… Estou meio zonza com a ausência de Jesse”, sorriu, sem humor, sem vontade. “Eu sinto como se devesse esperar, sabe?… Ele morreu sem prévio aviso e me deixou sozinha… Ele ao meu lado me dava mais coragem para seguir em direção a Quinn, pois se ela me machucasse, ele me acolheria e cuidaria de mim… E agora sinto como se fosse me lançar num abismo sem paraquedas! Como se Quinn fosse esse abismo… Um abismo cuja a profundidade eu não sei com certeza, que eu não consigo mensurar. Eu só sei que ela é um abismo… Um abismo que me chama, que me traga…”, respirou fundo, “Jesse era o meu ponto de apoio… Preciso me reequilibrar antes de estar com a Quinn. Ela é muito intensa e exerce pressão o tempo inteiro… Eu não posso fraquejar, pai”, concluiu.

Hiram assentiu.

“É sempre inteligente ir com calma quando se trata de Quinn, Estrelinha. Então, vá devagar… Observe bem a Quinn. Não se iluda! Eu queria muito, meu amor, que ela lhe amasse outra vez, que ela se apaixonasse por você… Mas eu não sei, realmente, se ela é capaz disso”, fez uma pausa e levou as mãos da filha aos lábios, beijando-as, “eu não quero que você se machuque e sofra mais, meu anjo”.

Ela assentiu.

Recebeu um beijo paterno na testa, antes de ser deixada na companhia do filho adormecido. Pegou o envelope que acompanhava as flores e abriu.

“Esta é a letra dela?”, a cantora perguntou-se, franzindo o cenho.

Olhou com a atenção o bilhete em que a advogada se desculpava pela ausência por motivo de força maior e lamentava a sua perda. E a convidava para um chá em sua casa, cujo endereço estava no verso do envelope, tão logo se sentisse disposta.

“A crise… Ela ainda não melhorou…”, lembrou da informação que recebeu antes do pai e virou o envelope, lendo o endereço.

West 94th Street, 10025, Upper West Side… Eu já vi este endereço…”, murmurou, “mas com quem?…”, não atinava no momento. Alguma vez visitou aquele endereço? Ou era só porque era Upper West Side, o bairro preferido de Quinn desde que foi morar em Nova York?, observou a letra. Era de Quinn, com certeza, mas mudou… Os traços possuíam irregularidades entre uma sílaba e outra, ou uma letra e outra. As palavras foram colocadas a flutuar acima da pauta, “ego desmedido…”, sussurrou, tentando ler a personalidade da ex-namorada nas linhas do bilhete delicado e gentil.

Bufou, frustrada.

Não estava com cabeça!

Mas… Releu o bilhete. Quinn a convidava para um chá! Como pode observar o endereço no envelope e não atinar que era a localização de Quinn a fim de fazê-la chegar corretamente até sua casa?

Pensou que, definitivamente, não estava bem.

E também pensou que, apenas talvez, estar com Quinn poderia lhe tirar um pouco do peso do coração pela morte estúpida e repentina de Jesse.

Como Jesse ainda era assunto na mídia por causa da morte repentina, uma pequena homenagem foi feita ao homem pela família deste em lugar desconhecido, pelo primeiro mês de sua morte e fãs acendiam, ainda, velas e faziam homenagens nos fundos do teatro, na rua em que morreu o ator e cantor.

Quinn mirou a TV, exausta de tal tema nos jornais e programas de cunho informativo. Sociólogos discutiam o impacto da violência na sociedade e nas famílias norte-americanas, enquanto antropólogos tentavam entender como o homem matava por nada o seu igual, a galera do apocalipse fazia passeatas com placas de “O Mundo Está Acabando!”, “Salve-se hoje, pois não haverá amanhã” (essa foi deprimente) e “O Fim Está Próximo”, políticos debatiam a questão da segurança pública e a polícia tentava se explicar diante de uma sociedade incrédula pela morte de um artista tão querido, em oposição às mortes de homens e mulheres presos ao anonimato.

“Trinta dias…”, murmurou, “passou tão rápido… E você ainda não veio para o chá, Rachel…”, meditou. “Alex está me dando gelo… O que há de errado com essas mulheres?”, perguntou-se, nunca admitindo que o problema talvez fosse ela.

Rachel colocou as flores de maneira organizada no túmulo do ex-marido, sob o olhar de Marco, o motorista sempre fiel.

Neste dia não se importou se a fotografariam ou não. Seria acossada por curiosos vez ou outra, mas passaria. Então, Jesse só seria lembrado pelo público nos seus aniversários de nascimento e morte.

Precisava falar. Mesmo que não ouvisse mais a voz dele a aconselhá-la, verbalizou para a pedra fria em que constavam a data de natividade e falecimento do cantor e o escrito “Pai, marido, amigo e artista exemplar”, o que lhe apertou o coração.

Falou que Spencer ainda perguntava por ele, mas que já não o esperava mais para levá-lo à escolinha. Contou que Maria andava menos chorosa e triste por causa da sua ausência. Informou que Hiram e LeRoy voltaram a Lima para cuidar das coisas que ficaram por lá e pretendiam se mudar para Nova York, a fim de cuidarem dela e de Spencer…

“Eu não concordo com essa ideia”, esclareceu, “eles não podem mudar suas vidas porque eu fiquei sem você!”, ponderou.

Falou que voltou aos palcos e que isso estava sendo terapêutico. Que havia shows esgotados pelos próximos meses! Os colegas de trabalho eram muito afetuosos com ela e Kurt e Blaine sempre estavam por perto. Santana e Brittany também estavam sendo muito companheiras. O único porém era a maneira como pareciam, mesmo que de forma inconsciente, não gostarem da ideia de ela se reaproximar de Quinn.

“Ela me convidou para um chá, quando eu estivesse melhor. Acho que estou pronta para vê-la… Mas Kurt e Blaine, principalmente o Kurt, não aprova a ideia. Blaine nada diz, assim como a Britt e a Sant. Mas sinto uma clara oposição silenciosa sobre a minha ideia…”, parou e franziu o cenho, “e o senhor também estaria contra… Eu não deveria estar lhe falando sobre isso…”.

Suspirou.

“Mas eu realmente não tenho com quem me abrir. E mesmo que você não concordasse com meus planos, escutar-me-ia de qualquer maneira. Então… Eu vou vê-la. Achei que precisava compartilhar isso…”, sorriu, triste.

Mirou além.

Neste dia, a temperatura estava amena e o céu azul pálido luzia com esparsas e brancas nuvens sobre sua cabeça.

“Eu amo você”, murmurou e se levantou, dando as costas à pedra e caminhando em direção a Marco, que a aguardava com a paciência e o desvelo de sempre.

Rachel piscou algumas vezes quando o carro parou em frente a Townhouse Apartment, cuja cobertura era inteira de Quinn Fabray.

“Algum problema, senhorita?”, o jovem motorista perguntou a olhar pelo retrovisor, “parece um pouco pálida”, observou com genuína preocupação.

Viu Holmes se aproximar do carro e ficou ainda mais surpresa. Por que o homem foi recebê-la?

“Senhorita, é um prazer revê-la”, foi gentil, abrindo a porta.

Marco saltou e logo estava a tomar o lugar do cuidador para ajudar a patroa e saltar do automóvel.

O cuidador de Quinn observou o moço.

“Algum problema, Sr. Holmes?”, Rachel indagou, referindo-se ao fato de o homem estar ali, a aguardá-la.

“Não, senhorita. Está tudo em perfeita ordem. A doutora Quinn costuma ser muito cuidadosa com as pessoas pelas quais ela tem interesse e, por este motivo, estou aqui”, sorriu.

Ela voltou a olhar o prédio que se estendia diante dos olhos.

O que significava aquilo exatamente? Aquele endereço que Quinn lhe enviou no bilhete quando das flores pela perda de Jesse, que achou que conhecia…

Respirou fundo e soltou o ar devagar, procurando reequilibrar-se.

“É aqui que a Quinn mora”, soltou a conclusão sem muito pensar.

“Sim. Por quê? Algum problema?”.

Rachel pensou.

Exceto pelo fato de aquele ser o prédio em que ela e Quinn morariam quando se casassem, antes de toda a confusão com Jesse e o acidente da moça loira, estava tudo bem.

Entretanto, por que Quinn morava no lugar em que planejaram dividir quando se casassem se ela perdeu a memória?

Eventualmente, todas as coisas se encaixam. Até então, ri da confusão, vive os momentos, e percebe que tudo acontece por uma razão.”

– Albert Schweitzer -

CONTINUA.