Sine Cordi
57 CAPÍTULO 57 - ןז
Notas iniciais
“O livro da vida é breve
Uma vez que a página é lida
Todos, menos o amor está morto
Essa é a minha crença”.
– Elvis Presley em And I Love You So de Don McLean–
Quinn cumprimentou Hiram e LeRoy assim que Rachel praticamente a arrastou pela mão até a sala de estar, onde os homens e Spencer estavam.
“Você está bem”, Roy perguntou, haja vista que a advogada havia ficado três dias sem dar sinal de vida.
“Estou… Apenas estudando alguns novos casos para escolher ao que me dedicar e sabendo um pouco mais de um profissional que desejo contratar para a Fabray&Advogados”, comentou.
Maria apareceu, sorridente, e a loira sorriu para ela, educada.
“Hola, ¡Maria! ¿Cómo está?”.
“Muy bien, señorita. Gracias”, a mulher agradeceu e perguntou se gostariam de tomar algo.
Rachel, que tinha a mão de Quinn presa a sua e os dedos desta entrelaçados com os seus, fitou a visitante e sorriu, ao perguntar-lhe:
“Café?”.
A advogada sorriu mais, satisfeita pelo oferecimento da cantora.
“Vou adorar, Rachel”, confessou, gentil.
A morena sentiu como se o coração lhe fosse saltar do peito, tamanha a alegria em ter a ex-namorada por perto outra vez. E sua felicidade foi ainda maior ao notar que ela parecia muito à vontade. Não estava tão tesa quanto das outras vezes.
Sentaram-se juntas e a cantora não lhe soltou da mão.
Quinn tentou não se fixar muito nisso, embora, de verdade, gostasse de ter a mão livre…
Hiram, curioso, indagou acerca do trabalho da ex cheerleader:
“Você pretende voltar ao tribunal em breve?”.
Os olhos verdes se fixaram nele.
“Eu estou a estudar algumas possibilidades… Mas, na verdade, o meu foco maior está em conseguir contratar Anthony Mathews para fazer parte do staff do escritório”.
Rachel franziu o cenho.
“O advogado que defendeu o homem que matou a amante e tentou lhe agredir”, estava incrédula.
Quinn sorriu, parecendo apaziguadora.
“Não se preocupe. Contratarei o advogado e não o réu”.
Roy riu com a lógica da loira, que lhe pareceu engraçada.
Na verdade, Quinn parecia leve. O rosto relaxado, os cabelos presos e impecavelmente arrumados, um vestido que a deixava mais jovial, longo, que marcava o abdome reto e ficava mais solto após a cintura. Usava sandálias baixas. Estava tão mais jovem que parecia que o tempo não lhe havia passado. Qualquer um de Lima diria que ela ainda parecia estudar no McKinley.
LeRoy Fitou a filha e a loira.
O tempo foi bondoso com elas, analisou.
Fariam um belo casal outra vez, se Quinn não houvesse mudado tanto.
Mirou Rachel e a maneira encantada como fitava a loira e como ela, Quinn, não parecia muito atenta à paixão que transbordava da morena. Como ela conseguia ser tão distraída? A pequena só faltava cair de joelhos e adorá-la!
“Acredita que o Mathews aceitará trabalhar na Fabray&Advogados?”, Hiram estava um pouco ávido por informação.
“Acredito que sim”, a loira foi polida.
“Mas…”, Rachel pareceu confusa, “você o bateu no julgamento! Por que acredita que ele quereria trabalhar para e com você?”.
“Na realidade, Rachel, ele apenas trabalharia para mim. Não comigo…”, explicou.
“Acha que ele fará essa diferença?”, ela quis saber, “digo, diferenciar entre trabalhar para você e não com você”.
“Meu papel será explicar para ele as minhas ideias. E tentar convencê-lo a aceitar”.
“Eu acredito que você consiga”, Hiram se manifestou, “ele, certamente, não deve estar muito à vontade no atual escritório e você, ao oferecer-lhe uma colocação na Fabray&Advogados, estará a dar uma grande chance de o rapaz se reerguer. Ele é bom. Precisa apenas se concentrar em como não deixar um julgamento que ele tinha a favor não se perder quando você ou outra pessoa entre em ação”.
“Foi o que eu pensei!”, ficou contente ante a compreensão do homem, “por isso desejo muito que ele aceite ir comigo para o escritório. Ele tem muito potencial. Apenas necessita ser um pouco lapidado”, compartilhou.
“Por isso não telefonou? Eu tentei lhe falar, mas não a encontrei… Pensei que você entraria em contato”, a cantora comentou, tentando disfarçar um pouco da decepção na voz.
A advogada a mirou e estudou-lhe a face.
“Eu realmente estive ocupada… Na verdade, eu e Wilhelm temos ainda algumas reuniões agendadas. Quase sempre, entre os negócios, falamos de trivialidades e o tempo passa sem que nenhum de nós sintamos”, justificou, embora não apreciasse dar satisfação de sua vida a pessoa alguma.
Maria reapareceu, pouco depois, com café e outras bebidas quentes e geladas, além de bolos, pães e frios.
Rachel agradeceu o cuidado da mulher e Quinn não se acanhou em, devagar, soltar a mão presa a de Rachel e se servir de uma robusta xícara de café.
Sentiu o olor da bebida quente e suspirou em satisfação. Bebeu um gole e não se conteve em saudar a empregada de Rachel sobre o quão boa estava.
“Gracias, señorita”, sorriu, a servir os demais.
“Eu senti a sua falta…”, Rachel murmurou para a visitante.
A loira a mirou.
Estudou-a.
Ela estaria a lhe falar a verdade? Como poderia sentir sua falta se havia pouco começaram a estreitar laços?
Absteu-se de comentar as palavras da cantora ao beber um gole cuidadoso do café.
Começaram a entabular uma conversa quando Maria, que se havia retirado, volveu e avisou à Rachel que o Sr. St. James estava ao telefone.
A cantora franziu o cenho e se preocupou. Acontecera alguma coisa com ele?
“Ele está bem, Maria?”, questionou e se ergueu sob o olhar curioso de Quinn.
Jesse St. James… Qual seria a boa notícia? Ou a má?
A atriz pediu licença para a advogada, a fim de ter com o esposo.
Hiram e LeRoy se sentiram incomodados. Esta não era uma boa hora para o ex-genro ligar…
Quinn bebericou um pouco mais do café e escutou o pai da judia a lhe questionar, curioso:
“Do que você se lembra deste apartamento?”.
A loira o mirou com o cenho franzido.
“Nada”, foi econômica no verbo.
“Coisa alguma?”, LeRoy se surpreendeu, embora a pergunta inicial fosse de Hiram. “A cozinha? O escritório? O estúdio para ensaios e gravações que Rachel se orgulha de ter e que você a ajudou a montar?”, o tom de voz de Roy ainda saiu pasmado.
“Eu a ajudei a montar um estúdio? Neste apartamento?”, a curiosidade arguta nos olhos verdes fez sorrirem os homens.
“Sim”, o médico continuou, “ela adorou quando você se prontificou a auxiliá-la. Claro, com o tempo, alguns equipamentos precisaram ser trocados, como os microfones, pedestais, algumas aparelhagens… Mas ela cuidou de tentar deixar o mais parecido possível com o original. É o lugar preferido dela”, confessou.
Quinn ficou reflexiva. Um estúdio! Que ela ajudou a montar…
“Rachel ainda o usa?”, questionou e bebeu um pouco mais do café.
“Sim! Ela e Jesse ensaiaram muito lá…”, estancou. Por que precisou falar que Jesse usava o estúdio que ela ajudou a montar?
Entretanto, ela não se abateu. Aliás, por que deveria?
“Isso é bom!”, exclamou.
Escutou o som de passos ligeiros e viu Rachel se aproximar, com um largo sorriso na face.
“Pai e papai”, começou, excitada, “Jesse decidiu alugar o apartamento aqui no prédio. Acho que será ótimo para Spencer tê-lo por perto”.
A garganta de Quinn coçou com a pergunta que achou por bem engolir: a proximidade do cantor seria boa para Spencer ou para ela? O quanto Rachel era dependente daquele homem? Ela ainda o amava e não se dava conta?
A judia sentou ao lado dela e tentou lhe tomar da mão, porém a advogada levou-a até a nuca e a passou ali. Uma maneira gentil de impedir que Rachel lhe prendesse.
“Eu e Jesse conversamos sobre o quão importante é a presença dele para Spencer. Sugeri um apartamento aqui no prédio. Jess montará, com a minha ajuda, óbvio, um quarto lá para nosso filho”, informou e se serviu de chá.
Quinn não emitiu opinião.
Rachel a mirou.
“Isso será ruim?”, inquiriu, momentaneamente insegura com a reação de Quinn.
“Não sei… Isso será ruim, Rachel?”, devolveu a pergunta, com os olhos cravados na face bonita da judia, estudando-a com incômodo cuidado.
“Eu sei que não será ruim, Quinn”, a cantora pegou a xícara com o chá que ficou na bandeja e tomou um gole.
“Se você diz…”, a loira sorriu.
Hiram e LeRoy escutaram parte da pequena conversa murmurada entre as moças e perceberam o tom de desconforto que a filha soltou. Decidiram acalmar o que consideraram poderia ser uma pequena desavença que faria Rachel sofrer.
O advogado foi o que primeiro falou:
“Estrelinha, fiquei surpreso ao saber que não contou para a Quinn que tem um estúdio em casa e que ela a ajudou a montá-lo”.
Rachel mirou o pai por alguns segundos fora da órbita terrestre. Até que a ficha caiu:
“Ah! O estúdio!…”, mirou a loira, “foi tão especial quando o montamos… A ideia foi sua”, sorriu.
O olhar de Quinn estava naquele estado de observação científica. Mirava com distanciamento frio e assimilava da mesma maneira as informações.
“Às vezes cantávamos ali”, a pequena suspirou.
Quinn precisava de informações mais consistentes…
“Quem ‘cantávamos ali’, Rachel? Eu e você ou você e o seu esposo?”.
A pergunta feita de maneira fria fez o sangue da cantora gelar.
Perdeu a cor.
Mas, respirou fundo.
Estava diante de Quinn Fabray! A mesma Quinn com quem soube lidar, aos trancos e barrancos, no passado.
“Nós duas…”, informou com naturalidade. “Era divertido! Eu era obrigada a escutar seu estilo alternativo e hipster enquanto eu lhe brindava com os grandes clássicos da Broadway”, sorriu.
Quinn gargalhou e comentou:
“E eu que pensei que precisava de humildade! E agora vejo que não! Você é imbatível, Rachel”.
“Quer ir até lá?”, perguntou, corando como uma adolescente.
A advogada achou intrigante uma mulher divorciada, mãe e adulta corar tão violentamente.
Meditou sobre a pergunta. Ir até um lugar que, de acordo com os Berry, ela ajudou a montar. Isso seria bom? E se sentisse dor de cabeça? E se Eleanor e Alex estivessem certas sobre a dor ter a ver com lembranças que estavam reprimidas e que o subconsciente não deixava vir à tona com as crises? E se nada disso fosse verdade?
“Quinn?”, a judia a chamou.
“Claro, Rachel”, respondeu.
O sorriso da cantora foi estilo propaganda de creme dental!
Ergueu-se e esticou a mão para a ex-namorada.
A ex cheerleader deixou a xícara sobre a bandeja, pediu licença aos homens Berry e aceitou a mão estendida de Rachel. Levantou-se e caminharam juntas até o corredor que as levaria ao estúdio.
Então a sensação de irrealidade abraçou a advogada.
Apertou a mão de Rachel.
“Isso é de verdade?”, perguntou, sem conseguir fazer aquela sensação deixa-la.
A cantora a fitou e sorriu. Não entendeu a pergunta de Quinn. Era uma pergunta, certo?
“Claro que é de verdade, Quinn!”, exclamou, feliz.
“E estamos indo para um estúdio… Estúdio de música?…”, precisava ter certeza de que era real.
“Sim. Um estúdio que você ajudou a montar”, repetiu a informação e mirou a loira. E seu coração apertou. O olhar de incerteza de Quinn Fabray naquele momento foi a coisa mais atordoante que viu até então.
“Quinn?”, chamou-a.
A advogada estancou.
O estancar foi tão vigoroso e decidido que Rachel se viu desequilibrar e voltar-se para a ex-namorada.
“Quinn?”, assustou-se.
“Eu ajudei a montá-lo…”, repetiu em murmúrio, procurando recuperar a compostura.
“Sim…”, a judia ainda estava insegura.
“Agora não…”, sussurrou a loira.
“Agora não?”, a cantora estava confusa.
“Não… Talvez daqui a pouco… Ou mais tarde”, decidiu.
“Mais tarde o quê, Quinn?”, não entendeu.
“Visitaremos o estúdio de música”, explicou.
Rachel suspirou. E tentou se remeter ao passado, a algum momento em que a cheerleader mudou de opinião. E soube que, nesta hora, o melhor seria fazer a vontade dela. Forçar Quinn Fabray nunca foi uma boa ideia. Por que faria isso agora?
“Está bem”, apertou a mão dela, estranhamente fria, notou, “poderemos visitar o estúdio quando você achar melhor…”.
“Obrigada, Rachel”, agradeceu e volveram para a sala.
Os Berry ficaram surpresos com a rapidez com a qual as duas retornaram.
“Isso sim eu chamo de rapidez”, brincou Roy.
“Não foi rapidez, papai”, a judia informou em tom natural, “achamos que seria melhor irmos até lá quando estiver arejado… Esteve fechado há algum tempo”.
Desculpa perfeita. Se os homens Berry não soubessem que a sua Estrelinha estava mentindo descaradamente.
Miraram Quinn.
LeRoy ficou muito curioso.
Por que a ex-namorada de sua Estrelinha não quis ir até o estúdio?
“Quinn?”, chamou-a, vendo-a sentar no sofá.
Ela volveu a face para ele.
“Pois não?”, respondeu e, por um instante, pareceu ao médico que ela não estava muito segura de onde estava.
“Você ficou meio perdida aqui… Eu também. Este é um apartamento bem grande”, falou, gentil.
Ela assentiu e, já senhora de si, comentou ao léu:
“O meu ainda é maior”.
Roy riu.
“Eu imagino! Mas o seu você conhece”.
A advogada percebeu a intenção dele e sorriu com desdém.
“Não faça isso, LeRoy! Não tente me analisar… Eu já tenho bastante gente fazendo isso por mim. Não preciso de mais um”.
O espanto na face dos três Berry (Spencer ainda era muito pequeno para entender destas coisas) foi grande.
“Eu não quis analisá-la”, o homem falou.
“Realmente?”, a advogada não estava muito crente. Se voltou para a frente e serviu-se de mais uma xícara de café.
“Não. Eu só pensei que, talvez, você se sentiu como se não estivesse a vivenciar a realidade”.
Quinn estancou por um momento. Depois, meneou a cabeça, bebeu um pequeno gole do líquido, sorriu relaxada e se voltou para o homem. Retorquiu:
“Não. Talvez eu tenha passado alguma impressão errônea”, bebeu outro gole do café.
“Talvez…”, o médico não discordou dela, mas não concordou, porque talvez ela realmente tivesse passado a impressão errada, ou talvez porque ele estivesse certo e ela não quis demonstrar que havia muito mais fragilidade entre a Quinn advogada e a Quinn inconsciente do que poderia explicar seu vão conhecimento sobre a alma ou a mente humana.
Rachel se colocou ao lado dela e escorregou, lentamente, a mão até encostá-la no braço da mulher a quem desejava. Desceu-a e a pousou sobre a da advogada.
Quinn a acolheu, observando, sem compreender porque seus dedos insistiam em se entrelaçar com os da pequena. Era automático… Um hábito. E isto acontecia por quê…
Ela costumava fazer isso! Era a explicação mais lógica… Um hábito escondido e que vinha à tona inconscientemente.
Deixou-se sentir o calor daquela mão na sua. A sua maciez. Devagar, passeou o polegar entre o dedo polegar e o indicador da cantora. Ela tinha a pele delicada e bem cuidada. Era gostoso acarinhá-la.
Rachel observou-a em sua concentração e a achou linda, experimentando-a de maneira quase inocente.
“Eu amo você, Quinn Fabray”, murmurou e a loira a fitou. “Mesmo que não acredite em mim, eu amo você”, insistiu, segura.
“Você tem a pele macia…”, era um comentário idiota. Mas, no instante, era como se sentia. Então, que a perdoassem! Estava mesmo se sentindo desta maneira. A lógica era agir como tal.
“Obrigada”, a voz melodiosa de Rachel saiu ainda mais doce.
Ok, pensou Quinn, Rachel conseguiu soar mais idiota que ela.
Sentiu-se aliviada!
LeRoy lembrou de a ex-namorada de sua Estrelinha comentar que o apartamento em que morava era maior…
“Você saiu do antigo apartamento em que morou? Ele ficava aqui perto, certo? Lembro-me de que fomos lá uma vez…”, comentou.
A loira assentiu.
“Sim. Ainda moro aqui perto. Na verdade, eu só mudei de apartamento”.
“No mesmo bairro de Kurt e Blaine?”, Hiram conhecia bem a cidade e recordou-se que achou curioso o fato de os rapazes irem morar no antigo bairro em que a agora advogada habitou antes do acidente. “Upper West Side, certo?”, indagou.
A advogada concordou:
“É perto do Central Park… Claro, Kurt e Blaine têm uma vista muito melhor que a minha, mas eu ganho em metros quadrados”, sorriu, “e em patrimônio”, agregou.
“Íamos sair daqui de Midtow para lá”, Rachel recordou.
“E você acharia uma boa ideia?”, a advogada ficou interessada, “afinal, você está ao lado da Times Square”, analisou.
“Nós conversamos muito a esse respeito, Quinn”, a cantora estava gostando de informar particularidades de sua relação para a ex-namorada, “e você encontrou a cobertura perfeita”, exclamou, encantada.
“Então você não ficou satisfeita”, a loira supôs.
A pequena franziu o cenho.
Hiram e LeRoy também.
Spencer… Não! Ainda não fazia ideia do que acontecia ao seu redor.
“Por que diz isso, Quinn?”, a pergunta feita pela cantora confusa era pertinente.
“Você se casou com outra pessoa”, concluiu com obviedade a transbordar, fazendo com que Rachel se engasgasse com o chá e tivesse uma crise de tosse.
Hiram pensou em apurar os ouvidos. Ouviu mesmo o que pensou ter ouvido?
LeRoy pensou que seria interessante pegar sua maleta médica.
Rachel suspirou.
Resignada, concordou:
“Sim. Você tem razão… Eu apenas faria uma correção: eu não estava insatisfeita. Confusa, sim, mas não insatisfeita. Eu sei o quanto você me amou, Quinn! E tenho o real peso do meu erro”.
A advogada a avaliou. Daquela mesma maneira que para Rachel estava se tornando habitual: fria e distante emocionalmente.
“Acho que fui indelicada”, achou por bem não ser tão crua com Rachel. Afinal, que diferença fazia se ela ficou ou não satisfeita? Isso não existia mais! Este acontecimento era algo que não lhe dizia respeito, porque não sentia nada sobre ele!
“Eu não deveria falar esse tipo de coisa. Aconteceu e você se arrependeu. E eu… Eu realmente não me importo”, a voz saiu mais fria do que, realmente, quis que saísse. Mas, havia momentos em que não conseguia controlar sua maneira de demonstrar o que sentia. Ou o que não sentia…
“Ok, Quinn. Acho que já está bom”, LeRoy se intrometeu. Não queria que a filha sofresse. E sabia que Quinn não fazia por mal, mas, ainda assim, machucava. E não deixaria que ela machucasse Rachel!
A advogada o fitou com o mesmo distanciamento. E achou que ele estava sendo coerente.
“Sim, Sr. Berry! Eu também acho que já chega”.
Rachel estava meio perdida entre um e outro.
Hiram estava satisfeito pela maneira como o esposo interveio na situação.
Spencer… Bem, esqueçamos dele por um momento!
“Eu creio que gostaria de conhecer o seu estúdio, Rachel, se você e seus pais acharem pertinente. Prometo me comportar”, sorriu, gentil.
A judia não sabia bem se sorria ou não.
Porém, rememorou: era apenas Quinn! E ela saberia lidar com ela.
“Acho que pai e papai não se oporão”, sorriu com alívio.
“Certo… Então…”, repousou o pires com a xícara sobre a mesa, ergueu-se e estendeu a mão para que Rachel a tomasse, “vamos?”.
A morena sorriu.
Na verdade, achava impossível não sorrir quando Quinn se comportava de maneira tão doce.
“Vamos”, decidiu-se e tomou a mão oferecida e se ergueu.
Os dedos de Quinn se entrelaçaram com os seus e ela encaminhou a advogada, falando sem parar sobre como surgiu a ideia de um estúdio no apartamento, que esta foi de Quinn e que amou quando foram pesquisar, pessoalmente, em revistas de decoração, visitas a lojas especializadas, entre outros espaços, a fim de terem um conceito de como conceberem um lugar que fosse ao mesmo tempo pessoal, elegante e funcional.
A advogada escutava com atenção. E se perguntou por quanto tempo Rachel poderia ficar debaixo d'água sem respirar. Ela não fazia pausas entre uma sentença e outra!
Pararam em frente a uma grande porta de correr para os lados, parecida com a do escritório da advogada no apartamento, exceto pela cor: a de Rachel era branca, em consonância com a decoração clean do local.
A cantora a abriu e acendeu a luz. Esta se fez e revelou um espaço amplo e muito organizado.
Quinn entrou devagar no estúdio. Observou as paredes forradas em madeira. Era clara. Havia uma com os discos de ouro e diamante que a cantora ganhou, além de um móvel com os prêmios. E havia as caixas de som, instrumentos vários. Um piano de cauda, como o que ela tinha na sala de estar de seu apartamento lhe chamou a atenção. Girou e estancou no meio, onde havia um pedestal com um microfone sem fio, dourado, preso a ele.
“Este é o seu…”, murmurou em conclusão óbvia.
Rachel corou e assentiu. Um sorriso tímido dançou-lhe nos lábios ao proferir, delicada:
“Você me deu…”.
A cara de espanto de Quinn foi a mais engraçada que a judia viu em todo o tempo em que se conheciam.
“Sim, Quinn! Você me deu”, confirmou.
A advogada se perguntou como conseguiu ser tão… Brega!
“Eu suponho que você não o use… É apenas um enfeite”, comentou.
Rachel alargou o riso e meneou a cabeça. Respondeu, bem-humorada:
“Lamento decepcioná-la, Fabray. Mas eu o uso. Com muito gosto, acrescento”.
“É claro que usa…”, murmurou meio ranzinza e os olhos estancaram num pôster em branco e preto, todo trabalhado na luz natural e nas sombras que esta causava, de uma mulher sentada à pouca luz, numa banqueta ao piano, nua, de costas. O rosto, em perfil e os cabelos que caiam em cascata pelas costas belas deixaram claro que a retratada era a cantora.
Quinn se aproximou e o tocou devagar, com a ponta dos dedos da mão esquerda. Seguiu o contorno da luz em oposição à sombra…
“Lindo! Seria uma bela capa de CD, ou vinil… Acho que vinil seria melhor”, pensou alto.
“Você me disse a mesma coisa quando tirou a foto e a emoldurou desta maneira”, revelou a cantora.
Quinn a olhou.
“O quê?”.
“Eu disse que você falou exatamente a mesma coisa quando tirou esta foto e a emoldurou…”.
“Eu fotografei você?”, estava incrédula, “eu fiz essa foto?”, parecia, realmente, desprovida de fé.
Rachel assentiu.
“Eu imagino que isso seja estranho para você agora, mas sim. Foi você quem me fotografou… Esta imagem ficava no nosso quarto…”, informou.
Quinn sentiu-se atordoada.
Já não deveria estar acostumada em descobrir coisas que fez e das quais não fazia ideia? Mas… Não! Determinadas revelações tinham o poder de tirá-la do seu equilíbrio… Como agora.
“Podemos sair daqui, Rachel?”, pediu. Um mal estar se aproximava e não queria fraquejar diante da cantora.
“Quinn, está tudo bem. Eu sei que parece estranho… Eu imagino o quão louco isso possa parecer, mas não fique assustada”.
Assustada?
“Eu não estou assustada”, explicou, “surpresa! Não assustada… E eu preciso ir…”.
Rachel percebeu que a ex-namorada estava muito mais atordoada do que queria demonstrar.
“Quinn?”.
Ela não respondeu. Os olhos presos no pôster.
“Quinn”, tocou-a, a fim de tirá-la do aparente transe.
A loira a fitou e parecia fora da realidade.
“Quinn, está tudo bem…”, murmurou, procurando paz.
Os olhos verdes se desviaram para o pôster.
“Quinn…”.
Olhos verdes mergulhados nas oposições luz/sombra.
Rachel sabia que seria errado.
Mas ela queria tanto!
E Quinn não parecia em condições de reagir mal.
Sem muito racionalizar, Rachel a tomou pela cintura e a puxou, chocando suas bocas.
A loira piscou algumas vezes e sentiu as costas baterem na parede que vedava o som.
Rachel colou o corpo ao dela e a segurou pela nuca. Empurrou a língua a fim de tomar posse da boca da mulher que a enlouquecia.
Quinn não resistiu. Não conseguia…
Rachel gemeu ao sentir aquele gosto há muito esperado.
Quinn tentou racionalizar…
Rachel exigiu mais da boca que apenas se deixava beijar.
Então, sentiu quando foi afastada devagar.
Os olhos verdes a miravam com confusão.
“Cristo, Quinn! Como poder ser tão linda?”, insistiu e segurou a face da advogada com as duas mãos e a puxou outra vez, beijando-a.
Outra vez, foi afastada. A respiração agitada. O coração parecia que saltaria pela boca.
“Eu amo você, Quinn”, falou sem um respingo de dúvida na voz e nos olhos emocionados. O corpo tremia.
“Eu… Eu estou um pouco confusa… Então, eu acho que seria uma boa ideia eu ir e depois…”.
A judia meneou a cabeça. E, outra vez, colou o corpo ao da advogada e a beijou. Escorregou a língua para dentro dos lábios quentes e úmidos de Quinn, refastelando-se.
Dessa vez, Quinn não a afastou. Deixou-se experimentar. Fechou os olhos.
E ela veio implacável e sem pena.
A dor.
Tomando-a como uma amante ciumenta, atordoando-a de tal maneira que os joelhos afrouxaram, a cor lhe escapou e não conseguiu se manter de pé.
Desfaleceu.
“O sábio procura a ausência de dor e não o prazer”.
– Aristóteles -
CONTINUA.
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