Sine Cordi
58 CAPÍTULO 58 - ןח
Notas iniciais
“Existe alguém em nós
Em muitos dentre nós
Esse alguém
Que brilha mais do que
Milhões de sóis
E que a escuridão
Conhece também”.
– Caetano Veloso em A Luz de Tieta–
Quinn sentiu que alguém lhe colocava as pernas para cima.
Abriu os olhos confusa.
Um homem a mirava com visível alívio.
“Ela está acordando…”, comentou.
Quinn olhou ao redor. Não conseguia pensar com clareza. Uma pontada incômoda lhe roubou a capacidade de raciocinar por alguns instantes que lhe pareceram longos demais.
“Holmes…”, murmurou o único nome que estava condicionada a falar mesmo se a cabeça estivesse desprovida de razão.
“Rachel está chamando por ele”, LeRoy falou, estudando-a e mantendo o pulso dela preso à mão, de maneira que pudesse lhe monitorar as batidas e o nível da pressão arterial. Estava baixa. Não precisava ser um gênio para saber. Ainda assim, olhava o relógio e acompanhava as pulsações.
“Que lugar é esse?…”, murmurou, tentando recuperar o raciocínio.
“Eu sou LeRoy Berry, Quinn”, o homem falou em voz baixa e tranquila.
Ela o mirou.
“Eu sou o pai de Rachel… Vocês vieram até o estúdio para que o conhecesse…”, sorriu, cuidadoso.
A loira assentiu.
“Obrigada”, murmurou, embora tudo parecesse muito borrado ainda. A dor não estava constante e, como num gráfico, ela se mantinha num nível estável e então subia e a pontada acontecia e Quinn sentia tudo girar. Desequilibrava-se. E a dor voltava ao patamar inicial para, logo depois, subir e a pontada vir de maneira violenta. Sabia que teria que se esforçar muito para sair andando dali…
“Onde estão os seus medicamentos”, Roy perguntou, “o que você está usando agora para as crises?”, o tom era profissional.
“Eu… Metadona…”, foi o único que conseguiu lembrar.
“Você o trouxe com você? Do contrário, terei que fazer uma receita”, falou, ainda em tom de voz baixo a fim de manter a moça tranquila. Era visível o quanto ela parecia desconfortável. E não somente pela dor. Quinn Fabray não era o tipo de pessoa que gostava que os outros descobrissem suas fraquezas.
“Eu estou…”, virou o rosto e viu o assoalho de tábua corrida, “no chão?”, percebeu as pernas sobre uma cadeira, mais alta que o resto do corpo.
“Você desmaiou, Quinn. Só não se machucou porque parece que a Rachel soube como estreitá-la bem e amaciar a sua queda”, comentou.
A advogada piscou algumas vezes. Tinhas pontinhos brancos dançando em frente aos seus olhos, como aqueles que vemos quando estamos numa daquelas crises horrorosas de enxaqueca.
“Rachel?”, a dor a impedia de pensar. Era cansativo… Desgastante!
Mas… Rachel? Rachel que usava meias até os joelhos e suéteres de gosto duvidoso na escola e… E o quê mesmo?
“Holmes…”, repetiu.
LeRoy avisou que estava chegando e voltou a questionar sobre o remédio que estava a usar.
Hiram apareceu com a bolsa dela e pediu licença para uma Quinn atordoada e meio alheia para abrir o pequeno objeto.
“O que eu devo buscar”, inquiriu ao esposo.
“Metadona”, repetiu e viu quando Quinn se dobrou e tentou sentar.
Ele a impediu de se erguer e virou o rosto dela para o outro lado.
Ela vomitou.
“Acalme-se, Quinn… Está tudo bem”.
Não! Definitivamente, para ela, não estava. Só queria sair daquele lugar. Queria ir para sua própria casa e não sair.
“Holmes…”, murmurou.
“Quinn, olhe para mim”, Roy pediu, “está tudo bem! Eu sou médico e cuidarei de você. Confie em mim”.
Os olhos dela dançaram de um lado para outro a estudar o lugar.
“Por que Rachel não ficou?”, murmurou, mirando o médico em clara expressão de interrogatório.
“Rachel está vindo com o seu cuidador…”, ele repetiu a informação, paciente.
“Não…”, ela murmurou, “ela disse que ficaria comigo”, asseverou.
LeRoy assentiu:
“Eu sei, Quinn. Mas ela precisou sair…”, explicou outra vez.
Outra pontada forte e ela virou o rosto para o que não tinha mais no estômago sair lhe rasgando a garganta com toda a acidez azeda que impregnava o paladar.
Rachel entrou no estúdio e parou de chofre.
A imagem de Quinn no chão, ao lado do próprio vômito não era uma visão agradável.
“Ela… Ela…”, não sabia o que dizer.
“Ela ficará bem, Estrelinha! Eu só vou ministrar a medicação dela… Espere lá fora”, pediu.
A cantora se sentiu tonta.
“Rachel, vá! Spencer ficou sozinho…”, Roy insistiu.
“Mas… papai, ela está…”, tentou ainda, perturbada.
“Estrelinha, por favor, faça o que o seu papai pediu. Vá ver Spencer”, Hiram resolveu intervir.
A pequena olhou para a ex-namorada.
“Foi minha culpa… Eu não deveria ter…”.
“Rachel, por favor”, outra vez Hiram insistiu.
Quinn estava alheia ao que acontecia ao redor.
Tentava se lembrar… Se incorporar e encontrar a linha de raciocínio. Precisava que a dor passasse… E Rachel? Onde ela estava?
Rachel não estava com ela.
Roy a chamou e os olhos verdes o miraram.
O médico a ajudou a se sentar e tomar a medicação que deveria aliviar a dor e o mal estar.
Ela o ingeriu com um pouco de dificuldade.
Fechou os olhos e se encostou na parede. Respirou fundo e tentou, mais uma vez, encontrar o fio que a levaria de maneira coerente até aquele momento humilhante de gosto azedo na boca e garganta queimada pela acidez da bílis. Tossiu… Queria não sentir aquele gosto… Queria não sentir o cheiro…
LeRoy falou baixo, pois sabia que a dor que a abatia era forte:
“Consegue pensar com mais clareza?”.
“Acho que sim…”, murmurou em agonia.
“O seu cuidador já está vindo, Quinn. Fique tranquila! Estarei ao seu lado”.
Quinn abriu os olhos e o mirou.
“Obrigada”, agradeceu e sentiu o alívio tomá-la quando viu Holmes adentrar pela porta, seguido por Rachel, que levava o filho pendurado no colo.
A advogada ergueu as mãos para o gigante que caminhou a largas passadas até alcançá-la e erguê-la nos braços.
“Quinn…”, Rachel a chamou, mas viu quando a advogada meneou a cabeça em negativa, com o rosto embrenhado no pescoço do cuidador, que ela envolveu com os braços.
Enquanto o homem caminhava para a saída do apartamento, LeRoy foi relatando tudo o que aconteceu – exceto a parte do beijo, pois não sabia ainda – e que medidas tomou a fim de tentar estabilizar a loira que parecia alheia ao redor.
“Obrigado, senhor. Encaminhe a conta para a Fabray&Advogados. Eles cuidarão de tudo”, Holmes agradeceu e explicou antes de sair.
“Mandar a conta?…”, LeRoy murmurou, atordoado. Ficou estanque, mirando a porta cerrada, ainda tentando compreender como as coisas aconteceram. Tudo parecia estar tão sob controle… Tudo bem que percebeu que Quinn rateou uma ou duas vezes durante a conversa e que não quis – ou não conseguiu – ir ao estúdio pela primeira vez. Mas… Isso seria o bastante para que a mente dela reagisse de tal maneira para desabilitá-la? Impedi-la de, talvez, sentir ou lembrar de alguma coisa? Quão grande seria a dor que Quinn sentiu que a fez se armar contra “invasores externos” ao músculo que batia-lhe no peito?
“Talvez muito maior do que a que ela sente agora…”, murmurou para si mesmo.
Rachel se aproximou dele, agarrada ao filho que levava nos braços, enquanto Hiram e Maria limpavam a sujeira que Quinn deixou.
“Papai, ela ficará bem?”, indagou, preocupada e assustada.
“Provavelmente…”, ele respondeu, ainda parado e de frente para a porta. O olhar no vazio.
“Eu estou assustada…”, confessou.
“Ela ficou perguntando o tempo inteiro porque você não estava lá… Que você prometeu não deixá-la… Que tipo de coisa falou para ela, Rachel?”, inquiriu, mirando-a com certo aborrecimento.
“Eu não falei, papai… Eu…”.
“Não falou? Não prometeu que ficaria ao lado dela? Que não a deixaria?”, insistiu.
A cantora estava confusa. Ela estava preocupada com o beijo que deu em Quinn e o seu papai preocupado com promessas que não fez.
Não a esta Quinn desmemoriada…
“Papai…”.
O homem a mirou com afinco, silenciando-a. Falou, numa estranha tranquilidade:
“Estrelinha, o que você viu hoje foi uma parte, eu suponho, do todo de situações como esta. Quinn ficou frágil após o acidente. É emocionalmente instável… Embora pareça muito segura. Ela é muito boa em fingir… Exceto quando sente dor. Então, filha, observe. Aproveite a oportunidade e veja o quão grande é o pacote Quinn Fabray. Haverá momentos bons. Mas haverá muitos momentos ruins. Você precisará estar preparada se quiser seguir com a ideia de tê-la em sua vida novamente”, alertou.
Rachel engoliu a saliva que, estranho, ficou no tamanho e quase tão espessa quanto uma bola de tênis a lhe descer goela abaixo.
“Eu a beijei…”, cuspiu, com os olhos fechados para não encarar o homem.
“Você o quê?”, ele ficou incrédulo.
A judia abriu os olhos e se jogou nos braços do pai, com Spencer e tudo.
Mesmo espantado, ele a acolheu com amor.
“Ela estava tão atrapalhada quando eu contei que ela me retratou no pôster…”, confessou.
O homem pensou na imagem. Ele a achava, também, bela e de gosto apurado. Uma obra de arte para os olhos de poucos.
“Ela era realmente muito talentosa”, comentou, afetuoso.
“Não acreditou que foi capaz de fotografar tão bonito”, murmurou, ainda em estado de confusão.
“Certo… Mas, em que momento entre a revelação e o espanto entra o beijo? E a promessa?”, quis ir direto aos dois pontos.
“Ela pareceu tão alheia que eu pensei que poderia roubar um beijo que ela demoraria para reagir”, revelou.
“Estrelinha, Estrelinha!”, o homem a apertou mais no abraço, “precisa ir devagar com a Quinn”, avisou, preocupado.
“Eu sei… Mas… Ela estava tão fácil de tocar… Eu só precisava senti-la uma vez mais…”, murmurou.
“Ela não foi grosseira?”, indagou, beijando os cabelos da cantora e os do neto.
“Não…”, suspirou, “foi exatamente como eu imaginei! Ela não reagiu… Quer dizer, quando se deu conta, afastou-me. Mas foi gentil…”.
Houve um momento de silêncio.
“Papai, acha que ela me evitará?”, a insegurança bateu ponto de presença.
O médico suspirou. Não sabia…
“Quinn é uma caixa de surpresas, amor. Pode ser que ela tenha ficado perturbada com a sua investida… E pode ser que ela racionalize sobre o assunto. Pode ser que ela volte e converse sobre o fato com você. Pode acontecer de ela precisar de um tempo para entender o que aconteceu… Ou não”.
“Obrigada por me deixar mais confusa, papai. Você foi de grande ajuda”, ela brincou.
No instante, com o gosto de Quinn seguro em sua memória e boca, estava muito feliz para pensar de maneira negativa. Só queria aproveitar o momento. Guardá-lo para sempre, se possível!
“E o que falou para ela?”, ele voltou a inquirir.
“Como?”, a judia o fitou, confusa.
“Ela disse, em meio a incoerência, que você prometeu ficar com ela”.
Rachel suspirou.
“Eu não prometi”, asseverou, “não hoje. Não para essa Quinn que não me reconhece… Mas, fiz promessa para a Quinn que me pediu em namoro há alguns anos”.
“Não há nenhuma árvore que o vento não tenha sacudido”.
– Provérbio Hindu -
“Ela o quê?”, Alex colocou as mãos na cintura, incrédula pela revelação da namorada, moribunda, sobre a cama.
“Ela me beijou… Qual parte ainda não entendeu?”, a dor deixava Quinn com um mau humor dos infernos.
A jornalista piscou algumas vezes. Franziu o cenho, pensativa.
Suspirou.
Mirou a ainda namorada sobre a cama. Estava, realmente, muito abatida.
“E o que você fez, Quinn? Você não provocou? Por que eu sei quem você é!”, informou, com a voz melodiosa e perigosamente calma.
Quinn sentiu a pontada lhe acertar em cheio.
Mareou.
“Quinn, baby, eu sei que você está quase às portas da morte, mas eu ainda quero respostas…”, informou.
“Cristo, mulher! Por que acha que eu provocaria a Rachel? Eu me comportei”, exclamou, aborrecida.
Alex acreditou.
Quando a dor tentava se sobrepor à sua palavra, Quinn Fabray gritava mais alto.
“Ok! Então…”, caminhou até a cama, devagar. Sentou na beirada, ao lado da advogada que jazia muito pálida. Tomou-lhe da mão. Estava tão fria! “A Rachel se aproveitou de você?”, perguntou, calma.
Sabia que Quinn negaria. Ela nunca daria o braço a torcer e confessaria que foi pega desprevenida! Ela contaria uma versão mais soft do acontecido…
“Não!…”, a velocidade mesclada à força com a qual a negativa foi proferida causou outra pontada na cabeça de Quinn, que murmurou baixinho…
“Meeerda”.
“Xingar realmente alivia”, Alex a escutou. Indagou, preocupada:
“Já tomou seus remédios?”.
Quinn teve força para levantar a mão e fechá-la, erguendo o dedo polegar.
“Certo…”, a jornalista a fitou com mais acuidade. Parecia tão vulnerável! E a vulnerabilidade lhe caía tão bem! Parecia uma personagem romântica! Uma Dama das Camélias, uma Marnie, de Confissões de Uma Ladra, talvez? Havia oposição nos tempos, porém uma peculiaridade nas duas histórias… Nas duas Quinn Fabray! A Quinn fria e distante e a Quinn frágil e abatida, apesar do humor azedo.
Uma cortesã vestida de dama e uma ladra!
Quinn era as duas coisas! E mais algumas outras também… Quinn era um todo que se expandia.
“Eu vou trazer uma compressa de água fria para a sua dor…”, falou.
Tentou se levantar, mas a loira travou-lhe do pulso com força.
“Quinn, eu só vou pedir para Holmes preparar a compressa… Eu não fugirei”, segurou a mão que a agarrava e acarinhou com a outra, livre. “Eu só quero que você fique melhor! Eu não vou deixá-la”.
Os dedos, aferrados, não cederam um só pouco!
A jornalista meneou a cabeça. Suspirou.
“Eu não vou a lugar nenhum, Quinn…”, informou da nova decisão, “pode soltar meu pulso agora?”.
Os dedos não afrouxaram.
Alex engoliu em seco.
“Quinn, e se eu precisar fazer pipi?”.
Os dedos não afrouxaram.
“Quinn, baby, eu não vou a lugar algum…”, garantiu.
Os dedos não afrouxaram.
“Quinn, pode confiar em mim? Eu não vou a lugar algum…”, murmurou, afetuosa.
Os dedos não afrouxaram.
Não houve mais palavras.
Não que não houvessem muitas em forma de perguntas a serem feitas! Havia! Porém o peculiar do instante se contrapunha aos desejos da jornalista. Coube-lhe ser mais paciente. Principalmente quando era prisioneira de uma mulher atordoada pela dor e a confusão, transitando entre o mundo do racional e do irracional, tentando se manter na realidade por meio dela. Ela era a âncora de Quinn Fabray no mundo real. E, por isso, a advogada não a soltava. E, também por isso, manteve-se em silêncio ao lado dela, sabendo exatamente quando a dor a tomava com mais violência. Os dedos de Quinn apertavam violentamente o agarre. E quando ela aliviava, os dedos se afrouxavam um pouco.
Alex sabia que teria os dedos de Quinn marcados em sua pele por alguns dias.
Por que ainda estavam juntas mesmo?
Ah! Ela amava Quinn. Adorava a confusão que a advogada era! Adorava-a inteira! Por isso ainda estava ali, sentada, suportando-lhe o sofrimento. Por isso, nunca abriria a boca para espalhar o quão frágil a Rainha de Gelo era por baixo daquela imagem empedernida e polida.
A madrugada não foi melhor.
Quinn teve o sono, induzido por medicação, agitado.
Alex se preocupou.
Levantou-se e tentou tranquilizar a namorada que acordou perguntando por que Rachel não estava com ela.
“Deus, Quinn! Assim você perderá o juízo…”, murmurou, abraçando-a, preocupada pelo delírio da advogada.
Ela se lembraria, quando estivesse consciente, de ter perguntado por Rachel durante a madrugada?
Ela teria noção da instabilidade emocional que parecia vir se instalando tal qual tempestade, com nuvens negras, raios e trovoadas a anunciarem a violência com danos e prejuízos na hora que a enxurrada viesse de todos os lados?
Aconchegou-a mais e beijou-a na face quando ela relaxou outra vez e adormeceu pesado.
O amanhecer não parecia trazer um dia agradável…
Suspirou.
§§§
“Merda…”, murmurou, levando lentamente as mãos à cabeça. A claridade lhe machucava os olhos. “Por que esse quarto está aceso?”, perguntou, incoerente.
Alex ergueu a cabeça, confusa pelo som da voz da mulher que reclamava ao seu lado, na cama.
Piscou diversas vezes.
“Acordou!…”, soltou, decepcionada.
Os olhos verdes a miraram.
“Por que está aqui?”, perguntou com o cenho franzido.
“E lá vamos nós…”, murmurou a jornalista. “Porque você não me deixou ir…”, informou com o enfado de atitude repetida mais de duas, três, quatro ou incontáveis vezes.
“Certo”, a loira concordou.
Quinn Fabray tentando se desfazer da confusão que é a memória dela da noite passada, pensou a morena, observadora.
“Você esteve com Rachel Berry ontem… E se sentiu mal”, achou que ela merecia uma pista para tentar organizar o quebra cabeças que era a sua memória craquelada.
“Rachel Berry…”, a loira franziu o cenho, “a garota das meias até os joelhos e agasalhos esquisitos…”, murmurou. E reclamou em seguida, “minha cabeça dói”.
“O nome disso, Quinn, é ressaca! Ressaca de Rachel Berry!”, exclamou e se ergueu, sentando e mirando, sonolenta, a namorada.
Quinn suspirou.
Ressaca? Bebeu?
“Eu não sei do…”, balbuciou, mas foi interrompida:
“Do que eu estou falando! Eu imagino que você não saiba”, atestou. “Do que consegue se lembrar?”, perguntou, menos ácida.
“Eu fui até o apartamento de Rachel…”, falou e esfregou a fronte com as duas mãos. Os olhos fechados. “Pode apagar a luz, por favor”, pediu.
A jornalista riu.
“Quinn, no máximo, eu posso fechar as cortinas… Não consigo apagar o sol”, informou.
“Alex…”, mirou a jornalista, “eu não pensei que algo assim fosse acontecer… Eu estava bem…”.
“Não, Quinn”, a jornalista a cortou, “você não estava bem! Você está longe de estar bem! Eu quero lhe entender, mas está muito além da minha compreensão. A maneira como a sua cabeça funciona é muito complicada! Eu não sei como agir muitas vezes, Quinn! Eu tenho medo de que você mergulhe na incoerência e não volte mais”, despejou, com preocupação aborrecida.
A loira a mirou sem retorquir.
“Vou chamar o seu cuidador para lhe ver enquanto vou me preparar para ir ao trabalho”, informou e saiu do quarto.
Quinn conhecia aquele tom de voz que passeava entre o enfado e o deboche.
Alex estava chateada.
E Alex chateada significava que ela sumiria por tempo indeterminado. Até que a raiva passasse. Como aconteceu de outras vezes…
Entretanto, por que ela estava aborrecida?
Não se lembrava de nenhuma falta…
Rachel Berry!
A dor de cabeça.
Então era tudo muito misturado para começar a arrumar sem enlouquecer antes do final.
A jornalista retornou ao quarto, capturando suas roupas para entrar no banheiro. Avisou:
“Seu lacaio já vem com os seus medicamentos e o café da manhã. Faça-me o favor de comer sem frescuras, Quinn. Eu não estou muito disposta a voltar aqui hoje…”.
“Eu não a beijei… Eu lhe disse”, na verdade, não tinha muita certeza…
“Sim, Quinn, você já disse. Mas, por gentileza, dê-me o direito de ficar puta da vida por saber que a língua dela andou passeando por dentro da sua boca e você não conseguia pensar a respeito. Isso é o mínimo que eu peço”, informou, irritada.
“Sua irritação não tem fundamento…”.
“Minha irritação tem fundamento, sim, doutora advogada! Apenas engula a verdade. Estou aborrecida! E vou tentar digerir isso. Se eu não conseguir, vomitarei. E você sabe que eu tenho tendência a me enojar… Então, apenas se cale”, mandou e se fechou no banheiro.
Quinn suspirou.
Aliás, Rachel Berry a beijou?
Beijou. Por isso Alex estava aborrecida. Porque Rachel a beijou. Não se lembrava muito bem… Mas lembrava da sensação do corpo dela encaixado ao seu, a boca quente e saborosa…
“Eu estou realmente confusa?”, perguntou-se, atrapalhada.
Holmes entrou no momento em que Alex saiu. Ela murmurou algo para o homem e se foi sem se despedir de Quinn.
A loira o fitou com o cenho franzido.
“Ela vai voltar…”, o homem assegurou.
A advogada o estudou.
Ele mentia mal.
Holmes lhe trouxe um copo com leite e alguns comprimidos num copinho descartável.
Olhou-os.
“São para dor de cabeça, as mudanças de humor, possíveis crises convulsivas…”.
“Já está bom…”, ela murmurou, azeda.
Jogou os comprimidos para dentro da boca e os engoliu com o leite que o cuidador ofereceu.
“Como se sente”, ele perguntou, organizando o carrinho onde o café da manhã seria servido.
“Não sei…”, ela realmente não se sabia nesse momento.
Ele estancou o que fazia e a fitou. Parecia tão esmorecida…
“O Sr. Wilhelm telefonou há pouco. Pediu que, assim que se sinta bem, entre em contato”, informou, a fim de fazê-la se distrair do que a deixava mais aturdida.
“Wilhelm…”, murmurou. “Eu sei… Ele foi rápido”, comentou.
“Ele sempre me pareceu muito efetivo, senhorita”, o homem compartilhou.
Quinn sorriu, cansada.
“Sim. Ele é”, confirmou.
“Algum caso em vista? Não recebi nenhuma chamada do escritório”, continuou, atento às reações dela.
A advogada assentiu antes de verbalizar:
“Não… O escritório não chamou. Eu quero contratar o Mathews”.
Holmes fez uma expressão de surpresa.
“O advogado do Sr. Street?”.
Quinn não respondeu. Pareceu pensativa.
“Senhorita…”, chamou-a.
“Eu fiz uma fotografia dela…”, comentou.
O homem tentou entender. Sabia que tinha a ver com Rachel Berry…
“Fez uma foto da senhorita Berry?”, indagou.
Ela assentiu.
“Um pôster… Eu não me lembro!”, riu, incrédula e cansada, “é tão patético, Holmes! É tão sem lógica eu não saber sobre a minha vida de verdade! É tão constrangedor fazer de conta que tudo está bom e que não há nada de errado em não me lembrar! Eu preciso rir de tudo isso! Porque é tão cruel e… E eu não sei… Porque eu nunca sei, certo?”.
“Acho que os remédios estão começando a fazer efeito”, ele comentou, enquanto a observava com atenção.
“Eu odeio tudo isso, Sr. Holmes…”, murmurou.
Ele notou que a sonolência causada pelos remédios começava a dar sinais de vida. A voz preguiçosa escorria pelos lábios dela, rouca. Os olhos se debatiam para permanecerem abertos… Até que ela se foi, sem perceber.
Holmes a ajeitou na cama, deixando-a confortável. Cobriu-a e segurou-lhe o pulso. Olhou o relógio e começou a contar.
Suspirou.
Talvez ela dormisse o dia inteiro!
Rachel perdeu a cor quando soube que Alex Bishop estava na portaria e que desejava lhe falar.
Engoliu em seco.
Quinn estaria mal?
Mas, falou com Holmes… Ele informou que ela dormia.
“Estrelinha, por que não a deixa subir? Acho que uma conversa entre vocês duas será inevitável! Mais cedo ou mais tarde terá de acontecer. Ela é a namorada de Quinn. E você é a ex que está a bagunçar a vida dela”, LeRoy opinou.
“Eu sei, papai”, respondeu, “mas… Deus! Isso é tão embaraçoso! Eu beijei a namorada dela”, os olhos ficaram maiores.
“Sim, querida! Você beijou a namorada dela. E acho que, como uma mulher adulta, deve se responsabilizar pelos seus atos. Receba-a…”, o médico insistiu, “essa moça não parece do tipo que faz escândalos…”.
“Mas tem fama de ser muito ciumenta…”, murmurou.
“Rachel”, dessa vez foi a voz de Hiram que a chamou.
Ela assentiu.
Receberia Alex Bishop!
“Todos gostam de um cumprimento”.
– Abraham Lincoln -
CONTINUA.
Fale com o autor