Sine Cordi
53 CAPÍTULO 53 - ןג
Notas iniciais
“O esperado nos mantém fortes, firmes e em pé. O inesperado nos torna frágeis e propõe recomeços.”
– Machado de Assis -
Os olhos de Rachel aumentaram de tamanho. Por que Quinn precisava de Holmes?
“Quinn, eu não estou entendendo…”, murmurou, insegura.
A advogada procurou pela árvore mais próxima. A dor vinha em fortes pontadas. Sentiu o estômago enjoar, a ânsia de vômito cada vez mais presente.
“Rachel…”, encostou-se à árvore e tateou o bolso da saia. Precisava da porcaria do telefone.
As mãos tremiam.
“Rachel… Eu preciso… Por favor, Holmes…”, pediu, sentindo as pontadas intensificarem.
“O quê? O que você?…”.
“Dor…”, cerrou os olhos e respondeu.
“Dor?”, a voz da cantora saiu mais aguda que o normal.
“Rachel…”, chamou, “eu preciso que… Chame o Holmes, por favor…”.
“Eu… Eu vou… Eu…”.
Silêncio.
“Rach?”, chamou outra vez, mas não obteve resposta…
“Rachel…”, murmurou, ainda a chamá-la, e buscou pela cantora com os olhos. Ela não estava mais na sua frente!
Ainda mais confusa e com as mãos trêmulas, encontrou o aparelho e respirou fundo… Merda! A ânsia de vômito estava mais forte… Precisava sair dali logo… Mas, para onde ficava mesmo a saída? E onde, raios, estava Rachel?
“Rach?”, chamou o mais forte que conseguiu.
Não atinava direito… Precisava de Holmes…
“Rachel…”, chamou, atordoada com a dor e pelo repentino sumiço da cantora. “Deus! Estou alucinando?”, já não tinha muita certeza da realidade que a cercava.
“Rachel!”, esforçou-se e, ao olhar para o lado, avistou-a às carreiras atrás de um Spencer fujão que corria descontroladamente pelo gramado, com uma mãe que o perseguia e quase o alcançava.
Voltou a atenção para o telefone e conseguiu manuseá-lo, apesar de as mãos tremerem, e acessar a agenda.
“Dois… Número dois… Quinn, número dois”, repetia, tentando – quem sabe – desligar-se da dor que a deixava sem eixo. Apertou a representação do número dois e colou o aparelho na orelha direita, enquanto apoiava o peso do corpo, que mal sustentava, no tronco da árvore. Só precisava que Holmes atendesse… Só precisava que Holmes não estivesse longe… Só queria sair dali… Sair daquele lugar, dos olhares das pessoas…
Ouviu o primeiro toque… Nada.
O segundo toque… Nada.
“Merda, Holmes”, maldisse. E onde estava a Rachel mesmo?
Terceiro toque…
“Holmes, atenda…”, murmurou.
Quarto toque e ela respirou aliviada.
“Eu não estou bem…”, foi só o que conseguiu dizer e abaixou o telefone.
Suava frio.
Virou-se e tentou se ocultar o máximo possível atrás da árvore assim que o estômago contraiu vigorosamente e o vômito subiu, queimando-lhe a garganta e abandonando o corpo por um jato que saiu forte pela boca.
“Cristo!…”, reclamou, diante do horror que sentia em vomitar e da contração violenta que fazia o corpo se dobrar contra a vontade para a frente.
Outro jato.
Puxou o casaco que levava às costas e o usou para limpar a boca.
“Quinn?”, um sussurro tímido e assustado soou atrás dela.
“Deixe-me”, pediu.
“Eu… Spencer fugiu… Eu…”.
“Deixe-me!”, conseguiu gritar. A única coisa que não precisava agora era de uma mãe tonta e culpada vendo-a num de seus piores momentos.
“Quinn, deixe-me ajuda-la…”, murmurou, embora não fizesse ideia do que deveria fazer, “o que você precisa? Eu estou aqui agora…”.
“Vá embora…”, pediu, lutando para continuar coerente.
“Eu vou chamar o Holmes… Número dois, discagem rápida…”, a cantora falou, a voz trêmula de puro pânico.
Um pânico que a advogada não sabia se era porque se sentiu mal numa hora imprópria ou porque o filho dela fugiu… Era pânico!
“Eu já chamei…”, avisou.
“Quinn, se o Spencer não fugisse, eu…”.
“Pare de se lamentar, Rachel! Não é sua culpa…”, estava à beira de uma crise e com uma mulher que não parava de tentar se justificar… Por que não ficou em casa mesmo? Por que resolveu cumprir com a promessa de levar a cantora para o Central Park? Por que mesmo? Para quê?
“Eu… Você está abatida e… Você vomitou?”, a pergunta saiu surpresa.
A advogada passou os olhos ao redor. Onde Holmes estava? Por que não aparecia e a levava dali?
“Quinn, por favor, o que eu posso fazer”, perguntou outra vez, mas Spencer puxou a mão e escapuliu.
Rachel olhou de um para o outro.
“Eu preciso…”, não terminou de se justificar e correu outra vez atrás do filho. “Eu juro que quando colocar as mãos em você, Spencer Berry St. James, eu vou dar uns tapas na sua bunda”, ralhou.
Capturou o menino e, quando se voltou, estancou diante da cena ao longe.
Holmes levava Quinn nos braços, encolhida e com o rosto escondido.
Pegou o filho no colo e tentou alcançar o homem.
Mas ele era atlético e praticamente corria com a loira no colo.
Estancou.
Olhou para o filho.
Olhou para si mesma.
O que aconteceu?
Como aconteceu?
Era para ser um passeio.
Era para ser divertido.
Era para ela e Quinn conversarem!
Era para ela e Quinn se aproximarem!
Era…
Hiram e LeRoy olharam para a imagem abatida e suada de Rachel.
Os dois se levantaram e foram até ela, que tinha o filho pendurado na cintura pelo lado direito e a bola do pequeno presa entre o braço esquerdo e o lado do corpo. Ela parecia ter corrido uma maratona…
“O que aconteceu?”, Hiram foi o primeiro a se manifestar. A evidente decepção na face da filha anunciava que o passeio não saiu como o planejado.
Roy tomou o neto para si e a cantora deixou a bola cair no chão e observou, cheia de tristeza, ela quicar até parar.
“O que aconteceu, Estrelinha”, Hiram insistiu na pergunta, sob o olhar do esposo que mantinha o neto entretido.
Spencer falou, inocente:
“Eu corri…”.
Os homens olharam para o garoto. Depois para a filha. LeRoy concluiu:
“E a sua mãe também…”.
A cantora se jogou nos braços do pai e este a acolheu.
Foram para o sofá, onde sentaram e ela, ainda presa a Hiram, murmurou, chorosa:
“Ela se sentiu mal… E eu não soube o que fazer… E o Spencer… Ele fugiu e eu não… Eu fiquei entre o meu filho e ela. Eu não sabia se o recuperava ou a socorria e… Eu a deixei sozinha… Ela estava tão indefesa, pai!”, as lágrimas de frustração e dor escaparam.
Eis um fato que causou surpresa nos homens Berry: o adjetivo “indefesa” usado para definir Quinn Fabray.
“Eu fiquei tão assustada! Ela… Ela tentava se controlar… Ela realmente tentou… Eu nunca a vi tão descorada e abatida, tão sem forças… Ela tremia e não conseguia formar uma frase completa, embora fosse coerente”, fungou, “ela fez muita força para não desmoronar e eu a deixei só…”.
“Estrelinha”, LeRoy procurou ser calmo, “foi um incidente! Não havia como você saber…”.
“Eu deveria ajuda-la…”, lamentou.
“Meu amor, você estava com Spencer! Ele é um bebê! Precisou de você! Qual mãe não iria atrás do filho? Apenas, da próxima vez, leve Maria ou uma babá… Aliás, nós sempre achamos que você deveria ter uma”, o médico comentou.
“O que ela teve?”, Hiram queria entender melhor.
“Dor… Dor de cabeça, eu acho… E… Quando eu voltei, ele a estava levando… Ela parecia desmaiada, mas eu não tenho certeza”.
“Ele? Quem?”, o advogado franziu o cenho.
“O cuidador…”, Roy respondeu com conhecimento de causa.
Recebeu o olhar surpreso do esposo. Explicou-se:
“Todo mundo sabe que ele está perto dela para quando as crises fortes acontecem… Ou quando ela tem crises…”, achou melhor não entrar em mais detalhes. Rachel já parecia muito preocupada.
Ela suspirou.
“Eu nem pude me despedir… Ele a levou de lá tão rápido e… E eu não consegui alcançá-lo e… O que acontecerá agora? Ela, provavelmente, não vai mais querer falar comigo… Ela precisou de mim, pediu minha ajuda e eu fiquei sem saber como agir… E o Spencer…”.
“Rachel Barbra Berry! Chega!”, Hiram exigiu, calando a pequena, que ergueu os olhos tristes para ele, “Quinn pode ter algumas falhas, mas ela entenderá que você precisou cuidar do Spencer! Ela não vai se afastar…”.
A judia olhou para LeRoy.
“Papai, você poderia tentar saber como ela está? Por favor?”, implorou.
O homem assentiu. Apenas avisou que ainda era cedo. Provavelmente, a moça loira deveria estar a ser medicada ou, quiçá, já sob o efeito dos medicamentos.
Houve silêncio. Apenas Spencer murmurava alguma coisa vez ou outra.
Hiram questionou, após observar a filha e o abatimento desta:
“Estrelinha, eu e o seu papai sabemos, não com muita profundidade, que a Quinn tem algumas crises como a que você presenciou. Eu quero saber de você, sinceramente: acha que está pronta para lidar com isso? Quinn é uma montanha-russa! Ela pode estar bem agora, azeda pouco depois, sarcástica e, como você mesma a descreveu, frágil! Acha que será capaz de lidar com o mundo de emoções e inseguranças que ela poderá lhe proporcionar?”.
A pergunta, feita com calma e muita coerência, deixou a morena muda. Ela amava Quinn. E, vez ou outra, amar significava fazer alguns sacrifícios. Por que não poderia fazer alguns pela ex-namorada?
“Serão muitas batalhas… haverá desgaste emocional. E, talvez, ela nunca retribua o seu amor da maneira como você almeja”, o homem achou pertinente esclarecer a situação para a filha. Ela deveria encarar as coisas como elas eram: difíceis. Ela não deveria pensar ou se enganar em como poderia ser sua relação com Quinn. Ela precisava estar ciente da verdade!
“A dor…”, murmurou, ainda encolhida ao corpo do pai, “ela é sequela do acidente…”.
Os homens suspiraram juntos.
“Ela disse que eu não tinha culpa…”, riu, desafortunada.
“Rachel…”, Hiram a chamou ao perceber que as lágrimas da filha tornaram a cair.
“É tudo minha culpa! Se eu não a tivesse traído e se ela não… Não…”.
O verbo suicidar-se ficou preso na garganta dela. Engoliu-o, embora lhe descesse como um sapo grande, escorregadio e frio, nojento e intragável… Cru e vivo!
“Estrelinha, já lhe dissemos e repetiremos: Quinn escolheu não viver!”.
“Porque eu a decepcionei! Porque eu não fui capaz de ver o quanto ela me amou! E, agora, quando posso ver, quando vejo e reconheço, ela não me reconhece mais. Ela não sabe quem eu sou e quem eu fui”, lamentou-se.
Outra vez, os homens Berry suspiraram juntos.
“E, também, não sabe o que você fez…”, Hiram completou, “o que pretende fazer? Contar a verdade para ela? Como acha que ela reagirá?”.
A judia meneou a cabeça.
“Ela sabe que eu a traí”, observou.
“Mas não que o acidente não foi apenas um acidente”, o homem atalhou.
“Ainda acho que não acreditará”, LeRoy era um ferrenho defensor desta teoria. Sabia da verdade sobre a ex-namorada de sua filha. Não teve acesso direto ao prontuário médico da moça, porém, conhecia muitos médicos em Nova Iorque. Conversou. E, diante do quandro que – além de ver rapidamente na única visita que fizeram, ele e o esposo, à acidentada – por descrição e explicações dos colegas de profissão, sabia o necessário para que sua Estrelinha fosse parcimoniosa com a advogada e, muito importante, paciente.
“Você será pressionada, Rachel”, o médico prosseguiu, “os ânimos de Quinn lhe pressionarão”.
Ela o fitou.
Fungou, sem se desgarrar de Hiram.
“Por que me diz isso? Eu, às vezes, acho que ela só não sabe bem como agir comigo ou com as outras pessoas… Ela sabe que deixou as pessoas infelizes com o acidente… Ou, penso que sabe…”, murmurou a última parte para si mesma.
“Não… Ela não sabe”, Hiram a escutou e exclamou, muito seguro.
“Eu preciso, definitivamente, contratar uma babá”, pensou alto, enquanto mirava o filho no colo de LeRoy, divertindo-se com as caretas e bobeiras que o avô fazia.
O homem concordou com ela:
“Eu sei que valoriza o pouco tempo que tem com Spencer, mas, antes, você tinha o Jesse e vocês se alternavam no trabalho a fim de dedicarem atenção a ele, mas agora… E, mesmo que o Jesse ainda estivesse aqui, acho que seria estranho ele ficar com o menino enquanto a esposa sai para tentar reconquistar a ex”.
“Ele é meu ex-marido, papai”, corrigiu, “e sempre me apoiou com a Quinn…”.
Pensou em Jesse. Desde que ele saiu de casa, não se falaram. Conseguiu notícias dele via um Kurt assustado e com um pequeno escrito de duas razões básicas para ela não cometer a insanidade de se aproximar de Quinn. A começar pelo básico e número um: Quinn não é mais a mesma de antes. Dois: a Quinn não consegue se ligar emocionalmente a ninguém. Precisava de mais?
Rachel achou que sim.
E não o escutou.
E não escutaria.
E, apesar de tudo o que aconteceu no Central Park, ainda guardava esperança de mais uma oportunidade com a loira. E, dessa vez, seria mais atenta. E levaria uma babá… Ou deixaria o filho com os avós… Ou várias outras alternativas que lhe pipocaram no cérebro como uma brainstorming sem controle.
LeRoy mirou a filha com atenção.
“Diga-me, Estrelinha: quando a dor de cabeça da Quinn começou”, indagou, muito compenetrado.
“Eu acho que ela já a estava a sentir, pelas palavras do Holmes, quando nos deixou no Central Park. Mas ela disse que estava bem… E realmente parecia estar! Então, ela decidiu me levar ao lugar que achava menos pior e”, estancou, numa pausa dramática.
Uma pausa que surtiu efeito sobre Roy:
“E?”.
“Eu falei que aquele lugar específico era o nosso lugar especial, quando estávamos juntas… Então ela começou a sentir dor e a pedir que eu chamasse o Holmes”, quase murmurou, tão desanimada saiu-lhe a voz. “Por quê?”, questionou, num suspiro.
Olhares e olhos expectantes caíram sobre LeRoy Berry.
“Não sei bem…”, ele parecia pensar em voz alta, “pode ser que, talvez, alguma recordação se aproximasse e, para não vir à tona, por se tratar de alguma coisa ou algo que a machucou – talvez – muito, a dor foi a tranca que a mente dela encontrou para protegê-la. Mas isso é só uma teoria”, cuidou de esclarecer.
A teoria do médico ficou rondando o lugar, passeando sobre as cabeças (exceto a de Spencer, claro) como um espectro quase palpável. Um espectro um tanto intimidador, diga-se de passagem.
Maria apareceu, vinda da copa.
“Um senhor ao telefone, da parte da Srta. Fabray, pediu para avisar a Srta. Berry que ela está bem e, tão logo se encontre em condições, entrará em contato. Ele também pediu desculpas por sair às pressas com ela e lhe deixar”.
Rachel saltou do sofá e de entre os braços de Hiram.
“Ele está ao telefone?”, questionou, ansiosa.
“Não, senhorita. Ele apenas pediu para dar este recado. Porém, garantiu que logo entrará em contato”, explicou a mulher.
A judia voltou a se sentar e se aninhou outra vez nos braços do pai.
“Ele não disse mais nada”, perguntou com fragilidade e decepção.
“Lo siento, señorita”, a mulher falou, com legítima tristeza.
“Gracias, Maria! Você é muito gentil”, sorriu a pequena, ainda que com clara tristeza.
Maria sorriu com afeto para a patroa. Desejou que tudo pudesse ficar bem para a jovem mulher. Fosse com Quinn ou com Jesse… Ou só.
“A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.
– Joseph Joubert -
Quinn suspirou. Sentiu a cabeça oca.
Abriu os olhos e os passeou ao redor do ambiente.
“Estou confusa?…”, murmurou para si mesma, após passar os olhos pelo quarto branco. Suspirou e moveu o braço esquerdo e sentiu uma pequena pontada.
“Cuidado, Quinnie”.
Virou a face, primeiro, para o braço de onde veio a dor e viu que tinha uma agulha que levava soro e medicamentos diretamente a sua veia.
Depois, surpresa e sem nenhuma certeza, virou a face para a voz.
Alex parou perto da cama e lhe acariciou a cabeleira loira, que caia espalhada pelo travesseiro.
“Hospital”, havia incredulidade na voz.
A jornalista a beijou na testa e procurou apaziguar o que poderia se tornar um pequeno escândalo:
“Está tudo bem… Você receberá alta logo”.
“Alta?”, ainda soava incrédula.
Desviou o rosto e soltou um suspiro aborrecido.
O que foi que aconteceu mesmo?
“Hoje é hoje?”.
A pergunta, a princípio confusa para quem a escutasse a primeira vez, fez a jornalista sorrir e localizar a advogada:
“Não, bebê. Hoje é amanhã. Você se sentiu mal ontem…”.
“Certo…”, murmurou.
O cenho franziu. Imagens soltas salpicaram-lhe a mente: Central Park. Holmes. Bola de futebol (Bola de futebol?). Árvores. Rachel Berry… Rachel Berry?
“Eu saí ontem com a Rachel”, tentou parecer segura das palavras, mas Alex sabia que era só uma maneira de ela não demonstrar o quão confusa ainda poderia estar.
“Saiu… Mas sua dor de cabeça resolveu lhe pregar uma peça e você não se sentiu muito bem”, procurou ajudar.
A loira não fez movimento. Escutou as palavras da amante. E sabia que poderia confiar nela. Ela não costumava mentir…
“Ok…”, murmurou, “acho que sei o que houve. Que merda!”, exclamou, aborrecida e fazendo a jornalista rir.
Fitou-a com seriedade.
“Não é engraçado”.
“O seu ‘que merda’ foi, sim, engraçado”, justificou.
“Quem da cavalaria está aqui, além de você e o Holmes”, questionou.
“Só eu. Russel veio, Santana e Britt também. Judy estava para viajar de Lima ainda ontem, mas a Dra. Tolkien disse que foi só a dor forte mesmo. Talvez uma reação do estresse do julgamento”, falou.
Duas coisas arregalaram os olhos verdes:
“Judy aqui? Estresse por causa do julgamento?”, as perguntas saíram ácidas e com muita falta de fé.
“Sua mãe não virá. E Helen é só a sua neurologista…”, murmurou, paciente, “a Dra. Parker, por sua vez, acredita que a sua dor tenha ligação com o fato de você se aproximar de Rachel”.
A advogada suspirou antes de voltar a perguntar:
“Tem certeza de que irei para casa hoje”.
“Absoluta! A Parker quer vê-la no consultório dela tão logo se sinta forte… Você andou faltando a muitas sessões… Praticamente se deu alta”, reforçou a informação, com paciência.
Quinn suspirou. Não gostava da situação em que se encontrava. Queria sair dali…
“Quando a Helen passará para me ver”, inquiriu.
“Logo, Quinnie… Seja paciente”, pediu Alex, afagando os cabelos da namorada.
“Eu sou a paciente”, murmurou de mal humor.
A jornalista sorriu e estalou um beijo rápido nos lábios aborrecidos da loira.
“E a Rachel? Ela veio também?”, a possibilidade a assomou.
“Não…”, a morena de olhos azuis explicou, “parece que o filho dela escapuliu e ela correu atrás dele… Holmes não teve como chamá-la, porém já telefonou e se desculpou pela forma como vocês saíram e a deixaram”.
As sobrancelhas da loira se ergueram.
“Ela ficou lá, com o filho, a pé?”, não acreditou.
Alex suspirou.
“Ficou…”.
“Merda ao quadrado”, soltou.
“Acalme-se. Ela chegou bem à casa e já foi avisada”, lembrou, a fim de aplacar o desconforto da loira.
Quinn ainda estava meio zonza. Provavelmente efeito da medicação.
“Acho que vou cochilar…”, murmurou.
“Eu também acho”, Alex concordou, afetuosa.
“Você não foi à revista?”, inquiriu, afogando um bocejo.
“Fui… Já é quase noite…”.
Quinn piscou algumas vezes diante da informação. Por quanto tempo dormiu?
“Os medicamentos deveriam impedir isso… Impedir a dor”, avaliou.
“Como a Dra. Parker falou…”, a jornalista pronunciou, cautelosa.
“Não interessa o que ela falou! Interessa que não deveria acontecer”, a voz rouca saiu um pouco mais alta.
“Quinn, está tudo bem… Você irá para casa e poderá conversar com a Rachel”.
“Não, Alex! Isso independe dela! Tem a ver comigo! Eu não deveria me sentir assim”, insistiu.
“Talvez, baby. Você sabe melhor que ninguém que é vulnerável… Por causa do acidente”.
Quinn suspirou outra vez. Ela sabia. Sabia de tudo! Mas isso não significava que teria de estar de acordo.
“Por que não relaxa?”, Alex afagou-lhe a face abatida.
“Não acha um pouco tarde para a Helen me dar alta ainda hoje?”, perguntou, quase em adormecimento, porém atenta.
“Ela garantiu que iremos para casa hoje… Ela só quis lhe manter sob observação. Você só está um pouco chapadinha… Nada que a impeça de sair daqui”, atestou.
“Não estou chapada… Só com um pouco de sono…”, reclamou.
“Ok… O que você quiser. Apenas tente ficar tranquila”, assentiu, amorosa.
A outra concordou. Só havia um porém: tinha, neste momento, o estranho pressentimento de que, se fechasse os olhos e dormisse, poderia sonhar com coisas ruins. E não gostava quando isso acontecia.
“Eu estarei aqui… E, se eu perceber que não está tranquila, prometo que lhe acordarei”, Alex pareceu ler o pensamento da namorada.
A loira lhe procurou a mão com a sua e a segurou apertado.
“Eu amo você, Quinn. E ficarei aqui até irmos para casa”, assegurou.
A advogada concordou.
“O amor é a compensação da morte.”
– Arthur Schopenhauer -
CONTINUA.
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