Sine Cordi

51 CAPÍTULO 51 - ןא


Notas iniciais
Achei forte... Vocês decidem o que acharão. ;)

Não há nada que você possa conhecer que já não foi conhecido

Nada que você possa ver que não esteja à mostra

Nenhum lugar em que possa estar que não seja onde deveria estar

É fácil

Tudo o que você precisa é de amor…”.

– The Beatles in All You Need Is Love (The Magical Mistery Tour)

Rachel sentia-se nervosa.

Sob os olhares atentos e preocupados dos homens que a cercavam, pegou Quinn pela mão e a levou até o quarto.

A loira observou, embora não se incomodasse de fato:

“Seus pais e seu marido não estranharão ficarmos a sós?”.

“Talvez… Mas eu preciso de um pouquinho do seu tempo… Quero saber como está”, informou, fechando a porta do quarto com uma coragem que ainda lhe surpreendia. Não que fosse covarde. Sabia que não era. Mas, quando se tratava da ex-namorada, suas certezas desmoronavam.

A advogada observou se ela as trancaria no ambiente.

Porém, Rachel apenas bateu a porta com gentileza. Fechou-as. Não trancou-as. Havia diferença…

Caminhou até a cama e se sentou na ponta.

Quinn a observou.

A cantora pregou os olhos em algum ponto não definido pela visita.

“Rachel, você está bem”, questionou, em silenciosa prece para que a artista não tivesse outro rompante como o que a debilitou e do qual ainda estava a se recuperar.

“Por que, Quinn?”, questionou, levantando os olhos que se prenderam na face bonita da ex cheerleader.

A advogada a mirou com estudada atenção.

“Por que o quê, Rachel”, perguntou com voz tranquila.

“Você falou sobre o meu casamento com o Jesse? Por que perguntou sobre isso para ele? Eu vou resolver”, garantiu.

A loira caminhou até ela e sentou-lhe ao lado. Segurou-lhe a mão esquerda com a sua direita.

“Eu pensei que você soubesse…”, murmurou, “Eu só quis… Provocar”, confessou.

Olhos marrons incrédulos a miraram.

“Por quê?”, a pergunta saiu como o olhar: sem fé.

Quinn suspirou.

“O que você quer, Rachel? Eu quero lhe conhecer. Mas, você – apesar de demonstrar o mesmo desejo que o meu – mantém um casamento que me intriga”.

“Não há mais casamento”, esclareceu, “e, ainda que houvesse, o fato de eu estar casada com o Jesse não anularia, necessariamente, a nossa vontade de nos conhecermos”, apontou.

A loira assentiu, com brilho de satisfação no olhar.

“O que eu posso lhe dizer sobre isso, Rachel? Nada. Então, esqueça a minha dúvida. Poderemos nos conhecer e você poderá continuar com o seu esposo. Apenas não diga que me ama. Porque eu não acreditarei”.

A judia sentiu como se houvesse levado um soco.

“Deus, Quinn! Eu lhe garanti que não há mais casamento”.

“Não há mais casamento? Sabe quantos homens e mulheres vivem um casamento onde dividem o mesmo teto, porém não mais a cama? Sabe quantos vivem um casamento de ‘cama e mesa’ e parecem menos íntimos que você e o seu marido? Para mim, é válido ter dúvidas”, contra argumentou, num tiro a queima roupa.

Rachel suspirou e abaixou os olhos.

As palavras da advogada a reverberarem em seu íntimo.

Quinn estava certa?

Estava…

“Você…”, mirou-a de novo, “tem a Alex… E se eu quiser que termine com ela para nos conhecermos? Seria uma troca justa”, avaliou.

Quinn sorriu.

Rachel estava se tornando muito, muito interessante… Talvez por isso tenha se apaixonado por ela. Porém…

“Não. Quem me abordou para tentar uma reaproximação foi você. Eu não lhe pedi nada. Você foi tão insistente, o que me parece uma característica sua, que despertou a minha curiosidade. Eu não sabia, e não me interessava saber, quem era você e nem o seu significado num passado que não lembro. Mas, então, após aquele desastroso encontro no qual lhe informei que sofri um acidente, a maneira como se mostrou culpada despertou a minha atenção. Depois, eu soube – por você – que iríamos morar juntas num ponto de nossas vidas. Eu me perguntei: por que eu não sei disso? Por que pessoa alguma comentou sobre o quão profunda foi a minha relação com a Rachel? Intrigada, e sem a colaboração das pessoas que poderiam me ajudar, achei que o melhor seria lhe dar a oportunidade que pediu. Então, desculpe-me, Rachel, mas eu não vou deixar a Alex. Ao passo em que, se você diz que me ama e me quer, eu a desafio a me conquistar, mas, saiba, não será fácil. Eu sou difícil! E Posso ser horrível quando quero. E eu muitas vezes aprecio ser assim. Livre-se do seu esposo, amante ou amigo de quarto e, depois, procure-me”, ergueu-se firme e tomou o caminho até a porta.

A cantora se apavorou:

“Espere! Para onde vai?”, ergueu-se.

Quinn se voltou para ela e ergueu a sobrancelha direita.

“Para onde vou? Vou me despedir dos seus pais e seu marido e, após, irei para a minha casa. Óbvio, não?”, virou-se outra vez.

“Quinn, não! Por favor…”, pediu, insegura.

A loira colocou a mão na maçaneta da porta. Passeou-lhe os dedos… Abria ou não abria?

“Rachel, você tem o meu telefone”, falou com tranquilidade, “se você conseguir decidir sobre o seu casamento, e se a sua decisão for ‘viver’ um divórcio ‘tradicional’, com Jesse não dividindo mais o teto com você, telefone-me. Caso contrário, apenas esqueça. Eu sou ótima nisso”, foi sarcástica.

Rachel sentiu o chão desaparecer de sob os pés.

Ela perderia Quinn outra vez…

Ela sabia que, se deixasse que ela cruzasse a porta, não teria mais como alcança-la.

Ela sabia que teria que se decidir.

Ela sabia que nenhuma desculpa que pudesse ter ou dar seria válida.

Ela sabia que Quinn estava certa.

Ela, na verdade, queria ter certeza de que Quinn estava certa.

“Eu vou conversar com ele!”, quase gritou.

A loira se voltou para ela. Os olhos verdes a estudaram.

“Vai?”, a pergunta soou fria e desconfiada.

“Vou!”, a resposta, que deveria ser imperativa, saiu trêmula.

Quinn inclinou a cabeça para o lado e mirou com acuidade a face da cantora. Desceu os olhos sobre o corpo. Observou como a respiração dela estava agitada. O coração deveria estar entre 120 e 180 batidas por minuto. A batida de um atleta em atividade, que tem normalmente o coração resistente pelos treinos constantes. Porém, Rachel suportaria? Voltou os olhos para a face da cantora… O olhar arregalado, as sobrancelhas erguidas, a boca entreaberta com uma curva descendente. A expressão do medo, da insegurança… Rachel era tão transparente!

“Vai…”, a advogada se manifestou, “da mesma maneira que falou que conversaria com ele na visita que lhe fiz há poucos dias? Eu, realmente, não sei se você está preparada para isso, Rachel”.

Girou a maçaneta.

Rachel engoliu em seco.

“Passar bem, Rachel”, falou e se virou para puxar a porta e sair.

Entretanto, foi surpreendida por uma mão que empurrou a porta, batendo-a, e outra que a puxou pelo braço, trazendo-a de volta.

“Você não vai”, agora, sim, Rachel acordou!

Quinn a mirou com surpresa e tentou soltar, delicadamente, o braço que era seguro por uma mão que tinha um agarre ferrenho.

“Tudo bem”, a advogada achou melhor ser ponderada, “vamos conversar um pouco mais”.

Rachel corria os olhos pelo rosto bonito da garota que ainda amava. A respiração agitada.

“Rachel, solte o meu braço e vamos sentar e conversar”, falou com calma estudada.

“Vamos conversar”, concordou e arrastou a advogada, que foi pega de surpresa pela força da menor, até a cama, onde sentaram lado a lado.

Soltou Quinn.

Quinn esfregou o local do agarre.

“Eu vou fazer o que você quer, Quinn. Eu vou conversar com o Jesse e ele sairá desta casa. Eu não vou querer que deixe a Alex, mas tentarei lhe conquistar…”, olhou-a nos olhos, “na verdade, eu não tentarei lhe conquistar. Eu vou!”, afirmou.

As sobrancelhas da advogada subiram.

Gostava de pessoas determinadas! E Rachel estava se mostrando muito determinada.

Sorriu antes de falar:

“Perfeito! Então, assim que o Jesse se mudar, telefone-me! Você gosta do Central Park? Eu pensei em chama-la para um passeio”.

O sorriso de Rachel foi se abrindo aos poucos.

Abriu-se até lhe alcançar a alma e o coração.

Perguntou-se: como aquela mulher tão fria conseguia ser, em contraponto, tão encantadora? Como ela conseguia aliviar a pressão com um sorriso doce e promessas simplórias?

“Eu amo tanto você”, murmurou com afeto e um desejo quase incontido.

Quinn observou a maneira como os olhos da cantora caíram sobre sua boca e se fixaram ali.

Ela cogitava beija-la?

“Rachel”, achou melhor desviar-lhe a atenção, “você quer me falar algo mais?”.

Entrementes, os olhos marrons ainda miravam-lhe a boca.

Oh, merda! Quinn pensou. Ainda era cedo para um beijo… Elas iriam se conhecer… E Alex?

Levantou-se.

Rachel também.

“Ok! Eu vou agora e estamos combinadas”, assumiu um tom distante.

Os olhos castanhos subiram da boca para os orbes verdes.

“Sim. Estamos combinadas. Para quando prefere o passeio? Para o próximo fim de semana”, indagou, determinada.

Quinn sorriu e menou a cabeça. Respondeu:

“Você só tem que me telefonar, Rachel”.

A cantora assentiu e a tomou pela mão, levando-a para que se despedisse dos pais e de Jesse.

Ex-amor,

Gostaria que tu soubesses

O quanto que eu sofri

Ao ter que me afastar de ti.

Não chorei!

Como louco eu até sorri,

Mas no fundo só eu sei

Das angústias que senti”.

– Martinho da Vila em Ex-Amor (Focus – O Essencial de Martinho da Vila)

Hiram e LeRoy Berry observaram a filha.

Ela estava mais agitada que o normal…

Quinn acabara de sair.

A cantora sentou no sofá em que estava antes, no mesmo lugar. Apenas sem a companhia da mulher que amava.

Suspirou.

Limpou a garganta e, a buscar coragem no fundo da alma, falou:

“Pai e papai, eu preciso conversar a sós com o Jesse”, olhou o marido.

St. James se empertigou no assento e puxou o filho, colocando-o sobre o colo e segurando-o com se fosse um escudo.

Os homens Berry se entreolharam e LeRoy resolveu opinar:

“Querida, acho que você deveria pensar bem antes de conversar com o Jesse. Você ainda está um pouco confusa… Estressada”.

“Estou ótima, papai”, afirmou, sem tirar os olhos da face do ex-marido.

“Rachel, filha! Pense bem…”, Hiram também tentou colocar um pouco de clareza na mente da filha.

“Eu pensei…”, ela soltou sem forças.

“Não pensou. Está movida pela emoção! O que foi que a Quinn lhe falou? Rachel…”, Hiram insistiu.

Mas…

“Pai e papai, por favor, eu preciso conversar com o Jesse a sós. Vocês podem sair e levar o Spencer?”.

Os homens suspiraram e, preocupados, pegaram o menino nos braços e acharam que seria mais saudável leva-lo para fora. Talvez num parque ou praça… Um lugar onde a sua inocência não fosse quebrada por decisões tomadas no calor da hora.

Jesse a mirou em silêncio.

Sabia que Rachel estava mais distante desde a penúltima visita de Quinn. Na verdade, até poderia antecipar o assunto…

“Você quer que eu vá embora”, atestou, a engolir saliva.

Rachel suspirou em alívio. Jesse, até nas horas mais complicadas, conseguia aliviar-lhe a pressão.

“Sim…”, confirmou, menos corajosa que antes.

“Imagino que esta seja uma sugestão que a Quinn lhe deu”, falou com a certeza de que morreria um dia.

A atriz respirou fundo.

O coração latia forte contra a caixa torácica.

“Na verdade”, ela começou, “uma exigência para que eu possa tentar reconquistá-la”, confessou.

O homem não soube o que pensar. E, por isso, juntou as mãos e passou uma na outra, com o tronco inclinado para frente, cotovelos apoiados nas pernas.

“Eu preciso dessa chance, Jesse! Você quis o divórcio… Eu confesso que no início eu não queria isso, mas agora, quando vejo essa possibilidade de ter a Quinn outra vez, penso que foi realmente o melhor que nos aconteceu… Você…”.

“Rachel”, o homem chamou-a num tom de voz altivo e repressor. Olhou-a. Assentiu duas vezes, devagar, com a cabeça, e falou:

“Não precisa surtar. Não precisa buscar justificativas. Eu entendo você”, a voz saiu tão serena que a cantora achou que, logo, ele teria um acesso de riso, como sempre acontecia quando ficava nervoso… Como quando viu o homem ser atropelado…

“Jesse, você acha isso mesmo? Você, realmente, entende?”, perguntas inseguras e tomadas de ansiedade.

Ele suspirou.

“Eu entendo, mas não compreendo…”, confessou.

Rachel não alcançou o significado das palavras do ator.

Diante do silêncio torturado dela, decidiu explicar:

“Eu entendo que você queira reconquistar a Quinn. Entendo que a ame e acho justo que lute por ela. Entretanto, não compreendo o porquê dessa decisão ser tomada de uma hora para outra. Havia um arranjo entre nós… Você pediu para eu ficar… Conversou comigo e preparou um quarto para mim nesta casa. Então, Quinn apareceu e lhe acenou. E exigiu que eu saia para lhe dar uma chance… Isso não lhe parece radical, Rachel? Eu não discutirei com você o fato de eu sair daqui. Eu só desejo saber porque tem este tom de imediatismo na sua voz”.

Rachel sentiu a cabeça girar.

Respirou fundo, a fim de fazer passar a ânsia de vômito.

Engoliu a saliva abundante e, sob imenso peso no peito, falou:

“Porque é imediato, Jesse. Eu quero que você me perdoe…”, as lágrimas saíram como um aliviador da pressão, “por fazer isso com você, mas precisa sair daqui logo… O mais tardar amanhã… Por favor”, levantou para correr para o quarto, mas foi agarrada por mãos fortes que a seguraram e a forçaram a permanecer.

“Jesse, por favor…”.

“Rachel, eu não tenho para onde ir…”, murmurou, confuso.

“Tem… Um hotel… Eu pago a diária, eu pago tudo… Apenas, vá… Por favor, Jesse”, implorou.

Ele riu incrédulo. Mantinha a ex-esposa presa e sujeitada diante da situação que achou inesperada.

“Eu não estou pensando com coerência agora, Rach-Rach… Mas… Eu não entendo”, sacudiu-a com gentileza para que ela o mirasse.

Ela o mirou. E viu o quanto o machucava neste momento. O quanto lhe pareceu frágil e traído.

“Eu sinto muito, Jesse”, falou em lágrimas.

“Não, Rach…”, ele murmurou, “eu sinto muito… Eu sinto muito porque, apesar de querer a sua felicidade e amá-la tanto que ainda estarei por você e para você sempre, eu acho que a Quinn está lhe forçando a uma situação que pode ser negativa. Ela pode levar você com ela para o mundo frio e sem memórias dela… Eu temo porque, talvez, Rach-Rach, você não consiga sair”, lamentou.

“Não, Jesse! Não…”, ela queria que ele entendesse que estava pronta para reconquistar Quinn.

“Sim, Rachel! Ela criou mal estar desde que colocou os pés nesta casa hoje! Ela foi incômoda e espaçosa! Uma fera que eu precisei amansar falando da Alex, a única coisa que fez com que ela aliviasse a pressão sobre todos nós! Então, perdoe-me, amor! Mas eu acho que ela é corrosiva! Ela não joga para perder, Rachel! Ela é astuta, observadora… Ela é capaz de arrancar a razão das pessoas enfiando a mão pelo crânio e trazendo o cérebro! Então, eu lamento, porque eu duvido que você consiga lidar com esta mulher”, terminou, soltando-a.

“Jesse, eu a amo…”, murmurou.

Ele meneou a cabeça e riu, incrédulo. Falou:

“Não… Não, Rachel! Você não a ama! Nunca amou! Você teve dúvidas quanto ao que sentia por ela! Você me seduziu! Você me manteve por semanas enquanto estava com ela! Você permitiu que ela nos flagrasse! Você a tirou da sua vida de maneira baixa e definitiva. Você casou comigo e pariu o meu filho! Se a amasse, nada disso teria acontecido! O que você sente, Rachel, é culpa! Uma culpa tão grande que vai lhe esmagar”, passou as mãos pelos cabelos, nervoso e atordoado. Sem Norte.

Rachel não soube como permaneceu de pé depois que ele a soltou. Menos ainda depois das palavras cuspidas com revolta.

“Eu… Eu vou pegar algumas roupas… E eu… Eu vou para a casa do Kurt e do Blaine. Eu não sei se conseguirei ficar sozinho hoje… Então… Eu vou e…”, caminhou em direção ao quarto e estancou, “eu virei aqui… Buscar o restante das minhas coisas…”.

“Jesse, não precisa ser assim”, Rachel falou, alquebrada pela dor, pelas lágrimas e pelo soluço. Alquebrada pelo medo de que ele pudesse estar certo e ela não.

“Precisa, meu amor… Eu estarei por perto… Prometo! É só me telefonar… Eu virei… De qualquer lugar. Entendeu, Rach-Rach? Eu virei de qualquer lugar assim que me chamar”.

Oh, meu único amor nascido

De um ódio antigo!

Tarde demais o conheci, por fim…

Cedo demais, sem conhecê-lo, ameio-o!

Que monstruoso amor nasceu em mim…

Devo odiar a quem amo, ou amar a quem odeio!

– William Shakespeare em Romeu e Julieta

CONTINUA.

Notas finais
É isso! - Cal. *-*