Sine Cordi

52 CAPÍTULO 52 - ןב


Na vida, nada se resolve, tudo continua. Permanecemos na incerteza; e chegaremos ao fim sem sabermos com o que podemos contar”.

– André Gide -

Kurt levou a mão à boca, aterrorizado por abrir a porta e dar com um Jesse St. James amarrotado, abatido, com cara de quem chorou.

“Diga-me que este seu estado foi apenas por causa de uma briguinha com a Rachel”.

O homem, sabe-se lá por que razão, dor talvez, ou necessidade de acalanto, jogou-se nos braços do contratenor aos prantos.

Kurt o sustentou a duras penas. Jesse era mais alto e atlético.

“Deus! Jesse, o que foi?”, a voz saiu mais aguda que o normal.

Um Blaine de cenho franzido, acometido pelo inesperado, apareceu no recinto. Correu para ajudar o esposo a sustentar o cantor que chorava copiosamente.

“Vamos sentá-lo…”, falou.

Levaram-no para o sofá e o ajudaram a se colocar confortavelmente.

Blaine avisou que prepararia um chá, enquanto Kurt deveria conversar com o visitante e saber o que aconteceu. Aproveitou para puxar a bolsa do cantor para dentro e fechar a porta.

“Álcool!”, Jesse soluçou, “eu preciso de algo forte… Algo que me adormeça a mente …”, foi dramático.

Até Kurt o achou exagerado.

Blaine não lhe deu ouvidos. Ele precisava de um chá e um comprimido de calmante que terminasse com “pam”: Diazepam, Lorazepam, Clonazepam, Alprazolam, Flurazepam… Qualquer um serviria! Desde que o acalmasse!

Kurt o tocou no ombro, com cuidado.

“O que aconteceu? Você e a Rachel se desentenderam?…”, arriscou.

“Não… Eu não sei… Ela me pediu para sair de casa”, Jesse o mirou, visivelmente atordoado, “foi o inesperado da coisa toda… A Quinn convenceu a Rachel… Eu estou, ainda, triste e confuso, porque eu não sei com quem a Rach-Rach está se envolvendo… Eu pensei que era exagero de vocês, que a Quinn não deveria ser tão fria como disseram… Então ela entrou na vida da Rach-Rach e, em poucos dias, eu estou fora de casa. Entendeu a minha preocupação? E a minha contradição? Eu…”, o homem meneou a cabeça e puxou o choro para dentro, “eu acho que a Rach-Rach tem direito de tentar conquistar a Quinn…”, puxou o ar com dificuldade, “ao mesmo tempo eu estou muito surpreso e confuso em como as coisas se deram… Entende?”.

Não. Kurt não entendeu. O que era uma dicotomia se analisarmos todo o discurso dele sobre a loira. E, sobre esta estranha discordância, achou que deveria se calar. Pelo menos até colocar as próprias ideias em ordem. Estava chocado!

“Jesse, vamos por partes… Primeiro: a Rachel lhe pediu para sair de casa. Quando?”, indagou, paciente.

“Hoje… Há pouco… Eu saí de lá e vim direto… Eu não quis ficar sozinho…”, respondeu, ainda atontado.

O homem branco como o leite passou a mão pela nuca.

Pelo jeito, a coisa era mais séria do que imaginou.

“A Quinn conversou com a Rachel?”, perguntou outra vez.

Esta pergunta, em especial, era muito significativa para o Hummel. Ele precisava se encontrar em meio a confusão que tudo lhe parecia.

Jesse assentiu, limpando algumas lágrimas, que insistiam em escapulir pelos olhos, com a manga da camisa. Falou:

“Elas conversaram. E depois que ela se foi, a Rach-Rach veio falar comigo. De acordo com as palavras dela, Quinn exigiu que eu saísse de casa a fim de dar uma oportunidade de elas se entenderem”, conseguiu ser mais claro.

“Santo dos Santos! A Rachel não pode estar no juízo normal… Ela surtou há poucos dias”, comentou, ainda em choque.

“Eu não sei até onde ela está consciente do que vai fazer. Parece que a Quinn se aproveitou da fragilidade dela e a forçou…”, ponderou.

Kurt analisou a fala do amigo.

Talvez a Quinn tivesse, mesmo, aproveitado-se de Rachel. Mas, será que a cantora era tão indefesa? Ele mesmo, enquanto amigo, tentou protegê-la! Santana também tentou. Mas, Rachel Berry era uma mulher de natureza teimosa. Quando colocava uma ideia na cabeça, não sossegava até alcançá-la. E ela colocou na cabeça que reconquistaria a Quinn. Ela só estava sendo ela mesma!

“Jesse, eu não vou defender a Quinn, mas a Rachel foi avisada. Ela não escuta as pessoas, sejam os pais ou os amigos, quando cisma com alguma coisa. A Quinn, óbvio, percebeu este traço na personalidade dela e usou. Então, pode ser que a Rachel fique insegura, afinal, acostumou-se com a sua presença. Mas, com tudo o que sei sobre a Quinn, talvez a Rachel possa sair chamuscada dessa tentativa de reaproximação, porém, porque quis. Mesmo que ainda esteja meio fora de razão”, opinou, “eu só acho que…”, suspirou, “eu realmente não sei bem o que lhe dizer agora… Foi tudo muito súbito… Eu nunca pensei que a Quinn daria abertura para a Rach…”.

O ator, talvez lá no fundinho mais obscuro de seu ser, também não pensou nessa possibilidade.

Ele não conseguia, em realidade, pensar sobre muita coisa agora.

No momento, havia muita confusão em sua cabeça.

Sentia-se um trapo.

Sentia-se sozinho.

Abandonado.

Descartável.

Blaine reapareceu trazendo consigo uma bandeja de prata com um bule de água quente, um delicado recipiente para e com o açúcar, saquinhos de chá calmantes delicadamente arrumados em um recipiente próprio e três xícaras com seus respectivos pires.

Arrumou a bandeja sobre a mesa de centro e pegou uma xícara, onde colocou dois saquinhos de chá, verteu a água quente, adoçou um pouco mais que o de costume e a estendeu para o amigo. Também lhe ofereceu um pequeno comprimido branco.

“O que é isso”, perguntou, zonzo.

“Um calmante que lhe ajudará a relaxar… É fraco… E eu acho que você precisa de um pouco de alívio”, explicou.

Jesse olhou para o pequeno círculo branco que o empresário lhe colocou na palma da mão. Sem pensar muito, jogou-o direto na garganta e o engoliu puro, a seco. Só depois, após o chá esfriar um pouco, tomou-o quase que de uma só vez, em longos e barulhentos goles.

Kurt e o esposo trocaram olhares preocupados.

“Jesse”, o moreno de olhos esverdeados começou, tranquilo, embora preocupado em seu íntimo, “talvez a Rachel volte atrás. Dê um pouco de tempo para ela. Os pais dela estão na cidade e, pelo que eu conheço, farão de tudo para ficar ao lado dela até que ela recupere um pouco do…”, suspirou, “da coerência”.

O ator riu incrédulo e balançou a cabeça em negativa.

“Não! Eles tentaram… Ela está cega! Está tão desesperada que não escuta pessoa alguma”, informou, amargo e decepcionado.

Kurt pensou bem, antes de se colocar:

“Eu sei que você sente a necessidade de protege-la. Mas, já pensou que – talvez – seja bom para a Rach experimentar esta reaproximação com a Quinn e decidir se esta experiência será boa ou não por ela mesma? Rachel não precisa de pessoas ao lado dela a dizerem o que é bom, ruim, lícito ou não. Eu, você e Blaine pensamos que – provavelmente – ela poderá sair mais sem norte desse envolvimento com a Quinn. Entretanto, e se não for assim? Já aventou essa possibilidade?”, a voz saiu serena.

Não. Jesse nem sequer pensou nessa ideia. Estava tão cego de preocupação e frustração que não conseguiu vislumbrar coisa alguma de positiva na aproximação das duas mulheres, principalmente após saber que a loira havia imposto como condição a saída dele da casa da esposa. Não que este fosse o problema principal. O problema foi como Rachel tomou a decisão. Ela lhe pareceu mais impelida a isso por fatores externos que por razões próprias.

“Eu me preocupo com ela e com o meu filho…”, sussurrou, pensativo.

O contratenor lhe apertou as mãos com a própria.

“Eu sei, Jesse. Mas, penso, Rachel não vai expor Spencer a situações desagradáveis… Talvez, amanhã, após o calor das emoções terem se dissipado um pouco, vocês possam conversar melhor. E chegar a um ponto comum sobre o que está a acontecer”, avaliou.

O cantor não se encontrava em situação de racionalizar o que aconteceu. Estava tomado de emoções que iam desde a tristeza, passava pela decepção e subia até o extremo da preocupação por Rachel e o quanto ela poderia se enganar por tomar uma decisão tão séria sob pressão. Pressão causada por Quinn Fabray!

“Ela acha que pode lidar com a Fabray da mesma maneira que a Alex!”, riu, descrente, “ela nem ao menos conhece a Bishop! Não sabe como são diferentes! Alex é cosmopolita, independente desde sempre, sabe o que quer, não titubeia…”.

“Rachel até pode não ser como a Alex – e nós sabemos que há uma distância enorme entre as duas – mas eu não acho que a Rach seja menos especial ou capaz”, Kurt observou. E, ao pensar nas palavras dele, não estava de todo errado. Ele sabia sobre o que falava. Conhecia a judia muito bem, há muitos anos.

Jesse o fitou. E perguntou:

“Diga-me, Kurt: acredita que a Rachel realmente ama a Quinn? Acredita que ela chegou, realmente, a amá-la? Porque eu tenho as minhas dúvidas”.

“Dúvidas?”, ficou atento.

“Por que ela traiu a Quinn comigo? Por que casou comigo? Por que não foi atrás da Quinn, que tanto diz amar, quando ainda estava em tempo?”, colocou-se.

“Eu acho que muitas coisas aconteceram, Jesse”, foi sincero e cândido ao se expressar, “ela ficou à margem do que aconteceu com a Quinn… De alguma forma, não temos como endossar ou refutar os sentimentos dela pela Quinnie! Ela estava muito abatida quando foi para a Europa… E eu, em conluio com Santana, achamos por bem não dizer o que aconteceu. Eu porque achei que seria melhor esperar até a Quinn sair do coma; Sant porque estava muito aborrecida com ela. Foram vários fatores que, mesclados, não concederam a Rachel a oportunidade de retorno”, analisou.

“Eu discordo”, o ator foi seco. “Se a Rachel tinha certeza de que era a Quinn que ela queria, por que embarcou para a Europa?”.

“Por que ela sempre foi muito responsável com a carreira dela”, Kurt contra-argumentou.

“Então, de qualquer maneira, acho que chegamos a mesma resposta: Rachel ama a carreira e, por ela, foi capaz de sacrificar o amor de Quinn. No final, ainda cabe a pergunta: Rachel realmente ama ou chegou a amar a Fabray de verdade?”.

Boa questão, pensaram Kurt e Blaine.

A resposta?

Bem, esta ainda pairava no mundo das hipóteses.

Prepare-se

Nós temos tudo o que você precisa

Prepare-se para uma Viagem Misteriosa

Prepare-se

Satisfação garantida

Prepare-se para a Viagem Misteriosa”.

– The Beatles in Magical Mistery Tour

O amanhecer chegou para alguns dos participantes dos acontecimentos do dia anterior como o dia seguinte a uma noite de desgaste muito grande. Despertaram abatidos, fracos e – em princípio – sem nenhuma razão aparente para seguirem adiante.

Quinn, ao contrário, pareceu muito bem-disposta sob o olhar observador de Holmes.

Ela estava à mesa do desjejum, xícara de café presa nos dedos da mão direita e jornal na esquerda. Bebericava o líquido e lia as notícias com a paz dos justos.

“A senhorita Bishop telefonou há pouco e perguntou como estava”, o cuidador informou.

A loira não desviou a atenção da notícia, entretanto, murmurou a pergunta:

“Ela virá hoje?”.

“Não disse, senhorita”, respondeu.

Quinn assentiu.

Escutou o toque do celular em algum ponto, mas não fez caso. Ainda que o chamado fosse insistente.

“Deseja que eu pegue o seu telefone”, Holmes indagou, solícito

“Não, obrigada”, respondeu, ainda com os olhos metidos nas notícias.

O homem pediu licença e se retirou para a copa.

O telefone cessou o toque e a advogada continuou com a leitura do periódico.

Ouviu, mais uma vez, o aparelho tocar.

Suspirou. Teria que silenciá-lo ou não teria paz.

Quando começou a baixar o jornal para descansá-lo sobre a mesa, o telefone emudeceu. Maldisse e volveu à leitura.

O chamado recomeçou.

“Deus! Se for o Russel, vou mandá-lo pastar”, pensou alto, erguendo-se e indo em busca do aparelho. Seguiu-o até o escritório. Quando se aproximou da escrivaninha, ele cessou o toque.

A loira sorriu com deboche.

“Eu mereço…”, murmurou e pegou o telefone, a fim de saber quem era o chato da hora.

“Não”, exclamou, sorrindo com satisfação.

Ficou a mirar a tela do aparelho, pensando se esperava tocar outra vez, se retornava a ligação, bloqueava o número, desligava o aparelhou ou, simplesmente, retirava-lhe o som a fim de que apenas vibrasse (a uma distância longa de sua pessoa, claro) e aproveitava o dia.

Murmurou, optando por desligá-lo:

“Cedo demais, Rachel. Cedo demais…”.

Largou o aparelho e voltou à mesa, a fim de continuar o desjejum.

Pouco tempo depois, Holmes apareceu a fim de saber se desejava alguma coisa e ela respondeu:

“Se a Srta. Berry telefonar, diga-lhe que o meu telefone ficou sem bateria. Se, por alguma obra do acaso, acontecer de ela conseguir o número aqui de casa, eu não estou me sentindo muito bem”.

O cuidador franziu a testa.

Ela suspirou e avisou:

“Apenas um sinal muito sutil de dor de cabeça… Já usei meu remédio… E Alex? Virá?”.

“Ela não garantiu… Mas se souber que está com dor…”.

“Eu não estou”, cuidou de amansar o feroz protetor antes que ele alarmasse meio mundo por nada.

Holmes assentiu. Limpou a garganta:

“Posso perguntar a razão, então, de não querer falar com a Srta. Berry”, indagou.

Ela o fitou.

“Não quero que ela me veja no meio de uma possível crise…”.

“Mas acabou de me garantir que não está no início de uma”, contra-argumentou.

Quinn rolou os olhos:

“Céus, homem! Pare de tentar complicar as coisas! Estou bem”.

“E, por estar bem, não quer atender a Srta. Berry”, alegou.

Quinn ergueu os olhos para ele. Sorriu com desfaçatez:

“Sabe, Holmes, eu até aprecio as pessoas, menos quando elas, como você agora, são desagradáveis”.

“Certo”, ele achou melhor não debater.

Se Quinn estivesse a ponto de ter uma crise – o que não acontecia já há alguns dias – ela não conseguiria omitir isso dele. Mais cedo ou mais tarde, ela sucumbiria. Era questão de tempo.

Por via das dúvidas, achou pertinente deixar Alex a par do que soube há pouco. Ela era muito valiosa nessas horas. Conseguia controlar Quinn.

Rachel andou de um lado para o outro no quarto.

Estava ainda mais abatida, embora – a primeira vista – isso parecesse impossível.

“Por que ela não me atende?…”, murmurou entre insegura, frustrada e aborrecida.

Quinn teria brincado com ela?

Quinn teria feito a exigência para tirar Jesse de casa para, depois, dar-lhe as costas?

Ela seria capaz disso?

Bom, de acordo com o Kurt e a Santana – e agora Jesse –, sim, Quinn era capaz disso.

“Não… Ela me desafiou… E Quinn nunca foi de fugir de um desafio”, conseguiu, ainda que lhe parecesse um feito, analisar a situação com clareza. “Talvez ela esteja com a Alex… Oh, merda! E Alex? Preciso fazer a Quinn se desligar dela…”, matutou, distraindo-se da decepção por não ter a chamada atendida pela advogada. Suspirou.

“Não adiante lutar contra uma mulher como Alex Bishop. Eu preciso que a Quinn faça isso”, analisou, “ela deverá ser a pessoa a terminar a relação. Eu só tenho que conquistar a minha ex-namorada. As demais coisas se encaixarão”, sorriu, satisfeita e aliviada consigo mesma.

Colocou o visor do telefone diante dos olhos e mordeu o lábio inferior.

Um fato raro de acontecer, entrementes que estava a ocorrer com alguma continuidade incômoda nos últimos tempos: Rachel estava insegura sobre o que fazer.

Deveria apertar o comando e rediscar o número de Quinn?

Isso seria pertinente?

E se ela achasse que foi rápida demais ao pedir para Jesse sair de casa?

Isso seria interpretado como prova de amor?

Isso poderia ser interpretado como falta de apego? Afinal, praticamente descartou Jesse.

Aliás, o Jesse! Precisavam conversar.

“Estou tão perdida agora”, murmurou.

A dúvida entre falar com Quinn primeiro, arrumar a situação com o Jesse e se manter sã era grande.

Respirou fundo, sentou na beirada da cama e deixou o telefone.

“Ficar sã, Rachel. Isso é o mais importante agora”, analisou e se deixou cair para trás, deitando-se e fitando o teto. “Nunca pensei que isso seria tão… Desgastante!”, concluiu.

*

Alex mal desligou a chamada que recebeu em seu escritório na revista, quando este foi invadido por um Jesse St. James perseguido pela secretária da editora, que não conseguia explicar o que acontecia.

A jornalista acalmou a mulher, sorriu e, percebendo que o cantor estava descompensado, solicitou que ela pedisse a Bruce que lhes servisse chá, ou…

“Você prefere café”, questionou para o “visitante”.

Ele a mirou, perdido.

Alex se dirigiu à secretária:

“Peça ao Bruce para trazer os dois”.

“Bruce?”, a mulher de, aproximadamente, sessenta anos, muito bem cuidada, questionou curiosa pelo nome do homem que a chefe lhe pediu que servisse as bebidas. Afinal, ele era o segurança do setor.

A jornalista tomou a mulher do braço e a levou até a porta e confirmou:

“Sim! Peça ao Bruce”.

A secretária assentiu.

A namorada de Quinn respirou fundo e se voltou para a inesperada visita.

“Jesse…”, cumprimentou e caminhou até perto dele e o mirou. Estava abatido além da conta. Parecia mais velho. Pareceu-lhe sofrido e sofrível.

“Sente-se”, apontou a cadeira em frente a escrivaninha.

Ele assentiu e agradeceu o oferecimento.

A morena sentou do outro lado e fez a pergunta:

“O que lhe traz aqui, Jesse”.

O cantor a mirou, embora apenas erguesse os olhos e mantivesse a cabeça encolhida entre os ombros e baixa.

“Você não sabe? Não esteve com a sua namorada?”.

Ela percebeu que o tom de voz dele estava entre magoado e irritado.

“Ainda não… Passarei por lá hoje, a fim de olhá-la”, respondeu, tranquila.

“Talvez, então, ela lhe conte o que fez”.

Alex pensou que tipo de castigo infligiria a Quinn por não avisá-la que poderia receber tão inesperada visita.

“E…”, tentou soar tranquila, “o que foi que ela fez?”.

“Ela convenceu a minha Star a me colocar para fora de casa”, exagerou.

“Quinn fez o quê?”, pareceu-lhe prematuro que a advogada já estivesse a se meter no meio do casamento da cantora., embora não pudesse afirmar que tal fato a surpreendeu.

“Alex, por favor, converse com a Quinn… Ela querer que a Rachel só se aproxime dela comigo longe é completamente ilógico”.

A editora franziu o cenho e pensou. Havia uma coisa que a namorada não era: sem lógica. Ainda que pudesse parecer aos olhos desavisados que ela fazia as coisas de maneira resguardada e silenciosa, quando estas se mostravam, tinham lógica e razões quase irrepreensíveis e irrefutáveis.

Definitivamente, Jesse não conhecia Quinn!

“Você já conversou com a Rachel?”, ela indagou mui cuidadosa.

Jesse gargalhou com escárnio antes de verbalizar sem, no entanto, levantar a cabeça e mirar a mulher que sentava do outro lado da escrivaninha:

“Ela não quis me ouvir ontem. Por que faria isso hoje? Ela está obsessionada com a Quinn… Cega!”.

Alex estudou o homem.

Conhecia-o há anos. E, em todo este tempo, esta era a primeira vez que o via tão desafortunado, tão abatido, tão derrotado, tão… Digno de pena?

“Você ainda a ama?”, perguntou com a calma natural de quem estava acostumada a lidar com situações muito mais tensas e sensíveis.

St. James levantou um pouco a cabeça. Apenas o necessário para que os olhos claros e cristalinos pela água de sal pudessem ser vistos pela mulher.

“Amo… Claro! Ela é a mãe do meu filho… Minha amiga e… Companheira! É claro que eu a amo”, respondeu aparentemente mais tranquilo.

Tranquilo porque, talvez, ele visse em Alex uma pessoa que passaria pela mesma situação pela qual passava agora. Seria convidada a se retirar da vida de Quinn Fabray. Esse sentimento de esperança em não ficar sozinho na desgraça era de um estranho, porém alentador, egoísmo. Fazia o espírito de Jesse sentir que não pereceria sozinho. E ele ainda tinha um laço com Rachel, que era Spencer. Neste caso, seu gramado feio pareceu muito mais verde que o de Alex Bishop. Afinal, o que a unia a Quinn até o fim da vida? Nada! Absolutamente nada!

Este sentimento acolheu o coração do homem.

A jornalista não obteve a resposta para a pergunta feita. O ator estaria a fugir de uma verdade que só agora se deu conta de sempre estar diante dos olhos, mas não queria dar o braço a torcer?

“Você ainda a ama? Ainda ama a Rachel?”.

Agora, ele ergueu o rosto um pouco mais. Era possível para Alex ver-lhe os lábios também…

“Eu já respondi… Eu amo! Ela é a mãe do meu filho…”.

“Jesse, por favor…”, ela o cortou.

Seus olhares se fixaram.

Ele entendeu a profundidade da pergunta dela.

Ainda amava Rachel como mulher, amante e esposa e não somente como a amiga que queria defender com unhas e dentes das “garras” de Quinn Fabray?

Deus! Não sabia! Não racionalizava! Não conseguia. Só queria deixar sua Star segura… Ele só queria protegê-la! Era isto algum pecado? Era isto um amor não fraterno? Não sabia! Esteve tão acomodado por tanto tempo ao lado dela, mesmo quando o casamento estava a afundar na Itália, antes do nascimento de Spencer, que nunca parou para analisar a profundidade de seus sentimentos pela cantora.

Amava-a ainda?

Por isso estava tão triste e queria sacudi-la e faze-la ver a verdade?

“Eu não sei…”, murmurou, alquebrado.

Alex assentiu e recostou na cadeira.

Quinn tinha noção do que estava causando?

Prepare-se

Isto é um convite

Prepare-se para a Viagem Misteriosa

Prepare-se

Para fazer a sua reserva

Prepare-se para a Viagem Misteriosa

A Viagem Mágica e Misteriosa

Está vindo para leva-lo embora

Vindo para levar você embora”.

– The Beatles em Magical Mistery Tour

Quinn estava recostada nos confortáveis travesseiros à cabeceira da cama. Tinha um livro sobre Direito Penal nas mãos e o estudava. Apenas a luz do abajur jazia acesa no grande cômodo que era a suíte que ocupava na cobertura que considerava seu castelo incrustado no alto da Torre na West 94th Street.

As batidas delicadas e ritmadas soaram na porta.

Olhou as horas no relógio à mesa de cabeceira. Quase nove da noite…

A porta se abriu e uma fresca e descansada Alex Bishop, que claramente vinha de casa e não da revista, apareceu e estancou diante da cama, onde pudesse ser vista na penumbra.

“Deitada cedo…”, avaliou a namorada, “dor?”, perguntou.

Quinn negou, a balançar a cabeça para lá e para cá tranquilamente.

“Eu não sei se acredito em você…”, murmurou a jornalista.

Quinn pensou que era a única pessoa na face da terra que pagava um X-9 para trabalhar contra si mesma. Como Alex sabia da dor de cabeça? Por meio de Holmes! Talvez devesse despedi-lo…

“Não é uma grande dor”, procurou explicar, “é só um incômodo muito sutil. Do contrário, eu estaria lendo?”, questionou com racionalidade.

A editora, que usava um confortável vestido, caminhou até a namorada, tirou-lhe o livro das mãos e o jogou sobre o colchão. Puxou a colcha que cobria as pernas da advogada e, subindo um pouco o vestido, montou-a.

Quinn ergueu as sobrancelhas e desviou os olhos do decote e os subiu até encontrar os oceanos que a miravam com uma expressão avaliativa.

Sentiu os braços da namorada envolverem-lhe o pescoço.

Um beijo foi estalado em sua testa.

“Jesse St. James foi me ‘visitar’ hoje na revista”, avisou com a tranquilidade de quem comentava um fato corriqueiro.

“Ele fez o quê?”, a loira não costumava duvidar dos próprios ouvidos, mas, dessa vez, duvidou.

“Ele, Jesse St. James…”, parou os olhos sobre a boca da namorada.

“Alex, estou esperando…”, avisou, alheia ao fato de que a jornalista lhe devorava a boca com os olhos.

“Beije-me, Quinn”, pediu, sem mais.

A advogada ficou incrédula.

Alex queria beijar? Justamente após comentar algo sobre o marido de Rachel?

“Alex… Isso é incoerente…”.

“Dane-se a coerência, Quinn”, falou e segurou o rosto da loira entre as mãos e tomou-lhe a boca.

Quinn tentou falar. Erro. A língua da jornalista a invadiu.

Gemeu.

Alex beijava muito bem!

Tão bem que estava quase esquecendo o que ela começou a falar…

Afastou a jornalista, que tinha a respiração alterada, as faces coradas e os lábios rubros.

“Você tem noção do quanto é gostosa, Quinn Fabray?”, perguntou.

A advogada não soube responder. Aliás, sabia que impactava algumas pessoas. Mas nunca pensou em ser “gostosa”.

“Alex, mantenha a compostura”, pediu.

A mulher de olhos azuis deu uma gargalhada. Às vezes, Quinn parecia realmente puritana!

“Eu disse…”, beijou a ponta do nariz da loira, “que o Sr. St. James foi me fazer uma visita hoje”, estalou os lábios nos de Quinn.

“E por que o Sr. St. James foi lhe visitar, Alex?”, esperava que a amante respondesse à pergunta.

A editora suspirou e escorregou as mãos e as estacionou sobre os ombros da namorada.

“De acordo com ele, Rachel o mandou embora porque você exigiu”.

“Ah…”, Quinn ergueu a sobrancelha direita. Parecia analisar a situação. Comentou:

“Ela foi realmente rápida”.

Alex franziu o cenho.

“Quinn! Você realmente exigiu que a Rachel colocasse o homem na rua?”, estava espantada.

“Não”, a loira tratou de expor o seu ponto, “eu disse que, se ela realmente me amava, que provasse isso e tentasse me conquistar. E que vivesse uma separação tradicional… Cada um no seu próprio espaço físico. Mas, eu não pensei que ela faria isso ontem… Isso foi algo que… Eu faria! Ela… Eu pensei que ela não”, murmurou.

“Sei…”, Alex sussurrou, “e quando você pensou em me informar que se colocou à disposição de uma possível ‘dança do acasalamento’ com a Rachel Berry?”, perguntou, curiosa.

“Dança do quê?”, Quinn não entendeu a relação que a namorada fez entre a conversa e o desenho animado. Aliás, Quinn não assistia a desenhos animados.

“Eu confio em você, Quinnie. Apenas cuide-se para não se machucar e causar alguns danos colaterais em pessoas que nada têm a ver com essa sua curiosidade sobre a Rachel. Eu vi o quanto Jesse está arrasado com o que aconteceu”, falou, estudando a namorada.

“Alex, eu não fazia ideia de que a Rachel iria mandá-lo embora ontem mesmo…”, foi sincera.

“Eu sei, Quinnie”, abraçou-a, “mas a Rachel está apaixonada por você! Eu não sei o que uma mulher desesperada como ela poderia fazer para ter você. Entendeu? Ela está emocionalmente frágil! E pessoas assim podem ser uma bomba relógio”, avisou.

A advogada enlaçou-a. Ficaram abraçadas, presas em seus silêncios particulares.

Após alguns minutos mais, a editora sussurrou:

“Saiba que eu vou ficar muito puta com você se rolar algum beijinho de língua e você não me colocar a par. Entendeu, Dra. Fabray”, perguntou.

“Entendi… Mas, podemos não pensar nisso agora?”, perguntou, achando que o rumo da conversa não era muito agradável.

Alex Bishop deu uma sonora gargalhada e Quinn reclamou:

“Você é tão nojenta às vezes”. E riu também.

Mas, então, a jornalista pareceu recordar algo que fez o riso esmorecer e parar.

“Acho que ele a ama”, comentou, grave.

Quinn não alcançou sobre o que a outra mulher falou…

“Perdão, Alex, mas acredito não entendi muito bem”, comunicou.

A jornalista afrouxou o enlace e se afastou, mirando a namorada com seriedade.

“Eu acho que o Jesse ainda ama a Rachel Ele ficou muito perturbado com tudo isso e… E quando eu falei sobre isso com ele, pareceu ainda mais atabalhoado”, explicou.

“Interessante… Esta história está tomando contornos de novela mexicana”, a advogada estimou.

“Isto não é interessante, Quinnie. Isso é sério”, Alex tentou chamar a atenção da namorada.

“Você fala como se a culpa fosse minha”, argumentou, “ela quis se aproximar… Mas eu não ficaria como um joguete nas mãos dela. Se quer me conhecer, eu concordo. Mas, então, faça direito. Separe-se de fato”, esclareceu a ideia que passou para Rachel no dia anterior.

Alex suspirou antes de comentar:

“Nós estamos juntas! Acha isso justo com ela?”.

“Nós estávamos juntas antes dela”, retorquiu.

“E Rachel e Jesse também”, a jornalista não pararia até ter uma boa explicação.

“Eles estavam divorciados”.

“Nós nunca fomos casadas!”.

“Exato! Por isso não podemos nos divorciar”, explicou.

A repórter riu deu um tapa no braço da namorada.

“Cínica”, xingou.

“Didática”, defendeu-se.

“Quinn…”, a voz saiu em tom sério.

A advogada suspirou.

E repetiu tudo o que falou para Rachel até a jornalista achar que já estava de bom tamanho e começar a beijá-la, tocá-la e, por fim, excitá-la ao extremo de fazerem amor.

Foi uma noite longa.

*

Rachel quase teve uma crise de choro quando Hiram, contrariado, avisou que Quinn telefonou e convidou-a para um passeio no Central Park ao entardecer. A temperatura estava agradável e o ar fresco seria bom para a cantora, argumentou com o Berry.

Ele apenas suspirou.

A filha estava divorciada.

Um divórcio que Jesse quis.

A filha queria mais uma chance com Quinn.

Preocupou-se com isso.

Porém, não lhe foi dado o direito de fazer escolhas por ela. Aconselhá-la e acolhê-la, sim. Tomar decisões, nunca.

Dessa forma, não se interporia entre ela e a advogada.

Ainda que isso o preocupasse…

E um pouco, também, a LeRoy.

A cantora achou que seria interessante levar Spencer. O menino gostaria de brincar um pouco.

Quinn se incomodaria?

Ela não lhe pareceu indiferente ao pequeno, mas também não demonstrou maior interesse.

Decidiu que levaria o garoto. Esta poderia ser uma boa ocasião para que ele e Quinn se acostumassem um ao outro, haja vista que tinha esperanças de um futuro ao lado da advogada.

A loira, vestida em saia e blusa de cores alegres e um pequeno e fino casaco jogado sobre as costas, óculos com lentes amarelas, cabelos presos num coque seguro, sorriu com dentes perfeitos ao ver a cantora e o filho.

Spencer tinha uma bola de futebol nos braços.

Quinn estudou Rachel e seu look descolado: short diminuto que deixava as pernas ainda e impossivelmente mais longas, camiseta preta, cabelos soltos, sandálias e sorriso largo na face.

“Linda…”, murmurou, “ela jogará futebol com ele?”, perguntou-se. E pensou que sair com uma mulher que já era mãe lhe pareceu mais complicado do que imaginou de início.

Suspirou.

Talvez, na próxima vez que desafiasse Rachel, pediria para ela atirar o garoto no Rio Hudson sem boia e com um paralelepípedo amarrado nas pernas…

“Esse pensamento não foi bonito, Quinn…”, sussurrou para si mesma, ainda a sorrir com a aproximação de mãe e filho.

“Quinn! É tão bom vê-la”, Rachel olhou-a através das lentes que deixavam os olhos da advogada a vista.

“Eu digo o mesmo, Rachel”, esticou-se e segurou a menor pelos ombros e deu um fugaz estalar de lábios próximo a cada um dos ouvidos da cantora.

Ela ficou um pouco atordoada.

“Olá, Spencer”, olhou para o menino.

O garoto olhou para cima, mas não fez nenhum som.

“Ele não se parece com você, Rachel. É de poucas palavras…”, e riu com a própria piada.

Rachel meneou a cabeça, antes de comentar em indagação:

“Você ainda não aprendeu a contar piadas, Fabray?”.

A loira estancou.

Franziu o cenho.

“Eu conto piadas muito bem. Talvez você não tenha entendido. Mas posso lhe explicar, se desejar”, argumentou, séria.

“Ou talvez você desenhe para mim”, a atriz acrescentou, com o canto dos lábios em ascendência.

“Por que não?”, a advogada achou a ideia válida.

Rachel riu grande.

A ex-fotógrafa não entendeu a razão do sorriso.

“O que foi?”.

“Sabe quantas vezes tivemos essa mesma discussão por causa de suas piadas de gosto duvidoso?”, indagou, saudosista.

Quinn negou com a cabeça.

“Várias… Pelo menos de quatro a dez vezes durante o tempo em que estávamos juntas após o trabalho e incontáveis nos fins de semana, quando passávamos o dia inteiro grudadas”, lembrou.

O olhar que a loira lançou para ela foi oco. E olhar o vazio no que deveria ser o espelho da alma de Quinn apertou o coração de Rachel e a deixou atordoada.

Era assim que Santana se sentia quando mirava Quinn e não via nada?

Foi por isso que Kurt se afastou? Olhar o abismo era triste?

Engoliu em seco, respirou fundo e apertou a pequena mão do filho na sua.

“Vamos?”, perguntou.

Quinn assentiu.

Holmes saiu do carro e abriu a porta traseira para mãe e filho.

Ajudou a atriz a colocar o filho na cadeirinha, enquanto a advogada, já sentada no banco do co-piloto, observava toda a movimentação que levar uma criança causava.

Pensou que talvez devessem ir a pé… O Central Park era perto… O garoto poderia ir sem amarras.

Sentiu a cabeça latejar.

Respirou fundo.

Já havia tomado a dose da tarde do remédio… Por que ele não estava a fazer a merda do efeito?

“Holmes, isso ainda vai demorar muito?”, a paciência estava escoando rápido demais.

O homem avisou que o pequeno já estava seguro, fechou a porta e caminhou para dar a volta no carro e sentar no lugar do piloto.

“Você está bem, Quinn”, Rachel percebeu o silêncio e a frieza da advogada.

Esta pareceu sair de um estado de suspensão e piscou, antes de forçar um sorriso e mentir:

“Sim… Eu acho que estou só… Cansada!”.

“Não dormiu bem?”.

A pergunta inocente da cantora pegou a advogada de surpresa. Lembrou de Alex e a visita da noite passada…

“Perdão?”.

“Eu perguntei se você não dormiu bem”, repetiu, doce.

“Por que acha que eu não dormi bem?”.

“Você me disse que estava cansada… Quinn, está tudo bem?”, ficou mais preocupada.

A advogada cuidou de apaziguá-la:

“Estou! Quero dizer, está! Desculpe… Às vezes eu me distraio… Não fique espantada”, pediu.

Rachel mordeu o lábio inferior e sentiu uma repentina insegurança.

Esta foi amortecida pela presença de Holmes, porém ainda permaneceu ali, grudada na pele, adentando cada parte dela e enchendo-a até fazer com que respirar ficasse difícil. Quinn era instável mesmo ou ela, Rachel Berry, estava assustada ou emocionada demais com o fato de saírem juntas? Esta emoção era tão grande que lhe impedia avaliar com clareza o turbilhão de emoções que sentia e, entre elas, a insegurança que desaguava no medo?

“Pensei que talvez você gostasse de caminhar no Parque e tomar um sorvete…”, falou, mirando a atriz pelo retrovisor.

A cantora assentiu.

“Exceto se achar que sorvete não seja uma ideia saudável para Spencer”, acrescentou.

Rachel avaliou a situação. Talvez… Mas, deixar o filho se sujar um pouco e se lambuzar de sorvete lhe pareceu agradável.

“Eu acho que nós adoraremos tomar sorvete, Quinn”, avisou.

A advogada sorriu e passou a mão discretamente pela fronte. A dor parecia aumentar conforme o tempo passava… Estava há dias sem ela… Há quanto tempo não era incomodada? Desde o início do julgamento, talvez? Por que agora?

Holmes lhe percebeu o incômodo.

“Algo que queira compartilhar?”, murmurou, discreto.

A advogada não respondeu.

“Eu espero que não esteja escondendo uma possível dor forte…”, ele avisou.

“Dirija e feche a boca, Holmes. Não queremos que um acidente aconteça. Temos uma criança e uma mãe a bordo”, falou, seca.

O cuidador assentiu e prendeu a atenção no trânsito.

Chegaram ao parque e o cuidador avisou que ficaria a rodar com o carro pelas proximidades. Era só acioná-lo que viria logo.

Quinn bufou.

Rachel não compreendeu a visível preocupação do homem.

Estudou a ex-namorada. Ela lhe pareceu um pouco mais branquinha que o habitual… Estava pálida?

“Quinn, você está bem?”, perguntou, preocupada.

A advogada desviou os olhos do cuidador e mirou a cantora.

Sorriu e assentiu.

“Estou… Holmes só é exagera um pouco”.

“Se quiser, poderemos voltar outro dia… Você realmente parece cansada”, concluiu, alarmada.

A advogada meneou a cabeça e um brilho brincalhão atravessou-lhe os olhos.

“Está com medo de que algo me aconteça e não saiba o que fazer”, perguntou.

Rachel estancou e puxou o filho, que tentava se soltar da algema que era a mão da mãe ao redor de seu pequeno pulso, impedindo-o de correr para o gramado.

“Algo pode acontecer? O que, por exemplo?”, havia insegurança na voz da judia.

Quinn achou divertido.

“Nada a temer, Srta. Berry”, avisou, “basta pegar o meu telefone e, na discagem rápida, apertar o dois… Holmes virá tão rápido quanto um raio. Fique despreocupada”, tentou apaziguar a insegurança explícita da cantora.

Aproximou-se dela e tomou-lhe da mão. Entrelaçou os dedos com os de Rachel e a puxou com delicadeza:

“Venha, Rachel! Eu prometo que estou bem”, garantiu.

A judia sorriu e se deixou levar pela advogada.

Sentir os dedos de Quinn, outra vez, entrelaçados aos seus lhe acalentou e apaziguou o coração.

Mirou-lhe o perfil… Lindo! O nariz parecia esculpido por um artista renascentista, os lábios proeminentes e bem desenhados, o queixo, a curva da mandíbula… Era tão linda! Queria tanto sentir-lhe o gosto da boca novamente! A língua morna e macia… Cristo! Poderia ir à loucura se não desviasse os olhos logo.

Pregou-os no filho.

Ele caminhava obediente, porém encantado com as outras crianças que corriam livres.

“Mamãe já vai soltá-lo”, avisou, afetuosa.

Quinn os olhou. Não se lembrava de já haver presenciado a interação ente uma mãe e um filho tão de perto… Não se lembrava da interação de Frannie com seu sobrinho, Luke. Não lembrava da interação que, possivelmente, teve com Beth quando esta nasceu… Porém, no momento, tudo o que lhe pareceu uma lembrança era incerto. Tudo lhe pareceu fugaz. Foi mesmo assim? Não se recordava… Era um borrão apenas… Rachel estava com ela?

“Você estava lá?”, perguntou, numa distração.

A cantora a mirou confusa.

“Onde?”.

A advogada repensou a questão. Por que perguntar isso para a cantora? Ela deveria ser como os outros: achava que ela não sabia do paradeiro de Beth e Shelby. Poderia alertá-la com este tipo de pergunta.

Suspirou, sob os olhos cheios de expectativa de Rachel Berry.

“Quinn?”.

“Há um lugar aqui, que costumo achar o menos pior… Talvez seja pertinente irmos até lá, assim Spencer poderá brincar e você se sentirá segura”, comentou.

Rachel sorriu.

“Lugar que você considera ‘menos pior’? Quinn! O Central Park é lindo”, a cantora falou, com visível paixão.

“Os turistas realmente o adoram…”, comentou, sarcástica.

“Não! Os novaiorquinos também o amam”, defendeu.

A advogada estudou Rachel antes de comentar:

“E certas garotas de Lima também”.

A judia deu uma gargalhada.

Sentiu a apreensão inicial se desfazer aos poucos. O temor de que Quinn não estivesse bem foi se afastando, ainda que achasse que a ex-namorada ainda aparentasse um certo descorar.

Saíram do caminho calçado, onde havia alguns bancos de frente para o lago, com casais de várias idades, amigos, desconhecidos, seres distintos e únicos espalhados e aproveitando um momento para relaxar em meio ao turbilhão que a Big Apple costumava ser.

Caminharam pelo gramado e, enquanto avançavam, os passos de Rachel foram diminuindo.

Quinn se deu conta um pouco mais à frente e estancou, voltando-se. Ergueu a sobrancelha direita e inclinou o rosto para a direita, estudando a cantora.

“Algum problema?”.

A cantora respirou fundo, olhando de Quinn para o lugar logo atrás dela.

A loira percebeu o movimento dos olhos da pequena e olhou na direção em que ela, aparentemente chocada, fitava.

Quinn meneou a cabeça.

“Eu disse que era o lugar menos pior daqui… As árvores são mais frondosas e, assim, teremos sombra, apesar do entardecer… E o ar – apesar de achar que é apenas uma alucinação minha – parece mais fresco…”, começou a explicar.

“Era o nosso lugar preferido”, mas a cantora a cortou.

A advogada olhou da morena para o lugar.

“Perdão, Rachel…”, quis entender.

“Este lugar…”, a cantora fazia um esforço enorme para não ser tomada pela emoção que a deixava incoerente, “o lugar que você considera o ‘menos pior’ é o nosso lugar preferido… Era o nosso lugar preferido”, endireitou, “vínhamos aqui sempre que era possível… Fazíamos piqueniques… Às vezes, Sant, Britt, Kurt e Blaine se reuniam com a gente… Era tão bom! Você jogava bola com os meninos, corria com eles pelo gramado e parecia tão livre…”.

Uma pontada mais forte no crânio da advogada a fez perder, momentaneamente, as palavras da cantora. O que ela disse mesmo?

Respirou fundo e massageou a testa com as pontas dos dedos das mãos.

Percebeu Rachel se aproximar e a boca dela se mover, mas… Puta que pariu! A dor a deixava torpe… O que saía daqueles lábios que se mexiam e não lhe diziam nada?

“Rachel, você pode, por favor, ficar quieta?”, pediu, tentando se restabelecer.

“Quinn, você está bem?”, agora, sim, preocupou-se. A advogada parecia brigar consigo mesma. Ela olhava ao redor como se buscasse alguém, mas não encontrava.

“Quinn?”, chamou e a tocou de leve no ombro.

A advogada a mirou e pediu, com um esforço muito explícito:

“Pode chamar o Holmes, por favor… Eu acho que preciso dele agora”.

A Viagem Mágica e Misteriosa

Não vê a hora de levá-lo embora

Não vê a hora de levá-lo embora

Levá-lo hoje mesmo”.

– The Beatles em The Magical Mistery Tour

CONTINUA.

Notas finais
Arizona, obrigada por recomendar a fic. Abraço afetuoso. - Cal. *-*