Sine Cordi
48 CAPÍTULO 48 - םח
Notas iniciais
“Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam para trás
Se eu pudesse encontrar o meu amor
Não voltava
Jamais”.
– Edu Lobo em A Moça do Sonho–
“Você é bonita, Rachel”, Quinn murmurou, ainda com o rosto bem próximo ao da cantora, “e eu quero saber a razão pela qual – ainda que me aborreça às vezes – eu lhe tenho este… Interesse? Sim…”, suspirou e a judia sentiu o ar quente penetrar-lhe pelas narinas.
Aquele olor tão doce como o gosto da boca de Quinn.
Aquele olor tão familiar.
Aquele olor que um dia foi somente seu e de mais ninguém.
Aquele olor que lhe avivava a alma, acordava-lhe os sentidos e a fazia beirar a loucura…
Ainda era louca por Quinn.
E, por ser ainda louca por Quinn, não compreendia como pode ser louca de deixa-la ir de sua vida.
Não compreendia como pode ser insana e traí-la com Jesse.
Não compreendia como pode ser desvairada e não voltar da Europa por ela.
Não compreendia como delirou a ponto de se casar com o homem com quem a feriu.
Não compreendia…
“Quinn…”, a voz quase não saiu, “eu amo você”.
A advogada afastou-se além do que a judia desejava.
“Ama?”, a pergunta saiu com uma ponta de indubitável desconfiança.
Rachel queria provar que falava a verdade em meio ao tumulto que estava a passar por aquela visita que desejou, que pediu ao pai para obter e que a estava a deixar ainda mais perturbada.
“Amo…”, repetiu.
A voz saiu mais forte. Precisava que Quinn lhe acreditasse!
“Acho que já lhe perguntei antes, mas vou repetir a questão: por que acha que me ama ainda, após tantos anos e uma relação de explícita afinidade e intimidade com o seu marido? Eu procuro entender isso, Rachel. Você é uma mulher inteligente… Talvez um pouco fora de foco no momento, mas inteligente”, apontou, sem perder minúcia alguma nas mudanças facial e corporal da atriz.
“Precisa acreditar em mim, Quinn”, pediu em quase desespero.
A advogada segurou cada uma das mãos da pequena entre as suas e as apertou levemente, gentil.
“Eu preciso?”, inquiriu.
O toque aveludado despertou em Rachel memórias afetivas que lhe chegavam em ondas. E essas “ondas” a faziam se rebelar contra sua falha.
“Eu só quero…”, suspirou, tentando ser o mais racional possível diante da irracionalidade que o momento lhe presenteava de bom grado, “que me deixe lhe mostrar, Quinn”.
“Mostrar que me ama…”, murmurou, “Rachel, eu preciso…”, parou para pensar no que diria a cantora sem atormenta-la ainda mais, “apesar de não me lembrar e considerar que você deve se libertar da culpa, eu ainda preciso confiar em você. Você me traiu, certo?”.
Rachel já admitira antes para a mulher que lhe afagava as mãos com dedos gentis, que lhe enviavam ondas de desejo por mais intimidade por todo o corpo, que a traiu. Mas – neste momento –, com ela a lhe fitar tão de perto, com o corpo desejado tão cerca, sentiu-se retraída e abaixou a mirada, fixando-a em suas mãos presas nas macias e mornas da ex-namorada.
Assentiu.
“Traí… E eu lhe darei o tempo que precisar… Apenas… Dê-me uma chance, Quinn”, rogou.
A advogada sorriu e meneou a cabeça, como se encantada pela maneira doce como a judia lhe falou.
“Primeiro, conheçamo-nos, Rachel… Depois, talvez uma troca justa: você me dá o tempo e eu lhe darei a oportunidade”, propôs.
A cantora volveu os olhos chocolates para os verdes que não se desprendiam dela um segundo sequer, estudando-a, apreciando-a, lendo-a…
Uma lembrança incômoda assomou-se à atriz:
“E Alex?”.
Quinn franziu o cenho.
“O que tem ela?”.
“É a sua namorada”.
“Eu sei”.
“Ela pode se magoar”, Rachel sentiu uma pequena decepção.
“E por que ela se magoaria? Eu e você iremos nos conhecer… E, como eu já lhe falei anteriormente, Alex sabe”.
As palavras da cheerleader soaram estranhas aos ouvidos da judia.
E Quinn percebeu…
“Rachel, Alex é muito bem resolvida e segura. Não há necessidade de você se martirizar por pensar que ela será magoada”.
“Mas…”, a cantora queria Quinn! E se a queria e lutaria para tal, era óbvio para seu raciocínio capenga que a outra sairia magoada. Não conseguia conceber outra maneira de avaliar a questão.
A advogada lhe cortou com outra pergunta que a tirou de centro:
“Você se preocupa por Alex, em magoa-la. Não se preocupa com a possibilidade de magoar a mim?”.
O olhar de Rachel ficou confuso.
Dúvidas a abraçaram como amantes bacantes.
Seria capaz de errar outra vez com Quinn?
Conseguiria leva-la, de novo, ao desejo do abraço da Morte?
Balançou a cabeça em uma negativa mais para si que para a mulher que não lhe soltava as mãos e lhe falava com calma e inquiria com docilidade.
“Você tem medo?”, perguntou.
Quinn devolveu a pergunta:
“Se estivesse no meu lugar, seria cuidadosa?”.
O líquido salgado, produzido com certa facilidade pelas glândulas lacrimais de Rachel Berry, umedeceu-lhe os olhos escuros.
O líquido salgado produzido pelas glândulas lacrimais lhe umedeceram os olhos porque, se estivesse no lugar de Quinn, seria muito cuidadosa após o desgosto que causou.
Assentiu.
Quinn voltou a aproximar-lhe os lábios do ouvido e, após sutil e morno suspiro que lhe eriçou a pele em ondas de arrepios, sussurrou:
“Estamos nos entendendo bem, Rachel”.
A cantora engoliu com dificuldade.
Na verdade, respirar estava complicado com Quinn tão perto e tão…
Deus! O que Quinn estava lhe fazendo?
A loira voltou a posição inicial e seus olhos aprisionaram-se.
“Precisa melhorar, Rachel. Se não, como poderemos nos conhecer”, inquiriu, com agrado.
“Eu estou… Melhor”, respondeu – porém não possuía certeza sobre o que lhe saiu da boca.
“Ainda não…”, a advogada asseverou.
“Mas… Ficarei”.
Disso – ainda que aos tropeços – tinha certeza.
Quinn passeou os olhos verdes sobre o rosto moreno mais abatido que de costume.
“Você parece tão triste”, comentou.
Rachel apertou a mandíbula.
Não poderia deixar nenhuma gota do seu pequeno oceano escapar pelos olhos.
Estava irremediavelmente proibida de demonstrar mais fraqueza diante de Quinn.
Fez isso no passado.
E a perdeu.
Não poderia arriscar.
Respirou fundo.
“Eu estou…”, confessou.
“Por minha causa…”, atestou a advogada.
Os olhos da cantora aumentaram em tamanho e ela cuidou de – não há uma explicação lógica até o momento para tal acontecido – corrigir:
“Não! Por mim… Estou triste porque eu fiz coisas que me entristeceram há muito tempo e que agora voltaram”.
Quinn voltou a aproximar o rosto do rosto de Rachel e lhe firmou o olhar. Respondeu sem rodeios:
“Eu voltei para sua vida… Eu entristeço você porque, quando me olha, lembra do que fez e se martiriza”.
A primeira gota do pequeno oceano de Rachel Berry escapou pelo olho direito e ela respirou o mais profundo que conseguiu para conter as possíveis seguidoras.
A advogada puxou um delicado lenço branco, com bordas trabalhadas e o monograma QF gravados nele do bolso interno do sobretudo e, com gentileza, secou a fujona.
“Não, Rachel! Por favor, sem lágrimas! Eu pedi para você eu recomeçarmos e então você se mostra algemada ao passado”, suspirou, “isto é contraprodutivo”.
Numa atitude que surpreendeu a advogada, a judia segurou-lhe o pulso que continha o lenço ainda suspenso no ar e falou:
“Contraprodutivo? Não, Quinn! O amor não é contraprodutivo. Ele é bom! E nos faz pessoas felizes e melhores”.
“Perdoe-me se não compartilho de sua opinião”, respondeu e soltou o pulso cuidadosamente da mão que o tomava.
Rachel piscou algumas vezes.
Era o que acontecia quando Quinn parecia lhe acertar um gancho de direita no ouvido.
Seu equilíbrio desaparece.
Você bamboleia como um bêbado em seu caminhar.
E, se você não se segurar nas cordas, vai ao chão.
E talvez consiga ouvir o juiz contar de um até dez antes perder a consciência de vez.
“Não podemos todos ser mestre, nem todos os mestres podem ser lealmente seguidos”.
– William Shakespeare por Iago em Otelo, O Mouro de Veneza–
Jesse olhou para os sogros abancados no sofá, com o neto no meio, divertindo-se com as peripécias do menino.
Andava, vez ou outra, de um lado para o outro, ansioso.
Os homens perceberam, mas preferiram fingir que não, em silenciosa comunhão.
“Não acham que elas estão se demorando muito?”, inquiriu por fim, sem conseguir se conter.
Hiram e LeRoy Berry o fitaram.
Em perfeita sincronia, consultaram seus relógios de pulso e menearam as cabeças em negação.
“Estão a sós há apenas quinze minutos…”, Hiram informou.
St. James suspirou.
“E se a Rach ficar mais confusa? E se a Quinn disser algo que a fragilize ainda mais?”, questionou, impaciente.
Os homens franziram as testas.
“Está com ciúmes, Jesse?”, o pai advogado de Rachel inquiriu, surpreso.
O espanto congelou-se na face do ator.
“Ciúmes?… Eu?… Não!…”, ficou meio perturbado, “apenas preocupado com a Rach-Rach”, justificou.
Mas o espanto ainda estava lá, pregado na cara dele para quem quisesse ver, sem nuances ou disfarces.
“Não estão mesmo nem um pouco preocupados?”, havia – também – incredulidade na voz.
“Deveríamos?”, Hiram voltou a questionar.
O ator estava cético.
“A Quinn não tratava a Rach-Rach bem há alguns dias! Então, de repente, ela se interessa e aparece por aqui mais de uma vez… Eu estou apreensivo!”, confessou.
Hiram e LeRoy trocaram olhares.
O médico assentiu para o marido e falou para o ex-genro:
“Corrija-me se eu estiver errado: a Rachel traiu a Quinn com você. Você e Rachel se casaram e tiveram o nosso querido e abençoado neto. Vocês se divorciaram. Rachel reencontrou Quinn. Mas a Quinn não sabe o que aconteceu. Rachel e você não sabiam sobre o acidente. Rachel aparece para Quinn e diz que a ama. Nós sabemos o quanto nossa Estrelinha é incansável na busca de seus objetivos. Rachel, nossa Estrelinha, divorciada de você, resolve se aproximar de Quinn. Nós sabemos que a Quinn tem a natureza um pouco… Curiosa? Talvez… Enfim, Quinn decide, por causa da insistência de nossa Estrelinha, averiguar – porque é isso o que ela está a fazer – sobre o passado das duas. Rachel, mesmo em estado de choque, chama por Quinn. E Quinn vem. Estou indo bem até agora?”.
Jesse assentiu, ainda um pouco chocado.
LeRoy seguiu:
“Certo… Para que, então, toda essa preocupação?”.
O ator suspirou.
“Eu sei que pensam que a presença da Quinn será benéfica para a Rach-Rach, mas eu temo que… E se a Rachel falar para a Quinn que ela tentou se… Vocês sabem”, olhou ao redor a fim de se certificar de que eram só eles no ambiente.
Os homens Berry suspiraram e Hiram exprimiu:
“Eu realmente não sei se omitirem dela o que tentou fazer foi a ideia mais inteligente que o Russel e os demais tiveram, porém, se acontecer de ela se lembrar ou, ainda, a nossa Estrelinha contar, teremos de lidar com as consequências”.
“Todos!”, frisou LeRoy.
“É…”, Hiram meditou sobre a palavra do esposo, “o que a Quinn faria se soubesse?”.
“Talvez risse de si mesma?”, Roy chutou.
Hiram não respondeu.
Esta era, ainda, uma questão de resposta obscura.
Quinn sempre foi estável. Mas, então, um dia, após o choque de ser atraiçoada pela mulher que amou, ficou instável… Quem poderia dar garantias sobre os seus atos? Quem poderia imaginar que ela tentaria tirar o próprio sopro de vida, asfixiando-se sob os ferros retorcidos de um carro jogado sob a carroceria de um caminhão? Quem poderia supor que aquela mulher linda e segura poderia ter a autoestima arrancada com tanta facilidade que desejou desaparecer? Quem, em sã consciência, pensaria que uma moça tão apegada a fé faria uma coisa assim?
Ninguém.
Porque, como diz o ditado, “o coração da gente é terra que ninguém pisa”.
Quinn apenas observava o olhar estacionado de Rachel sobre si.
“Eu fui insensível”, atalhou, a fim de fazer a morena reagir, “eu não compartilho de certas crenças a respeito do amor, Rachel… Aliás, o que é o amor senão efeitos químicos causados pelo cérebro?”, sorriu.
Rachel respirou fundo. Precisava se manter firme. Precisava se manter consciente… Precisava ter algum tipo de preparo emocional e físico para lidar com a mulher que ainda amava, porém estava tão distorcida daquela que conheceu que… Que não sabia definir se nela havia um princípio e um fim.
Quinn lhe pareceu infinita.
Desproporcionalmente grande!
Uma montanha íngreme, escorregadia, alta e que poderia, se não causar acidente, traumatizar…
Não estava preparada!
Definitivamente não!
O que lhe fustigava era: como Alexandra Bishop conseguia lidar com ela?
Oh! Claro! Alexandra Bishop conheceu Quinn assim, infinita montanha-russa, salto no escuro sem para quedas e venda nos olhos.
“Preciso ser como ela…”, murmurou, perdida.
A advogada percebeu que a atriz estava perto de ter alguma coisa parecida com a crise de há dias…
“Rachel, eu vou chamar seus pais…”, avisou, tranquila.
“Não”, pediu, ainda com um grama de racionalidade que segurava à força, que não poderia lhe escapar, ou então perderia Quinn.
“Eu estou bem… Eu só não… Você me surpreende…”, confessou.
A loira levou a mão direita à face esquerda de Rachel e a afagou ali.
“Desculpe… Eu só sou assim… Eu fiquei assim… Eu acho que não era assim…”, observou.
O carinho acalentou o coração desesperado e alucinado da cantora, que fechou os olhos e suspirou. E, neste momento, achou que o passado era o presente, que nunca magoou a namorada, que ela não tentou acabar com a própria existência… Eram apenas as duas, enamoradas uma da outra, sem espaço para um terceiro na relação.
Um terceiro…
Três numa relação amorosa poderia ser fatal.
Foi fatal para ela.
Foi fatal para Raul Steven Street e Linda Wood.
O vértice do triângulo era o que espetava com sua ponta afilada e cortava até sangrar.
Três… Um número primo.
O engraçado do três é que ele, enquanto número primo e como seus “iguais”, apenas divide-se por um e por ele mesmo. Uma relação, se analisada en passant e de maneira subjetiva, monogâmica.
Deveria rir?
Não… Provavelmente a advogada fugiria dela.
“Eu lhe magoei, Quinn… Por isso se acha incapaz de amar”, murmurou ainda com os olhos cerrados.
“Não, Rachel… Apenas abra os olhos e enxergue a realidade”, solicitou num sussurro.
A cantora suspirou e obedeceu.
Ali estava ela: Quinn Fabray! Tão linda como sempre! Porém, não mais sua…
Não mais a sua…
“Preciso de você, Q…”, quase suplicou.
A advogada escorreu a mão da face para a nuca da cantora e a segurou ali.
Rachel degolou um gemido de prazer há muito adormecido.
“Eu estou aqui”, a advogada comentou.
“Eu preciso de você inteira…”, encarou-a.
Quinn se chegou mais a ela e a envolveu num abraço morno.
Rachel agarrou-se ao corpo da ex-namorada.
“Ainda é cedo, Rachel… Você não sabe o que fazer por enquanto”, atalhou.
“Mas eu sei o que eu quero! E eu quero você”, afirmou.
A advogada não respondeu. Passeou as mãos pelas costas da cantora e esta sentiu-se tomada por ela. Aquele subir e descer de mãos pelas costas arrepiavam-lhe e acendiam-lhe o desejo e a fome pela carne de Quinn. Pela boca e língua dela. Seios que cabiam-lhe nas mãos, nádegas pomposas e abençoadas em forma, exuberância e firmeza. O calor nu dos corpos entrelaçados após o amor.
Era fome!
Fome de amor enamorado!
Fome de amor erótico!
Fome pelo que a alimentava!
Fome de Quinn!
“Está tudo bem, Rachel”, sussurrou-lhe ao ouvido.
Outra onda de desejo quente a invadiu.
Rachel levantou os olhos para mirar os verdes, mas não encontrou. Estavam presos na parede atrás dela.
“Quinn…”, murmurou.
A advogada a fitou.
“Rachel, Rachel… Tão frágil”, exclamou. Segurou-lhe a face entre as mãos e a inclinou um pouco para trás.
Inconscientemente, até por um hábito que ficou adormecido e agora despertava, cerrou os olhos e entreabriu os lábios a espera dos da ex-namorada.
“Tão pequena…”, murmurou a loira antes de colar os lábios na testa da cantora.
Olhos castanhos se abriram num zás de desengano.
“Não, Quinn…”, murmurou, com o desejo quase por tirar-lhe o resquício de juízo, “na boca…”, informou.
Quinn franziu a testa.
Devagar, afastou o corpo da pequena e soltou-se dela. Avisou, como a coisa mais óbvia:
“Eu tenho Alex. E você tem o Jesse. Eu não vou beijar a sua boca”, avisou.
Mais um pequeno golpe na já bem golpeada Rachel Barbra Berry.
Entrementes, aguerrida, respondeu com surpreendente clareza:
“Jesse não é mais o meu marido”.
Quinn sorriu com um meneio de cabeça.
“Mesmo?”, suspirou e pensou em como falar com a judia sem atordoa-la ainda mais.
Tomou-lhe das mãos entre as suas e as segurou com cuidado.
Toda a tenção da cantora foi colocada neste ato e a advogada percebeu.
“Rachel…”, chamou.
A pequena a fitou.
“Eu sei que você não está mais casada com o Sr. St. James. Eu e o restante do mundo que se interessa pela vida dos artistas, dos ricos insalubres que adoram uma ponta num tabloide qualquer, desde que seja sinônimo de fama, entre outros que possuem variadas denominações… Mas, quando eu vejo você com o seu ex-marido, eu vejo um casal em profunda harmonia. São como partes de um todo. E, eu garanto, se alguém que não saiba que vocês estão divorciados os visse e soubesse como vivem, esta pessoa garantiria, talvez até com a própria vida, que vocês ainda são um casal. Entende o que quero lhe dizer?”.
Rachel sentiu como se um balde de gelo derretido, ainda com pequenos fragmentos de água em estado sólido, fosse derramado em câmera lenta sobre sua cabeça, molhando-a tão lenta e profundamente como possível, congelando-lhe o corpo por partes até que toda ela tiritasse de frio.
Após tal “banho”, acredita-se que qualquer ser adormecido possa realmente acordar.
Um observador distante diria que Rachel Berry acordou.
Muito sobressaltada.
Quinn ficou satisfeita.
Rachel pareceu compreendê-la.
Apreciava quando isso se dava.
“Entendeu o meu ponto?”, inquiriu, só para se precaver.
A cantora assentiu.
“Eu preciso… Jesse precisa sair daqui…”, sussurrou.
“Eu não disse isso, Rachel”, a advogada atalhou.
Rachel a encarou, após ter os olhos perdidos como se buscassem alguma porta, uma saída, quem sabe…
Toc, toc, toc…
Batidas na porta.
Quinn virou o rosto e a cantora o olhar para os pais, Jesse, Spencer e Maria, que adentraram ao ambiente com um carrinho que continha um bule de café, um outro com água quente para o chá, os saquinhos de sabores diversos, torrões de açúcar, adoçante, xícaras, pires e todas as demais coisas para um chá da tarde em família e amigos.
“Não queríamos incomodar”, Hiram tomou a palavra, “entretanto, considero que café e chá frios são um desastre”.
Quinn sorriu para o homem.
Rachel pregou os olhos em Jesse.
O vértice do seu triângulo.
“Não se preocupe com a perfeição – você nunca irá consegui-la.”
– Salvador Dalí -
Quinn entrou em casa seguida de um Holmes quieto.
Mas que suspirava forte demais…
“Eu não demorei lá…”, avisou.
“Não… Ignorou o meu único chamado pelo telefone, porque eu apenas preciso chamar uma vez, e eu precisei dar quatro voltas em vez de apenas uma pela Times Square”.
“Eu falei para vir para casa, Holmes”, lembrou.
“Eu não estou negando, mas…”.
“Mas eu canso vez ou outra de ter um cão de guarda o tempo inteiro no meu pé!”, alçou a voz, visivelmente aborrecida.
O homem estancou.
Um fato raro.
Não inédito.
Apenas raro…
“Creio que precisa descansar um pouco, senhorita”, observou, em tom baixo.
Quinn sorriu em cinismo e caminhou ao redor dele, estudando-o. Troçou:
“Aí está! O homem pago para manter a calma e o equilíbrio! O homem escolhido a dedo por Russel Fabray para cuidar da filha que ninguém consegue cuidar porque é um pouquinho…”, fingiu pensar, a bater com o indicador sobre os lábios, “difícil? Debochada? Fria? Cruel, talvez? Ou, quem sabe ainda, um pequeno monstro sob a capa de uma mulher bonita?…”.
“Quinnie”.
A voz feminina a fez desviar a atenção.
“Quer conversar?”, Alex perguntou, fitando-a.
Veio do quarto.
“Está há quanto tempo aqui?”, perguntou, surpresa.
“Há cerca de meia hora”.
A loira olhou da amante para o cuidador.
“Obra sua, Holmes?”, inquiriu, seca.
“Não, senhorita”, ele foi sincero.
Alex sorriu e menou a cabeça.
“Desconfiada!”.
Quinn suspirou.
“Eu não sei se quero pessoas ao meu redor hoje, Alex”, avisou sem delicadezas.
“Parece, realmente, que não”, a mulher falou sem se abalar.
“Deseja algo, senhorita Bishop? Um café? Um chá?”, Holmes tentou amenizar o sufocamento local.
“Holmes, por que ainda não desapareceu?”, a advogada questionou, ainda aborrecida.
O homem a ignorou e olhou para a jornalista que, tranquila, respondeu:
“Obrigada, Holmes. Se eu desejar alguma coisa, eu mesma faço. Ou a Quinn…”.
A loira não respondeu.
O cuidador pediu licença e antes de abrir a boca, ouviu da patroa:
“Fique tranquilo, Sr. Holmes! A srta. Bishop vai lhe avisar se alguma coisa acontecer comigo”.
“Certo…”, sussurrou e se retirou.
Quinn cruzou o olhar com os da jornalista.
“Agora nós duas”, atestou.
Alexandra assentiu e caminhou devagar até a advogada.
Esta, por sua vez, passou por ela e se colocou afastada:
“Eu acho que disse que não estou para pessoas hoje, Alex”, lembrou.
“Eu escutei”, virou-se em direção da mulher que amava. Indagou, com placidez, “muita gente na casa de Rachel Berry?”.
Quinn suspirou.
“Talvez…”.
“Eu sempre disse que ficar muito tempo sozinha lhe estressaria na hora de lidar com famílias inteiras”.
“Eles foram gentis…”, informou.
A jornalista sorriu.
Adorava a namorada assim, agastada.
“Eu imagino! Há quanto tempo não se viam?”.
A advogada pensou e negou com a cabeça:
“Eu tenho uma coisa chamada amnésia! Não sei quanto tempo não os via… Eu lembrei de LeRoy… Hiram… Não tenho certeza”, comentou.
“Um deles é advogado. O outro é médico…”, Alex pareceu pensar sobre a informação.
Quinn franziu o cenho.
“Como sabe?”.
“Sou jornalista. E eu sei muito mais sobre Rachel Berry do que você imagina”.
A loira assentiu.
“Eu não pude vir lhe parabenizar pelo resultado alcançado no julgamento antes, então resolvi aparecer hoje…”, deu a saber.
“Ok…”, respondeu.
A jornalista deu dois passos lentos em direção a namorada.
“Alex… Não”, pediu, fria.
“O quê?”, perguntou.
“Está chegando perto… Eu não quero”.
“Certo…”, concordou, “mas não vou voltar os meus dois passos. Talvez você prefira recuar dois”, sugeriu.
Quinn meneou a cabeça.
“Qual o problema de vocês?”, inquiriu.
“Problema ‘de vocês’? Perdão, bebê, mas só estamos as duas aqui. Então, eu posso responder sobre o meu problema apenas”, atalhou.
“Neste momento eu estou com um pouco de raiva transbordando, Alex. Por que não vai embora e me deixa?”.
“Eu posso ir… E voltar mais tarde…”, avisou, tranquila, “aliás, você sabe que eu sempre faço isso”.
“Eu… Eu vou tomar banho e… Apenas finja-se de estátua, abajur ou qualquer outra coisa. Mas, por favor, não me irrite mais”, pediu e se retirou.
Alex sorriu.
Murmurou:
“Ok”.
“Se você é paciente em um momento de raiva, você evitará cem dias de sofrimento”.
– Provérbio Chinês -
CONTINUA.
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