Sine Cordi

45 CAPÍTULO 45 - םה


Notas iniciais
lembre-se por favor: um dia de cada vez; um capítulo de cada vez; alguns acontecimentos também... Tudo se encaixará... Espero!

Eu me permito apreciar isso, a manipular a coisa a meu favor porque eu tenho a febre da faca amolada, dos céus azuis e profundos.”

– Charles Bukowski -

Por três dias, desde que recomeçou, o julgamento foi manejado e acompanhado com atenção.

O embate de “cavalheiros” entre o advogado de defesa e a advogada que representava a promotoria estabelecia-se numa espécie de dança entre dois exímios esgrimistas.

Apenas uma diferença: o florete de Quinn atingia muito mais vezes o corpo de Anthony.

Ele perdia pontos.

Ela ganhava.

Ele parecia cada vez mais cansado.

Ela parecia cada vez melhor.

E as provas que se baseavam em indícios e deduções e não apontavam para uma evidência direta dos fatos, começaram a se transformar no seu oposto.

A cada dia, Raul Steven Street era vestido e armado com a corda que matou por asfixia Linda Wood.

Hora pós hora, Raul Steven Street era o dono do punho esquerdo que afundou a laringe de Linda Wood.

Um pouco mais e ele seria o assassino de Linda Wood.

Mudaria de status quo!

De suspeito de assassinato para assassino!

Quinn só precisaria dele no banco das testemunhas…

“Ele não vai testemunhar!”, Anthony quase gritou, nervoso com a nova investida da promotoria. Sabia que a ideia era da Fabray. O Lancaster não pensaria em algo assim… Ou pensaria?

“Qual o problema de o seu cliente testemunhar?”, Quinn não entendia a oposição.

O homem riu e colocou as mãos na cintura.

“Qual o problema?”, indagou, incrédulo.

Quinn ergueu a sobrancelha direita. Achou a postura do advogado curiosa.

“Sim! Qual o problema?”, repetiu.

“Acha mesmo, doutora, que vou deixar o meu cliente ser sabatinado por você?”.

“Ok…”, ela murmurou, “ele pode ser ‘sabatinado’ pelo promotor Lancaster”, argumentou.

O Mathews não esperava por esta resposta.

“Não!… Também!”, respondeu, sem muita ênfase.

“Por que se debate?”, Quinn perguntou.

Anthony ficou confuso.

“O quê?”.

“Parece aqueles peixes que pulam para fora do aquário e ficam saltando a esmo pelo chão na tentativa vã de voltar para a água”, opinou.

“O… O quê?”, estava cético.

“Duvida que a promotoria levará o seu cliente para o banco das testemunhas?”, indagou, prática.

“Como?”.

Quinn pensou que a expressão de assombro na cara do Mathews daria uma fotografia muito interessante.

“Estou dizendo, Dr. Mathews, que o seu cliente vai testemunhar”, informou.

O homem olhou para o promotor.

“Não vai dizer nada?”, indagou, meio azoado.

“A Dra. Fabray tem carta branca, Sr. Mathews. É ela quem está conduzindo a acusação”, justificou.

“O meu cliente já está sendo execrado pela opinião pública! O país quer a cabeça dele! O que mais deseja, Dra. Fabray?”, quis saber, frustrado com a realidade.

“Que ele testemunhe…”, repetiu.

“Não acha cedo para ele testemunhar?”, questionou.

Ela pensou um pouco sobre a pergunta dele.

“Não… Realmente”, concluiu, tranquila.

“Por que tanta pressa?”, ele quis saber.

“Pressa? Estamos com seis dias de julgamento, sem contar o recesso por causa da crise histérica do seu cliente”, avisou.

“Crise histérica?”, o Mathews estava a duvidar dos próprios ouvidos.

“Achaque, piti, acesso de raiva… Não sei! Escolha o senhor o nome”, concedeu.

O homem respirou fundo. Era preciso ter sangue frio… Numa quantidade maior que o normal para lidar com a advogada loira.

“Dra. Fabray… O que o meu cliente ganha se, por acaso, testemunhar… No caso, é claro, de ser condenado? Quanto vai pedir?”, foi mais objetivo.

Quinn gostou dessa atitude do jovem homem.

Ele, realmente, seria uma boa aquisição para a Fabray&Advogados…

“Perpétua sem direito a condicional”, respondeu sem rodeios.

Mathews achou que, realmente, precisava procurar um otorrino…

“Perdão, mas eu acho que não escutei direito”, avisou.

Quinn inclinou um pouco o rosto para o lado esquerdo e deixou os olhos passearem pela face do advogado.

Ele perdeu o foco…

“É claro que escutou”, a loira atestou.

O advogado levantou o rosto para o alto e murmurou:

“Que Deus me ajude!”.

A advogada sorriu, satisfeita.

Raul Street sentaria na cadeira das testemunhas!

Anthony a fitou e perguntou:

“Por que eu tenho a impressão de que me arrependerei disso?”.

“Você vai se sair bem”, a loira atestou.

“É claro…”, murmurou, ranzinza, “eu vou conversar com o meu cliente”.

Quinn ergueu a mão destra e deu adeusinho ao advogado.

Mathews bufou.

Lancaster observou a mulher que se preparava para sair.

“Dra. Fabray…”, chamou.

Ela, que terminava de guardar suas anotações na pasta, mirou-o sem parar o que fazia.

“Pois não?”, deu espaço para o homem falar.

“E se o Street for bom no testemunho”, inquiriu.

Quinn sorriu, antes de responder:

“Há sempre as alegações finais!”, fechou a pasta e se despediu do homem.

Lancaster assentiu.

Pensou o quanto era bom tê-la como aliada e não o contrário…

Corro perigo

Como toda pessoa que vive

E a única coisa

Que me espera

É exatamente o inesperado.”

– Clarice Lispector -

Maria pediu licença e interrompeu a estranha interação familiar entre LeRoy, Hiram, Spencer e Jesse com uma Rachel Berry que parecia meio perdida entre tantas palavras e risadas.

“Romero acabou de interfonar. A Srta. Fabray está lá embaixo e insiste em ver a Srta. Berry”, informou.

Um curioso fato aconteceu: todos estancaram de falar, mesmo que suas palavras não tivessem sido proferidas por inteiro.

Ficaram muitas palavras pela metade naquele quarto…

Os olhares se passearam.

Estavam cheios, transbordantes de dúvida.

Eles estacionaram sobre a figura de Rachel Berry, aparentemente desperta, mas visivelmente alheia.

O médico teria dado muito calmante para ela?

Uma pergunta que perambulou pelas cabeças em distintos momentos.

Os olhares, de repente, caíram sobre Jesse.

Ele se sentiu encurralado.

“Eu?”, indagou, levando as mãos ao peito, os olhos surpresos.

“Claro! Vocês estão divorciados, mas vivem sob o mesmo teto. Então, decida”, LeRoy foi taxativo.

Hiram o apoiou completamente.

Ali estava um casal em consonância quase perfeita…

Mas Jesse pensava diferente…

“E vocês são os pais! Têm muito mais autoridade! Mais poder de decisão! A Rachel sempre ouvirá vocês antes de mim… Isso nunca foi segredo!”.

Suspiraram.

Hiram olhou para o esposo. Compartilhou:

“Eu não sei o que aconteceu… Maria disse que foi a Quinn quem socorreu a nossa estrelinha. Que, pelo que conhecemos, já deveria estar à beira de um ataque. A presença da Quinn só acelerou um pouco o processo!”, avaliou, “nós poderemos ficar um pouco por aqui, rondarmos e, se ela se comportar, deixamos as duas sozinhas. Talvez a nossa Estrelinha só precise disso: um pouco mais de choque”.

LeRoy não estava muito certo…

“Eu não sei…”.

“Ela veio até aqui!”, exclamou o advogado e pai de Rachel, “acho que isso demonstra que ela se preocupa”, opinou.

Olharam para Jesse, a espera do parecer dele.

O homem levou mais tempo em silêncio que o casal Berry desejava.

“Eu…”, balbuciou, ainda com uma incerteza gritante, “tá! Pode ser uma boa ideia… Eu acho…”, cedeu.

Nada melhor lhe ocorreu.

E, depois, o argumento de Hiram era bom… Talvez a Rach só precisasse de um pouco de choque.

Maria assentiu e se retirou, a fim de receber a visitante.

Quinn encarava o porteiro com curiosidade divertida.

A expressão na cara dele quando a viu foi impagável.

Só pode fazer uma coisa: rir.

“A senhorita pode subir”, informou, ainda vexado pela maneira diferente com a qual a moça o tratava.

“Obrigada”, agradeceu e caminhou para o elevador que a levaria até a cobertura de Rachel Berry.

Apertou o botão e se surpreendeu ao perceber que a porta imediatamente se abriu.

“Já estão a me esperar”, comentou consigo mesma, adentrando ao retângulo espaçoso e climatizado.

Não precisou apertar o botão. Assim que entrou a porta se fechou e o elevador começou a subir.

Quinn suspirou e olhou com tédio para os números que piscavam no alto da porta, digitalmente informando os andares.

“Este não fala…”, murmurou para si em observação distraída, “mas tem câmera de segurança… Bem pensado, Rachel”.

Ainda usava o terninho preto do julgamento. Na verdade, saiu direto da sala do promotor para lá, sob os irritantes e deploráveis argumentos de “esta não é uma boa ideia” de Holmes.

Todos eles respondidos na medida certa para deixar o cuidador sem razão lógica para ela não visitar a cantora.

Suspirou…

E fez uma coisa que há muito não fazia, embora soubesse que tinha boa voz: cantarolou uma música…

♫ “Don't let me down

(não me desaponte)

Don't let me down

(não me desaponte)”. ♪

A voz estava mais grave pela falta de uso…

♫ “Nobody ever loved me like she does

(Ninguém nunca me amou como ela ama)

Oo She does… yes, she does

(Oo ela ama... sim, ela ama)"

Não gostava de músicas românticas, mas este era um clássico dos Beatles… Uma das canções executadas no show no telhado da gravadora Apple!

"And if somebody loved me like she does

(E se alguém me amou como ela me ama)

Oo she does… Yes she does

(Oo ela faz isso… Sim ela faz)

(…)”. ♪

Don't let me Down – The Beatles

Sorriu quando o elevador parou e as portas se abriram.

“No tempo…”, murmurou, satisfeita.

Avistou Maria que a esperava com um sorriso gentil plantado na cara.

Estendeu a mão para a mulher, em cumprimento.

“Boa noite, Maria”.

A mulher pegou a mão macia e delicada e sentiu que o aperto era vigoroso, diferente da delicadeza que sempre acompanharam este juntar e balançar de mãos. Também notou que foi mais curto que o habitual. Era como se a moça loira não quisesse, de verdade, toca-la.

“Eu, outra vez, não avisei que viria e… Na verdade, eu vim direto do fórum”, informou, cortando a linha de pensamento da mulher.

“Oh, está tudo bem”, abriu espaço para ela adentrar à sala.

“Rachel está melhor”, perguntou, passando e caminhando até parar um pouco adiante da porta de entrada.

“Ainda não, senhorita”, informou, enquanto cerrava a porta atrás de si. Caminhou até a advogada e a encontrou com uma expressão de confusão na face.

“Não?!”, estava surpresa.

“Não…”.

“E o que ela tem?”.

“O médico falou o nome, mas eu realmente não sei se posso repetir para a senhorita”, confessou a mulher.

“É muito grave?”.

“Bom… Eu não sei muito… Mas eu acho que o médico disse algo sobre isso poder ser temporário ou permanente. E precisará de acompanhamento”.

“Permanente… E precisará de terapia”, a advogada suspirou antes de perguntar, “não foi só um ataque histérico?”.

“Bem, senhorita, para mim foi o que pareceu”.

Quinn ouviu passos e se voltou para frente e viu um homem alto, cabelos grisalhos, óculos de aros, elegante e parecendo sério em caráter, a se aproximar.

“Quinn…”, ele falou.

A loira franziu o cenho e suspirou. Pelo tom de voz que ele usou, soube de imediato que a conhecia.

“Sim, senhor…”, esticou a mão e a palavra a esperar que o homem a completasse.

“Berry! Eu sou Hiram…”, ele sorriu e apertou a mão dela com gentileza.

“Pai de Rachel?…”, murmurou.

“Um dos pais…”, ele sorriu.

Quinn tirou a mão devagar e o observou. Na verdade, ela o estudou desde a ponta da cabeça até os sapatos que usava.

Ele achou divertido. Ela lhe pareceu adorável enquanto se esforçava para lembrar dele.

“Não precisa se preocupar, Quinn. Eu sei que você não se lembra de tudo”.

“Certo…”, ela assentiu, ainda a estudá-lo com afinco.

“Eu estou acompanhando o julgamento…”, comentou, a fim de capturar a atenção dela.

Quinn ficou interessada.

“Oh! Aprecia?”, perguntou, com um sorriso.

“Você é muito boa”, acrescentou.

“Eu só… Gosto!”, explicou.

“Eu também! Tenho um escritório em Lima e outro em Columbus”, informou.

“É advogado também!”, exclamou, surpresa.

“Sim… Não tão bom quanto você”, explicou.

“É criminalista?”.

“Sim”.

“Tem algum caso conhecido? Gosto muito de ler sobre…”.

O Berry negou com a cabeça e acrescentou, simpático:

“Eu disse que não sou tão bom quanto você”.

“É muito gentil, Sr. Berry”, ela comentou.

Hiram suspirou e se permitiu estuda-la por um tempo. Estava mais bonita… Pareceu-lhe um pouco cansada, mas o conjunto de paletó e saia pretos lhe conferiam uma elegância moderna e não deixavam transparecer um dia de enfrentamento num complicado julgamento.

“Você é talentosa, Quinn. Não há como negar”, ele achou por bem reiterar.

“Obrigada…”, agradeceu outra vez antes de ir direto ao ponto, “soube que Rachel não melhorou”.

“Não, ainda…”, ele assentiu com uma ressalva.

“E o senhor está aqui para me dizer que ela não pode receber visitas”, concluiu.

O Berry sorriu e negou com um gesto de cabeça.

“Não. Na verdade, eu vim recebê-la e avisar que há uma pequena reunião no quarto da minha filha. Se você não se importar de se juntar a nós…”.

Quinn analisou.

“Reunião? Santana está?”, lembrou do pedido de Alex.

Hiram achou a curiosidade da moça interessante.

“Não. Algum problema?”.

“De fato?”, Quinn meneou a cabeça, “não. Só pequenas rusgas”, explicou.

“Estamos eu, meu esposo, Jesse e meu neto Spencer, além de Rachel”.

A advogada assentiu.

“Obrigado por ajuda-la”, ele acrescentou.

“Eu não ajudei…”, falou.

“Sim, ajudou! Maria disse que você a chamou e ficou até a chegada do médico e de Jesse”.

“Não foi realmente algo muito importante, Sr. Berry”, ela insistiu.

“Você pode me contar o que aconteceu?”.

Ela concordou.

“Acredito que ela ficou atordoada quando soube que eu me acidentei e fiquei levemente desmemoriada”, sorriu antes de continuar, com a autoridade de quem sabia o que falava, “Ela se culpa! O que eu acho completamente sem lógica, haja vista que eu não me recordo. Mas, fiz uma proposição interessante…”, expressou.

“Uma proposição?”.

“Sim. Dado o peso que a sua filha deu ao fato e o quanto parece culpada, acredito que me acidentei porque provavelmente descobri sobre a traição dela”, atirou.

Hiram Berry parou de respirar de maneira inconsciente. Um daqueles momentos em que a informação é tanta que o seu cérebro desliga todas as outras funções e se põe em estado de alerta a fim de decodificar da melhor maneira a informação recebida.

“E…”, recuperou o ar, “falou sobre isso com ela?”.

“Não… Ainda. Eu só pensei sobre isso após o surto da Rachel”.

O homem suspirou.

Limpou a garganta. A expressão pesou após escutar as palavras da advogada.

“Quinn, apenas não comente com ela sobre isso… Ainda. Ela não está bem e eu temo que mais informações assim possam piorar o estado em que se encontra agora”, pediu, com jeito.

A advogada concordou.

“Acha que eu devo retornar em outro momento, quando ela realmente estiver melhor?”, achou por bem averiguar.

“Não! Eu acredito que pode ser bom para a nossa Estrelinha vê-la”, Hiram esclareceu.

A loira assentiu.

Ele pediu a Maria que levasse suco e café para eles e, após isso, pediu para a advogada segui-lo.

Quinn caminhou atrás dele, observando os espaços que iam se revelando no lugar que quase morou.

Pararam em frente a porta do quarto.

Hiram a abriu, entrou, mas quando olhou para trás, a advogada estava de costas para a entrada da habitação, a olhar o corredor e as portas que continha.

“Quinn?”, ele a chamou.

A advogada se voltou, deu um suspiro e se desculpou:

“Eu só estava olhando…”, entrou no quarto e estancou diante dos olhares que se viraram para vê-la.

“Boa noite”, cumprimentou.

Ouviu que lhe respondiam e passeou os olhos atentos sobre todos. Estacionou sobre Rachel, recostada nos travesseiros, ao lado de um homem magro, mais baixo que o primeiro e um ar mais jovial.

Uma imagem solta passou pela cabeça.

“LeRoy…”, murmurou e franziu o cenho, como se buscasse ter certeza em algum recôndito da memória, “estou certa?”, perguntou.

O homem sorriu, surpreso.

“Está”.

Quinn sorriu, realmente surpresa.

“É um prazer revê-lo, senhor”, falou, polida.

Ele se levantou e caminhou até ela e parou-lhe em frente.

“Está ainda mais linda”, comentou e a puxou para um afetuoso abraço.

Quinn foi pega de surpresa.

Não reagiu.

Roy não se importou.

Afastou-a e olhou novamente para ela. Sorriu.

“Você nos deu um susto muito grande, Dra. Fabray”, observou.

A advogada não respondeu. Limitou-se a acenar com a cabeça.

“Nunca mais faça isso”, pediu.

“Acho que não”, ela sorriu.

LeRoy sorriu e a convidou a se sentar perto de Rachel.

Ela o fez, pouco à vontade.

“Como você está? Do que mais conseguiu se lembrar?”, perguntou.

“Roy, seja educado”, Hiram chamou a atenção do esposo, médico e muito curioso sobre a ex-noiva da filha.

Quinn, entretanto, respondeu:

“Eu não lembrei de muito, na verdade… Acho que não houve muita oportunidade para tentar lembrar… Como ir a lugares conhecidos…”, comentou, “Santana me levou até o colégio em que estudamos e outros lugares em Lima, mas eu não lembrei de nada importante… Pequenos fatos, uma situação aqui, outra ali…”, pensou, “Ela se esforçou bastante, na verdade”, reconheceu.

“Vocês eram muito próximas”, o médico ressaltou.

“Eu imagino…”.

“Vira e mexe estavam às turras”, sorriu.

“Acho que isso não mudou, então”, observou com um sorriso.

“Ela ama você, Quinn”, LeRoy afirmou, gentil.

A ex cheerio fez uma cara engraçada de dúvida. Avisou:

“Na verdade, não parece”, e desviou os olhos para a morena que jazia ao lado, fitando-a com olhos atordoados.

Quinn a observou.

Um silêncio se instalou no quarto.

Um instante.

Quebrado pela voz infantil de Spencer:

“Mamãe dodói…”.

O olhar verde escorreu da face de Rachel até se pregarem, atentos, na face infantil.

“Olá, Spencer…”, murmurou e sorriu devagar.

O garoto ficou tímido.

“Sua mamãe vai melhorar”, falou, à meia voz para o menino.

Spencer assentiu e correu para o colo de Hiram e se aninhou ali.

“Acho que ele é tímido”, a advogada comentou.

“Sim… Nem parece filho de artistas”, Jesse respondeu simpático, porém – Quinn achou captar – um pouco acanhado?

Sentia-se envergonhado?

Por quê?

Porque se sentia tão culpado quanto a esposa?

Sorriu:

“Deve ser…”, ela respondeu ao homem.

Tornou para Rachel e investigou o estado da cantora.

“O que os médicos disseram?”.

“Parece que ela fez um quadro de Dissonância Cognitiva, segundo o médico”, LeRoy respondeu.

“Dissonância Cognitiva?”, falou, espantada.

“É. Isso acontece quando…”.

“Eu sei como”, Quinn cortou o homem.

LeRoy ficou surpreso.

Porém, distraiu-se da surpresa ao escutar a ex-namorada de Rachel perguntar:

“Ele disse quanto tempo ela vai levar para se ajustar?”.

“Ajustar?”, Roy perguntou com a surpresa, que esquecera, de volta.

“É… Mudar de comportamento ou ambiente…”, respondeu.

“Na verdade, acho que isso não foi discutido”, o médico falou.

Quinn o fitou. Pensou, antes de questionar:

“Seria o mais prudente, certo? Conversarem sobre como cuidar da Rachel… Como ajuda-la a se recuperar?”.

LeRoy sorriu, aliviado com a preocupação da advogada com a filha.

Sentiu que Quinn era como uma calçada coberta por uma camada de gelo. Ela poderia lhe levar a tombos que causariam choques. Mas, poderia lhe fazer gostar de passear por ali, desde que soubesse como deslizar.

“Sim”, concordou, “é o mais prudente a ser feito, Quinn. E o fizemos”.

Ela assentiu e voltou a olhar para a morena, que agora fitava o anoitecer pela janela.

Colocou a pasta de trabalho, que estivera segurando, no chão, ao lado. Esticou o braço direito com cuidado e pousou a mão sobre as de Rachel, cruzadas sobre as pernas.

Falou, para a cantora escutar:

“Hoje o dia não foi muito bonito… Apesar do sol, o céu não estava azul vibrante… Estava um azul desbotado…”.

Os olhos de Rachel correram da janela para a face da advogada.

Quinn continuou, pensativa:

“Na verdade, o sol parecia lâmpada de geladeira. Iluminava, mas não aquecia”.

Rachel riu, débil.

Os Berry e Jesse ficaram atentos.

Há quantos dias Rachel estava apática?

Quinn, com pouco tempo, fez com que soltasse algo que lembrava uma gargalhada. Isto deveria ser bom…

Talvez ter Quinn ao redor de Rachel poderia ser bom.

“Por que não veio visitá-la antes?”, LeRoy perguntou.

A advogada apertou de leve a mão de Rachel e sorriu para ela antes de responder:

“Achei que a minha presença não seria saudável… E, como ninguém me atendeu ao telefone e Maria não soube explicar o que de fato aconteceu, eu resolvi deixar a educação de lado e saber como ela estava. Hoje”, encarou LeRoy, “porque consegui sair do fórum menos desgastada”, e voltou a mirar Rachel.

Houve um certo embaraço por parte dos adultos conscientes que pesou o ambiente.

Hiram procurou amenizar:

“Perdoe-nos, Quinn. Ficamos preocupados com a nossa Estrelinha e fomos indelicados com você”.

“Só comigo?”, perguntou, sem desviar os olhos da face de Rachel.

“Não. Na verdade, com o Kurt e o Blaine também… Eles ainda não puderam vir aqui e nós não os atendemos”.

“Entendi…”, murmurou. Indagou:

“Mas o Sr. St. James trabalha com eles? Ele poderia informá-los”, atentou.

“Eu…”, Jesse começou a responder, “não estive com eles… Tomei uns dias de folga para cuidar da Rach”.

Quinn assentiu.

Então, de repente, todos sentiram que deveriam sair e deixar as duas sozinhas!

E deixaram.

Quinn se chegou para mais perto da cantora. Apoiou o braço na mão direita do outro lado do quadril dela, no colchão confortável.

Encarou-a. Levou a mão direita até os cabelos castanhos da cantora e os arrumou com cuidadosa atenção atrás da orelha.

“Você deveria ser mais gentil comigo, Rachel”, murmurou.

Deslizou as costas da mão pela face talhada de Rachel e sorriu com o canto da boca. Percorreu-a com os olhos verdes.

“Você é bonita…”, comentou, “e tem alguma coisa em você que realmente me interessa”, sorriu mais, quase como um sátiro faria.

Observou mais a face da cantora e desceu os olhos até o tronco dela e viu que vestia pijamas compridos.

“Eu gostei mais daquele conjunto que você vestia no dia em que lhe visitei”, confessou, “este deixa você mais… Abatida! Aquele não…”, pensou um pouco, “aquele deixa você sensual. Mesmo abatida… Pena que você pirou”, meneou a cabeça e desviou os olhos para qualquer lugar no quarto.

Endireitou-se na cama e sentou reta. Com as duas mãos, segurou o rosto da morena e a fez mira-la:

“Está tudo bem, Rachel”, sorriu, “eu sei porque se sente culpada. Não deveria… Isso é ruim. Para mim e para você!”.

A cantora piscou debilmente.

“Eu estava, mesmo, querendo conhecer você melhor. Mas eu acho que já conheço…”, aproximou o rosto do de Rachel e sentiu-lhe a respiração morna.

“Seu pai acha que você precisa de tempo… Será?”, perguntou.

Então, encaixou o rosto no pescoço dela e murmurou, calma:

“Eu sei que você sente culpa. Eu sei que me acidentei porque soube que estava com o Jesse e comigo…”, suspirou, “eu até mesmo desconfio que flagrei vocês neste quarto e nesta cama”, afastou-se e estudou a face de Rachel.

Houve uma mudança ali…

Quinn sorriu.

Levantou-se, pegou a pasta e saiu do quarto sem olhar para trás.

Estremecerei de susto até dormir.

E no entanto é tudo tão pequeno.

Para o desejo do meu coração

o mar é uma gota.”

– Adélia Prado em Desenredo

CONTINUA.

Notas finais
Então... Fiquem de boa! Até o próximo! Abraço afetuoso. - Cal. *-* OBS.: Maiara, obrigada por recomendar a fic! Fiquei muito feliz! :D