Sine Cordi
46 CAPìTULO 46 - םו
Notas iniciais
“A ilusão é a primeira de todos os prazeres”.
– Oscar Wilde -
Por alguma estranha razão, desconhecida e inesperada, as palavras de Quinn Fabray fizeram eco dentro do oco que parecia a cabeça de Rachel Berry. E o reverberar repetitivo era tão grande e cada vez mais potente, que resultara em um incômodo que não conseguia definir. Aliás, havia perdido a noção do significado do verbo definir.
Ainda ouvia, como se a voz de Quinn fosse a da ninfa que se apaixonou por Narciso:
“Eu sei que me acidentei porque soube que estava com o Jesse e comigo… Eu até mesmo desconfio que flagrei vocês neste quarto e nesta cama…”.
Estas palavras, conforme repetidas, foram ganhando, devagar, novo sentido para a cantora.
Um sentido incômodo.
Um espinho na carne.
Um desconforto.
Um delírio apenas seu?
Ou uma verdade que precisava aceitar ou se afogaria para sempre na bolha que a protegia da realidade feia que lhe sorria com a boca perfeita de Quinn?
“Eu até mesmo desconfio que flagrei vocês neste quarto e nesta cama…”.
Eu até desconfio que flagrei vocês neste quarto e nesta cama…
Eu desconfio que flagrei vocês neste quarto e nesta cama…
Eu flagrei vocês neste quarto e nesta cama…
Eu flagrei vocês…
O que isso significava?
Para Hiram e LeRoy Berry importou-lhes que, após dias de alienação e uma estranha visão turva da realidade, a filha parecia aceitar o que estavam habituados chamar de mundo real.
Para Jesse, importou o que a advogada falou ou fez para a esposa que a deixou mais perceptiva. Mas ainda desconhecia o que foi.
Deveria se preocupar? Ou deveria agradecer?
Não sabia.
Não sabia porque não entendia…
Um dado que se tornava um complicador e lhe deixava inseguro quanto ao bem-estar da mãe de seu filho.
De todas as maneiras que pudessem Hiram e LeRoy pensar, apenas uma foi a que mais fez sentido: Quinn não aconteceu por acaso na vida de Rachel…
Certo?
Acharam que sim.
E a prova mais do que necessária foi que, após a loira deixar a morena depois de uma visita não muito longa, no dia seguinte, Rachel demonstrava sinais sutis de despertamento. Era estranho falar sobre alguém despertar, acordar, quando estava de olhos abertos e respirando. Mas era assim que enxergavam a situação.
Era como se Maya, a deusa da ilusão, abrisse mão de Rachel Berry e sua atenção para Quinn e o restante do mundo.
Haveria motivos para futuros arrependimentos?
Hiram e LeRoy Berry eram conscientes do que a filha e Jesse fizeram com Quinn e o que disto resultou.
Dizer que se surpreenderam quando souberam que a filha estava em contato com a ex-noiva seria complicado. Havia ambiguidade nos homens. Por um lado, entendiam a necessidade de a filha tentar se redimir com a moça. Por outro, estava o fato impensável de que Quinn, após tudo, pudesse dar um mínimo de abertura para Rachel.
Eles até ficaram surpresos. Mas o alívio de ver que sua Estrelinha estava a caminho da recuperação subjugou os demais sentimentos.
Afinal, qual pai ou mãe resistiria ao que faz bem a sua cria?
Hiram e LeRoy Berry eram pais.
Hiram e LeRoy Berry eram pais cuidadosos.
Hiram e LeRoy Berry eram pais amantíssimos.
Hiram e LeRoy Berry eram pais de Rachel Berry!
E, se Rachel ficasse bem, eles também estariam.
Fato!
Um dos melhores terapeutas de Nova York aceitou atender a atriz e assinou um contrato de privacidade, cuidadosamente redigido por Hiram Berry, revisado pela Fabray&Advogados, onde estava escrito, a grosso modo, que o médico – Lee Austin – manteria em sigilo o tratamento da estrela. Nenhuma palavra poderia ser usada do que ele soubesse a respeito da estrela da Broadway e Hollywood.
Um acordo bom para ambos os lados.
Mas, Jesse St. James… Ele, definitivamente, não se sentia seguro.
“Eu estou bem, exceto quando o desejo homicida aparece.”
– Lisa Frankfort & Patrick Fanning -
Quinn estava particularmente tranquila.
Na verdade, para olhos mais expectantes, ela parecia – mesmo – como uma criança que acabou de chegar num parque de diversões. Contida pela boa educação e com os olhos e sorriso flamejantes do que se suporia ser a alegria de quem se divertiria em vários brinquedos.
Ou apenas com um…
No dia anterior, Wilhelm telefonou e enviou um arquivo que ela cuidou de ler com atenção. Regozijou-se!
Mathews, entretanto, era o seu inverso.
Ele conseguiu que Raul Steven Street concordasse em testemunhar. Desde que Lancaster fizesse as perguntas…
Quinn olhou para o réu.
Ele também a mirou.
Ela sustentou-lhe a mirada com um olhar de recreação que apenas um observador atento poderia perceber,
Street, em relação a ela, era um observador atento.
E aí morava a fraqueza dele…
Enquanto o bom humor dele se esvaía a cada observação dela sobre ele, os olhos verdes faiscavam mais com uma satisfação que ele não entendia.
O que, afinal, ela sabia que ele não?
O que ela tinha que a deixava tão segura e o enfraquecia?
O que ela escamoteava e que ele não desconfiava?
Respirou fundo.
Havia se preparado para este momento. E não tinha a intenção de deixa-la vencer…
Só precisava ficar tranquilo…
Só precisava não dar atenção a qualquer tipo de provocação dela…
Simples assim!
O réu foi chamado e Anthony respirou fundo.
Precisava resgatar a vantagem que possuía no início do julgamento. Esta era a oportunidade!
Apenas um complicador para o qual haviam se preparado para rebater: os reapresentantes da promotoria.
Ele, Mathews, e Street precisavam trabalhar em consonância para vencê-los.
E foi o que fizeram.
Mathews era o maestro e Raul o seu músico experimentado e bem ensaiado. Não houve uma nota dissonante.
Na verdade, havia uma. Uma dissonante silenciosa e incômoda justamente por não ser escutada: a voz de Quinn Fabray e seus protestos.
De fato, por pouco, o advogado de defesa não se virou para ela e perguntou se gostaria de fazer alguma oposição ou contestar qualquer das perguntas ou respostas. Entrementes, considerou que isso seria um despropósito.
E realmente era.
E, além, ela concordou que Lancaster interrogasse a testemunha.
Findou as perguntas com um suor ansioso que lhe molhou as costas e deixou uma marca no paletó que lhe cobria esta parte.
“Nervoso…”, murmurou a advogada, sempre atenta.
Mathews deu um último aceno de cabeça para o cliente e o deixou para a promotoria.
Porém, para a sua surpresa e do réu, quem levantou para inquirir a testemunha não foi J.J. Lancaster.
Quinn, com um belo terno de paletó e saia pretos um pouco acima dos joelhos, blusa pink que contrastava com a pele pálida, feitos sob medida, saltos e cabelos soltos e sedosos que desciam feito cascata à altura dos ombros, sorriu e se ergueu.
Mathews não entendeu.
Street menos ainda.
“Meritíssimo”, o advogado de defesa se manifestou, “ficou acordado entre as partes que o promotor Lancaster conduziria as perguntas ao meu cliente. Não a Dra. Fabray”.
O Juiz explicou:
“O promotor apresentou-se afônico, de modo que a Dra. Fabray continuará a encaminhar os trabalhos”.
“O promotor está afônico?”.
Era verdade.
Por isso, o juiz achou o tom do advogado carregado de incredulidade estranho.
Mas, não daria atenção a este pormenor. Os trabalhos seguiriam de acordo com o calendário estabelecido.
O Mathews pediu para se aproximar e o juiz permitiu. A advogada se juntou a ele e escutou:
“Meritíssimo, meu cliente concordou em testemunhar, desde que o promotor Lancaster o inquirisse”.
O magistrado franziu o cenho.
“A Dra. Fabray é a representante da promotoria, Dr. Mathews”.
“Eu sei”, contestou, a respirar fundo, “mas houve um acordo!”.
Quinn desviou os olhos para o réu, sentado em expectativa observação, sem conseguir escutar o que era falado.
Os olhos cruzaram com os verdes.
Ergueu a cabeça, a fim de demonstrar segurança e autossuficiência para a advogada.
Um pequeno, quase imperceptível, sorriso de canto de lábios emoldurou a face da Fabray.
Um sutil rasgo de instabilidade passou pelas orbes do réu.
Por que ela dava a impressão de que iria fatiá-lo e comê-lo cru?
Robert Walker III falou para o advogado de defesa, já com a atenção da representante da promotoria sobre si:
“A Dra. Fabray dará continuidade aos trabalhos. Eu não vou parar o julgamento porque o seu cliente quer ser indagado pelo Dr. Lancaster”.
“Mas, senhor…”, insistiu o Mathews, sentindo-se vítima do engodo mais tolo da face da terra e, por isso, um idiota.
“Doutor, eu não vou mudar a minha opinião. O julgamento seguirá e a Dra. Fabray fará o que fez até o momento: será a responsável pela promotoria”.
O advogado a encarou muito aborrecido.
“Isso não foi honesto”, sussurrou em irritadiço tom para ela.
Quinn o mirou como se não entendesse a razão da exasperação dele.
Assim que o homem sentou, ela fez um agradecimento silencioso para o juiz e caminhou devagar até o réu.
Estancou a uma distância estudada. Uma que pudessem, tanto ela quanto o réu, verem-se e serem vistos e ouvidos pelos jurados e pela audiência.
Os olhos do Street procuraram pelos de Mathews, atrapalhados. Afinal, não era para J.J. Lancaster interroga-lo?
“Eu não estou entendendo…”, comentou.
A representante da promotoria cuidou de esclarecer:
“O promotor Lancaster está afônico… Não poderá lhe arguir. Eu farei”.
Raul desviou os olhos do advogado e fincou-os na figura tão bela quanto fria da mulher que lhe parecia, neste instante, uma representante em carne e osso da “filosofia” do Marquês de Sade.
“Eu…”, ia contestar, porém a advogada o cortou, num tom tranquilo:
“Não se preocupe, Sr. Street! Farei o melhor”.
Este era o detalhe que não o deixava à vontade…
Farei o melhor…
A voz dela fez-lhe eco no cérebro ainda surpreso e um pouco atordoado.
Assentiu, sem muita opção.
“Tudo bem?”.
Ela estava tão calma, tão segura que o excesso de equilíbrio que transmitia o desequilibrava.
“Sr. Street…”, o juiz o trouxe para a realidade.
“Sim. Está tudo bem”, concordou.
Quinn sorriu e assentiu.
“O senhor passa a imagem de um homem prudente e seguro de si. Sente-se assim?”, perguntou, como se rondasse a caça.
Anthony ficou atento.
Era uma pergunta inofensiva…
O réu assentiu e verbalizou:
“Sim”.
“Entretanto…”.
Um sino badalou dentro da cabeça do Mathews. A conjunção adversativa, dita com uma tranquilidade de tirar a paz de espírito, pareceu-lhe uma armadilha.
Quinn continuou:
“Não conseguiu conquistar a Sra. Wood, por quem se apaixonou”.
Street abriu a boca para responder, mas ela lançou a questão:
“Se eu lhe perguntar se sente seguro de si, após ser rechaçado por Linda, ainda me responderia com um sim?”.
Raul não esperava por essa pergunta.
Era uma pergunta simples, mas se a observasse com atenção, havia algumas afirmações implícitas.
Uma pergunta quase rudimentar, mas que o deixou, momentaneamente, sem resposta. Afinal, se era seguro de si, se passava a imagem de um homem bem-sucedido e poderoso, como poderia falhar em conquistar a mulher que amou?
Mas, jogou com o que conhecia:
“Acho que posso afirmar que o amor que eu senti por Linda me fez um homem frágil”.
Quinn sorriu.
“E as várias negativas dela aos seus pedidos de casamento o fizeram se sentir frágil também?”.
“Talvez…”, pensou a resposta.
“Talvez? Pode ser mais direto”, pediu.
“Um pouco… As negativas dela me fizeram sentir um pouco frágil”, ele foi mais assertivo.
A advogada percebeu o quanto ele usava do tato para não se comprometer.
Espetou:
“No início deste julgamento, usamos a palavra ‘namorado’ para lhe definir em relação a Sra. Wood. Porém, podemos inferir pelos repetitivos ‘nãos’ que ela lhe ofereceu que, na verdade, o senhor foi somente um amante…”, Quinn esperou antes de afirmar, “ela não o amou”.
“Ela me amou”, afiançou o homem, antes que o Mathews pudesse fazer qualquer intervenção.
“Mesmo?”, a incredulidade estava bem equilibrada no tom de voz e na face de Quinn.
“Sim”.
“Por isso ela não aceitou terminar o casamento com Robert Wood e se unir em definitivo ao senhor?”.
A pergunta, feita de maneira simples, quase induziu o Street ao erro.
Ele emudeceu.
Mas, desejava dar uma resposta que tirasse a calma da advogada.
Desejava tirar dela o bisturi que tentava lhe cortar e expor sua parte menos agradável.
Ela era uma pedra no sapato de sua imagem de homem respeitado.
Ela era a pessoa ardilosa que tentava lhe engrupir.
Ela era perigosa…
Quinn insistiu:
“Estamos a esperar a sua resposta”.
“O que sabe sobre relacionamentos?”, ele tentou reverter uma situação que não tinha, no momento, como acontecer.
“Não sou o réu neste tribunal, Sr. Street. O senhor é”, afirmou e prendeu os olhos nos dele.
O homem sentiu a cor lhe fugir.
Ela continuou:
“Então? A Sra. Wood o amou tanto que não lhe quis. Como explica isso? Eu não sei se entendi esse… Amor?”.
“Ela estava insegura”, afirmou o homem.
“Por quê?”.
“Ela sairia de sua zona de conforto junto ao marido”, retorquiu.
“Mas ela sairia de uma zona de conforto para entrar em outra, certo?”.
Ele se sentiu pego. Se respondesse que sim, ela – provavelmente – insistiria que Linda não o amou pois repeliu todas as tentativas de se unir a ela em matrimônio.
Se respondesse que não, demonstraria que a amante não se sentia à vontade com sua presença.
Olhou para o Mathews.
Ele não interferiria?
“Sr. Street, esperamos a sua resposta”, insistiu.
Street voltou os olhos para ela.
Para queles olhos verdes particularmente claros.
Olhos verdes particularmente claros e sorridentes.
Ela estava satisfeita?
Ela pensou que o pegara?
“Sr. Street”, o juiz chamou-lhe a atenção.
“Eu não sei o que passava pela cabeça de Linda”, explicou.
“Não?!”, a voz saiu com uma dosada inflexão de incredulidade.
Ela era uma FDP!
E o xingamento por inteiro chegou até a ponta da língua do Street, mas ele a mordeu.
E doeu.
Engolir a vontade de manda-la à merda o frustrou.
“Quem é Robert William Taylor?”, a advogada perguntou.
A expressão do réu, até então quase relaxada, ganhou contornos de cólera.
Respirou fundo e respondeu:
“Não faço ideia”.
“Não mesmo?”, sorriu para ele. “Vou refazer a pergunta a fim de que o senhor possa repensar a sua resposta”, informou, “quem é Robert William Taylor?”.
“Eu já disse que não sei!”, cuspiu com a voz três tons acima do que seria considerado normal.
Anthony olhou para o cliente.
Mas o cliente estava concentrado demais na advogada que o estava a fustigar.
O cliente estava como uma corda de violão que você estica, estica, estica…
Se Quinn Fabray girasse um pouquinho mais a tarraxa, ele partiria.
E, para terror do advogado, ela parecia muito disposta a girar a tarraxa.
Santana, sentada ao lado de Russel, comentou à boca pequena e com uma certeza quase inquebrável:
“Se ela continuar, ele vai pular em cima dela…”.
Russel, fascinado, sem desviar os olhos do pequeno espetáculo de “como irritar outro ser humano” dado por sua filha, assentiu sorridente:
“Deus! Ela é boa”.
A latina suspirou.
Para ela, Quinn ainda – apesar de tudo o que aconteceu e da amnésia – continuava a demonstrar fortes instintos suicidas.
A representante da promotoria fez o seu papel:
“Eu vou refrescar a sua memória…”, estudou-o, “Robert William Taylor é funcionário do Clube Náutico da Califórnia e responsável pelos iates do Sr. Wood e era o novo interesse amoroso da Sra. Wood. Consegue se lembrar agora?”.
O esclarecimento dela e a pergunta foram feitos com tanto júbilo que Street ficou desconcertado.
E, claro, ela ainda não terminara…
“O Sr. Taylor e o senhor foram apresentados há exatos seis meses pela própria Sra. Wood”, observou-o com um pequeno sorriso, “e foi quando ela lhe comunicou, Sr. Street, que estava apaixonada por ele”, soltou com um prazer quase orgástico.
“Ela não estava apaixonada!” — dessa vez ele gritou.
“Sr. Street”, o juiz o recriminou.
Quinn desejava um pouquinho mais…
“Ela estava apaixonada, comunicou-lhe isso e o senhor não aceitou”.
“Você não sabe do que está falando”, avisou.
“Eu sei”, ela informou muito segura, “e o Sr. Taylor poderá corroborar as minhas palavras”.
Street ficou lívido.
Ela teve a coragem de levar aquele sujeito até Nova York para humilha-lo?
“Além de outras pessoas presentes no momento, como a Srta. Brandy, funcionária do restaurante do clube e que ouviu e viu quando o senhor gritou em alto e bom som que se Linda o deixasse, iria mata-la”, ela completou.
Anthony se levantou numa tentativa quase desesperada de despressurizar o tribunal.
Mas…
“Sua vaca sádica! Eu vou matar a você”, arrotou o Street. E saltou!
Raul Steven Street saltou por sobre a mesa que o separava da advogada e derrubou o microfone que fazia sua voz audível para todo o local. E a estática incomodou os ouvidos presentes.
Ele não pensou.
Na verdade, ele pensou sim.
Raul Steven Street pensou em aterrissar o seu corpo de quase noventa quilos, ainda mais pesado pelo mergulho impulsionado pelo ódio, no corpo de cinquenta e quatro quilos de Quinn Fabray.
Ele a deixaria desacordada!
Ele faria com que ela se arrependesse de toda a humilhação que o fez passar desde o início do maldito julgamento!
Ele a machucaria de verdade!
Ele a faria se calar!
Ele retiraria daquela boca o sorriso de deboche velado.
Ele lhe infligiria dor!
Ele a envergonharia diante de todos!
Ele acabaria com aquela bela face!
E Raul Steven Street acabou.
Acabou pousando com um baque surdo acompanhado de um uníssono, surpreso e apavorado coro de “oh!” – presenteado pela audiência – no chão de tábua corrida, encerada com cuidado pelo faxineiro da noite, que também esvaziou as lixeiras.
A pancada foi, como ele desejou, muito violenta.
A cabeça doeu a ponto de tira-lo de órbita.
Uma outra dor, localizada no nariz, informou o motivo pelo qual também sangrava: quebrou-o.
Sentiu os braços serem colocados para trás e as mãos encerradas no que, ainda com um pouco de raciocínio, tinha certeza serem algemas.
Estava fodido!
Isso ficou muito óbvio em meio a confusão resultante da pancada forte na superfície dura.
Ele, literalmente, beijou o chão.
E, como um homem que não primava muito pela gentileza, tentou ser bruto.
Mas o chão foi bem mais.
Quinn foi cercada por policiais e pelo promotor, a fim de ser resguardada de qualquer tribulação.
Estava ilesa.
Manteve a distância necessária e a atenção para qualquer tentativa de agressão do acusado de assassinato. Assim, quando ele saltou, ela se afastou com alguns passos para trás.
Por pouco, bem pouco, Raul não lhe beijou os pés.
“Talvez apenas haja um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar.”
– Franz Kafka -
CONTINUA.
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