Sine Cordi
37 CAPÍTULO 37 - לז
Notas iniciais
“O amor pode morrer na verdade, a amizade, na mentira.”
– Abel Bonnard -
Quinn entrou no fórum pela parte de trás a fim de evitar os jornalistas ávidos por informações sobre o julgamento, com vinte minutos de antecedência.
Pensou em Rachel Berry. Ela realmente sentiu quando soube do acidente e de tudo o que aconteceu no passado. Não pensou que ela ficaria tão sem defesas! Na verdade, foi uma surpresa!
Foi até a sala do promotor para se preparar antes de voltar ao trabalho. Estava vazia e, mal começou a tirar os papéis do processo, além de seu próprio dossiê sobre o réu, a porta abriu e outra pessoa entrou. Não deu atenção.
“Por que ela não voltou?”, a voz de Santana explicitava preocupação.
Quinn sorriu, ainda a arrumar os documentos.
“Tão preocupada! Pena que esqueceu de contar para a Rachel que eu não me lembrava dela…”, comentou.
A latina sentiu o coração descompassar.
“Sabe, Sant, ela realmente ficou muito mal quando soube que os ditos ‘amigos’ dela esconderam informação tão preciosa!”, virou-se para a morena e a mirou.
A latina caminhou até ela e estancou quando ficaram frente a frente. Os braços cruzados sob os seios, o queixo erguido, o olhar de desafio.
“E você cuidou de contar para ela. Foi divertido?”.
A loira franziu o cenho antes de responder:
“Eu pensei que você confiasse em mim, Sant! Por que tão grave? Eu só fui me explicar com ela… Eu já não achava saudável ela sempre a se desculpar por algo que eu não lembro. Diga-me, Lopez: onde está o meu pecado?”.
A outra sorriu incrédula.
“Eu tenho certeza que o seu ‘pecado’ aparecerá mais cedo ou mais tarde. Você não dá ponto sem nó. Eu só quis protege-la de você!”.
Quinn bateu palmas e exclamou:
“Bravo! Tão heroico da sua parte! Só uma pergunta, Lopez: protege-la por quê? Acha mesmo que eu sou uma serpente em pele de cordeiro?”.
A morena se perdeu no olhar dela.
“Se ao menos…”, murmurou.
“Se ao menos o quê, Lopez?”.
“Eu encontrasse um resquício de você antes do maldito acidente no fundo dos seus olhos, eu acreditaria em sua boa intenção”, respondeu.
A loira meneou a cabeça e riu, cética:
“Quando você ficou sentimentalista, Santana?”.
“Eu não sou sentimentalista!”, defendeu-se, “mas, eu realmente queria acreditar em você”.
“Da mesma maneira que eu confiei acreditando em tudo o que você me contou sobre as pessoas das quais eu não me lembrava por causa do acidente? Você contou que eu tive um pequeno romance com a Srta. Berry e, de repente, eu descubro que foi muito mais que isso pela maneira como ela reagiu. Você não confia em mim?”, a voz era de escárnio, “Não confia na mulher que bateu a cabeça e, depois disso, não tem problema algum em soltar as verdades para as pessoas? Você não confia na pessoa que quase precisou ser adestrada para ser ‘polida’ com os demais? Eu lhe mentiria, Santana?”, indagou, a voz cambiando para uma doçura até então não apresentada.
“Eu não sei… Eu não lhe conheço”, respondeu.
Quinn se acercou mais até ficar com os lábios bem perto do ouvido dela e sussurrou:
“Bom tiro! Mas não me acertou”.
Santana a afastou e se afastou, colocando-se encostada na escrivaninha de madeira de lei do promotor sob o olhar brincalhão da outra, que continuou:
“Aliás, eu quero o telefone de Rachel. E sei que você tem o número. Pode ser gentil e me informar?”, pegou o próprio e abriu a agenda. Esperou.
Esperou.
“Santana, a tela vai apagar… Pode ser mais rápida?”.
Esperou.
“Eu disse que a tela apagaria!”, mirou a outra, que tinha a face endurecida. Um endurecimento que Quinn não sabia se era raiva contida ou dor contida. Santana podia ser ambígua às vezes.
“Santana, eu só quero telefonar para ela mais tarde e saber se está bem. Ela realmente desmoronou quando eu falei que não me lembrava. Não pude acompanha-la à casa porque teria que estar aqui. Estou lhe pedindo gentilmente…”, pontuou e atenuou mais a voz, “você pode, por favor, me informar os dígitos que compõem o número do celular da Srta. Berry?”.
Santana inclinou a face e Quinn fez o mesmo, espelhando-a.
“Sant, eu não tenho medo de você”, avisou com tranquilidade.
“Eu não sei o que está passando pela sua cabeça, Quinn, mas você nunca se interessa por ninguém. Se me disser, mesmo, o que quer com a Rach, talvez eu lhe dê o número”.
“Eu não me interesso por ninguém?!”, questionou, fingindo incredulidade.
A latina meneou a cabeça. Por que ainda perdia tempo questionando-a? Encarou-a e viu que se aproximava.
Quinn chegou bem perto da morena que estava encostada, ainda, na escrivaninha do promotor e amalgamou o corpo ao dela, preguiçosamente. Colocou a palma de cada mão sobre o torso de cada uma das mãos da morena. O rosto encaixado de tal modo que suas bochechas raspavam-se sutilmente; os lábios bem perto do ouvido da outra.
Suspirou.
O ar quente atingiu em cheio a orelha da latina e causou um arrepio que a tomou por inteiro.
Quinn passeou as mãos calmamente em cada um dos braços, sobre o paletó do terno social da outra mulher, até alcançar os ombros, onde os apertou com gentileza.
Soltou outro suspiro, mas este acompanhado de um quase ronronar.
Arrastou as mãos até a gola da camisa de Santana e agarrou cada um dos lados, fazendo a mulher encara-la.
Com o olhar extravasando deboche, indagou:
“Tem certeza que a gente nunca transou?”.
Santana agarrou cada um dos pulsos dela e a afastou, aborrecida.
“Se fizer isso de novo, eu mato você!”, ameaçou e saiu apressada.
Quinn ponderou:
“Se eu analisar a reação dela, eu vou achar que sim, nós dormimos juntas. Santana está escondendo informação preciosa”, concluiu e foi recolher seus pertences para ir ao julgamento.
Lancaster se sentiu aliviado ao perceber a chegada da Fabray.
“Aproveitou bem o parco tempo de almoço”, ele perguntou, educado.
A loira o mirou e deu um sorriso de lado antes de retorquir:
“Na verdade, não muito… Como disse, o tempo foi escasso”.
Sentou ao lado dele e arrumou o processo e todos os documentos que necessitava sobre a bancada e a caderneta de capa de couro à frente.
O homem a observava, atento. Ela parecia tão inofensiva…
Quinn girou o rosto e o mirou, interessada:
“Algum problema comigo, Dr. Lancaster?”.
Ele se sentiu como se fosse flagrado com as calças e a cueca arriadas…
“Não… Não! Eu só estava vendo… Como a senhorita é organizada. Admiro a organização…”, a voz morreu.
A mulher riu antes de responder:
“Eu também”.
O promotor se empertigou e se colocou de frente para mesa do juiz.
“O Sr. Street é ambidestro”, ela avisou.
O homem a mirou, confuso.
“Ambidestro?”.
Ela repetiu distraidamente:
“O Sr. Street é ambidestro”.
O homem sorriu, ainda confuso.
“Ambidestro? Eu realmente não estou entendendo, Dra. Fabray”, confessou.
“Então será muito bom se o senhor reler os autos do processo”, ela comunicou e voltou a atenção para o caderno que descansava ainda fechado diante dela.
Imediato o homem tomou dos autos e abriu. Perguntou:
“Alguma parte específica?”.
Ela foi sucinta:
“Legista”.
Ele se apressou em procurar.
O juiz Walker adentrou e o homem, mesmo de pé, continuou a procurar a parte que a advogada indicou. E, enquanto o juiz chamou os advogados para lhes falar acerca de como seriam os trabalhos na parte da tarde, o promotor arregalou o par de olhos claros e entendeu, após verificar mais atentamente o parecer técnico do médico legista, sobre o que a Fabray se referiu.
“Definitivamente ela não é inofensiva…”, murmurou.
“A paz vem de dentro de você mesmo. Não a procure à sua volta.”
– Buda -
Rachel recobrou a consciência lentamente, sob os olhares atentos e assustados de Jesse e Maria e um curioso da parte de Spencer.
“Mamãe caiu”, o garoto afirmou.
“Não, Spencer…”, Rachel cuidou de corrigi-lo, “mamãe desmaiou”.
“Mamãe caiu e desmaiou”, endireitou.
Rachel sentiu a cabeça doer.
“Star, fale comigo”, Jesse pediu preocupado, embora a interação entre ela e o filho demonstrasse que estava ótima.
“Eu só estou com dor de cabeça”, avisou, ainda aérea.
“La señora se cayó com brutalidad”, Maria achou importante avisar.
“Yo me desmaye!”, aclarou a judia.
“Mamãe desmaiou e caiu”, Spencer achou interessante inverter a ordem das coisas…
Rachel suspirou. E agradeceu por estar deitada quando lembrou, de súbito, do motivo de seu desvanecimento.
Fechou os olhos bem apertados numa vã esperança de que a informação que lhe martelava fosse apenas a lembrança de um sonho do qual acabara de acordar.
“Rae-Rae, tentar fingir que o que eu lhe disse foi só um delírio não vai adiantar”, avisou o ex-marido.
Ela abriu os olhos castanhos e o mirou com tristeza.
“Ela tentou morrer, Jesse! Isso é tão… Acho que não sei definir, porque não sei como me sinto em relação a isso, mas eu sei que é como se… Como se alguém me roubasse um pouco do meu respiro…”.
O homem não opinou.
“La Bella Durmiente…”, falou Maria, distraída.
Rachel se sentou num zás e, por isso, amparou a própria cabeça por causa da tontura que a atingiu.
“Quem?”, conseguiu falar, antes de se render ao mal estar e deitar.
“La chica rúbia que sempre vinha aqui. Parou de vir depois que a senhora viajou… Saiu nos jornais. Era só uma nota pequena, mas eu sei que foi muito pior do que os jornalistas escreveram”, esclareceu.
Rachel meneou a cabeça, incrédula. Perguntou, machucada:
“Como eu pude ficar tão alheia a tudo o que aconteceu com a Quinn?”.
“Nós não estávamos aqui…”, Jesse justificou.
“Este não é um bom motivo…”, murmurou aborrecida.
“Você estava enterrada dentro da sua culpa e não olhou nada mais ao redor”.
A verdade, finalmente!
“Eu tentei falar com ela…”.
“Tentou, Rachel? Você lá na Europa e ela aqui, na América! Por que não tomou um voo ou, mesmo, não embarcou naquele dia e foi atrás dela?”.
As palavras dele a atingiram como setas, direto no coração, sem erro de mira.
Silenciaram.
Maria recolheu Spencer e o levou.
“Você me perguntou…”, Jesse murmurou, arrependido.
“Eu sei…”, ela suspirou. Franziu o cenho, pensativa. Indagou:
“Por que o Kurt não me contou?”.
Foi a vez do ator suspirar. Ele sentou no chão, ao lado do sofá e sustentava a mão dela na sua.
“Eu, mesmo, não sei. Mas, de acordo com o Blaine, ele esperou até saber se a Quinn sobreviveria ou não ao acidente”.
“Por quê?”, ela ainda queria encontrar a razão do silêncio do amigo e empresário.
“Eu não sei, Rachel! Vocês dois sempre foram muito íntimos. Pelo menos, desde que eu lhe conheci”.
“Então… Eu estava, mesmo, tão afogada na culpa que não percebi uma pista qualquer de que alguma coisa estava errada?”
“Eu não percebi, até porque ele se afastou de mim quando você contou o que fizemos…”, reforçou.
“Chame a Maria…”, pediu, “ela parece saber…”.
Jesse não sabia se esta era uma boa ideia.
“Rachel, e se você se machucar mais? Já não foi bastante saber que ela tentou…”, não terminou a frase.
A judia o encarou. Perguntou:
“Você se sente culpado, Jess?”.
Ele mirou o vazio.
“Eu… Eu não sei… Ela fez esta eleição, mas o que eu e você fizemos… Nós pressionamos o botão vermelho que não deveria ser apertado. Eu nunca imaginei que ela lhe amasse tanto, Rachel! Eu não fazia a menor ideia. Eu sei que ela sofreu… Eu pensei nisso sob a minha ótica. Eu não tentaria morrer por amor. Eu superaria! Mas a Quinn… Ela perdeu você e se perdeu também. É como se a vida dela só existisse por sua causa, Rach-Rach. Então, se ela perdeu a razão de viver, o que mais faria?”.
As palavras do homem baquearam a atriz. Ela sempre soube que Quinn a amou, mas nunca percebeu nada que pudesse resvalar numa tentativa de suicídio. E Quinn sempre pareceu tão segura, tão firme!
“Ela era tão controlada, Jess. Quinn não explodia… Não comigo!”, explicou, “Ela era tão delicada que, às vezes, quando me tocava, eu precisava ficar atenta para saber se era só o roçar do vento na minha pele ou o passear dos dedos dela! Quinn era suave”, murmurou.
O homem não tinha uma opinião para dar. Resguardou-se.
“E hoje…”, Rachel voltou a falar, “quando eu soube e não reagi bem ela foi… Atenciosa! Um pouco seca e desajeitada, mas ela parecia, mesmo, estar tentando ser agradável. Mas… Eu sei que ela só estava fingindo… Ela confessou”.
Jesse a mirou.
“Confessou… Foi tão triste ver a maneira como ela se referiu ao fato… Era fria…”.
O homem apertou com delicadeza a mão dela.
Rachel o mirou.
“Eu disse que não me importo… O mínimo que eu mereço é amar alguém que não pode ou não consegue me amar de volta. No máximo, eu serei um objeto dela, uma posse…”, riu. E foi um riso triste.
Jesse meneou a cabeça e opinou:
“Não faça isso, Rae-Rae! Você não vai conseguir suportar!”.
“Por que não? Alex suporta”, apontou.
Jesse foi atencioso:
“Mas você precisa entender que Alex é o seu oposto! Eu não duvido que ela ame a Quinn, mas ela é como um gato: independente. Ela não parece ser o tipo de namorada que asfixia a Quinn”, ponderou.
“Está dizendo que eu sou romântica demais e que vou girar em torno dela?”.
“Sim! Eu estou! Veja: Alex não está querendo salvar a Quinn. Ela se contenta com o que tem. Você, não! Você vai pensar que a força do seu amor poderá compensar a falta de amor dela! Rachel, pense! Eu não estou contra você”, atalhou, “estou com você e por você! Por isso, estou lhe avisando. Não será saudável…”.
“Acha que a Quinn trai ou já traiu a Alex?”, questionou.
Esta era uma pergunta que o cantor e ator achou difícil de responder. Então, procurou analisar o contexto…
“Eu sei que Alex é uma mulher atenta. É esperta, observadora e territorial. Creio que ela tem um olho na própria vida e o outro na Quinn…”.
“E ainda é terrivelmente linda…”, reclamou a judia.
O lado gay do Jesse saiu para passear e não voltou…
“Ela é mesmo linda! Pena que nunca me deu bola… Nem para nenhum dos caras. Acho que ela é cem por cento les, diferente de você e da Quinn”.
Rachel franziu o cenho.
“Você está babando, Jesse St. James?”.
Ele riu e negou com a cabeça.
“Só estou constatando um fato! Você disse que ela é linda”.
Rachel assentiu.
“É… Mas ela não estava no julgamento… Será que a Quinn vai contar que almoçamos juntas? Será que a Alex vai ficar zangada comigo?”, preocupou-se.
“Não acredito. Alex não faz escândalo ou ameaças. Ela sabe lidar com a concorrência”.
A atriz ficou a meditar sobre as palavras do ex-marido.
“Ela sabe sobre o acidente…”, afirmou.
Jesse não ouviu nenhuma novidade:
“À exceção de nós dois, todos sabem sobre o acidente da Quinn”.
A morena se lembrou…
“Quinn não mencionou que tentou se matar”.
“Ela não sabe”, justificou.
Rachel sorriu, incrédula:
“Eu não entendi o que você falou”.
Ele encolheu os ombros…
“Assim como não contaram sobre o acidente para você e para mim, não contaram para a Quinn que ela tentou se matar”.
Rachel foi sentando devagar, verificando se a tonteira ainda a tomaria. Apesar de sentir a caixa craniana meio oca, não havia mareio.
“Isso é piada? Quinn não sabe?”.
“Não…”.
“Jesse, isso é um absurdo! Ela tem o direito de saber…”.
“Você não vai falar, Rachel! Quer que ela passe a despreza-la? Imagine Quinn Fabray em seu estado normal: fria! Imagine Quinn Fabray sentindo desprezo: deve ser de matar! Então, aquiete-se ou ficará sem nem mesmo um cumprimento educado da parte dela”, atentou o homem.
A cantora se deu conta de que, entre recuperar o amor de Quinn Fabray e possuir o ódio dela, dependeria somente de como ela reagiria se soubesse o que fez e por que fez.
“Acha que alguém usaria isso para me manter afastada dela?”.
“Alex Bishop sabe que a Quinn tentou se matar?”.
Rachel sentiu a cabeça voltar a doer.
“Só existem dois dias no ano em que não podemos fazer nada. Um se chama ontem e o outro, amanhã.”
– Dalai Lama -
CONTINUA.
Fale com o autor