Sine Cordi
35 CAPÍTULO 35 - לה
Notas iniciais
“(…) A única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais (…)”
– Clarice Lispector -
Os olhos de Rachel aumentaram em tamanho. Ouvira direito? Quinn a convidava para que almoçassem juntas?
“Perdão?…”, foi só o que conseguiu proferir, ainda em choque.
Quinn sorriu e, com uma graça toda própria, agachou e recolheu o telefone da cantora que estava no solo e o entregou.
A morena o tomou sem conseguir proferir palavra.
A advogada resolveu se manifestar…
“Eu sei que parece um pouco prematuro e que não teremos muito tempo hábil, pois terei de estar de volta dentro de aproximadamente noventa minutos, mas talvez possamos tentar entender o que aconteceu…”.
“Eu… Eu realmente…”.
A verdade era que a cantora estava apavorada com a mudança de atitude da ex-namorada. E Quinn pareceu perceber isso:
“Eu tentarei ser menos frívola desta vez, prometo”, sorriu e fez o sinal da cruz sobre o peito esquerdo, onde morava o coração, em sinal de juramento.
“Eu só preciso saber como o meu filho está…”, murmurou uma assustada Berry.
A advogada a estudou com acuidade. Suspirou e decidiu:
“Creio que lhe tomei de assalto. Talvez seja melhor que nos encontremos em outro momento”.
Já estava a seguir caminho quando a cantora a chamou.
A ex cheerleader se voltou.
“Eu…”, suspirou, a tentar controlar o nervosismo, “eu vou com você… Apenas preciso saber de Spencer”.
Quinn assentiu e, enquanto a cantora se afastou para telefonar para casa, viu Russel e Santana a se aproximarem. Soltou o ar brandamente. Não estava com muita paciência para o pai. Santana seria um adendo…
E o “adendo” se surpreendeu quando a cantora, após finalizar o telefonema, voltou-se para a ex-namorada e disse que estava pronta.
“Pronta?” — o espanto era visível na latina — “pronta para quê?”.
“A Srta. Berry aceitou almoçar comigo. Eu acho que devo desculpas por trata-la de maneira grosseira”, a loira tomou as rédeas.
Russel olhou da filha para a judia e desta para a filha. Ele achou que aquela não seria uma ideia boa. Entretanto, não ousou se opor. Se Rachel estava disposta a se arriscar com Quinn, ele não seria sua pedra de tropeço. Mas Santana…
“Quinn, você sabe que terá de voltar logo. Por que não deixa este ‘pedido de desculpas’ para outra ocasião?”.
A loira sorriu condescendente. Não daria ouvidos para a Lopez.
“Eu sei quanto tempo tenho, Santana. Não se preocupe. Estarei de volta antes de o juiz Robert Walker ser anunciado”.
A latina suspirou e perguntou a Rachel se esta poderia lhe dar um pouco de atenção.
Rachel já estava atordoada com o inesperado avanço da ex-namorada e, diante de Santana, atrapalhou-se ainda mais. Assim, foi ter com ela.
A advogada morena e levou a um canto mais afastado enquanto Quinn verificava as horas no relógio de pulso.
“Rachel, ouça-me pelo menos uma vez: não se aproxime da Q. Ela não vai lhe fazer bem… Não como você imagina. Ela mudou muito! Ela pode machucar!”, avisou, preocupada.
“Eu a machuquei antes, Sant!”, retorquiu.
“Sei que está a pensar que o fato de ela querer estar com você parece um bom sinal, mas creia-me: não é”.
Rachel olhou para a loira, que parecia dispersa e muito paciente, levando-se em consideração o horário restrito que tinha no momento.
“Eu não vou magoa-la, Sant!”.
“Berry, você não é o problema! Quinn é. Eu já lhe disse isso! E acredito que o Kurt também”, exprimiu.
A cantora assentiu. E, de verdade, estava morta de medo. Porém, uma questão a fustigava: e se Quinn não lhe desse outra oportunidade? Precisava agarrar esta com unhas e dentes, ainda que estivesse tremendo por dentro, em uma mescla de surpresa, temor e emoção.
“Sant, você sabe o quanto eu desejo a Quinn, o quanto eu ainda a amo! Eu não posso deixa-la ir quando está a me estender a mão. Eu preciso que ela me perdoe…”.
“Ela não tem o que lhe perdoar, Berry! Já faz muito tempo que as coisas aconteceram! Este almoço não vai lhes reaproximar! Este não é o perfil da Quinnie! Confie em mim! Sei o que estou dizendo”, insistiu.
“Eu respeito a sua opinião, mas preciso desta oportunidade…”.
“Não é uma oportunidade, Rach! Acorde! Quinn e você não têm mais futuro! Esqueça!”.
A cantora meneou a cabeça, murmurou uma desculpa e um até logo e seguiu até onde estava a loira, que sorriu gentil ao ve-la se aproximar.
Russel se chegou à latina e opinou:
“A Berry é uma mulher feita. Deixe que faça as próprias escolhas! Talvez, vai saber, ela consiga derreter o coração de gelo da minha filha”.
Sant fitou o homem e riu, incrédula. Ele, por acaso, esqueceu do quão diferente a filha se tornou após o acidente?
Quando os médicos permitiram que os amigos e familiares de Quinn tivessem acesso livre a Unidade de Terapia Intensiva, Santana não entendeu. Afinal, as notícias sobre o estado dela não eram boas. E foi Britt, em seus rasgos de coerência e lógica que desmontavam as pessoas, que afirmou:
“Acho que é porque as chances da Quinnie sobreviver são mínimas. Então, como já contam com a morte dela, estão nos deixando ve-la para, de uma forma ou de outra, nos despedirmos”.
A latina empalideceu. Não! Brittany não poderia estar certa. Não desta vez…
“Britt…”, murmurou, dolorida.
A mulher loira a abraçou e acalentou.
“Eu sei, Sant, que isso parece frio, mas é a verdade. Você ouviu os médicos? Mesmo a doutora Tolkien sabe… Quinn tem menos de um por cento de chances de sobreviver”.
A ex cheerio meneou a cabeça em negação.
“Eu a vi, Sant! E, de verdade, ela não está nada bem. As lesões cerebrais que ela sofreu foram muito graves. Ela está ligada a todo o tipo de máquinas, há tubos saindo de todas as partes dela, inclusive da cabeça, a fim de aliviar a pressão intracraniana. Há forte possibilidade de, se ela sobreviver, ficar em estado vegetativo. Você acredita que a Quinn desportista quereria viver assim?”.
Santana sabia a resposta. E isto era o que mais a apavorava…
“Por que ela tem que ser tão radical? Por que ela não pode sofrer a perda de um amor como qualquer outra pessoa?”.
“Quinn nunca foi como as outras pessoas, Sant. Ela sempre foi oito ou oitenta. Se ficava zangada, era melhor sair da linha de visão dela; se estava feliz, a melhor coisa era estar sob a linha de visão dela. Por que acha que ela agiria de outra maneira?”.
Santana respirou fundo, a fim de fazer o nó na garganta se desfazer.
“Eu… Eu acho que vou até a capela…”, murmurou, desnorteada.
Quinn sempre foi apegada a fé. Então, por que não rezar e pedir que ela pudesse sobreviver? Sempre lhe disseram que a fé era capaz de mover montanhas… Talvez também fosse capaz de remover o edema do cérebro dela e estabilizar a pressão arterial que estava muito baixa. Talvez um milagre realmente acontecesse…
Judith Fabray não chorava. Ela simplesmente não conseguia. Olhava para a filha desfigurada pelo inchaço que tomou todo o corpo bem feito e a face bonita da caçula enquanto ouvia o som dos aparelhos que indicavam a vida ou a morte de sua menina. Questionou Blaine, presente no hospital Presbiteriano, por Rachel. O motivo de a namorada de Lucy não estar ali, apesar da desculpa de que esta viajara antes de o acidente acontecer, lhe informavam que a caçula não estava naquele quarto, às portas da morte, por mero acaso. Havia o dedo de Rachel Berry no que aconteceu.
“O que foi que ela fez para a minha Lucy?”, insistiu, seca.
Blaine desejava fugir daquele pesadelo. Não conseguia olhar para a figura disforme sobre a cama, tentando se soltar das amarras, embora estivesse – tecnicamente – em coma, devido a agitação que as convulsões lhe causavam.
“Eu realmente não sei…”, murmurou, sincero.
“Ela deveria estar aqui, certo?”, a pergunta de Judy escapuliu dorida.
“Ela virá…”, afirmou, iludido. Ainda não sabia o que havia acontecido.
“Naquela casa enorme há cinquenta portas
E só uma delas leva ao seu coração
Na época da primavera, passei pelo seu portão
E tentei me aproximar
Tudo o que eu conhecia era o cheiro do mar e do orvalho
Mas eu já estive apaixonada antes, e você?
Há uma hora para as coisas boas na vida
E uma hora para matar a dor na vida
Sonhe com o sol, rainha da chuva”.
– Roxette in Queen of Rain–
Antes de continuar com a advogada, a cantora avisou a Marco, o motorista, que seguisse o automóvel da Dra. Quinn. Alguma coisa dizia a Rachel que seria mais seguro ter o rapaz por perto em caso de o humor da mulher loira mudar.
Holmes empalideceu ao ver quem acompanhava a patroa. Sem saber como agir, fez o que sabia de melhor: foi gentil e atencioso.
Rachel ainda estava azoada com a situação. Quinn aborda-la no banheiro e sugerir um encontro era uma coisa. Depois, pega-la desarmada num convite de última hora e deixa-la – praticamente – sem ação e sem condições de se negar a oportunidade que lhe ofertava, era outra completamente diferente. O que poderia dizer para ela que ainda não dissera? O que a ex-namorada desejava realmente? Ela foi educada e polida, embora despida de emoção. Por que mudou de ideia? Parecia tão certa de que nada havia para conversarem. Principalmente sobre o passado. Demonstrava estar tão distante do que aconteceu que lhe surpreendeu.
“Importa-se de irmos ao café perto do Central Park? Lá não haverá jornalistas ávidos por informações e não seremos incomodadas”, a ex cheerleader indagou, doce.
A cantora a mirou, ainda com um nó-cego no cérebro. Assentiu. Não sabia o que proferir. Se a loira decidisse leva-la aos portais do Inferno, iria sem debate.
O cuidador olhou pelo retrovisor a patroa e sua convidada. Não entendeu a repentina mudança. Na verdade, pelo que sabia, mudança era algo pouco comum na Dra. Fabray. Porém, dadas as últimas circunstâncias e conversas que teve com a Srta. Bishop, acreditou que esta despertou a curiosidade na mulher por quem deveria zelar.
“Deseja que eu entre antes e veja se não há algum repórter no café, senhorita?”, indagou.
Os olhos verdes encontraram os dele pelo retrovisor do automóvel. A resposta saiu tranquila:
“Não, Holmes. Por experiência, os jornalistas costumam ficar ao redor do fórum como moscas em volta do açúcar”, retorquiu.
Ele silenciou, ainda que observasse vez ou outra a mulher loira. E, como a morena estava ao lado desta, não conseguiu evitar de notar o quão acossada ela parecia se sentir. Se conhecia bem a advogada, ela pegou a outra moça de guarda baixa. Rachel Berry parecia uma presa a caminho de um abate permitido.
Não demoraram a chegar…
Ao adentrarem ao café, Quinn foi recebida pelas pessoas que ali trabalhavam e a conheciam. A mesa que lhe era cativa estava a espera.
Ela e Rachel se sentaram, uma frente a outra e, enquanto a cantora pediu suco de laranja e uma salada incrementada, a advogada optou pelo café e pela torta de maçã.
“Torta de maçã? Quinn, você deveria comer algo mais saudável”, observou, surpresa pela escolha da ex-namorada.
A loira sorriu.
“Não se preocupe, Srta. Berry. Eu não gosto muito de comer fora de casa. O café e a torta de maçã daqui são o que há – para o meu paladar – de melhor”, atestou.
“Mas você está enfrentando um julgamento”, tentou argumentar a cantora.
Quinn sorriu e afirmou:
“Não sabe muito a meu respeito, Srta. Berry”.
A cantora sentiu todo o oxigênio lhe faltar. As palavras da advogada eram verdadeiras? Talvez…
“Eu sei que você mudou bastante e que eu fui responsável por isso”, atalhou.
Quinn a fitou por alguns segundos e pareceu querer dizer algo.
A garçonete chegou com os pedidos e a ex fotógrafa agradeceu.
Rachel levou o copo com suco aos lábios e sorveu um gole, antes de espetar as folhas da salada no garfo para leva-lo à boca.
A advogada deu um gole no café e soltou um gemido de satisfação que fez todo o corpo de Rachel responder com um arrepio que surgiu da ponta da nuca e se espalhou gradativamente pelo restante do corpo.
Engoliu a salada com dificuldade, apesar de mastigar muito bem as folhas.
“Eu não fui muito cortês antes, Rachel…”, começou, educada, “eu posso chamá-la pelo primeiro nome?”.
A pergunta fez tocar a sirene de alerta no cérebro da judia. Que espécie de pergunta era esta?
“Quinn, somos amigas…”, atarantou-se um pouco, pois não sabia mais como classificar a relação que tinham, “ou éramos…”, acrescentou num fio de voz.
A advogada sorriu e prosseguiu:
“Eu vou me explicar, Rachel, e talvez, assim, você não fique surpresa e confusa comigo… Isso espero”, brincou.
A cantora franziu o cenho.
Quinn a fitou cuidadosamente antes de menear a cabeça com incredulidade e constatar:
“Eles não lhe contaram! Oh, meu Deus!”, levou a mão aos lábios para conter o espanto.
Rachel não entendia absolutamente nada…
“Quinn, eu… Eu…”, estancou e tomou uma respiração, “o que eles não me contaram? Eles quem?”.
A advogada ficou séria. O semblante pensativo.
A atriz a mirava sem entender sobre o que a outra estava a falar. O que não lhe contaram? Eles quem? Santana? Kurt e Blaine?
“Quinn…”, murmurou.
A ex fotógrafa chamou a garçonete e pediu dois copos de água e uma xícara de chá calmante sob o olhar atônito de Rachel Berry.
“Rachel”, percebeu que teria de ser tranquila com a mulher a frente, “eu e você fomos muito próximas…”.
A morena assentiu.
“Tão próximas quanto eu e Alex somos?…”.
“Eu gostaria de pensar que mais…”, retorquiu, preocupada.
“Certo… E você me deixou porque se apaixonou pelo Sr. St. James…”, continuou, monocórdia.
Rachel negou com a cabeça, cada vez mais atordoada com as perguntas que a loira lhe fazia. Não compreendia o motivo de ela querer se certificar de algo que já sabia.
“Eu só amei você, Quinn…”, sussurrou.
A advogada pareceu ser pega de surpresa e riu, antes de atalhar:
“Uau! Isso foi surpreendente!”.
Um clique aconteceu no cérebro da Berry…
“Você me convidou para almoçar para desdenhar de mim, Quinn?”.
A advogada negou com a cabeça e cuidou de falar:
“Não! Não mesmo, Srta. Berry!”.
“'Senhorita Berry’? Já esqueceu de ‘Rachel’?”, arguiu, magoada.
“Cristo, não! Você está tirando conclusões precipitadas…”.
“Precipitadas?”, murmurou a tremer, os nervos à flor da pele. Por que não escutou Santana? Como Quinn podia ser tão cruel?
“Eu não me lembro!”, soltou a advogada.
Mas a atriz parecia estar surda.
Quinn se ergueu quando viu a moça se aproximar com a água que pediu e o chá. Rapidamente sentou ao lado da cantora e, um tanto desajeitadamente, passou o braço em volta dos ombros da pequena e lhe ofereceu o chá, tão logo este foi colocado sobre a mesa. Levou a xícara até os lábios da cantora, com atenção.
“Beba um gole devagar… Está quente…”, murmurou.
Rachel era um redemoinho de sentimentos. Como Quinn poderia ser cruel e tão doce ao mesmo tempo?
“Por quê?…”, murmurou.
A advogada esfregou um pouco as costas da menor e explicou:
“Eu não me recordo, Rachel”, explicou serenamente, “eu não me lembro porque eu me envolvi num acidente automobilístico e perdi a memória… Por isso eu não lhe trato como você, talvez, achasse que eu deveria. Eu não consigo porque eu não me lembro. Eu não consegui me lembrar nunca mais… Entendeu?”.
A cantora a fitou com os olhos arregalados, a boca aberta em explícita demonstração de espanto.
Quinn prosseguiu:
“Eu pensei que você soubesse… Pensei que Kurt ou Santana haviam lhe contado. Por isso me aborrecia muito com você. Aquela conversa de traição… Isso não deveria ser importante. Certo? Afinal, eu não me lembro! Então, como eu poderia ficar irritada com você por isso?”, sorriu, tranquilizadora.
Imagine uma marreta grande e pesada. Ela é tão pesada que para ergue-la você realmente precisa de muita força.
Agora, pense nesta marreta atingindo sua cabeça em cheio e logo depois o meio exato do seu esterno.
Foi assim que Rachel Berry se sentiu.
“O que é uma erva daninha? Uma planta cujas virtudes ainda esperam para ser descobertas.”
– Ralph Waldo Emerson -
CONTINUA.
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