Sinapsis

16 Victor (15.5)


Notas iniciais
gente, prometo que nao vou mais fazer isso, mas eu realmente acordei hoje sentindo que eu precisava adicionar esse capitulo na trama, não vai acontecer novamente, mas caso não queira se aprofundar muito no universo e só quer saber como a historia termina, você pode pular esse capitulo tranquilamente IMPORTANTE: O episodio pode causar gatilho em pessoas mais sensiveis, trata de temas mais pesados como abuso infantil, uso de drogas e automutilação. ler ou não esse capitulo, não muda o entendimento da historia.

O eco das palavras do Grande Mestre Obscuro ainda reverbera pela minha mente enquanto a porta dupla da câmara principal se fecha às minhas costas. Caminho pelos corredores metálicos do Quartel General. O ar aqui dentro é estéril, filtrado, desprovido de qualquer cheiro que lembre a vida lá fora.

Entro no meu quarto. É uma caixa de aço cinza, sem janelas, sem distrações. O silêncio é absoluto.

Assim que tranco a porta, um zumbido curto e abafado quebra a quietude. Vem do celular jogado sobre a cama impecavelmente arrumada. O aparelho é uma necessidade tática, mas o som que ele acabou de emitir não é um alerta da Unidade.

Pego o telefone. A tela brilha na penumbra do quarto, exibindo uma notificação de um aplicativo de calendário antigo, um lembrete programado há quase duas décadas, perdido em algum backup na nuvem que o sistema acabou de sincronizar.

Não há texto. Há apenas uma foto.

Na tela, Linry sorri para a câmera. O cabelo dela está um pouco bagunçado, os olhos carregam sombras de noites mal dormidas, mas há uma luz neles. Uma doçura exausta. Nos braços dela, enrolada em uma manta felpuda, um bebê minúsculo dorme com as mãos fechadas em punhos. Lorie.

Fico encarando a imagem por longos segundos. A luz do visor reflete no meu rosto, mas não encontra nada ali. Nenhuma pontada no peito. Nenhum aperto na garganta. Os cantos da minha boca se curvam para cima quase que involuntariamente. É um sorrisinho raso, frio e perfeitamente indiferente. É como olhar para a foto de uma família de estranhos em um porta-retratos de vitrine de loja. Um passado patético que pertence a um homem morto.

Deslizo o dedo pela tela, descartando a notificação para o limbo digital, e bloqueio o aparelho.

A ordem do Mestre foi clara: reunir a cúpula. Para isso, preciso acessar o núcleo mais profundo do meu REM. Deito-me de costas no colchão fino e desconfortável. O teto de metal escuro é a última coisa que vejo antes de fechar os olhos.

Não preciso mais do líquido roxo para forçar a passagem. Meu corpo aprendeu o caminho através da dor. Começo a técnica de indução. Puxo o ar em contagens de quatro segundos, segurando-o nos pulmões até que o sangue comece a pedir por oxigênio, e solto devagar, esvaziando a mente. Forço o meu ritmo cardíaco a despencar. Trinta batimentos por minuto. Vinte. O meu corpo físico começa a pesar como chumbo, simulando a morte, enquanto a minha consciência desliza para o abismo escuro da mente.

Mas a descida para Sinapsis nunca é limpa. O vácuo negro sempre exige um pedágio, e a escuridão atrás das minhas pálpebras começa a se dissolver, substituída pela luz amarelada e doente de uma memória que eu me recuso a apagar, apenas para lembrar o porquê de tudo isso.

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(flashback)

O som da chuva forte batendo contra a janela de vidro fino daquele simples apartamento, acalmava o sono da pequena bebê no quarto, mas algo mantinha a mim e a Linry acordados.

Eu estava parado no batente da entrada da cozinha. Linry estava sentada à mesa redonda. A luz fraca da lâmpada destacava as olheiras fundas no rosto dela, uma palidez que não combinava com a garota brilhante do colégio.

Sobre a mesa, as contas do mês se empilhavam ao lado. Linry segurava um pequeno catálogo de uma faculdade de arquitetura, ela passava a mão pelas fotos das maquetes impressionantes com uma delicadeza que me cortava a respiração. Ela queria desenhar o mundo, construir prédios que tocassem o céu. Mas ela estava ali, presa em uma cozinha minúscula cheirando a leite azedo e mofo.

Fui eu quem a engravidou. Fui eu quem roubou o futuro dela, as festas, os diplomas, os sonhos. Eu cortei as asas da mulher que eu amava, e a minha punição era assisti-la abrir mão de tudo sem soltar um único grito de raiva.

Linry suspirou baixo, o som sumindo no barulho da chuva. Ela fechou o catálogo devagar. Não hesitou, não chorou. Apenas o deslizou para a beira da mesa e o empurrou para dentro da lixeira de plástico com a naturalidade de quem descarta um papel de bala.

— Fica pro ano que vem — ouvi ela murmurar para si mesma, forçando um sorriso cansado em direção a mim. — A Lorie precisa da gente agora. O sapatinho dela tá apertando. Eu vou lá comprar um novo amanhã, tá bom?

Aquele sorriso conformado foi o que estilhaçou a minha espinha dorsal. A culpa me esmagou com o peso de uma bigorna. Eu era um inútil. Meus turnos duplos na fábrica não pagavam sequer o básico. Eu não podia consertar o aquecedor, não podia pagar o curso, não podia sequer comprar os sapatos para a minha própria filha.

Afastei-me da porta, recuando para a escuridão do corredor enquanto as unhas cravavam nas palmas das minhas mãos até quase sangrarem.

Eu não podia continuar daquele jeito. Eu precisava consertar a vida dela. Eu precisava de dinheiro. Rápido. Muito dinheiro. E eu faria literalmente qualquer coisa por isso.

(Fim do flashback)

O mergulho se completa. A transição não tem o tranco violento que os Tolos drogados sentem; é fluida, como escorregar para debaixo d'água.

Abro os olhos. Já não estou deitado.

Estou de pé no centro do meu quarto. O terno escuro e perfeitamente alinhado cobre o meu corpo onírico, irradiando a densa energia roxa que me define e me confere poder. Olho para baixo. A poucos centímetros das minhas botas perfeitamente polidas, deitado no colchão de aço, está o meu corpo físico.

Como este Quartel General foi arrancado do mundo desperto e ancorado diretamente nas fundações de Sinapsis, as regras do espaço são diferentes para nós aqui dentro. Eu não preciso atravessar o corredor infinito e procurar uma porta de madeira para entrar. O meu próprio corpo físico é o limiar. A porta sou eu. E o meu eu onírico é projetado exatamente aqui, lado a lado com a casca que me abriga.

Encaro o Victor adormecido. Ele é patético. O rosto está encovado, a pele tem um tom cinzento de cera, e as bochechas são fundas. O cabelo está ralo e perdeu o brilho há anos. É um corpo frágil, decadente, sugado até a última gota pelo esforço de sustentar o poder imensurável que eu carrego agora. A diferença entre a minha majestade onírica e aquele pedaço de carne doente é abissal.

Foi exatamente o desespero de ser fraco que me empurrou para a beira do precipício.

(flashback)

A chuva daquela semana não dava trégua, e o aviso de corte de luz na nossa porta pesava no meu bolso.

Foi no vestiário da fábrica de autopeças que a salvação apareceu como um sussurro. Dois mecânicos do turno da madrugada conversavam baixo, escondidos atrás dos armários. Falavam sobre uma "clínica" que recrutava pessoas para um estudo do sono. Diziam que o pagamento era obsceno, em dinheiro vivo, e que a única exigência era sigilo absoluto. Eu não perguntei detalhes. Apenas peguei o endereço anotado num guardanapo sujo de graxa que um deles deixou cair.

A tal clínica ficava no subsolo de um prédio comercial abandonado no centro da cidade. Quando cheguei, não havia recepção ou placas. Apenas uma sala fria de concreto com algumas macas e meia dúzia de homens com o mesmo olhar desesperado que eu.

O processo foi clínico e silencioso. Um homem de terno escuro e modos contidos passava por nós, acompanhado por um sujeito de jaleco. Eles não faziam perguntas sobre nossas vidas, não pediam documentos. O homem de terno apenas nos instruiu a deitar e relaxar.

— Nós buscamos um perfil muito específico de atividade cerebral — foi tudo o que ele disse.

O sujeito de jaleco pingou uma única gota de um líquido arroxeado embaixo da minha língua e colocou fones de ouvido em mim. MetaDream. O nome que só aprendi muito depois.

Eu fechei os olhos, e a reação foi instantânea.

Não foi um sono. Fui ejetado do meu próprio corpo com uma violência que me fez engasgar. Quando abri os olhos novamente, eu estava de pé num corredor infinito de portas de madeira e metal. O meu corpo vibrava com uma energia elétrica e densa. Eu sentia uma força inexplicável nas mãos, um poder latente que parecia querer rasgar a minha pele para sair. Eu soube, instintivamente, que se eu quisesse, poderia arrancar a porta mais próxima de suas dobradiças com um único toque.

Acordei na maca do subsolo em um solavanco, ofegante, o coração socando as costelas.

Ao meu redor, os outros homens dormiam tranquilamente ou resmungavam sedados. A gota roxa não havia feito nada por eles. Mas o homem de terno estava parado exatamente ao lado da minha maca, os olhos cravados em mim. Ele segurava uma prancheta, mas a sua atenção era toda para a oscilação anormal dos meus batimentos nos monitores.

Ele fez um sinal para que eu o seguisse até uma sala adjacente. Lá, apenas uma mesa, um outro homem de terno e uma cadeira. Sentei-me e, quase que imediatamente, ele jogou sobre a mesa um envelope cheio.

— Existe uma dimensão inteira paralela a esta. Um plano inalcançável para a esmagadora maioria das mentes humanas. Mas a sua biologia provou ser... excepcional. Você é uma das raras chaves que consegue forçar a entrada.

Eu encarei o envelope. O volume de papel ali dentro era espesso. Minha garganta estava seca, ainda arranhando pela violência do despertar.

— E o que eu tenho que fazer lá? — perguntei, a voz saindo áspera.

Ele cruzou os braços, encostando-se na parede nua da sala.

— A regra é muito simples: você executa a tarefa sem questionar, e você recebe. O seu turno de trabalho acontece única e exclusivamente enquanto você dorme. Nós fornecemos a substância, você deita na sua cama, acessa a dimensão e obedece às nossas ordens.

Minhas mãos não tremeram quando estiquei o braço e puxei o envelope para mim.

No começo, eu fui ingênuo. Acreditava na ilusão de que aquele lugar era apenas um videogame doentio e ultra-realista. Eu deitava, engolia a gota do MetaDream, era ejetado em Sinapsis e cumpria as tarefas. Quebrava as portas indicadas, destruía as pessoas que estavam lá dentro e acordava. O dinheiro caía na conta. A Linry sorria de novo. Nós tínhamos comida na mesa, a Linry voltou a estudar. Para mim, os alvos eram apenas avatares, pedaços de um sonho sem consequências no mundo real.

Até que a ilusão desabou.

Foi na minha sétima missão. A ordem era simples: encontrar uma porta branca com detalhes em ouro velho. Eu entrei. Havia uma mulher lá dentro. Ela gritou, tentou correr pelo cenário luxuoso do seu próprio sonho, mas a energia bruta que pulsava nas minhas mãos era esmagadora. Sem pensar duas vezes, eu a reduzi a fragmentos de luz e pó. Quando fiz isso, senti um arrepio diferente. Um calor venenoso e pulsante subindo pelas minhas veias.

Na manhã seguinte, eu estava na cozinha. O sol entrava pela janela, a Linry cantarolava baixinho enquanto dava papinha para a Lorie no cadeirão, e a pequena TV de tubo sobre a geladeira exibia o noticiário matinal.

“...a esposa de um dos chefes mais perigosos do crime organizado da cidade foi encontrada morta nesta madrugada em sua mansão”, a âncora dizia, com um tom grave. “A causa preliminar aponta para uma parada cardiorrespiratória súbita durante o sono. A polícia investiga possíveis retaliações de facções rivais...”

A foto da mulher apareceu na tela. O meu sangue virou gelo. A xícara de café escorregou da minha mão e se espatifou no chão da cozinha.

Era ela. O mesmo formato de rosto. O mesmo cabelo. Os mesmos olhos que me encararam com terror absoluto antes de eu estilhaçar o corpo onírico dela em Sinapsis.

O ar sumiu dos meus pulmões. Nós não estávamos "limpando a área" em uma dimensão isolada. Quando eu a destruí lá, o coração dela parou de bater aqui.

Eu era um assassino de aluguel.

O pânico e a repulsa bateram forte, mas duraram muito pouco. O que veio nas noites seguintes foi infinitamente pior. A droga não apenas me ejetava para o corredor; ela deturpava a minha mente, corroendo a minha bússola moral como um ácido. A cada porta que eu estilhaçava, a cada nova vida que eu apagava enquanto eles dormiam, o choque inicial ia sendo substituído por uma euforia sombria. O poder viciava. A empatia apodrecia. A Coisa sádica começou a acordar de vez dentro de mim.

(Fim do flashback)

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Deixo o Victor decadente para trás. O meu corpo onírico caminha pelos corredores metálicos até o imenso salão de expansão. No centro, a colossal cúpula de vidro guarda o que sobrou da entidade que nos governa. A energia do Grande Mestre Obscuro, que começou a despertar com o banquete da última batalha, pulsa ali dentro, espessa e ancestral.

Sento-me no chão polido, bem próximo ao vidro da redoma. A ordem dele ainda ecoa na minha mente.

Fecho os olhos e deixo a minha reserva de REM transbordar. Não a fração contida que os Tolos imaginam ser o meu limite, mas a torrente brutal e genuína que forjei na dor. O ar na câmara fica denso, pesando toneladas.

Estendo as mãos para a frente, transformando o meu próprio corpo onírico em uma ponte. Usando a cúpula do Mestre como âncora, eu empurro a minha consciência para fora de Sinapsis, rasgando o tecido que separa a dimensão do mundo desperto. Mapeio o globo terrestre. Encontro a primeira assinatura dos Líderes. Tóquio.

Com um grito de dor, eu o puxo.

A dor é excruciante. É como se ganchos de metal estivessem sendo cravados diretamente no meu cerebro e puxados de uma só vez. O vácuo estala como um chicote, o espaço se rompe e o corpo físico do homem que puxei é arremessado no chão de metal do QG. Eu ofego, apoiando as mãos no chão. Posso sentir o choque dessa violação espacial reverberar até na minha casca física que dorme no quarto, o sangue quente começando a escorrer pelo meu nariz.

Mas eu não posso parar. Aperto os dentes, engulo o gosto de ferro e estendo as mãos trêmulas novamente. Localizo a segunda assinatura. Londres.

Eu o puxo.

Desta vez, a agonia não apenas queima os meus nervos; ela ameaça estilhaçar a minha própria estrutura. A pressão esmaga os meus globos oculares e o ar é ejetado dos meus pulmões. O segundo Homem desaba no salão. Eu caio de lado, arfando desesperadamente, a visão escurecendo pelas bordas. O limite do meu corpo grita, e a dor crua e lancinante me arrasta violentamente de volta para os dias em que eu perdi a guerra dentro da minha própria casa.

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(flashback)

A droga já não se restringia à noite. O veneno estava vazando para a Vigília.

Eu estava de pé na cozinha. O sol entrava pela janela, refletindo na lâmina da faca de pão que eu segurava com força. Linry estava de costas para mim, lavando a louça e cantarolando uma música suave. A poucos metros, no tapete da sala, a pequena Lorie brincava com blocos de montar.

Minha mão tremeu. A Coisa sádica acordou na minha cabeça, não mais como um sussurro distante, mas como um comando frio, claro e magnético.

“Um corte limpo”, a voz murmurou na minha mente, fazendo meus dedos apertarem o cabo da faca até os nós ficarem brancos. “Um único movimento na nuca dela. Sem gritos. E depois a criança. Quebre o pescoço da criança. Limpe a área.”

O terror absoluto me paralisou. Lutei contra os meus próprios músculos, o suor frio escorrendo pela minha testa. Soltei a faca com um solavanco, fazendo-a bater ruidosamente no metal da pia. Linry se virou, assustada com o barulho, os olhos cheios de preocupação. Eu já estava recuando, ofegante, murmurando que estava enjoado e que precisava sair para tomar um ar.

As semanas que se seguiram foram um inferno contínuo. Eu tentava resistir, tentava lutar contra o monstro que eu mesmo havia alimentado. Eu evitava ficar sozinho com elas. Eu me trancava no banheiro, abria o chuveiro gelado e chorava em silêncio, socando os azulejos até as minhas mãos sangrarem, tentando espancar a loucura para fora de mim. Mas a Coisa só ficava mais forte. Mais sedenta.

Até que o limite chegou.

Era madrugada. Eu estava de pé ao lado do berço da Lorie. Minhas mãos estavam apoiadas na grade de madeira. Ela dormia tranquila, o peito minúsculo subindo e descendo. Lentamente, contra a minha própria vontade, minha mão direita começou a se erguer, movendo-se na direção do pescoço frágil da minha filha. Os dedos se curvaram. Eu mordi o meu próprio lábio inferior até rasgar a pele, sentindo o gosto de sangue para forçar o meu braço a parar.

Eu não ia aguentar por muito mais tempo. Eu ia matar as duas.

Foi então que eu a ouvi. Não era a voz sádica da droga. Era uma ressonância antiga, profunda, absoluta, que pareceu fazer as paredes do apartamento vibrarem.

“Está na hora, venha para a Espanha.”

A voz do Grande Mestre Obscuro. Ela não veio do corredor ou da janela, mas do abismo escuro da minha própria mente corrompida.

Eu recuei do berço, as pernas cedendo, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto em uma mistura terrível de desespero e alívio. Naquela mesma noite, joguei algumas roupas em uma mochila de forma frenética. Não deixei bilhete. Não olhei para trás. Não dei um último beijo de despedida em Linry.

(fim do flashback)

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O som do meu próprio arfar ecoa na câmara de expansão. Estou caído de lado no piso de metal, os músculos tremendo violentamente. Meu corpo onírico começando a falhar.

O Líder de Tóquio e o Líder de Londres, já recuperados da transição violenta, se aproximam. Eles olham para o meu estado patético, mas não há zombaria. Apenas uma constatação tática.

— Chega, Victor — diz o Líder de Tóquio, a voz ecoando fria e pragmática pela redoma de vidro. — O seu REM está esgotado. Se tentar forçar o espaço-tempo para puxar mais um de nós agora, vai entrar em colapso. Você morrer agora atrasa os nossos planos. Ejete-se.

Tento me erguer, apoiando as mãos trêmulas no chão, ainda ofegante.

— O Mestre ordenou... reunir a cúpula.

— Não há pressa — interrompe o Líder de Londres, ajeitando as abotoaduras do terno negro com absoluta tranquilidade. — Desconecte-se. Espere o seu próximo ciclo de sono profundo para continuar o processo.

— Deixe a Desperta Natural ter alguns dias. Na verdade, deixá-la desenvolver os próprios poderes agora será extremamente benéfico para nós.

A lógica deles é inegável. O limite do meu corpo grita que estou a um milissegundo de um infarto fulminante.

Fecho os olhos e desfaço a ponte. Forço a desconexão.

Acordar foi como ser esmagado. Eu desperto no colchão duro do meu quarto físico com um engasgo violento.

Sangue.

O teto de aço cinza gira acima de mim. Passo as costas da mão no rosto; está encharcada de sangue fresco. O meu corpo inteiro dói, uma ressaca excruciante de energia drenada.

E então, o zumbido.

O celular sobre a cama vibra novamente. O aplicativo disparou o modo soneca do mesmo lembrete antigo. Puxo o aparelho com os dedos dormentes e a tela se ilumina no quarto escuro.

Lá estão elas de novo. Linry sorrindo, com os olhos exaustos e doces. Lorie dormindo, enrolada na manta felpuda.

Encaro a imagem. Tento forçar aquele mesmo sorriso indiferente e frio de horas atrás.

Falho miseravelmente.

A jaula no fundo da minha mente cedeu só por um segundo.

Uma única lágrima, quente e silenciosa, escapa do meu olho direito, escorrendo pela pele cinzenta, misturando-se ao sangue no meu rosto e pingando na tela do celular, bem sobre o rosto da minha filha.

É um momento de fraqueza patético. Um momento que me arrasta com violência de volta ao dia exato em que a minha humanidade deu o seu último e doloroso suspiro.

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(flashback)

Eu havia acabado de chegar à Espanha. O Quartel General ainda cheirava a solda e metal.

Sentado, pelo meu celular, eu estava finalizando a configuração da primeira transferência bancária internacional e anônima. O dinheiro do meu adiantamento já estava a caminho da conta de Linry. Ao lado da janela de transferência do banco, a mesma foto delas duas repousava aberta na tela do meu celular.

Eu olhava para a foto, sentindo o peito apertar de forma sufocante com a saudade, a abstinência da droga e a culpa do abandono. Foi quando a sombra de outro agente, um novato vestido com o terno padrão da Unidade, caiu sobre a minha mesa.

Ele se inclinou, apoiando as mãos na minha mesa, os olhos curiosos varrendo a tela do meu celular.

— Novos alvos para a missão de hoje à noite? — ele perguntou, apontando para a foto e soltando uma risada cínica. — Mulher e bebê? Parecem fáceis demais. O pagamento por mentes assim deve ser lixo, mas pelo menos é um serviço rápido e sem resistência, né, alem disso da pra se divertir um pouco com elas duas...?

Eu congelei.

A menção de transformá-las em alvos, a banalidade sádica com que ele falou sobre estilhaçar a mente das duas durante o sono, foi o gatilho final.

O Victor que chorava de saudade, o pai que havia cruzado o oceano para protegê-las, tentou gritar. Tentou levantar e socar o rosto daquele verme. Mas ele foi engolido instantaneamente.

A Coisa acordou. Sedenta. Definitiva. Espalhando seu veneno escuro por cada terminação nervosa do meu corpo.

A dor, a culpa e a tristeza evaporaram como gotas de água em uma chapa quente.

Virei a cadeira lentamente para encarar o agente. O meu rosto se contorceu num sorriso tão perversamente cruel e desprovido de qualquer luz que o homem recuou um passo, instintivamente apavorado com o vazio sombrio que encontrou nos meus olhos.

— Não é da sua conta, lixo — a minha voz não era mais humana; saiu como um rosnado gélido, pingando sadismo.

O agente engoliu em seco, o rosto perdendo toda a cor, e ele apenas saiu de perto, em pânico.

Olhei para a foto de Linry e Lorie, excluí a foto com um único toque, e limpei a lixeira do sistema sem sentir absolutamente nada.

O Victor estava morto e a Unidade havia acabado de ganhar o seu melhor Líder.