Sinapsis

17 Coisas em comum.


Os dias depois do sorvete foram estranhos de um jeito bom.

Não houve uma conversa definindo o que éramos. Não houve um momento em que alguém disse agora somos isso ou agora fazemos aquilo. As coisas simplesmente foram acontecendo, devagar e sem aviso, como quando você não percebe que está sorrindo até alguém apontar.

Na segunda-feira, eu saí da escola no último sinal, enfiei um dos fones de ouvido e deixei a música tomar conta do caminho de volta. Era uma daquelas tardes mornas e sem graça de meio de semana, com o céu na cor errada para ser bonito e certo demais para reclamar. Eu andava no piloto automático pelo calçadão lateral da escola, a mochila pesada nas costas, completamente dentro da minha própria cabeça.

Eu nem percebi que estava cantarolando até já estar fazendo isso.

Baixinho, quase sem som, só o movimento dos lábios e um fio de voz que mal existia:

— I am a light sleeper, but i am a heavy dreamer…

Eu gostava daquela música de um jeito difícil de explicar. Ela soava como o meu mundo. Como aquela sensação específica de flutuar acima dos meus prédios de vidro com o vento no rosto e nenhuma gravidade puxando nada para baixo. Como se o Adam do Owl city tivesse escrito aquilo sobre um lugar que só eu conhecia.

— …my imagination gives me wings, and i can go anywhere — completou uma voz do meu lado, que ainda não tinha percebido que estava lá.

Olhei para o lado e quase tropecei.

David estava lá, mochila no ombro, olhando para frente com uma expressão completamente neutra. Como se não tivesse acabado de completar a letra de uma música que eu estava cantando baixinho para mim mesma achando que ninguém no mundo estava ouvindo.

— Você... — eu comecei.

— Hm? — ele respondeu, ainda olhando para frente.

— Você conhece essa música.

— Conheço.

— Owl city!. — eu disse, num tom de empolgação que não combina comigo.

— Owl city. — ele confirmou, num tom de quem está discutindo algo absolutamente trivial como o tempo ou o cardápio da cantina.

Eu fiquei olhando para ele por alguns segundos tentando decidir o que fazer com aquela informação.

— O presidente do conselho estudantil ouve Owl city. — eu disse devagar, como se estivesse testando o peso de cada palavra.

— O presidente do conselho estudantil ouve muita coisa — ele respondeu, finalmente me olhando de canto com aquele sorriso contido que eu estava começando a aprender a ler. — Você tava cantando baixinho e eu te acompanhei.

— Eu estava com fone de ouvido.

Percebi então que talvez não estivesse cantando tão baixo quanto imaginei.

— Isso é constrangedor — eu murmurei.

— Um pouco — ele concordou. — Mas você tem uma boa voz.

Eu senti o rosto esquentar imediatamente e virei a cabeça para o outro lado fingindo que havia algo muito interessante na direção da padaria que ficava no começo do quarteirão.

Ele riu. Não o riso educado de presidente do conselho, não o sorriso espontâneo de um garoto qualquer. Foi uma risada curta e genuína que ele claramente não planejou deixar sair.

Continuamos andando em silêncio por quase um quarteirão inteiro. O sol estava baixo, batendo de lado nas fachadas das casas e deixando tudo com aquela cor quente de fim de tarde que faz qualquer coisa parecer um pouco mais bonita do que é.

— Qual é a sua favorita? — ele perguntou de repente.

— O quê?

— Música favorita dele.

Eu pensei por um segundo.

— Essa — eu admiti. — Sempre foi essa.

Ele assentiu levemente, como se aquilo fizesse todo sentido.

— Faz sentido — ele disse. — Me lembra o meu lugar. Lá dentro, sabe? Tem aquela leveza, aquela coisa de flutuar sem peso nenhum. Sempre achei que algumas músicas conseguem capturar alguma coisa daquele estado sem que a pessoa nunca tenha estado lá de verdade.

Eu o olhei por um momento.

— O seu lugar — eu repeti, curiosa. — Como é?

Ele piscou, levemente desarmado pela pergunta direta.

— Como assim?

— O seu espaço pessoal. Em Sinapsis. Eu nunca perguntei.

Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo. Uma mancha discreta de vermelho subiu pela lateral do pescoço dele.

— É... — ele começou, passando a mão no cabelo — não é nada espetacular. Comparado com o seu então, é completamente sem graça. Um campo aberto, algumas árvores, um lago pequeno. Nada grandioso. Nada que se compare com uma metrópole inteira de vidro espelhado.

— Eu queria conhecer — eu disse.

Ele parou de andar.

Me olhou com aquela testa levemente franzida de quem não tem certeza se ouviu direito.

— Sério?

— Sério.

Por um segundo ele ficou completamente quieto, os olhos me avaliando como se procurasse algum sinal de que eu estava brincando. Não encontrou nenhum, porque eu não estava.

A mancha vermelha no pescoço dele subiu mais um centímetro.

— Olha — ele disse, retomando o passo e olhando para frente com uma compostura levemente forçada — não é nada espetacular como o seu. Mas você é bem-vinda, se quiser.

Eu sorri para o asfalto na minha frente.

— Então essa noite — eu disse.

— Essa noite — ele confirmou.

Ficamos em silêncio por um momento. Depois ele tirou o celular do bolso, mexeu por alguns segundos e virou a tela para mim.

Eu olhei para o nome da música na tela e soltei uma risada antes de conseguir segurar.

— Essa também eu gosto muito! — eu disse, incrédula, o garoto tinha praticamente a minha playlist inteira no celular dele.

Ele colocou um fone na própria orelha e estendeu o outro para mim. Eu o peguei. A música começou. Nós dois ouvimos em silêncio por alguns segundos, ombro a ombro no meio da calçada, e então ele começou a cantarolar baixinho, e eu entrei junto sem pensar, e por um momento absurdo e completamente improvável, o presidente do conselho estudantil e a garota invisível estavam cantando juntos no meio da rua como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Até uma senhora passar com um carrinho de compras e nos olhar com uma expressão de confusão absoluta, e os dois pararem ao mesmo tempo e ficarem vermelhos simultaneamente.

— A gente deve ter parecido dois malucos — eu disse.

— Com certeza — ele concordou.

Demos uma risada sincera, nenhum dos dois parou de sorrir enquanto retomamos o caminho.

Naquela noite, quando fechei os olhos, a transição foi suave como sempre.

Abri os olhos flutuando a poucos metros acima da minha metropole. O silêncio era absoluto, o céu azul profundo exatamente como eu havia deixado. Mas eu tinha um destino definido aquela noite, atravessei minha porta para o Corredor de Sinapsis e lá fui de encontro a dele ao lado, era uma porta de pinheiro arredondada, muito bem envernizada, nas soleiras, pude perceber runas iguais às que ele tinha colocado na minha porta. bati nela cordialmente como faria com um vizinho de prédio.

em poucos segundos ele abriu, pude ver seu rosto levemente corado, acho que ele estava me esperando…

— Lorie, você veio mesmo!

— Claro que vim! estou louca para conhecer o seu cantinho! — disse tentando ser fofa, mesmo isso não combinando nada comigo.

Ele assentiu, levemente corado. abriu devagar, como quem está revelando algo que não costuma mostrar para ninguém.

Do outro lado havia um campo aberto, imenso e silencioso. A grama era verde e baixa, balançando com um vento suave que não existia no corredor. Havia algumas árvores espalhadas sem ordem específica, altas e tranquilas. No centro, um lago pequeno e escuro refletia um céu comum, com nuvens normais e uma luz morna que não vinha de nenhuma direção específica.

Era simples. Era humano. Era completamente diferente de tudo que eu havia construído.

Eu atravessei a soleira devagar, sentindo a textura diferente daquele mundo sob os pés. A pressão esmagadora de Sinapsis havia sumido, substituída por algo mais suave, mais quieto.

— Eu disse que não era nada espetacular — ele murmurou atrás de mim, com aquela voz de quem está esperando uma crítica.

Eu fiquei parada no meio do campo por um momento, sentindo o vento no rosto, ouvindo o silêncio.

— É aconchegante — eu disse.

Ele ficou em silêncio.

— De verdade — eu acrescentei, me virando para ele. — O meu lugar é bonito, mas é... muito. Esse aqui respira quase como se tivesse vida própria.

Algo na postura dele cedeu. Não muito, só o suficiente para eu perceber.

Nos sentamos à beira do lago, os dois olhando para o reflexo das nuvens na água escura. deixei a calmaria daquele lugar me invadir completamente.

— É a primeira vez que alguém entra aqui... — ele disse depois de um tempo.

Eu o olhei.

— Sério?

— Sério. — Ele jogou uma pedrinha imaginária na água, assistindo as ondas se espalharem. — Os meus pais têm os espaços deles. A gente treina no corredor ou lá, eles me ensinaram o exercício do molde do meu mundo…mas eles nunca precisaram entrar de verdade. E mais ninguém sabe que isso aqui existe.

Eu entendi o peso daquilo sem que ele precisasse explicar mais nada.

Ficamos assim por um tempo que não soubemos medir. Dividindo um silêncio que era completamente diferente de qualquer silêncio que eu havia conhecido antes.

Naquela noite, a gente se sentou à beira do lago, e conversamos sobre Owl city, cantamos juntos praticamente um album inteiro e dessa vez sem vergonha nenhuma e nos divertimos demais.

E quando a manhã do mundo real finalmente começou a nos puxar de volta, ele se virou para mim antes de eu ir embora.

— Lorie.

— sim?

— Obrigado por vim, de verdade, você ser a primeira a ver é uma honra pra mim.

Eu sorri, olhando para o lago quieto do mundo dele.

— Obrigado por me deixar entrar, a honra é toda minha.

Na terça-feira, não encontrei o David imediatamente antes da aula, não entendi por que mas me senti desamparada, quase como se eu sentisse uma necessidade de ver e conversar com ele depois daquela noite maravilhosa.

Na hora do intervalo, eu estava sentada no meu lugar de sempre no canto da cantina quando ele apareceu com a bandeja e sentou na cadeira do lado sem pedir licença nem perguntar se podia.

Do outro lado da cantina, um grupo de meninas do último ano olhava para a nossa mesa com aquela expressão específica de quem não entende o que está vendo. Uma delas acenou para David. Ele acenou de volta com um sorriso educado e virou a atenção para a própria bandeja.

Eu olhei para ele, depois para elas, depois para ele de novo.

— Você não precisa ficar aqui — eu disse.

— Eu sei.

— Elas estão te chamando.

— Eu vi. — Ele me olhou com uma paciência levemente cansada.

— Lorie, eu passo o dia inteiro sendo o presidente do conselho estudantil. O garoto que resolve os problemas, que aparece nas fotos, que sabe o nome de todo mundo. — Ele apontou discretamente para a mesa das meninas com o garfo. — Se eu for lá agora, vou ouvir sobre o campeonato de vôlei, sobre quem está namorando quem e sobre a decoração da festa de fim de ano. E eu vou sorrir e fingir que estou completamente interessado porque é isso que se espera de mim.

Ele pegou um pedaço de pão e mordeu com uma tranquilidade que contrastava completamente com o que havia dito.

— Com você…eu sinto que eu não preciso ser ninguém em específico. — Ele me olhou de canto, um olhar levemente triste, algo genuíno atravessando a postura de sempre. — Então, com licença, eu vou ficar.

Eu não soube o que responder. Então não respondi nada, peguei minha própria bandeja e continuei comendo, e ele fez o mesmo, e ficamos em silêncio por um tempo que não foi desconfortável nem por um segundo.



Na quarta-feira, depois da última aula, a gente se encontrou no pátio começamos a conversar e nenhum dos dois foi direto para casa.

Não foi combinado. Ele simplesmente não virou na direção certa na saída da escola e eu não disse nada, e acabamos andando juntos até um banco de praça num parque pequeno que ficava a meio caminho entre a escola e o meu bairro. Sentamos. O sol ainda estava alto mas sem força, daquele jeito preguiçoso de fim de tarde.

Por um tempo nenhum dos dois falou nada.

Depois David soltou um suspiro longo, encostou os cotovelos nos joelhos e olhou para o chão de pedra irregular da praça.

— Você já pensou em como seria se não soubesse de nada disso? — ele perguntou. — De Sinapsis, da Unidade, de tudo.

— Todos os dias desde aquele dia. — eu respondi, sem precisar pensar.

Ele me olhou, surpreso com a velocidade da resposta.

— Eu cresci sabendo — ele continuou, olhando de volta para o chão. — Meus pais contaram cedo. Disseram que era importante, que eu precisava estar preparado, que era uma honra, uma responsabilidade. E eu acreditei. Ainda acredito, amo ser um Sinapster. Mas às vezes... — Ele parou. Recomeçou. — Tem dias que eu olho para os outros caras da escola e fico pensando como é ter só um problema de cada vez. Tipo, preocupar só com a prova de química. Só com a festa de sábado. Só com uma coisa, sabe? Sem o peso de uma guerra dimensional por baixo de tudo.

Eu o ouvi sem tentar consertar nada. Sem dizer mas você é incrível ou mas o que você faz é importante. Deixei ele falar.

— Meus amigos acham que me conhecem — ele disse. — Os da escola acham que sou o David popular, presidente do conselho, aquele garoto. Os Sinapsters acham que sou o filho do Arthur e da Helena, um prodígio em treinamento, o que vai ser Mestre um dia. E os dois estão certos, mas os dois estão errados também, porque nenhum dos dois é tudo. — Ele ficou em silêncio por um momento. — Às vezes eu fico me perguntando quem eu seria se ninguém tivesse nenhuma expectativa de mim.

O sol batia de lado nos paralelepípedos da praça. Uma criança corria atrás de um pombo do outro lado do parque.

— Eu passei a vida inteira não sendo notada, com o tempo, eu aprendi a aceitar e só parei de ligar, eu tinha meu mundo para me refugiar da angústia de não ser nada de especial. — eu disse aquilo quase em tom de confissão, acho que nunca tinha me abrido tanto para outra pessoa — E você passou a vida inteira sendo visto demais, sem espaço pra ser só você. — completei

Ele me olhou.

— Dois lados da mesma moeda — eu continuei, encolhendo os ombros. — Acho que a gente precisava de um lugar onde pudesse ser só a gente, sem ter que performar nada pra ninguém.

Ele ficou quieto por um tempo. O vento balançou as árvores acima de nós, derrubando duas ou três folhas secas no banco entre nós.

— Aqui fora pode contar também — eu disse. — Se você quiser.

cheguei mais perto dele, me apoiando em seu ombro.

Ele não respondeu. Mas a mão dele, que estava apoiada no banco entre nós, se moveu um centímetro na minha direção. A lateral do dedo mínimo encostou na lateral do meu.

Nenhum dos dois recuou.