Sinapsis
19 Uma coisa levou a outra.
A scooter parou em frente à minha casa quando o céu já estava escuro e pesado. David desligou o motor e eu desci, ainda com o coração leve do beijo que tínhamos dado no morro. Ele ia dizer algo quando a primeira gota grossa e gelada estourou no meu ombro.
Depois outra. E outra.
Em menos de dez segundos a chuva desabou forte, violenta, transformando a rua num borrão.
— Merda — David murmurou, rindo enquanto a água encharcava seu cabelo e escorria pelo rosto.
Corremos até a varanda. A porta se abriu antes mesmo de eu bater.
Minha mãe, Linry, apareceu com uma expressão que misturava surpresa e diversão.
— Vocês dois estão ensopados! Entra, entra! — Ela puxou David pelo braço para dentro do corredor. — David, você não vai sair com essa scooter agora. Tá caindo um mundo lá fora. Se a chuva não passar, você dorme aqui. O colchonete que você usou da outra vez ainda está no quarto da Lorie.
Ela fez uma pausa, cruzando os braços. O sorriso divertido se alargou ainda mais enquanto ela olhava de mim para ele, espremendo os olhos de um jeito sugestivo.
— Afinal, eu sei que vocês estão namorando.
Senti meu rosto esquentar na mesma hora, o calor contrastando violentamente com o frio da roupa ensopada colada na pele. David arregalou os olhos, passando a mão nervosamente pelo cabelo molhado, visivelmente pego de surpresa. Trocamos um olhar rápido e cúmplice e, quase em uníssono, deixamos escapar sorrisos culpados.
— É... a gente tá — eu confessei, sentindo as borboletas voltarem ao estômago.
Minha mãe soltou um gritinho abafado de alegria, batendo palmas de um jeito empolgado que a fez parecer ter a minha idade.
— Eu sabia! Ah, eu sabia! Estava só esperando vocês admitirem! — Ela riu, radiante, dando um leve empurrãozinho no meu ombro antes de balançar a cabeça e voltar à sua postura de mãe anfitriã. — Certo, certo, comemorações depois. David, vai logo tomar um banho quente antes que pegue um resfriado!
Enquanto David foi tomar banho, eu peguei a camisa e a calça dele (que ele deixou do lado de fora do banheiro) e corri para a secadora. Fiquei ali aguardando, perdida em devaneios com o que eu tinha vivido naquele pôr do sol, não acreditando que eu estava completamente apaixonada pelo Sinapster que tinha salvado minha vida. Quando voltei para o quarto com as roupas já secas e quentinhas, a porta estava entreaberta.
Eu entrei automaticamente. Por um segundo esqueci que o David estava lá.
David tinha acabado de sair do banho. Estava no meio do quarto, só com uma toalha enrolada na cintura, o cabelo molhado pingando nos ombros. O vapor suave que escapava do banheiro trazia um cheiro limpo de sabonete que tomou conta do ar.
Eu congelei.
Ele também.
— Desculpa! — eu soltei, virando o rosto rapidamente, sentindo minhas bochechas queimarem de novo. — Eu esqueci que você… que você estava…
David riu baixinho, a voz saindo um pouco rouca de nervoso.
— Tudo bem. Eu que devia ter trancado a porta.
Eu estendi as roupas para ele sem olhar direito, focando os olhos na parede.
— Aqui… já estão secas.
Depois que ele se vestiu, eu também troquei minha roupa molhada por um pijama seco de flanela. Assim que ambos terminamos, fomos para a sala encarar o inevitável interrogatório da minha mãe.
Ela nos esperava com duas tigelas fumegantes de sopa quente, sentada no sofá com um sorriso enorme e olhos brilhando de curiosidade. Passamos os próximos minutos rindo e respondendo a uma avalanche de perguntas. Minha mãe gesticulava animada com a colher no ar, enquanto eu e David trocávamos toques disfarçados com os pés por baixo da mesa, tentando dar apoio um ao outro. Ele ficou vermelho várias vezes. Eu também. Minha mãe alternava entre cara de chocada e risadas altas, repetindo “eu já sabia!” toda vez que contávamos algum detalhe mais bobo.
Quando terminamos de comer, a chuva ainda insistia em bater com força contra o vidro da janela.
— Bom, já tá tarde — disse minha mãe, levantando e recolhendo as tigelas. — Vou deixar vocês em paz. Mas comportem-se, hein?
Minha mãe foi para o quarto com um sorrisinho bobo no rosto. Eu e David fizemos o mesmo. O contraste com a sala foi imediato: o quarto estava gelado. O vento entrava assobiando pelas frestas da janela, fazendo as cortinas balançarem de leve.
David olhou para o colchonete no canto, depois abraçou o próprio corpo para espantar o frio e suspirou, desviando o olhar por pura timidez. — Acho que vou dormir ali hoje… Ele se abaixou e começou a arrumar a coberta fina sobre o colchonete. Mas a noite estava realmente cortante.
A verdade é que qualquer distância entre nós naquele momento parecia quase impossível, quase um desperdício.
Uma coisa levou à outra.
Não precisávamos falar nada. Não houve palavras desajeitadas, nem timidez que durasse mais que alguns segundos. Eu me deitei, puxei o edredom para trás e o chamei para minha cama só com um olhar longo e um espaço proposital deixado nos lençóis.
Ele hesitou por um segundo, engolindo em seco. Olhou para o colchonete, depois para o espaço ao meu lado, e finalmente se rendeu, caminhando devagar até a cama.
Quando se deitou, ficou virado para mim, mas manteve uma distância segura e milimetricamente calculada, quase caindo para fora do colchão, a postura rígida de quem estava com medo de fazer o movimento errado.
— Lorie — ele murmurou, a voz levemente trêmula e apressada. — Eu só vim pra cá porque tá muito frio. De verdade.
Eu segurei um sorriso, deixando ele falar.
— Eu sei que demorei uma eternidade pra tomar coragem e te beijar hoje no morro... — ele continuou, atropelando as próprias palavras em um sussurro nervoso, os olhos verdes fugindo dos meus. — Então eu não quero que você ache que eu tô tentando me aproveitar da situação ou... ou ser atrevido agora que a sua mãe foi dormir. Eu prometo que vou ficar no meu canto e não vou cruzar nenhuma linha.
Eu olhei para ele. Para o presidente do conselho estudantil, o Sinapster prodígio treinado para guerras dimensionais, deitado na beirada da minha cama, absolutamente apavorado com a possibilidade de não ser um cavalheiro perfeito.
Uma indignação bem-humorada tomou conta de mim.
— Cala a boca, David — eu sussurrei.
E, antes que ele pudesse responder qualquer outra bobagem formal, eu acabei com o espaço milimetricamente calculado entre nós e o beijei.
Tudo rolou naturalmente, devagar, com uma confiança que eu não sabia que existia entre nós. Foi a primeira vez para mim… e, pelo jeito cuidadoso, de toques suaves e um leve tremor nas mãos que denunciava a insegurança, parecia ser a primeira vez de David também.
Tudo rolou naturalmente, devagar, com uma confiança que eu não sabia que existia entre nós. Foi a primeira vez para mim… e, pelo jeito cuidadoso, pelas mãos que pareciam mapear cada detalhe com um leve tremor de insegurança, parecia ser a primeira vez de David também.
A chuva açoitava o telhado lá fora enquanto, dentro do casulo escuro que criamos, o ritmo mudava aos poucos. O toque gentil se transformava em algo mais intenso, a pele ardendo para espantar o frio, os dois corpos se conhecendo intimamente sob os lençóis. Nossos sussurros baixos e respirações curtas se misturavam na penumbra do quarto. Nossa primeira vez foi linda. Perfeita.
Quando terminamos, estávamos enroscados um no outro, o peso do braço dele sobre mim, sem nenhuma vergonha ou timidez sobrando. Só a cadência da respiração dele contra meu pescoço. Só paz. Só calor. Só nós. ele me puxou pra ainda mais perto dele, pude sentir seu halito na minha nuca e depois no meu ouvido. e ele falou aquelas palavras bem baixinho...
— Eu... te amo... Lorie.
— Eu te amo, David — respondi imediatamente.
Dormimos tranquilamente depois disso, não sei se foi pela perfeição daquele momento ou por cansaço profundo mas nossas mentes não nos convidaram pra Sinapsis aquela noite.
Mas, pouco antes de amanhecer, a paz foi quebrada.
Tudo começou com um zumbido grave que reverberou nos meus ossos, um leve formigamento na ponta dos dedos que me fez franzir a testa no meio do sono. As visões começaram logo depois.
Flashs rápidos e confusos, imagens sem forma definida queimando atrás das minhas pálpebras.
Sombras intensas colidindo em uma batalha feroz, energia estalando no ar como raios que me faziam quase sentir o gosto de ozônio na boca.
Uma figura brilhante se erguia vitoriosa em meio ao caos, radiando uma luz pura e avassaladora que cortava a escuridão como uma lâmina, enquanto outra sombra caía lentamente, dissolvendo-se em partículas douradas que se perdiam no vazio infinito.
Uma voz antiga, profunda e ressonante ecoou não só na minha mente, mas vibrando na base do meu estômago, chamando meu nome como se me conhecesse desde o começo dos tempos — antes das estrelas, antes das portas, antes mesmo de existir o conceito de “eu”.
Acordei num solavanco silencioso, ofegante. Algo dentro de mim estava se mexendo, uma energia viva e desconhecida.
E eu não fazia ideia do que era.
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