Sinapsis
20 Guerra - Segredo revelado
O celular de David vibrava insistentemente na mesinha de cabeceira, não sei se foram aquelas estranhas visões que me acordaram, ou o initerrupto som.
Eram quase cinco da manhã. O quarto ainda estava imerso na escuridão e a chuva tinha cedido para uma garoa fina. Mas a paz da nossa bolha havia sumido. Lá fora, o ar úmido e frio era cortado por uma cacofonia aterrorizante: sirenes de ambulâncias e viaturas uivavam incessantemente, misturadas a gritos abafados e um choro coletivo que gelava o sangue.
David pegou o telefone no escuro, os olhos semicerrados.
— Pai? — atendeu, a voz rouca e pesada de sono.
No segundo seguinte, toda a cor sumiu do rosto dele. A postura relaxada desapareceu, dando lugar a uma rigidez de pedra.
— O quê? Calma… respira. O que aconteceu? Sim… ela está aqui comigo. Estamos bem. Tá. Vou ligar a TV agora.
Ele abaixou o celular lentamente. Quando me olhou, seus olhos estavam arregalados, sombrios.
— Meu pai disse pra gente ligar a TV em qualquer canal de notícia. Agora.
Não esperei ele terminar. Saí correndo descalça pelo corredor gelado. A sala estava iluminada apenas pelo clarão azulado da televisão. Minha mãe estava de pé no meio do cômodo, de robe, mas parecia uma estátua. O controle remoto tremia violentamente em sua mão.
Na tela, um homem de terno escuro e impecável dominava todos os canais ao mesmo tempo. Ele estava rodeado por dezenas de pessoas de terno que o ladeavam como um exército sombrio.
— …em nome da soberania da nossa causa, a Unidade exige que a Sinapster Lorie se apresente em Sinapsis na próxima sessão — a voz dele ecoou pela sala, cortante como uma navalha. — Se ela não aparecer, mais pessoas vão morrer dormindo. Centenas já se foram esta madrugada. Isso não é uma ameaça. É uma promessa.
O controle remoto escorregou da mão da minha mãe, batendo com um baque surdo no tapete.
— Victor… — ela murmurou, a voz fraca, o corpo inteiro tremendo. Ela deu um passo trêmulo na direção da tela. — Meu Victor?
O ar sumiu dos meus pulmões. O chão pareceu desaparecer debaixo dos meus pés.
Victor. O nome do meu pai.
Eu olhei da tela para a minha mãe, depois para David, sentindo uma vertigem nauseante. O Líder implacável da Unidade, o psicopata que estava caçando Sinapsters, era o pai que eu cresci acreditando que havia nos abandonado?
A estática tomou a tela por um segundo, e então o vídeo recomeçou. A mesma mensagem. Em loop.
“…a Unidade exige que a Sinapster Lorie se apresente…”
Minha mãe se virou para mim num solavanco, os olhos arregalados de pânico e confusão, como se estivesse me vendo pela primeira vez.
— Lorie… — a respiração dela estava acelerada, beirando a hiperventilação. — Por que o seu pai está na televisão? O que é um Sinapster? Por que ele está dizendo o seu nome, Lorie?! Por que ele está ameaçando matar pessoas por sua causa?!
Eu abri a boca, mas nenhuma palavra saiu. O choque de ver o rosto dele me paralisou completamente.
Antes que qualquer um pudesse responder, um grito agudo de desespero rasgou o ar lá fora, vindo da casa dos nossos vizinhos.
Corremos para a rua. O asfalto molhado refletia o giro frenético das luzes vermelhas e azuis. A nossa rua estava um caos absoluto. Encontramos um policial tentando isolar a casa da frente, pálido e suando frio. Ele nos contou a verdade que fez meu estômago revirar: mais de duzentas pessoas. Apenas no nosso bairro. Duzentas pessoas que foram dormir e simplesmente não acordaram, de forma semelhante ao prefeito da cidade semanas atrás.
Minha mãe virou o rosto para mim. O horror puro distorcia suas feições.
— Lorie… o que está acontecendo? — ela implorou, a voz rachada.
David entrou na minha frente, como se tentasse ser um escudo entre mim e o peso daquele pesadelo. Ele respirou fundo, a voz baixa, mas firme.
— Dona Linry… vamos entrar. Eu vou explicar tudo. Desde o começo.
Sentamos os três no sofá de nossa casa. Enquanto a TV continuava transmitindo em loop a mensagem da Unidade, David contou tudo: Como me envolvi nisso, sobre o prefeito, Sinapsis, as portas, os sonhos, a Unidade, os Despertos. Contou sobre o Grande Mestre Obscuro. toda aquela loucura que eu havia recentemente me envolvido, Minha mãe ouvia em silêncio absoluto. Quando David terminou, ela ficou olhando para o chão por um longo tempo.
Quando David finalmente terminou, ela ficou olhando fixamente para a televisão por um longo tempo, os braços cruzados apertando o próprio corpo.
— Não faz sentido… essa história toda não faz sentido nenhum — ela murmurou, balançando a cabeça com veemência, a negação tomando conta. — O Victor que eu conheci era um homem bom. Ele era carinhoso, brincalhão… ele brincava com você o tempo todo, Lorie! Ele não faria algo assim. Como ele pode ser o líder desses assassinos?!
— Sei que é difícil para alguém na sua condição acreditar em toda essa loucura, dona Linry — David respondeu com cautela. — Olha, isso também é uma surpresa para mim. Quando a Lorie me contou sobre ele, eu não fazia ideia do rosto dele. Mas infelizmente é verdade.
A expressão dela foi mudando aos poucos. A resistência foi cedendo, e os olhos dela se perderam no vazio, repassando memórias dolorosas. A voz dela caiu para um sussurro fraco.
— Ele… ele começou a mudar depois que a Lorie nasceu. Tinha dias em que estava normal, rindo, com ela no colo. E de repente… ele apagava. Olhava para o nada por horas, falava coisas sem sentido sobre sonhos que pareciam reais demais. Tinha apagões. Às vezes acordava suando frio, dizendo que precisava “voltar”. Eu achava que era depressão.
Ela engoliu em seco, uma lágrima escorrendo livre.
— E mesmo depois que ele sumiu… o dinheiro continuava aparecendo na conta. Eu achava que era o jeito dele de cuidar de nós, mesmo que ele tenha nos abandonado.
— Provavelmente o Victor era usuário de MetaDream — David explicou, o olhar sério e pesaroso. — um dos efeitos colaterais dessa droga é que Ela divide a mente da pessoa. Cria uma dupla personalidade. Uma parte continua tentando ser quem era… a outra se entrega à causa da Unidade. é uma batalha costante de egos dentro de si, mas fatalmente, uma das personalidades toma o controle por completo.
Minha mãe fechou os olhos. A compreensão dolorosa se formou no rosto dela. Ela me puxou, apertando minha mão e me abraçando de um jeito desesperado e superprotetor.
— Eu não vou deixar a minha filha sequer chegar perto desses lunáticos. O que eles querem com ela? — ela exigiu, as lágrimas molhando meu ombro.
— Infelizmente nós não sabemos, dona Linry — David respondeu, visivelmente abalado. — Olha, eu preciso falar com o meu pai. Ele é um Sinapster também. Estávamos conversando mais cedo, mas toda essa situação não permitiu que eu ligasse novamente. Vou colocar no viva-voz.
Ele apertou minha mão antes de discar e apoiar o aparelho na mesa.
— David? Já devem estar sabendo, né… — a voz do pai dele atendeu, exausta.
— Estamos aqui, pai. Lorie, a mãe dela e eu. O que está acontecendo?
Houve um segundo de silêncio pesado.
— Sinapsis virou um inferno essa madrugada, filho. Os doze líderes se reuniram no setor onde ficava a porta da Lorie. Eles começaram a destruir portas em massa… matando as pessoas dentro dos sonhos. Fomos intervir. Foi um massacre. Centenas de agentes da Unidade junto com os Líderes… não tivemos chance.
A voz dele falhou por um instante.
— Tivemos baixas. Pelo menos três Sinapsters morreram de verdade. Só escapamos porque recuamos a tempo. Gastamos quase toda a energia para parar a carnificina.
David ficou branco.
— Eu… eu deveria ter estado lá — murmurou, a voz quebrada. — Se eu não tivesse ficado aqui…
— Não, David — o pai cortou, firme. — Você fez o certo. Protegeu a Lorie. Se você tivesse ido, provavelmente não teria feito nenhuma diferença.
— Pai...O Lider que enfrentamos diversas vezes da unidade...ele é o pai da Lorie.
houve um silencio na ligação.
— Meu Deus...— disse arthur num tom quase melancolico.
Eu senti um frio subir pela espinha. Minha mãe estava ao meu lado, pálida, os olhos arregalados. O rosto do meu pai continuava passando na TV.
Levantei-me devagar. Minhas pernas pareciam de chumbo, mas a minha voz saiu muito mais firme do que eu esperava. uma tristeza misturada com odio e estresse.
— Eu vou. Vou para o corredor essa noite. Vou encarar o meu... — hesitei por um momento. _...eu vou encarar o Victor. Não vou deixar mais ninguém morrer por minha causa.
Minha mãe se levantou num salto, segurando meu braço com força, os olhos cheios de pavor.
— Não! De jeito nenhum, Lorie! Você não vai a lugar nenhum!
— Mãe… — segurei as mãos frias dela. — Olha, eu sei que aqui fora eu sou só a Lorie comum que você conhece… mas lá dentro eu sou poderosa. Mais poderosa do que eles imaginam. Se eu não for, eles vão continuar matando pessoas inocentes. Eu não vou permitir que mais ninguém morra por minha causa.
Ela balançou a cabeça, chorando desesperadamente.
— Você é minha filha. Eu já perdi ele. pra toda essa loucura, Eu não vou te perder também.
Eu a abracei com força, sentindo o corpo dela tremer. Eu já tinha visto minha mãe triste, mas nunca tinha sentido o cheiro do medo real nela como naquele momento.
— Eu vou voltar, mãe. Eu prometo.
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