Sinapsis

21 Guerra - Campo de batalha



A mensagem da Unidade parou de ser transmitida no final da manhã.

A TV ficou em silêncio por alguns segundos, depois voltou a mostrar o jornal normal, com apresentadores visivelmente nervosos tentando explicar o inexplicável. A polícia e as autoridades pediam calma à população. Diziam que estavam investigando as mortes súbitas e que “a pessoa chamada Lorie” era um dos principais nomes de interesse da policia. Meu nome aparecia em todas as telas, repetido como se eu fosse uma terrorista. se eu fosse popular, tenho certeza que alguem da minha escola já teria ligado os pontos… mas dessa vez, minha invisibilidade nos salvou.

Minha mãe nem cogitou ligar para a polícia. Ela sabia que se fizéssemos isso, seríamos presas imediatamente sob suspeita de envolvimento em centenas de assassinatos. E, pior ainda, ficaríamos impedidos de ir para Sinapsis com tranquilidade. Como uma garota de subúrbio explicaria para as autoridades a existência de um mundo paralelo infestado de psicopatas que matam pessoas enquanto elas dormem?

Quando a noite chegou, ela foi taxativa:

— Nós três vamos dormir no mesmo quarto hoje. Eu, você e o David. Não quero ninguém sozinho hoje.

Ela achou estranho quando explicamos que precisávamos dormir profundamente para entrar em Sinapsis. Ficou olhando para nós como se fôssemos loucos. David tentou explicar da forma mais calma possível:

— Não é qualquer pessoa que consegue ir para Sinapsis, dona Linry. Eu sei que tudo isso é maluquice demais e parece alguma ficção boba, e eu sei que não posso provar nada disso agora… mas eu juro pela minha vida que vou proteger a Lorie. Com tudo que eu tenho.

Minha mãe apenas assentiu, os olhos vermelhos de tanto chorar mais cedo. Não discutiu. Apenas nos mandou para o quarto.

Eu e o David dormimos na enorme cama de casal da minha mãe, ela nos disse que não iria dormir, iria ficar nos vigiando, mesmo que não pudesse fazer nada para ajudar. ficou sentada em uma poltrona de lado da cama até pegarmos no sono

Quando despertei no meu mundo, David já estava me esperando na minha porta.

Não estávamos sozinhos.

Pelo menos vinte Sinapsters nos cercavam, todos em alerta máximo. Rostos conhecidos e desconhecidos. Arthur e Helena estavam na frente, sérios.

— Vamos escoltar vocês até o setor onde ficavam as portas da sua região, sabemos que os soldados da Unidade estão lá esperando — disse Arthur, a voz grave. — O lugar está… vazio. Quase todas as portas foram destruídas na noite passada. Muitas pessoas da sua vizinhança nem sequer dormiram ou foram dormir em outro lugar por medo.

Caminhamos em silêncio pelo corredor infinito. O setor que antes fervilhava com portas agora parecia um vasto cemitério de madeira e metal. Apenas estruturas quebradas, marcas de queimadura e fragmentos de energia pairavam no ar. O silêncio era opressivo, quase sagrado, como se o próprio corredor estivesse segurando a respiração.

Um dos Sinapsters mais velhos, um homem de barba grisalha e cicatrizes antigas no rosto, murmurou alto o suficiente para todos ouvirem:

— Tudo isso por causa de uma adolescente? Não acredito que ela seja tão importante assim. Deve ser exagero.

Helena virou-se para ele com os olhos flamejantes.

— Eu vi com meus próprios olhos. Ela expandiu uma cidade inteira dentro do corredor. Parou um ataque de um dos Líderes como se não fosse nada. Se ela não for poderosa, então nenhum de nós é.

Ninguém mais questionou.

Continuamos andando até chegarmos ao que restava do setor. O ar estava denso, pesado, como se a propria Sinapsis soubesse que uma batalha estava prestes a começar.

À frente, o espaço se abria para um vasto campo de batalha improvisado.

Do nosso lado, os Sinapsters estavam espalhados, tensos, sem formar qualquer barreira organizada — a luta ainda não havia começado. Do outro lado, perfeitamente alinhados como um exército esperando o sinal, estavam os agentes da Unidade em seus ternos impecáveis. E, à frente deles, os doze Líderes, imóveis, irradiando uma presença esmagadora.

Ao longe, flutuando acima de tudo como uma ameaça colossal, via-se a base da Unidade: um enorme prédio negro suspenso no vazio.

Um dos Sinapsters atrás de mim murmurou, chocado:

— Aquele prédio… já não o vimos antes? Quando investigamos há dois anos a possível localização da base onde o MetaDream era fabricado no mundo real… e não encontramos nada lá. Mas… esse prédio ficava na Espanha!

— Acho que entendi — comentou Arthur, a voz baixa. — Se essa estrutura está aqui, muito provavelmente ela existe também no mundo real, sendo projetada oniricamente em Sinapsis de alguma forma que não sabemos. Isso explica como a Unidade consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo e nunca conseguimos encontrá-los no plano físico.

Helena completou, quase sem acreditar:

— Uma estrutura que existe nos dois reinos… Arthur… será que… o Líder Obscuro…

— É impossível — murmurou Arthur, mas sua expressão tinha mudado. — O Mestre Obscuro foi derrotado há centenas de anos… a não ser que…

Todos ali pareceram entender o silêncio que se seguiu.

Eu parei por um segundo, sentindo o peso de todos os olhares sobre mim. David segurou minha mão com força.

— Lorie — sussurrou ele, a voz carregada de medo que eu nunca tinha visto em seus olhos verdes. — Prometa uma coisa pra gente… mas principalmente pra mim. Se nós começarmos a perder a batalha, se ejete de Sinapsis. E nos esqueça. Pegue sua mãe e fuja para o lugar mais longe que conseguir.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, uma presença se aproximou do nosso grupo.

Era Victor.

E em seu rosto, um sorriso assustador se abriu lentamente.

— Oi, Lorie… ou devo dizer… minha filha?