Sinapsis
15 O Grande Mestre obscuro
Ele acordou com o gosto metálico familiar na garganta.
Sangue.
Um fio fino e quente escorria do seu nariz, descendo lentamente até o canto da boca. Ele não se apressou em limpá-lo. Estava acostumado. Cada derrota em Sinapsis cobrava seu preço — e ele havia aprendido, há muito tempo, a pagar sem reclamar.
Sentou-se na cama estreita e desconfortável do quarto de descanso do QG subterrâneo. O colchão era fino, quase inexistente, a estrutura de metal frio contra as costas. Nada de luxo. Luxo era uma fraqueza que a Unidade não tolerava.
Ele passou o dorso da mão no nariz, limpando o sangue com indiferença, e se levantou. O uniforme preto estava amassado, mas ainda impecável o suficiente. No espelho rachado da parede, seu reflexo o encarou: olhos frios, expressão neutra, o rosto de alguém que não permitia que uma humilhação o abalasse.
As luzes de alerta vermelhas piscavam incessantemente pelo corredor quando ele saiu do quarto. O ar estava carregado. Algo estava acontecendo.
Caminhou com passos firmes e silenciosos até a câmara central. Técnicos passavam apressados, evitando seu olhar. Todos sabiam. O Mestre estava se agitando.
As portas duplas do Domo se abriram com um chiado baixo.
O vasto ambiente circular estava mergulhado em penumbra vermelha intermitente. No centro, flutuando dentro do enorme domo de vidro reforçado, estava o corpo pálido e emaciado do Primeiro — o Grande Mestre Obscuro. Centenas de eletrodos finos e tubos transparentes estavam conectados à sua pele, pulsando com energia REM acumulada.
Os monitores ao redor do domo mostravam ondas cerebrais frenéticas, mais vivas do que ele jamais tinha visto. A barra de energia acumulada brilhava em um vermelho intenso:
80%
— Lider, conseguimos registrar a batalha que vocês tiveram contra a Desperta natural, foi impressionante aquela demostraçao de REM puro. e o melhor de tudo, a energia que ela liberou vazou em ondas para nossos captadores de energia. tivemos um salto de 20% no aprimoramento final
Ele parou diante do painel de controle principal, os olhos fixos no rosto sereno e imóvel do Mestre.
— O mestre está despertando, Conectem os autofalantes ao mecanismo onírico de fala — ordenou, a voz baixa e cortante. — Agora.
Os técnicos obedeceram imediatamente. Dedos voaram sobre os consoles. Um zumbido grave encheu a sala quando o sistema foi ativado.
Por longos segundos, só se ouvia o bip acelerado dos monitores.
Então, uma voz ressoou — profunda, ancestral, carregada de uma autoridade que parecia esmagar o ar ao redor:
— Mais...
Ele inclinou a cabeça em reverência.
— Mestre.
A voz continuou, lenta, poderosa, cada palavra ecoando como um veredito irrevogável:
— A energia daquela batalha… A garota. A Desperta natural. Ela carrega algo raro. Puro. Intacto. Poderoso. Tragam-me mais dela. Apenas mais uma vez. Com isso… eu finalmente despertarei.
A voz fez uma pausa breve. Quando voltou, soou ainda mais grave, quase íntima, carregada de um comando absoluto:
— Victor. Meu mais fiel Líder… reúna os outros lideres. Está chegando a hora.
O nome caiu sobre ele como um peso físico.
O Lider — Victor — sentiu um orgulho feroz subir pelo peito. Ser chamado pelo Mestre, ser reconhecido como o mais fiel, era uma honra que poucos recebiam. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro dele doeu. Uma pontada rápida, profunda, quase esquecida. Uma dor antiga que ele nunca conseguia nomear.
Victor permaneceu imóvel diante do vidro, o sangue seco ainda manchando seu queixo, enquanto o eco daquele nome reverberava dentro do domo.
E pela primeira vez em muito tempo, um sorriso frio e quase imperceptível surgiu em seus lábios.
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