Sinapsis

28 Até o sol se por


A multidão, que antes observava a batalha escondida nas ruas vizinhas e atrás de carros, começou a se aproximar. Primeiro hesitando, a passos lentos, e depois correndo. O silêncio do amanhecer foi quebrado por palmas tímidas que, em questão de segundos, viraram uma explosão ensurdecedora de gritos, assobios e aplausos.

Eles não sabiam exatamente o que havia acabado de acontecer. Não entendiam a física de Sinapsis ou o que era a Unidade, mas sabiam de uma coisa com certeza: o pesadelo que rasgava os céus tinha acabado.

David passou o braço pelos meus ombros, puxando-me para perto contra o seu peito enquanto acenávamos para as pessoas. Arthur e Helena sorriam ao nosso lado, exaustos e com as roupas rasgadas, mas radiantes. Minha mãe apertava minha outra mão com uma força que eu duvidava que ela soltaria tão cedo, os olhos ainda vermelhos de tanto chorar, mas o rosto iluminado por um alívio puro.

David se inclinou, a boca perto do meu ouvido para ser ouvido por cima de todo aquele barulho.

— Sabe — ele riu, aquele sorriso torto e encantador brilhando de um jeito que fez meu coração saltar —, considerando que tem literalmente o bairro inteiro aplaudindo a gente agora... acho que a fase de "garota invisível" acabou definitivamente pra você, Lorie.

Eu ri junto, uma risada leve e genuína, encostando a cabeça no ombro dele. Era uma sensação maravilhosa. O calor do corpo dele, a mão trêmula e segura da minha mãe, o cheiro de asfalto molhado depois da tempestade. O sol da manhã finalmente rompeu o horizonte das casas, banhando a nossa rua com um dourado vivo, quente e espetacular.

Era o nascer do sol mais lindo que eu já tinha visto na vida.

Mas, enquanto eu olhava para a luz quente que subia lentamente pelo céu, o meu sorriso começou a pesar. O ar de repente pareceu rarefeito. Um nó frio e silencioso se apertou no fundo do meu estômago.

O sol estava nascendo. O dia estava começando. E isso significava que a contagem regressiva havia sido disparada.

Eu apertei a mão da minha mãe com mais força e me encolhi um pouco mais contra David, fechando os olhos e sentindo uma vontade desesperada, quase infantil, de congelar aquele exato milésimo de segundo para sempre. O barulho da multidão e os aplausos pareceram ficar abafados, sumindo aos poucos, substituídos pelo eco denso de uma conversa que aconteceu há poucos minutos, longe de todos.

(Flashback)

Alguns minutos antes, durante a batalha final

O rugido da batalha lá embaixo — Arthur, Helena e David lutando contra os Líderes — parecia apenas um zumbido distante. O tempo parecia ter parado. Estávamos apenas nós dois. Eu, flutuando envolta na minha aura dourada, e o Grande Mestre Obscuro, uma entidade colossal feita de vazio absoluto.

— Você não é a cura — começei — Você é apenas a consequência do meu erro. Mas hoje, eu conserto o que quebrei. Vamos propor um pacto.

A escuridão nos olhos do Mestre Obscuro pareceu ondular. A entidade não disparou sua energia letal. Ele apenas aguardou, para ouvir o que eu tinha que dizer.

(fim do flashback)

Abri os olhos, o barulho festivo da multidão me puxando gentilmente de volta para a rua molhada do meu bairro.

Olhei ao redor. Para minha surpresa absoluta, não havia crateras no asfalto. As fachadas das casas, os postes de luz, as árvores antigas da calçada e até as vidraças da padaria da esquina estavam intactas. Toda aquela aniquilação não haviam deixado um único arranhão no mundo físico.

A minha cidade de vidro espelhado não tinha sido apenas uma arena; ela tinha servido como um escudo perfeito. Ela absorveu cada impacto e depois simplesmente se desfez, deixando o mundo real exatamente como era. Se não fossem pelas centenas de pessoas que acordaram com o clarão e correram para a rua, ninguém jamais acreditaria que o fim do mundo esteve a um passo de acontecer bem ali.

— Sabe o que a gente devia fazer agora? — David disse, a voz animada quebrando a minha linha de pensamento. Ele já começava a fazer planos, os olhos verdes brilhando de empolgação e alívio.

— Comer. Uma pizza! e claro que vai ser de graça afinal, a minha incrivel namorada salvou o mundo!

david disse isso enquanto me puxava para seu abraço

Minha mãe deu um passo à frente, puxando-me de leve para debaixo do seu braço, com um sorriso possessivo e divertido no rosto.

— Nem pensar, mocinho — ela brincou, apontando o dedo na direção dele. — Hoje essa menina é exclusividade minha. Eu acabei de recuperar a minha filha. alem do mais, Você vai ter muito tempo pra ficar grudado nela depois que vocês se casarem.

David congelou, arregalando os olhos. Uma mancha vermelha subiu do pescoço até a ponta das orelhas dele em tempo recorde.

— C-casar? — ele gaguejou.

Atrás dele, Arthur soltou uma gargalhada alta e rouca, dando um tapa pesado nas costas do filho.

— Boa sorte, dona Linry! — Arthur riu, os olhos apertados de diversão. — A senhora está arrumando um péssimo marido para a sua filha. O garoto pode ser bom na escola e ser o bam bam bam lá, mas até hoje não aprendeu a lavar as próprias cuecas!

— É verdade — Helena entrou na brincadeira, cruzando os braços e fingindo uma expressão muito séria. — Se a Lorie quiser um marido funcional, vai ter que ensinar do zero. Aquele ali ainda confunde amaciante com sabão em pó.

— Pai! Mãe! Qual é o problema de vocês?! — David protestou, desesperado, a voz saindo um oitavo mais fina pela vergonha enquanto o bairro inteiro nos observava. — Eu tenho muito tempo pra aprender a lavar roupa, ok? E a gente não precisa casar amanhã!

Minha mãe estreitou os olhos para ele, segurando o riso, e cruzou os braços na mesma pose de Helena.

— Hum, tá com cara de que vai enrolar a minha filha, hein? Tô de olho em você.

Todos riram. Arthur deu outro tapa nas costas de David, que escondeu o rosto nas mãos, rindo junto, mesmo morrendo de vergonha. Era uma cena tão normal, tão leve. Uma família brincando na calçada numa manhã de domingo.

Mas aquelas palavras... Casamento. O resto da vida. Muito tempo.

O sorriso no meu rosto congelou, transformando-se em uma máscara frágil que exigia toda a força do meu corpo para não desabar. Eu queria rir com eles. Eu queria planejar o almoço, os filmes, os meses e os anos seguintes. Eu queria poder brigar com o David por causa de roupa suja no futuro.

Mas a palavra "futuro" tinha acabado de se tornar um luxo que eu não possuía. O nó na minha garganta cresceu, quente e doloroso, e a rua ao meu redor pareceu girar devagar. O brilho do sol da manhã, que trazia a promessa de uma vida inteira para eles, era para mim o relógio correndo.

Fechei os olhos novamente, apertando os dentes, e a lembrança me engoliu mais uma vez.

(Flashback)

A entidade cósmica à minha frente processou a proposta. O abismo em seus olhos pareceu pesar cada palavra que eu acabara de dizer.

— A humanidade não precisa de Sinapsis — eu insisti, a voz firme cortando a atmosfera rarefeita do alto da cidade de vidro. — minha proposta é que eu e você anulemos sinapsis, uma separação completa, a gente desfaz a ligação e os humanos a partir de agora serão exclusivamente unicos.

O Grande Mestre Obscuro pairou no ar, o manto negro esvoaçando sem vento.

— Você propõe que nos unamos. A essência criadora e a força destruidora — a voz dele ecoou, não com raiva, mas com uma compreensão gélida das leis do universo. — Para forjar um selo absoluto, o catalisador será consumido. O seu corpo físico recém-trazido à existência...vai ser atrelado à matriz estrutural de Sinapsis.

Eu engoli em seco, sentindo o frio do alto da torre arrepiar a minha pele.

— Eu serei o catalizador — afirmei, erguendo o queixo..

— Você deixará de existir neste plano, se tornará um com a sinapsis junto a mim, nenhum outro humano poderá mais acessar Sinapsis

Uma lágrima quente, solitária e amarga, escorreu pela minha bochecha antes que eu pudesse segurá-la. Pensei no beijo ao por do sol. Pensei no abraço da minha mãe. Pensei na vida normal que eu finalmente tinha conseguido tocar com a ponta dos dedos.

— Quanto tempo eu tenho? — a minha voz saiu como um sussurro.

(Fim do Flashback)

forcei o melhor sorriso que consegui, me agarrando àquele momento como se fosse a única coisa que importasse no mundo.

— Pizza me parece perfeito — eu disse, ajeitando-me no abraço de David e olhando para os nossos pais. — Vamos comer. Todos juntos.

Antes que qualquer um deles pudesse concordar, um senhor grisalho, usando um avental branco ainda sujo de farinha, deu um passo à frente saindo do meio da multidão que nos cercava. Ele enxugava as mãos trêmulas no pano, os olhos brilhando com uma mistura de choque e admiração.

— Seria... seria uma honra imensa — ele disse, a voz embargada, apontando timidamente para a rua de baixo. — Receber todos vocês na minha pizzaria. Por favor, venham. Tudo por conta da casa!

Nós caminhamos juntos, uma família estranha, machucada e remendada, escoltados pelos olhares maravilhados e palmas dos vizinhos até o estabelecimento.

Assim que nos sentamos e a primeira pizza chegou, a normalidade começou a bater à porta, misturada com o absurdo de tudo o que havíamos vivido. Minha mãe, que se recusava a soltar a minha mão por mais de cinco segundos, de repente parou para me olhar de cima a baixo. Os olhos dela se estreitaram de um jeito muito cômico, analisando cada detalhe da minha aparência.

Ela esticou a mão e puxou de leve o tecido transparente e brilhante do meu conjunto lilás, focando diretamente no grande laço roxo no meu peito que moldava a minha estrutura de Sinapsis.

— E que roupa fantástica é essa, mocinha? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha antes de soltar uma risadinha anasalada. — E desde quando você tem esse peitão todo, hein? eu sei muito bem que você não tem isso aí não!

Eu fiquei da cor de um pimentão na mesma hora, querendo derreter e escorrer pelo ralo da pizzaria.

David, que estava bebendo refrigerante, engasgou violentamente. Ele começou a tossir, o rosto ficando completamente escarlate enquanto ele virava a cabeça para a parede, fingindo uma crise de asma para não ter que me olhar. Arthur e Helena não tiveram a mesma piedade e caíram em uma gargalhada alta e solta que ecoou por todo o salão.

— Mãe! Pelo amor de Deus! — eu resmunguei, cobrindo o rosto com as mãos livres. — É a minha estrutura onírica! É tipo... como eu me vejo nos sonhos!

— Sonho ou não, caprichou no avatar, hein? — ela piscou, rindo alto e me puxando para um beijo estalado na bochecha, enquanto Helena limpava lágrimas de tanto rir e Arthur batia nas costas de David para ajudá-lo a respirar.

O resto do dia fluiu exatamente assim. Mágico. Nós devoramos pizzas, rimos até a barriga doer e passamos a tarde inteira perambulando pela cidade como uma grande e inseparável família. Fomos à praça, tomamos sorvete, deitamos na grama dos parques. A cada segundo, eu me forçava a prestar atenção em tudo. A textura da mão do David segurando a minha. A risada alta da minha mãe. O cheiro de terra molhada. O calor do sol contra o meu rosto.

Era uma ironia quase cruel, que apertava meu peito a cada batida do meu coração.

Há apenas alguns dias, a minha vida inteira se resumia a contar os minutos para o dia acabar. Tudo o que eu mais queria era que as horas voassem, que o sol se pusesse logo para que eu pudesse fechar os olhos, fugir da minha vida medíocre e ser incrível em Sinapsis.

E agora... tudo o que eu queria era que aquele dia não acabasse nunca. Eu daria todo o poder do universo, todas as cidades de vidro e céus estrelados, apenas para congelar aquele sol no meio do céu. Eu trocaria tudo isso por uma única vida mundana e tediosa ao lado do garoto de olhos verdes tão intensos ao meu lado

Mas as sombras das árvores começaram a ficar compridas no asfalto. O céu, antes de um azul vibrante, começou a ganhar os primeiros tons de amarelo e laranja queimado.

Senti meu corpo inteiro gelar. A luz dourada que emanava de mim, quase imperceptível sob o sol da tarde, começou a pulsar bem fraco O nó na minha garganta voltou, espesso e frio.

Fechei os olhos enquanto David contava uma piada, e a lembrança da entidade voltou para me assombrar.

(Flashback)

— Quanto tempo eu tenho? — a minha voz saiu como um sussurro.

— não vejo um pingo de duvida em sua alma... apenas pezar... a verdade é que eu poderia força-la agora mesmo a esse destino. mas vejo valor em sua alma, e terei a piedade de te ofertar um prazo.

O manto negro dele começou a se desfazer, virando a densa fumaça roxa que logo voaria em minha direção.

— Você tem até o por do sol.

(fim do flashback)

Estávamos caminhando em direção ao morro nos arredores do bairro, o lugar perfeito para ver o sol se despedir da cidade. no mesmo lugar onde eu e David nos beijamos pela primeira vez. Minha mãe e David andavam um pouco mais à frente, ela contava pra ele mais uma historia divertida sobre minha infancia.

Eu diminuí o passo propositalmente, deixando que a distância entre nós e eles aumentasse um pouco, ficando lado a lado com Arthur e Helena.

Os dois caminhavam em um silêncio confortável, de mãos dadas, irradiando o cansaço exausto, porém pacífico, de soldados que acabaram de vencer a guerra de suas vidas.

— Arthur... Helena... — eu chamei, a voz saindo baixa, apenas o suficiente para que eles ouvissem.

Ambos me olharam, sorrindo com um carinho que me fez querer chorar de novo.

— Queria agradecer a vocês — continuei, engolindo em seco e forçando as palavras a saírem firmes. — Por tudo. Por terem confiado em mim quando eu era só uma garota assustada que não sabia o que fazer com tudo aquilo... E, acima de tudo... por terem criado o David pra ser o garoto incrível que ele é.

— Nós é que temos que agradecer, Lorie — Helena respondeu, apertando o braço de Arthur. — Você libertou a todos nós. Você nos deu um futuro.

Eu olhei para as minhas mãos. A luz dourada, que o sol do fim de tarde tentava camuflar, pulsava cada vez mais forte, quase como um batimento cardíaco descompassado.

— Sinapsis vai ser completamente fechada em breve — eu disse, escolhendo cada palavra com cuidado. — A energia vai se isolar. Vocês não vão mais precisar lutar, nunca mais. E eu preciso... eu preciso que vocês me prometam que vão aproveitar essa paz. Que vão viver a vida normal que vocês merecem.

Arthur inclinou a cabeça levemente, a expressão serena começando a dar lugar a uma atenção afiada.

— E eu quero pedir um último favor — respirei fundo, levantando o olhar para encontrar os olhos dos dois. — Fiquem de olho neles por mim. No David. E na minha mãe. Eles vão precisar muito de vocês para entenderem que... para a porta nunca mais abrir, a tranca precisa ficar do lado de dentro.

O silêncio caiu entre nós três como uma bigorna.

Arthur, com a intuição e a mente afiada de um veterano parou de andar por uma fração de segundo. O olhar dele desceu para a luz dourada que vazava pelas bordas do meu corpo, e depois voltou para o meu rosto. A ficha caiu. Ele entendeu mesmo sem saber as consequencias do pacto.

Helena levou a mão livre à boca. Os olhos dela se encheram de lágrimas de forma instantânea, o choque e a dor de uma mãe espelhando-se no rosto dela. Ela abriu a boca para falar, para protestar, para gritar por uma alternativa, mas eu apenas balancei a cabeça muito devagar, com um sorriso triste, suplicando silenciosamente para que ela não fizesse isso. Para que não estragasse os meus últimos minutos com eles.

A dor no rosto de Arthur era devastadora, mas, como um líder e um pai, ele entendeu o peso da minha escolha. Ele engoliu a própria agonia, ajeitou a postura e me ofereceu um aceno rígido e profundo. Um reverência de absoluto e eterno respeito.

Ele limpou a garganta, a voz saindo um pouco mais grossa do que o normal.

— Ei, David! Linry! — Arthur chamou, alto o suficiente para os dois que andavam lá na frente pararem e olharem para trás.

— O que foi? — David perguntou, confuso, enquanto minha mãe ajeitava o cabelo com o vento.

— Helena e eu estamos exaustos. A idade chega pra todo mundo, e é serio, a gente literalmente salvou o mundo hoje — Arthur forçou um sorriso cansado, passando o braço pelos ombros da esposa, que tremia de leve tentando conter o choro. — Nós vamos desviar por aqui e ir pra casa.

— Ué, não iam ver o pôr do sol com a gente? — David franziu a testa, dando um passo na nossa direção.

— Acho que esse é um momento só de vocês três — Helena interveio, a voz embargada, mas carregada de uma doçura imensa enquanto olhava fixamente para mim. — É um momento de família. Vão lá. Nós vamos para casa.

Minha mãe sorriu, acenando para os dois.

David concordou, sorrindo e acenando também, sem perceber a tempestade que se passava a poucos metros dele.

Eu olhei para Arthur e Helena pela última vez. "Obrigada", eu disse apenas com o movimento dos lábios.

Eles acenaram de volta, virando a esquina e desaparecendo de vista, e então, caminhei a passos rápidos até alcançar a minha mãe e o garoto que eu amava

Nós três caminhamos a passos lentos até o topo do morro, o lugar exato onde David e eu havíamos nos beijado pela primeira vez. O asfalto deu lugar à grama rasteira, e a vista da cidade lá embaixo começava a ser banhada pelos tons alaranjados e rosados do fim de tarde. Sentamos os três lado a lado na grama.

O fim do prazo estava proximo, e eu precisava dar um jeito de dizer adeus apropriadamente as duas pessoas que mais amo no mundo, nos proximo 20 talvez 15 minutos no maximo, mas não fazia ideia de como fazer isso... Foi então que, quase como uma intervenção divina, o som agudo e inconfundível de um apito cortou o ar. Um carrinho de pipoca estava parado um pouco mais abaixo, perto da rua.

Virei para o David, forçando um brilho animado nos olhos e empurrando o desespero para o fundo do peito.

— Pipoca! — eu disse, apontando para a rua. — David, vai lá comprar pra gente antes que o pôr do sol comece de verdade? Por favor?

Ele abriu aquele sorriso lindo e levantou na mesma hora, batendo a poeira da calça.

— Pipoca doce ou salgada? Quer saber, vou trazer das duas. Não saiam daí! — Ele desceu o morro correndo rápido, ajeitando a jaqueta contra o vento.

Assim que ele se afastou o suficiente, o ar ao meu redor pareceu pesar uma tonelada. A luz dourada do meu corpo pulsava cada vez mais óbvia. Olhei para a minha mãe. Ela estava com os joelhos encolhidos, observando o horizonte, a luz do sol refletindo no seu rosto sereno.

— Mãe... — minha voz tremeu, o choro que eu segurei o dia inteiro já subindo pela garganta e queimando. — Mãe, eu... eu tenho uma coisa ruim pra te contar.

— Eu sei, meu amor — ela me interrompeu. A voz dela saiu incrivelmente mansa, sem sobressaltos, sem o pânico que eu esperava.

Eu pisquei, as lágrimas parando no meio do caminho pela surpresa.

— Você... sabe?

Linry virou o rosto para mim. Ela sorriu, um sorriso pequeno, doce e indescritivelmente dolorido.

— Lorie, eu sou sua mãe. conheço você desde que nasceu... Quando a gente começou a brincar sobre o futuro, sobre casamento, sobre o tempo que vocês teriam juntos... eu vi o jeito que os seus olhos ficaram opacos. O jeito que você se agarrou a ele como se estivesse se despedindo de nós ali mesmo. Eu soube ali. O dia inteiro, eu soube.

O choque deu lugar a um desespero absoluto e infantil. Eu desabei. O choro rasgou o meu peito e eu me joguei nos braços dela, afundando o rosto no pescoço que cheirava à minha infância inteira. Ela me acolheu no mesmo instante, exatamente como fazia quando eu era criança e tinha medo do escuro.

— Me perdoa, mãe! — eu soluçava incontrolavelmente, a luz dourada do meu corpo oscilando com a minha dor. — Me perdoa por não poder ficar com você! Me perdoa por não te dar netos, por ir embora assim sem avisar... Me desculpa por não ter sido uma filha presente, por ter passado a vida inteira trancada naquele quarto sem dar valor a você!

— Ei, ei, shhh... — ela afagou meus cabelos, o queixo apoiado no topo da minha cabeça, a voz firme e protetora.

Estranhamente, ela não chorava aos prantos. Os olhos dela estavam marejados, sim, mas ela estava forte. Mais forte do que eu jamais a vi. Ela havia passado o dia inteiro engolindo a própria dor, se preparando mentalmente para aquele exato minuto, só para não desabar na minha frente.

— Não ouse dizer uma bobagem dessas — ela sussurrou, beijando meu cabelo. — Você nunca foi uma filha ruim. Você é, e sempre foi, a garota mais incrível, gentil e corajosa que eu poderia ter pedido a Deus. Você me deu o dia mais lindo da minha vida hoje.

Ela se afastou só um pouquinho para segurar o meu rosto entre as mãos e enxugar as minhas lágrimas com os polegares.

— Eu passei o dia todo me preparando pra isso, Lorie. Eu tentei ser de ferro, pra te dar o domingo mais feliz possível antes que o sol baixasse. Mas, meu amor... — a voz dela finalmente embargou de leve, e uma lágrima solitária escorreu. — A coisa que eu mais queria no mundo, a única coisa que eu pedi a Deus o dia inteiro... era que a minha intuição de mãe estivesse errada. Só dessa vez.

As palavras dela quase me quebraram no meio, mas a força e o amor incondicional que vinham com elas me colaram de volta. Eu não estava indo embora deixando traumas; eu estava deixando o amor mais puro do mundo.

De repente, o olhar dela se ergueu, focando em algo atrás de mim. David vinha subindo o morro a passos largos, equilibrando dois sacos de pipoca e sorrindo feito um bobo.

Minha mãe respirou fundo, recompôs a postura e enxugou rapidamente o rosto, limpando qualquer vestígio de choro.

— O problema mesmo, minha filha, vai ser ele — ela sussurrou, a voz carregada de uma pena genuína e um carinho imenso. — Aquele garoto não faz a mínima ideia.

Linry se levantou, ajeitando a roupa.

— Mãe? — chamei, segurando a mão dela. — Onde você vai?

Ela se curvou, me deu um beijo demorado, quente e profundo na testa, deixando os lábios ali por longos segundos, selando a nossa despedida.

— Vou deixar vocês dois a sós. É o meu último presente para você, minha menina.

Antes que eu pudesse segurá-la, ela se soltou devagar e caminhou na direção de David. Vi os dois se encontrarem no meio do caminho. Ela sorriu para ele, disse alguma coisa apontando vagamente para a cidade, deu um tapinha carinhoso no ombro da jaqueta dele e continuou descendo o morro, caminhando de volta para casa.

David chegou até mim logo depois, entregando o saco de pipoca doce, com a testa franzida e um sorriso confuso.

— A dona Linry disse que de repente lembrou que tinha que fazer uma ligação urgente pra uma amiga e que ia dar uma volta pra esticar as pernas... ela tá bem?

Olhei para ele. Olhei para o sol, que agora tocava as bordas das montanhas, pronto para se esconder.

— Ela tá bem, David — eu sussurrei, sorrindo com os olhos cheios d'água. — Ela tá maravilhosa. Senta aqui comigo.