Sentei na grama ao lado dela, o saco de pipoca doce ainda quente nas minhas mãos. O vento do entardecer balançava a grama rasteira do morro.

Lorie não pegou a pipoca. Ela apenas olhou para mim.

Foi nesse instante, com ela tão perto, que eu percebi...

Não...está errado, eu ja tinha percebido muito antes.

O brilho que emanava da pele dela não era um resquício da energia da batalha. Não estava diminuindo com o fim da adrenalina. Pelo contrário. À medida que o sol descia em direção às montanhas, tingindo o céu de um laranja profundo e melancólico, a luz dourada de Lorie pulsava mais forte, quase como se o corpo dela estivesse sendo...puxado

— Lorie... — minha voz falhou, o saco de pipoca escorregando das minhas mãos e caindo na grama. Os grãos doces se espalharam. — Por que você ainda tá brilhando? — perguntei firme.

O sorriso que ela me deu foi a coisa mais triste e linda que eu já vi. Ela levantou a mão e tocou o meu rosto. A ponta dos dedos dela estava quente, mas... leve. Leve demais. Quase translúcida.

— A guerra acabou, David — ela sussurrou, a voz embargada. — Mas...eu não poderei ficar....— as lagrimas começaram a descer sem parar de seus olhos.

O ar sumiu dos meus pulmões. O mundo inteiro parou de girar. A compreensão me atingiu com a força física de um soco no estômago, estilhaçando o futuro que eu tinha passado o dia inteiro desenhando na minha cabeça.

— Não. Não, não, não! — eu me joguei na direção dela, agarrando os braços dela, os meus ombros tremendo violentamente. O desespero entalou na minha garganta, rasgando o meu peito de dentro pra fora. — Você vai ficar sim! A gente dá um jeito, os meus pais podem ajudar, a gente da um jeito! Você não pode ir embora, Lorie! Eu não vou deixar!

— Meu amor, olha pra mim... — ela pediu, as lágrimas finalmente transbordando e escorrendo pelo rosto iluminado. O sol já estava pela metade, engolido pelo horizonte. As pernas dela começavam a se desfazer em partículas de luz dourada que subiam para o céu escurecendo. — Meu corpo...ele...

— Eu não me importo! — a interrompi enquanto a puxava para o meu colo, apertando o corpo dela contra o meu, como se a força dos meus braços pudesse impedir o universo de levá-la. — Eu não quero o mundo salvo se você não tiver nele! Eu não quero viver sem você, Lorie! Por favor... por favor, não me deixa aqui!

Ela afundou o rosto na curva do meu pescoço, chorando comigo. Por um momento, fomos apenas dois adolescentes apavorados, injustiçados por um destino grande demais. Mas então ela recuou um pouco, segurando o meu rosto com as duas mãos luminosas. O sol estava quase sumindo...dois minutos.

— David, escuta. Escuta a minha voz — ela pediu, o tom assumindo uma urgência doce e desesperada. — Eu não tenho muito tempo. Eu preciso que você me prometa algumas coisas.

Eu balancei a cabeça, soluçando, me negando a ouvir.

— Promete pra mim! — ela insistiu, colando a testa na minha. — Promete que você vai cuidar da minha mãe por mim. Que não vai deixar ela se afundar naquela casa vazia.

— Eu... eu prometo... — a resposta saiu num fio de voz quebrado.

— Promete que você vai ficar triste. Eu quero que você chore muito, que sinta a minha falta, porque eu vou sentir a sua pela eternidade... mas promete que não vai ser pra sempre.

As mãos dela estavam perdendo a densidade. Eu tentei apertá-las, tentei segurar a luz, mas meus dedos começaram a atravessá-las.

— Promete que, quando a dor passar um pouco, você vai voltar a viver. Que você vai tentar achar uma garota tão legal quanto eu... — ela deu uma risada fraca e molhada, o sorriso torto lutando contra o choro. — O que vai ser difícil pra caramba, eu sei. Mas você vai tentar.

— Ninguém nunca vai ser você... — eu chorei, negando com a cabeça, cego pelas lágrimas.

— Prometa que vai ter filhos, David. Vai ser um pai incrível. Vai levar eles pra tomar sorvete, vai sujar o nariz deles com a calda. Você vai viver a vida mais normal e mais feliz que alguém conseguiria viver. Por você, e por mim. Promete pra mim, David. Diz que promete.

O último filete do sol tocou as montanhas. O corpo dela era agora quase todo poeira estelar, apenas o rosto e os ombros ainda ali, sustentados puramente pelo amor que nos ligava.

— Eu prometo — eu gritei, a voz rasgada. — Eu prometo, Lorie. Eu te amo mais que tudo.

— Eu sempre estarei com você — ela sussurrou.

Eu a puxei para mim. Nossos lábios se encontraram em um último beijo. Quente, salgado, desesperado e infinito. Eu senti a maciez da boca dela, senti o último resquício do peso dela contra o meu peito... e então, a luz desvanesceu completamente.

Os resquicios de aura dourada foram levadas pelo vento do anoitecer. Meus braços se fecharam em um abraço vazio.

Ela não estava mais lá.

O frio da noite bateu contra o meu rosto. O mundo mágico tinha sido selado para sempre. Mas eu não ligava para o mundo. Eu só conseguia olhar para as minhas mãos vazias, cobertas pela escuridão da noite que acabara de cair.

Um silêncio engoliu aquele lugar. E então, eu quebrei.

Ali, no escuro daquele morro, eu chorei até não sobrar mais ar nos meus pulmões. Agarrei a terra úmida com as mãos, sentindo um vazio tão imenso e sufocante que tive certeza absoluta de que a minha vida havia acabado ali, junto com aquele pôr do sol.

Mas o sol nasceu de novo no dia seguinte. E no outro. E em todos os milhares de dias que se seguiram.

E Quinze anos se passaram.

A luz quente e dourada do fim de tarde entrava pela janela do meu escritório, iluminando a tela do computador enquanto eu digitava a última linha daquele importante manuscrito.

Eu cumpri todas as promessas que fiz a ela. Cuidei de dona Linry todos esses anos, e nós nos tornamos o alicerce um do outro. Meus pais foram muito importantes nesse momento, tanto pra mim quanto pra ela. Eu estudei. Eu chorei. Eu vivi. Encontrei a beleza na quietude dos dias tediosos e normais que ela me devolveu. E, com o tempo, o buraco no meu peito deu lugar a uma saudade mansa. Eu amei de novo — um amor diferente, calmo e profundamente real, que me deu os dias mais felizes da minha vida adulta.

A porta de madeira do escritório se abriu com um solavanco, me puxando de volta das lembranças.

— Papai!

Uma garotinha de sete anos, com os cabelos castanhos completamente bagunçados e uma mancha suspeita de sorvete de chocolate na ponta do nariz, invadiu o cômodo correndo. Ela deu a volta na cadeira e pulou direto no meu colo, abraçando o meu pescoço.

— Oi, minha pequena Lorie — eu sorri, abraçando-a de volta e dando um beijo no topo da sua cabeça.

Ela se acomodou no meu colo e espiou a tela cheia de palavras.

— Você terminou o livro? — ela perguntou, os olhos curiosos brilhando. — A história da garota mágica que salvou o mundo?

— Terminei — eu respondi, passando a mão pelos cabelos dela. — Acabei de colocar o ponto final.

Lorie franziu a testa, balançando as perninhas no ar, pensativa.

— E o que acontece com ela no final, papai? Ela ficou trancada lá no mundo escuro pra sempre? Ela tá triste?

Eu olhei pela janela. O sol tocava o horizonte lá fora, tingindo as nuvens de laranja e terracota, exatamente como naquele dia no morro. Um sorriso pequeno e leve se formou nos meus lábios.

— Não, meu amor. Ela não está no escuro — eu sussurrei — Gosto de pensar que ela reconstruiu a cidade de vidro. Que o céu lá agora é de um azul infinito e perfeito. E que ela passa a eternidade inteira voando, livre, leve e em paz. Ela finalmente tem o mundo só pra ela.

A pequena Lorie abriu um sorriso banguela e satisfeito com o destino da sua xará. Ela me deu um beijo rápido na bochecha, pulou do meu colo e correu de volta para gritando que a tia Linry tinha chegado com mais sorvete.

Fiquei sozinho novamente no escritório banhado pelo entardecer. Olhei uma última vez para o manuscrito na tela.

Sinapsis estava selada. A magia havia deixado este mundo. Mas eu escrevi cada detalhe. Cada lágrima, cada sorriso torto, cada milésimo de segundo da nossa história e do sacrifício que ela fez. A garota que passou a vida inteira se escondendo, acreditando que não era importante e que não deixaria nenhuma marca no universo, agora teria sua história impressa. O mundo inteiro saberia o nome dela.

E ela nunca, jamais, voltaria a ser invisível.

Notas finais
e é isso... que jornada legal foi escrever essa historia, eu me senti de volta a minha adolescencia... e antes que perguntem, sim, to ligado que apesar de emocionante, Titanic, guren laggan, e a culpa é das estrelas, ja fizeram um final parecido...mas me deixem ser feliz com meu finalzinho agridoce =) nada de final feliz de novela por aqui espero que tenham gostado de embarcar nessa historia tanto quanto gostei de escreve-la, deixem comentarios se essa historia marcar vocês de alguma maneira
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!