Sinapsis

26 A voz que não se apagou


enquanto me perdia em meus devaneios, a porta do meu quarto se abriu.

Meu pai estava ali, o rosto marcado por noites sem dormir e por uma urgência que eu nunca tinha visto nele. Os olhos dele brilhavam com algo entre pânico e determinação.

— Filho — disse ele, a voz baixa, mas firme. — Ele está aqui. Vem. Vem ficar comigo e com sua mãe... temos pouco tempo.

Eu não entendi de imediato. Meu cérebro ainda estava preso no eco da voz dela. Mas o tom dele não deixava espaço para perguntas. Eu me levantei cambaleando, as pernas fracas, e o segui pelo corredor. Minha mãe estava na sala, já de casaco, os olhos vermelhos, mas secos. Ela me olhou uma vez, só uma, e estendeu a mão. Eu segurei. Saímos juntos de casa.

O ar da madrugada estava frio e úmido. A rua estava silenciosa de um jeito errado — como se a cidade inteira estivesse prendendo a respiração. Eu levantei o olhar.

E então eu vi.

No céu, pairando acima dos telhados como uma mancha negra contra as nuvens baixas, estava ele. O Grande Líder Obscuro. Os robes negros esvoaçavam sem vento, as runas roxas pulsando como um coração gigante. Ele não se movia. Só flutuava, olhando para baixo, como se observasse formigas antes de esmagá-las.

De perto dele, algo desceu.

Não voou. Não caiu. Apenas desceu, como se o próprio ar tivesse decidido entregá-lo a nós. Victor.

Ele pousou no meio da rua, a alguns metros de nós, o uniforme impecável, o sorriso daquele jeito perturbador que eu tinha visto pela última vez no campo de batalha. O mesmo sorriso que ele deu quando Lorie se dissolveu em luz.

Meu pai se colocou imediatamente na minha frente, protegendo a mim e à minha mãe com o corpo. Minha mãe apertou minha mão com tanta força que doeu.

Victor abriu os braços devagar, como se estivesse apresentando um espetáculo.

— Sinapsters — disse ele, a voz ecoando pela rua vazia, carregada de desprezo. — Vocês não merecem fazer parte da Unidade com o Mestre. Ele me deu o prazer de eliminá-los aqui mesmo, antes que Ele absorva tudo. Considerem isso... um presente de despedida.

Arthur deu um passo à frente, ainda me protegendo com um braço estendido para trás. Eu senti o corpo dele tremer, mas a voz saiu firme, clara, cheia de uma dignidade que me cortou o peito.

— Então que seja com honra — bradou ele, olhando direto para Victor. — Eu morro sabendo que fiz tudo que era certo. Que lutei pelo que acreditava. Que protegi meu filho até o último segundo. Venha, então. Acabe logo com isso.

Ele abriu os braços, abraçando o ar à frente de nós, como se pudesse criar uma barreira invisível entre Victor e nossa família. Minha mãe soltou um soluço abafado e se encolheu contra mim.

Eu... eu não consegui ficar parado.

Algo dentro de mim se recusou. Algo que não era só raiva. Era mais fundo. Era a voz dela, ainda ecoando no meu crânio, quente, viva:

Eu sempre estarei com você.

Eu me desvinculei do braço do meu pai. Dei um passo à frente. Depois outro. Coloquei-me entre Victor e meus pais, o peito aberto, o coração batendo tão forte que parecia querer sair pela boca.

E gritei. Gritei com toda a força que ainda me restava, com toda a dor, com toda a esperança que tinha acabado de nascer no meu peito. Gritei alto o suficiente para que o som ecoasse pelas ruas silenciosas, alto o suficiente para que Victor ouvisse, para que o Grande Líder Obscuro no céu ouvisse, para que o mundo inteiro ouvisse:

— EU TAMBÉM ESTOU COM VOCÊ, LORIE!!!!

No mesmo instante, algo aconteceu dentro de mim.

Do meio do meu peito, uma luz dourada começou a emergir. Não forte de início. Apenas um brilho suave, sem forma definida, como se algo que estava preso ali há dias finalmente tivesse encontrado uma brecha. A luz subiu devagar, tremeluzindo, quente, viva.

Victor franziu a testa. suas maos foram ao seu peito, como se ele tentasse conter algo que teimava em sair Por uma fração de segundo, eu pude ver os olhos dele — aqueles olhos frios e calculistas — piscaram com algo que parecia quase... reconhecimento. Como se, por trás de toda a corrupção, de toda a escuridão que o consumia, ainda restasse um pedacinho do homem que, anos atrás, embalava uma nenenzinha chamada Lorie em noites frias, afagando seu cabelo com carinho enquanto ela dormia no colo dele.

A parte boa que ainda sobrevivia dentro dele — a parte que guardava as lembranças da filha que ele perdeu — reagiu. uma abertura que brilhava na cor azul real, liberou uma pequena fração de luz dourada. Como se o próprio Victor, mesmo contra a própria vontade, tivesse contribuído, com o que restava de amor dentro dele.

A luz dourada reagiu com ainda mais força.

Um brilho intenso explodiu do meu peito, tão forte que iluminou a rua inteira como se fosse meio-dia. O ar estalou. O chão tremeu. Eu senti cada lembrança, cada emoção, cada pedacinho de Lorie que eu carregava dentro de mim sendo puxado para fora — não arrancado, mas pedindo para sair. Eu comecei a falar sem nem perceber. As palavras saíam sozinhas, misturadas com o choro, com o riso, com a dor:

— Eu me lembro do seu cabelo caindo no rosto quando você ria... do cheiro de morango no seu xampu... da sua voz rouca quando estava cansada... da sua testa franzida quando eu explicava alguma coisa idiota sobre Sinapsis... do jeito que você falava “tanto faz” tentando esconder que se importava... do calor da sua pele contra a minha na chuva... do gosto dos seus lábios... do som da respiração sua respiração quando você dormia abraçada em mim...eu sei que você está comigo, você me encheu de pedaços seus dentro de mim, preenchendo espaços em minha alma. e eu você nunca vai sair daqui. NUNCA!

Enquanto eu falava, a luz se transformava.

Ela crescia, se moldava, ganhava contornos. Primeiro os pés descalços, depois as pernas, os quadris, a cintura. O cabelo ruivo-acastanhado caía em ondas suaves sobre os ombros, brilhando com reflexos dourados. Os olhos castanhos, grandes e curiosos, se abriram por último — vivos, me olhando diretamente. Ela vestia um conjunto lilás delicado e fluido: um top com alças finas e um grande laço roxo no peito que moldava seus seios de forma sutil e elegante. O tecido transparente e brilhante caía como uma cascata sobre a calça soltinha com babados nas barras, deixando a pele aparecer de maneira suave. Pulseiras delicadas nos pulsos e um choker fino no pescoço completavam a visão. Ela estava exatamente como eu a via nos sonhos mais vívidos — só que agora era real. Majestosa. Pairando alguns centímetros acima do chão, emanando uma luz dourada que aquecia o ar ao redor.

Lorie.

Não uma lembrança. Não um fantasma. Mas ela. Real. Viva. Olhando para mim com aquele sorriso torto que eu tanto sentia falta.

Victor deu um passo atrás, o rosto pela primeira vez sem aquele sorriso arrogante. Ele parecia... chocado. Como se não entendesse o que ele mesmo tinha acabado de fazer.

Lorie desceu devagar até tocar o asfalto com os pés descalços. Ela me olhou. E sorriu. Aquele sorriso torto, cansado, cheio de amor.

— Eu te disse — murmurou ela, a voz ecoando como se fosse parte de tudo ao redor. — Eu sempre estarei com você.

Eu caí de joelhos. As lágrimas escorriam sem controle. Atrás de mim, ouvi minha mãe soluçar. Meu pai murmurou algo que soou como uma prece.

Lorie estendeu a mão para mim. Eu a segurei. O toque dela era quente. Real. Vivo.

Victor recuperou a compostura. Ele ergueu as duas mãos, a energia roxa começando a se condensar ao redor dos dedos, disparando logo depois em nossa direção!

— PORQUÊ VOCÊ NÃO MORRE!!!! — gritou ele.

Mas Lorie simplesmente... não reagiu.

Ela continuou me olhando, como se Victor nem existisse mais. O ataque dele se aproximou — uma onda de energia roxa cortante — e simplesmente parou no ar a poucos centímetros dela. A energia escura tremeu, hesitou, e então começou a se desfazer, dissolvendo-se em partículas que evaporaram antes mesmo de tocá-la. Victor piscou, confuso, como se algo dentro dele tivesse se recusado a completar o golpe.

Lorie soltou minha mão devagar. Virou-se para ele. Sem pressa. Sem raiva. Apenas... paz.

Ela deu dois passos e o abraçou.

Victor congelou. O corpo inteiro dele ficou rígido, como se não soubesse o que fazer com aquele gesto.

— Pai — disse Lorie, a voz calma, ecoando pela rua. — Eu te perdoo.

Não houve grito. Não houve escândalo. O terno preto dele começou a se desfazer, como se o tecido estivesse se dissolvendo no ar. A expressão psicopata, o sorriso cruel, tudo desapareceu. Em seu lugar, restou apenas Victor — usando roupas comuns, simples, como as de qualquer pai de subúrbio. O homem que ela nunca chegou a conhecer de verdade.

Ele começou a brilhar. Um brilho azul suave, triste, que subiu do peito dele

— Filha... — a voz dele saiu rouca, quebrada, sem nenhum traço da arrogância de antes. — Eu... eu tirei a sua oportunidade de crescer, de se casar, de ter filhos... Eu não mereço seu perdão. Eu tirei... tudo de você

Lorie o interrompeu. Abraçou-o com mais força, o rosto enterrado no ombro dele.

— Shhh... — sussurrou ela. — Eu já perdoei.

No abraço da filha, o brilho azul começou a se desfazer. Devagar. Sem dor. Como se Victor estivesse sendo libertado de algo que o prendia há anos. O brilho subiu, se espalhou, e então simplesmente... desapareceu.

Nada restou.

Nem corpo. Nem energia. Nada.

Apenas o ar da madrugada, frio e silencioso, e Lorie de pé no meio da rua, com as mãos vazias e os olhos cheios de lágrimas que finalmente caíam.

Ela se virou para mim. Sorriu, mesmo chorando.

— Agora... — disse ela, estendendo a mão novamente. — Vamos acabar com isso juntos.

Eu me levantei. Segurei a mão dela. Pela primeira vez em dias, o medo não estava mais no meu peito.

Só restava uma coisa.

Determinação.

Notas finais
e é isso, agora vamos ao capitulo final, se você leu até aqui, o meu mais sincero muito obrigado, se essa historia te marcou de alguma forma, nao se acanhe em dizer, eu amo responder comentarios, sejam bons ou ruins.