Sinapsis
27 A batalha final.
Lorie apertou a minha mão. O toque dela era firme, ancorando-me à realidade, ela realmente estava aqui.
Arthur e Helena se aproximaram, parando ao nosso lado. Os dois veteranos, que haviam visto de tudo em décadas de guerra onírica, olhavam para Lorie não apenas com o carinho de quem acolhe a garota que o filho ama, mas com uma reverência muda. Eles sabiam o que ela representava agora.
— Ele quer engolir o nosso mundo com o vazio dele
A voz de Lorie soou cristalina, rompendo o silêncio fúnebre da rua enquanto ela erguia o rosto para encarar a mancha negra no céu. — Mas ele esqueceu de uma regra básica. Se ele quebra as portas para trazer Sinapsis para o mundo físico... significa que eu também posso.
Ela fechou os olhos.
Não houve grito. Não houve esforço aparente. Lorie apenas respirou fundo, e o universo obedeceu.
Uma onda de choque dourada explodiu do corpo dela, varrendo a rua, o bairro e a cidade inteira. Onde a luz tocava, a própria estrutura da realidade era reescrita.
O asfalto molhado e rachado sob nossos pés ondulou como água e se solidificou instantaneamente no piso liso, luminoso e perfeitamente geométrico que eu conhecia tão bem. As casas e os postes de luz de repente esticaram-se, retorceram-se e explodiram em colossais arranha-céus de vidro espelhado. Estruturas majestosas que desafiavam a gravidade ergueram-se em segundos, espiralando em direção ao alto. Anéis de luz neon rasgaram a escuridão da madrugada, e as nuvens cinzentas e pesadas foram varridas por um céu de um azul profundo, límpido e impossível para aquela hora da noite.
Em um piscar de olhos, a cidade inteira havia desaparecido. Estávamos no centro absoluto da metrópole fantástica de Lorie. O refúgio da garota invisível agora estava materializada no mundo real.
E então, eu senti.
Não foi apenas o cenário que mudou. O ar ao nosso redor ficou carregado com pura energia. Olhei para o meu pulso esquerdo por puro instinto. Meu relógio de Sinapster, o marcador que eu não via desde que fomos ejetados, materializou-se no mundo físico. Mas os doze marcadores azuis não estavam diminuindo. Eles brilhavam com uma intensidade ofuscante, o mostrador girando loucamente até se fundir em um círculo de pura luz inesgotável.
Eu não estava apenas com minha energia restaurada. Eu estava transbordando.
Ao meu lado, Arthur soltou um grito misturado com uma gargalhada incrédula. A armadura samurai vermelha dele materializou-se sobre suas roupas, mais densa, mais brilhante e infinitamente mais letal do que eu jamais a vira no corredor. Helena ergueu as mãos e não precisou de esforço; uma nevasca controlada e majestosa materializou-se no ar, passando a orbitar ao redor dela como um escudo impenetrável.
O poder que só existia nos sonhos agora estava vivo no mundo físico. E não havia limite.
— O que é isso? — Helena ofegou, olhando para as próprias mãos, maravilhada com a ausência de fadiga. — O REM... não está sendo consumido. É como se a própria atmosfera nos alimentasse!
— Aqui, as regras são minhas — Lorie disse, a aura dourada a envolvendo como uma deusa em seu próprio templo. Ela olhou para nós três, o sorriso torto carregado de uma confiança inabalável. — E, na minha cidade, o meu poder é o de vocês. Não economizem nada.
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A alguns quarteirões dali, alheia ao que acontecia na rua onde David e seus pais estavam, Linry continuava sentada na beirada da própria cama, imersa na escuridão de sua casa vazia.
Dias haviam se passado desde a cremação, mas para ela, o tempo havia parado no instante em que os legistas levaram o corpo de Lorie. A casa estava mergulhada em um silêncio sepulcral e sufocante. Com as mãos frouxas repousando no colo, a mente de Linry era consumida por um luto devorador. Ela pensava coisas terríveis, punindo-se por não ter conseguido proteger sua menina, desejando que o mundo simplesmente acabasse logo e levasse aquela dor insuportável embora de uma vez por todas. Sem Lorie, nada mais fazia sentido.
Mas, de repente, o assoalho de madeira sob seus pés estremeceu.
Linry levantou a cabeça, confusa, quando um brilho dourado e quente começou a vazar por debaixo da porta do quarto. Antes que ela pudesse se levantar, as paredes ao seu redor ondularam como miragens. A cama, os móveis, a casa inteira se metamorfoseou em uma vasta e deslumbrante arquitetura de vidro e luz.
Linry ficou de pé num salto, o coração batendo na garganta. Ela olhou ao redor, atônita. Por um segundo, o terror de estar enlouquecendo ameaçou tomar conta de sua mente, mas então... ela sentiu o ar.
O vento que soprou contra o seu rosto não era frio, era cálido. Carregava uma sensação de conforto, de pertencimento. A luz daquele lugar, as linhas perfeitas dos prédios gigantescos lá fora, a paz absoluta que emanava do próprio piso... tudo aquilo irradiava a exata essência de sua filha. A energia da menina silenciosa com quem ela tomava café da manhã. A presença inconfundível que ela amava mais que tudo no universo.
A razão não importava mais. A física do que era real ou não havia deixado de importar. O coração de uma mãe não precisa de lógica ou de explicações sobre energia para reconhecer a própria cria.
— Lorie... — Linry sussurrou, as mãos cobrindo a boca enquanto lágrimas voltavam a cair, mas agora lágrimas quentes, vivas e transbordantes de uma esperança que ela achou que nunca mais sentiria.
Um impulso primitivo e avassalador tomou conta dela. Linry não pensou no perigo cósmico, não se importou com a entidade que destruía cidades no céu. Ela apenas correu.
A mãe que achou que havia perdido tudo atravessou a porta de vidro do que antes era a sua casa e saiu correndo a plenos pulmões pelas avenidas espelhadas. Guiada puramente pela força da filha que agora pulsava em cada centímetro daquela nova realidade, ela correu o mais rápido que pôde direto para o epicentro da luz.
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O vento rasgava meu rosto enquanto ganhávamos altitude.
Aegis, o meu porco alado, nunca pareceu tão majestoso. Ele batia as asas imensas com um vigor renovado, carregando a mim, meu pai e minha mãe em suas costas com uma facilidade absurda. Estávamos subindo rápido, deixando as torres espelhadas e os anéis de neon da nova cidade para trás, cortando os céus em direção à massa de escuridão onde o Grande Mestre Obscuro flutuava.
Mas meus olhos mal conseguiam focar na ameaça colossal acima de nós. Eles continuavam magnetizados nela.
Lorie voava ao nosso lado. Ela não precisava de invocações para se sustentar no ar. Apenas pairava em movimento, impulsionada por aquela aura dourada e imaculada, o conjunto lilás esvoaçando contra a gravidade. Ela parecia uma divindade ancestral tecida de pura luz.
— Lorie... — eu gritei por cima do rugido ensurdecedor do vento, a necessidade de entender quase me sufocando. — Como? O seu corpo físico... nós vimos o que aconteceu. Como você está aqui?
Arthur, segurando firme nas cerdas espectrais de Aegis, inclinou-se para a beirada. O choque de um veterano transbordava na voz dele.
— Você foi obliterada, Lorie. Ninguém retorna do vazio absoluto. A sua presença agora... transcende tudo o que sabemos sobre a energia REM!
Lorie diminuiu levemente o ritmo, emparelhando com o voo de Aegis. Ela olhou para as próprias mãos, que irradiavam a força de um sol recém-nascido, e depois para nós. O olhar dela não era mais apenas o da garota de dezoito anos que eu conhecia; carregava um peso calmo e imemorial.
— Eu não compreendia a matemática perfeita desse retorno até acontecer, Arthur — ela respondeu. Sua voz não precisou disputar com o vendaval; ecoou clara e serena diretamente em nossas mentes. — Eu estava na completa escuridão, e então...ouvi a voz do David, senti a tristeza da minha mãe, os resquicios de memoria do meu pai se apegando a uma fagulha de mim, e então tudo isso se união e ai tudo ficou claro, quando percebi, eu estava aqui, mas junto comigo, as memórias que inundaram a minha consciência não eram apenas desta vida. Eram antigas.
Ela levantou o rosto brilhante, encarando de frente a sombra titânica que escurecia o céu.
— Eu sei o que eu sou agora. O poder que eu sempre tive não era acaso ou milagre. Eu sou a reencarnação do Primeiro Grande Mestre.
Helena engasgou atrás de mim, a nevasca de gelo que orbitava ao nosso redor vacilando por um décimo de segundo ante o choque.
— O criador da nossa ordem... — ela murmurou, atônita. — Mas o Mestre Obscuro... a lenda conta que ele foi o seu pior inimigo, uma entidade que você derrotou e selou na antiguidade.
Lorie balançou a cabeça devagar. Uma tristeza infinita e pesada marcou seu rosto luminoso.
— Ele não é uma praga ou uma anomalia, Helena. Essa é a lenda que restou. A verdade absoluta é que ele é a resposta instintiva da própria Sinapsis. A dimensão onírica não foi projetada para suportar mentes humanas navegando livremente como indivíduos separados. O Grande Mestre Obscuro é o sistema imunológico desse universo. Ele nasceu da necessidade cósmica de forçar tudo a retornar à consciência coletiva, apagando o ego e o isolamento.
Ela olhou para nós três, a dor de eras passadas pesando em sua voz.
— O Primeiro Mestre... a minha encarnação passada... acreditava que estava traçando o caminho certo. Achava que ensinar a humanidade a destrancar as portas, a se tornar Sinapsters, traria uma evolução sem precedentes. Mas tirar as pessoas da ignorância sobre Sinapsis foi um erro colossal. Foi o nosso despertar forçado que perturbou o equilíbrio da dimensão e o fez nascer. Toda essa guerra, a Unidade, são consequência de uma falha minha.
Senti um frio cortante no peito que não tinha nada a ver com a altitude.
Enquanto eu a ouvia falar de memorias passadas, de sistemas imunológicos cósmicos e de erros ancestrais, uma tristeza repentina e esmagadora me engoliu. Olhei para a garota flutuando ao meu lado, envolta em luz divina. Ela falava como um deus antigo carregando o peso do universo. A sabedoria em seus olhos era vasta demais.
Meu coração apertou. O desespero voltou, mas de um jeito diferente, mais íntimo e doloroso.
— Lorie... — minha voz saiu embargada, falhando contra o vento. A pergunta queimava a minha garganta. — Você ainda é... você? Ou a garota que eu conheci morreu de verdade lá naquele campo de batalha, e agora você é só... ele? Só o Primeiro Mestre usando o rosto dela?
Lorie parou de voar tão reto. O discurso cósmico foi cortado abruptamente.
Ela piscou. A postura de divindade inalcançável e carregada de fardo simplesmente desmoronou. A aura dourada ofuscante suavizou-se, tornando-se quente e reconfortante. Ela cruzou os braços sobre o peito e revirou os olhos de um jeito tão absurdamente humano e familiar que eu quase escorreguei das costas de Aegis.
— Ficou maluco, David? — ela perguntou, a voz perdendo o tom de eco mental e voltando a soar exatamente como a garota por quem eu tinha me apaixonado. — O Primeiro Mestre era um cara ranzinza que morreu há séculos. Eu sou a Lorie. A garota que passou dezesseis anos sendo invisível. A garota que você levou pra tomar sorvete de manga com calda quente e que sujou a ponta do nariz na primeira colherada. A garota que morre de vergonha da própria mãe e que é uma negação absoluta em qualquer esporte.
Ela se aproximou voando graciosamente, parando bem na minha frente, no nível dos meus olhos. O sorriso meio torto — o meu sorriso favorito no mundo — abriu-se no rosto dela.
— Eu sou a sua Lorie — ela disse suavemente, piscando pra mim de um jeito travesso. — Só ganhei um 'upgrade' absurdo de poder e baixei um HD com umas memórias velhas na cabeça. Mas o coração aqui dentro é exatamente o mesmo. E ele continua batendo por você.
O peso que esmagava meus pulmões desapareceu instantaneamente. Uma risada fraca e aliviada escapou da minha boca, e eu vi meus pais trocarem um sorriso discreto e relaxado atrás de mim.
Era ela. Não era uma entidade cósmica vestindo um disfarce; era a minha garota que agora iluminava o mundo.
Lorie deu uma piscadela convencida, girou no ar e voltou a encarar o vazio escuro acima de nós. A melancolia ancestral havia sumido de seu olhar, substituída pela pura e teimosa determinação da garota invisível que decidiu mudar tudo.
— Eu herdei o fardo desse passado, mas agora eu tenho o poder para consertar a bagunça. Então se segura aí, presidente do conselho estudantil. Vamos chutar a bunda daquela entidade.
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Lorie voava à frente, a aura dourada rasgando a atmosfera. Logo atrás dela, Aegis, o imenso porco alado, batia suas asas com fúria, carregando David, Arthur e Helena.
O Grande Mestre Obscuro aguardava. Ele não estava sozinho. Ladeando-o como estátuas de pura malevolência, estavam os onze Líderes restantes da Unidade. Sem a contenção do mundo onírico, a energia corrompida que exalavam distorcia o próprio espaço ao redor deles.
Quando Lorie parou no ar, nivelando-se com a entidade cósmica, o silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer estrondo.
O Grande Mestre Obscuro ergueu o rosto pálido e ancestral. Os olhos, dois abismos sem fundo, fixaram-se na garota de dezoito anos. Ele não viu uma adolescente; ele viu a essência que moldou o início de tudo.
— Você retornou, Primeiro — a voz dele reverberou, grave e absoluta. — A ironia se completa. Você, que abriu as portas e condenou a humanidade à este caos veste a carne de uma das criaturas que tentou elevar. Olhe para o que você causou. A consciência original clama pela paz do vazio, e eu sou a cura.
Lorie não recuou. Seus pés descalços pairavam no ar como se pisassem em terra firme.
— Você não é a cura — Lorie respondeu, a voz carregando o eco de eras passadas misturado com a teimosia inconfundível da garota de subúrbio. — Você é apenas a consequência do meu erro. Mas hoje, eu conserto o que quebrei.
Os onze Líderes não esperaram. Eles avançaram como meteoros de escuridão em direção a nós
— Deixem eles conosco! vamos dar espaço pra Lorie e levar a batalha lá pra baixo — Arthur rugiu, a armadura samurai incandescente brilhando em um vermelho sangrento. Ele saltou de Aegis, caindo como um cometa sobre três Líderes simultaneamente, com sua espada ele cortou o ar golpes que criavam ondas de choque colossais no céu. levando quatro deles para o solo da cidade
Helena não hesitou. Com um movimento circular das mãos, a nevasca que a orbitava expandiu-se em uma tempestade glacial severa, a tempestade congelou 4 das figuras de sombra instantaneamente levando-os ao chão
David, com o relógio onírico brilhando infinitamente em seu pulso, sentiu a adrenalina queimar em suas veias. Ele não precisava se preocupar com limites.
— sempre foi arriscado te usar parceiro, mas agora não existe mais limite nenhum, Collosus!!! — ele gritou a plenos pulmões. uma gigantesca criatura feita de pedra apareceu em pleno ar, agarrando os ultimos Lideres e deixando a gravidade agir, ainda montado em Aegis David desceu para encarar seus adversario que agora caiam junto de collosus
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Ja em solo, olhei para cima, com o coração batendo na garganta, Podia sentir o poder da colossal batalha que ocorria nos céus, rajadas de luz e sombra colidiam no ar, estavamos a pelomenos trezentos metros de distancia, mas ainda assim podia sentir a pressão da batalha como se estivesse acontecendo ao meu lado.
mas então alguns segundos depois, tudo parou.
Não haviam mais explosões de luz . Não havia o choque de energias destruindo a atmosfera. Acima do nosso campo de batalha, a entidade colossal que consumia cidades inteiras simplesmente... parou.
Observei, paralisado enquanto o Grande Mestre Obscuro abria seus braços. O corpo pálido e a escuridão ancestral que o formava começaram a se dissolver. A matéria cósmica se desintegrou em uma fumaça densa, espessa e roxa, que girou no céu como um turbilhão invertido e voou diretamente em direção a Lorie.
Lorie não ergueu barreiras. Não invocou escudos. Ela apenas abriu os braços, e, diante dos meus olhos atônitos, permitiu que a entidade inteira — todo o peso esmagador do Mestre Obscuro — fluísse para dentro de seu próprio corpo.
Ela o absorveu completamente.
O céu explodiu em um clarão cegante de branco e dourado, tão forte que transformou a noite em um meio-dia ofuscante.
A reação foi imediata. Os onze Líderes que lutavam contra mim e meus pais paralisaram. Gritos de confusão rasgaram o ar enquanto eles perdiam seus poderes oníricos suavemente, destituídos de sua conexão corrompida.
A batalha havia acabado. Apenas o silêncio preenchia a atmosfera.
Devagar, como uma miragem se desfazendo, a metrópole de vidro começou a sumir. Os majestosos arranha-céus curvaram-se e voltaram a ser casas de alvenaria. O chão brilhante cedeu lugar ao asfalto molhado e rachado. O mundo real retornava, obedecendo às suas próprias leis, enquanto os primeiros raios do amanhecer começavam a pintar as nuvens de rosa e laranja, minhas criaturas iam se desfazendo ao mesmo passo, junto com os poderes dos meus pais.
Lorie desceu lentamente do céu, pousando suavemente no meio do cruzamento do seu bairro. A aura dourada ainda pulsava sob sua pele, mas a serenidade em seu rosto era absoluta.
Corri em direção a ela com as pernas trêmulas, o arrepio da vitória correndo por minha espinha, meu pai e minha mãe vindo logo atrás.
Joguei os braços ao redor de Lorie, puxando-a para mim com tanta força que tirei seus pés do chão. Ela retribuiu, afundando o rosto na curva do meu pescoço. Fechei os olhos, respirando o cheiro dela, sentindo o corpo quente e real contra o meu. O pesadelo tinha chegado ao fim.
naquela altura, a multidão estava ao nosso redor, eles observavam aa batalha de longe e agora se aproximavam lentamente e de longe junto a eles eu pude ouvir uma voz
— Lorie!
Abri os olhos e virei a cabeça.
Correndo pela calçada, com os cabelos desgrenhados e as roupas amassadas, estava dona Linry. Ela não olhava para as poças d'água, não olhava para mim, nem para os líderes inconscientes no chão. Seus olhos estavam cravados apenas na filha.
Lorie se desvencilhou do meu abraço e deu um passo à frente, as lágrimas finalmente transbordando.
— Mãe... — ela murmurou.
Dona Linry não freou. Ela colidiu contra Lorie, caindo de joelhos no asfalto e arrastando a filha junto com ela. As duas desabaram no chão, abraçadas num emaranhado desesperado. Linry soluçava tão alto que o som parecia vir do fundo da sua alma, as mãos agarrando as costas da filha, afagando os cabelos dela, tocando o rosto de Lorie repetidas vezes como se precisasse se certificar de que não era uma ilusão.
— Minha menina... minha Lorie... você voltou pra mim... — dona Linry chorava, beijando a testa, as bochechas, apertando Lorie contra o peito como se quisesse colocá-la de volta dentro de si para protegê-la do resto do universo.
Lorie chorou junto, os braços apertados ao redor do pescoço da mãe, a deusa cósmica dando lugar, mais uma vez, apenas à garota de subúrbio que sentia falta do abraço materno.
Fiquei de pé ao lado dos meus pais, observando a cena com um nó apertado na garganta. Olhei para o meu pai, que tinha o braço ao redor da cintura da minha mãe, ambos com expressões de alívio e olhos marejados.
O mundo estava a salvo. A ameaça havia evaporado. Mas enquanto eu observava Lorie abraçada à mãe, banhada pela luz dourada do amanhecer, notei algo. A luz que Lorie irradiava não havia desaparecido com o fim da batalha. Pelo contrário; ela continuava brilhando com uma intensidade suave, quase melancólica, como uma estrela perto do fim.
E no fundo dos olhos de Lorie, quando ela olhou por cima do ombro da mãe e encontrou o meu olhar, percebi que havia algo que ela ainda não havia nos contado.
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