Sinapsis
6 A minha mãe...
O trajeto da escola até a minha casa nunca me pareceu tão longo.
Nós havíamos sobrevivido ao resto do período de aulas sem levantar muitas suspeitas, embora na saída, a presença de David ao meu lado pelos corredores tenha rendido mais olhares e cochichos do que eu recebi na minha vida inteira. Para alguém que fez carreira sendo invisível, caminhar ao lado do presidente do conselho estudantil era o equivalente a andar com um alvo neon piscando nas costas.
Assim que o último sinal tocou, nós dois saímos quase em silêncio, caminhando lado a lado pelas calçadas arborizadas do meu bairro.
No meio do quarteirão, David puxou o celular do bolso, discou um número e levou o aparelho ao ouvido.
— Oi, pai. Sou eu — ele disse, o tom de voz assumindo uma seriedade militar que não combinava com a mochila jogada no ombro. — É, surgiu uma emergência Sinapster[...] Não, não dá pra resolver agora. Eu vou precisar dormir fora hoje. [...] Sim, eu sei, vou ter cuidado. Eu prometo que explico os detalhes amanhã de manhã. Um abraço, tchau.
Ele desligou, enfiando o celular de volta no bolso com um suspiro pesado. Eu o encarei, arqueando uma sobrancelha.
— "Emergência Sinapster"? Você avisa para os seus pais que vai combater seitas místicas em outra dimensão com a mesma naturalidade que alguém avisa que vai comprar pão?
David deu de ombros, as mãos afundadas nos bolsos da calça do uniforme.
— Meus pais também são Sinapsters. Eu meio que nasci no meio disso tudo — ele explicou, a voz tranquila. — Na verdade, eu ainda estou em treinamento. Meu objetivo final é me tornar um Mestre Sinapster, alguém que tem autonomia total para patrulhar por lá e combater a Unidade. Eles sabem que eu não quebraria o toque de recolher a menos que a situação fosse absolutamente crítica.
— E eu sou uma situação crítica.
— Acredite, Lorie, você é a foto que estampa a definição de "situação crítica" no nosso dicionário. — Ele me olhou de canto, e então a expressão analítica dele deu lugar a uma preocupação muito mais mundana. — Falando em família... a minha barra está limpa. Mas e a sua? Como exatamente você pretende explicar para sua familia que um garoto do colégio vai dormir no chão do quarto numa noite de quinta-feira?
Eu revirei os olhos, ajeitando a alça da mochila no ombro. Todo aquele estresse de física interdimensional estava me fazendo esquecer dos problemas reais e práticos da vida de uma adolescente.
— Relaxa. Minha mãe é super tranquila. Na verdade, ela é meio avoada. Vive no mundo da lua, alem disso, sempre foi apenas, eu e ela contra o mundo sabe...ela quase nunca questiona as minhas coisas porque eu, historicamente, nunca dou trabalho. Se eu agir com naturalidade e disser que é para um projeto de escola de última hora, ela provavelmente nem vai falar nada. Vai oferecer um lanche e voltar a fazer as coisas dela…
David pareceu cético, levantando uma sobrancelha, mas não retrucou.
Quando chegamos à minha casa, destranquei a porta da frente e entrei. O cheiro doce e reconfortante de bolo de cenoura pairava no ar da tarde. Minha mãe estava na cozinha, cantarolando baixinho uma música antiga enquanto passava um pano na bancada.
— Oi, mãe. Cheguei — anunciei, tentando manter a voz no tom mais monótono e neutro possível.
Ela se virou, abrindo o sorriso de sempre.
— Oi, filha! Como foi a au—
As palavras morreram na boca dela quando David pisou na cozinha logo atrás de mim. Os olhos da minha mãe se arregalaram levemente, iluminando-se com uma surpresa genuína. Ela olhou para ele, depois para mim, e um sorriso largo e muito mais animado do que o normal tomou conta do seu rosto.
— Mãe, esse é o David — apresentei, rápida e direta, rezando para o meu plano de "naturalidade monótona" funcionar. — Ele é do conselho estudantil. A gente tem um projeto enorme para entregar amanhã e não deu tempo de terminar na escola. Ele vai ter que dormir aqui hoje para a gente virar a noite trabalhando, tá bom?
Minha mãe largou o pano de prato e secou as mãos no avental, os olhos brilhando de um jeito que me deixou imediatamente desconfiada.
— Mas que surpresa maravilhosa! É um prazer, David. A Lorie nunca traz ninguém em casa, eu já estava achando que ela ia morar naquele quarto para sempre! — ela disse, com uma doçura maternal que exalava segundas intenções.
— O prazer é todo meu, dona... — David sorriu, educado e ligeiramente sem jeito, usando a voz de bom moço.
— Pode me chamar de Linry, querido! — Ela se virou para mim, dando um tapinha no meu braço. — Filha, vem cá um instantinho me ajudar a pegar os pratos para o bolo. David, sinta-se em casa!
Ela me puxou para o canto da cozinha, perto da despensa. Era longe o suficiente para ele não ouvir com clareza, mas perto o bastante para que a situação fosse insuportavelmente constrangedora.
Assim que estávamos de costas para ele, minha mãe apertou meus ombros e sussurrou, com um sorriso de orelha a orelha:
— Lorie! Que menino lindo! E tão educado! — ela deu um gritinho mudo de empolgação.
— Mãe, pelo amor de Deus, abaixa o tom. É só um trabalho — sussurrei de volta, sentindo meu rosto começar a esquentar de vergonha.
— sei, sei..."trabalho" — ela fez aspas no ar com os dedos, dando uma piscadela cúmplice. — Filha, você não precisa esconder de mim. É tão importante nessa idade a gente se descobrir, sabe? Ter alguém com quem trocar umas confidências, ouvir uma música juntos no quarto...
— Nós vamos estudar biologia e geografia, mãe! Mapas! Células! — menti desesperadamente, agarrando a pilha de pratos de sobremesa como se a minha vida dependesse daquilo.
— Tá bom, meu amor, a mãe finge que acredita na geografia — ela riu baixinho, ajeitando meu cabelo atrás da orelha com carinho. — Olha, eu vou deixar o bolo e uma jarra de suco lá no quarto pra vocês daqui a pouco, e depois vou para a sala. Podem fechar a porta e ficar à vontade, tá? Se quiserem assistir um filme depois do "trabalho", eu não vou incomodar de jeito nenhum. Estou muito orgulhosa de você, ele é um encanto.
Eu fechei os olhos com força, querendo derreter e escorrer pelo ralo da pia. Era aquele tipo de apoio maternal que parecia muito fofo nos filmes de domingo à tarde, mas que na prática era uma tortura psicológica absoluta.
Quando me virei de volta, a situação conseguiu piorar.
David estava parado no meio da cozinha, segurando a alça da mochila com as duas mãos. Ele olhava fixamente para os azulejos do chão, e as pontas das suas orelhas estavam tão vermelhas que pareciam prestes a entrar em combustão espontânea. A minha mãe podia achar que estava sussurrando, mas ele era uma pessoa extramamente observadora, quase como um monge, A audição e a percepção dele provavelmente cobriam um quarteirão inteiro. Claro que ele tinha escutado cada sílaba.
O garoto que controlava porcos comedores de energia mortal completamente derrotado por uma mãe de subúrbio.
— Vamos logo — resmunguei, passando por ele como um furacão, agarrando-o pela manga da jaqueta e puxando-o em direção ao corredor. — O bolo a gente come depois. Tchau, mãe!
— Bom trabalho, crianças! Não estudem demais! — a voz doce e levemente cantada dela ecoou pela casa.
Arrastei David para dentro, bati a porta do meu quarto e girei a chave na fechadura. Encostei a testa na madeira fria, soltando a respiração que eu nem sabia que estava prendendo.
Atrás de mim, David soltou um longo suspiro, largando a mochila no chão com um baque surdo.
— "Ela vive no mundo da lua" — ele murmurou, a voz fina e estrangulada pelo constrangimento. — "Ela não vai nem reparar."
— Calado! — resmunguei, ainda com a testa na porta e os olhos fechados. — Só me diz logo como é que a gente constrói esse maldito escudo de energia, antes que eu morra de vergonha.
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