Sinapsis
7 Duelo REM
O meu quarto nunca pareceu tão pequeno.
Naquela noite, a gente "fingiu" estudar juntos por aproximadamente duas horas, ocasionalmente podiamos ver minha mãe dando leves "espiadinhas" pela porta e rindo baixinho, nos comprimentando em seguida e perguntando se precisavamos de algo, até que em certo momento ela anunciou que estava indo dormir, e falou para ficarmos a vontade.
Eu estava sentada na beirada da cama, abraçada aos meus joelhos, observando David desenrolar um colchonete extra que eu guardava no armário. Ele arrumou tudo no chão, ao lado da minha escrivaninha, com uma naturalidade que me irritava um pouco.
— Você faz muito isso? — perguntei, quebrando o silêncio. — Invadir o quarto de garotas com a desculpa de salvar a vida delas?
Ele riu fraco, jogando o travesseiro no colchonete e sentando-se de pernas cruzadas.
— É a primeira vez, para o seu alívio. Meu treinamento até agora foi mais focado em teoria e em duelos pacificos contra outros Sinapsters, não em proteger uma Desperta natural na mira da Unidade.
— E por que você faz isso? — soltei, a curiosidade superando o constrangimento. — Digo, você tem a vida perfeita na escola. É popular, presidente de conselho. Por que arriscar a vida fritando o próprio cerebro em duelos contra uma seita de engravatados?
David levantou-se e olhou pela pequena janela do meu quarto, em uma pose levemente estóica
— Porque eu olho para o mundo físico e vejo valor nele. A Unidade não quer simplesmente nos destruir, Lorie. Eles querem nos "curar". Para eles, o fato de termos nos separado da mente coletiva original e nos tornado indivíduos isolados é uma anomalia, um erro cósmico que só gera solidão, atrito e sofrimento. Eles querem quebrar os selos para nos devolver a esse oceano único e pacífico.
Ele me olhou, os olhos escuros refletindo a luz fraca do abajur.
— Mas a nossa dor, os nossos medos, as nossas memórias secretas... é exatamente isso que nos dá contorno. É o que separa você do resto do universo. Se eles vencerem, nós não morremos, mas deixamos de existir. Nós viramos um eco sem rosto, uma gota envolta no oceano, onde ninguém sofre porque lá, ninguém é ninguém. Eu quero ser um Sinapster porque eu prefiro carregar o peso, o medo e as falhas de ser exatamente quem eu sou, do que me render à paz absoluta de não ser nada.
Olhei para ele fascinada por 1 ou 2 segundos, mas rapidamente disfarcei o encanto e respondi
— muito profundo, obrigado por compartilhar isso comigo…
ele então quebrou um pouco a tensão e disse com uma curiosidade contagiante.
— E você, Lorie? Você podia só ter ignorado aquela porta do seu sonho…entrou nessa por pura curiosidade, mas agora que sabe de tudo, Por que quer tanto lutar?
Respirei fundo, procurando as palavras certas.
— Porque a minha vida inteira eu fui só uma pessoa mediana. Alguém que não faz diferença nenhuma, que fica no banco de trás assistindo a vida passar. Ninguém invadiu meu espaço. Fui eu que abri aquela porta. Por pura curiosidade, sim, mas agora, Eu sinto que eu fiz isso por algum motivo, e eu preciso descobrir o porquê. Além disso... depois do que aconteceu com o prefeito, ficou claro que a Unidade é uma ameaça para todo mundo. Eu cansei de ser só a garota invisível e medíocre. Se eu tenho algum poder nisso tudo, eu vou usar.
Ele assentiu lentamente, com um respeito silencioso que mudou a energia entre nós.
— Certo. Então precisamos que você durma. Como a sua energia está bloqueada por mim, você não vai simplesmente aparecer no seu sonho. Vai estar tudo escuro. Você vai ter que forçar o acesso. Gerar uma pequena fagulha de energia REM lá dentro, só o suficiente para que eu possa detectar a sua porta e desfazer o selo que fiz
Eu bufei, me jogando de costas no colchão e encarando o teto.
— Fácil falar. Como você espera que eu apague e ainda faça força mental sabendo que tem uma seita me caçando e um garoto no chão do meu quarto? Meu cérebro está a mil por hora.
David deu uma risadinha e se levantou, parando ao lado da minha cama.
— Fecha os olhos — ele instruiu.
— David, se você vier com papo de contar carneirinhos, eu te expulso daqui.
— Só fecha os olhos, Lorie.
Suspirei e obedeci. Senti o colchão afundar levemente quando ele se sentou na beirada. De repente, ouvi um som rítmico, suave. Um estalar de dedos, acompanhado por uma respiração profunda e compassada dele.
— Foca no som — a voz dele soou mais grave, num tom quase hipnótico. — É uma indução de frequência. Nós usamos para forçar o cérebro a pular as fases leves do sono e mergulhar direto no sono profundo. Acompanha a minha respiração.
No início, achei que não ia funcionar. Mas o ritmo era incrivelmente envolvente. Estalo. Puxa o ar. Estalo. Solta o ar. Aos poucos, a tensão nos meus ombros derreteu, e minha consciência escorregou para o fundo.
Mas não havia céu azul. Não havia gravidade zero. Eu estava imersa em um breu absoluto, uma escuridão espessa e limitante. Era o bloqueio de David.
Uma fagulha, lembrei a mim mesma.
Fechei os "olhos" dentro do próprio vazio e tentei lembrar da sensação de voar. Da leveza. Concentrei minha vontade, empurrando a escuridão como se ela fosse uma parede física. A resistência era enorme, mas eu me recusei a ceder. Forcei mais, focando na raiva da minha própria mediocridade, na vontade de abrir a porta.
De repente, um estalo de luz rompeu o escuro. Uma pequena centelha azul brilhante.
No mesmo instante, a restrição desapareceu. Foi como se um intenso nevoeiro escuro estivesse se dissipando O céu azul e profundo explodiu acima de mim, a cidade se materializou sob os meus pés, e senti como se uma energia transbordasse de mim.
Caminhei apressada até a porta de madeira escura no meio da avenida. Respirei fundo, girei a maçaneta e empurrei.
A transição me esmagou com a pressão densa de Sinapsis, mas eu me mantive de pé no corredor infinito de portas.
— Nada mal para a primeira vez — a voz de David soou ao meu lado.
ele estava bem de frente a minha porta. A postura era relaxada, agora com mais calma eu pude perceber um pouco melhor sua aparecia naquele mundo, ele parecia um super heroi vestido com um sobretudo branco, faixas de uma energia azul, passavam por esse sobretudo e estavam conectadas a estranhos simbolos que eu desconhecia, por dentro do sobretudo ele vestia uma camiseta regata totalmente preta e calças da mesma cor levemente folgadas, mas que caiam muito bem nele,
ele reparou que eu o observa de cima a baixo e me provocou dando um sorriso.
— nada mal pra um garoto que invoca porcos não é?
mas antes que eu pudesse retrucar algo, o ar à nossa frente distorceu violentamente.
Dois estranhos portais de energia negra romperam o espaço a nossa frente. Deles, saíram dois homens de terno.
Senti meu coração falhar, mas David deu um passo à frente, cobrindo o acesso à minha porta, e sorriu de canto.
— Sabe de uma coisa, Lorie? Nós demos sorte. E essa é uma excelente oportunidade para a sua primeira aula.
Os dois agentes ergueram as mãos, a energia começando a se condensar de forma instável. em volta de nós quatro, uma enorme redoma de energia se formou.
— Quando duas ou mais mentes colidem seu REM dentro de Sinapsis, a propria Sinapsis, quase como se fosse um sistema imunologico, cria essa redoma de energia, dela nada escapa, até que o duelo termine. — David falava como se fosse um NPC de um RPG aleatorio.
— Presta atenção — David disse, erguendo o pulso esquerdo. Havia um relógio no braço dele que eu não tinha notado antes. O mostrador não tinha ponteiros, apenas doze marcadores de horas que brilhavam em um tom de azul puro. — Todo Desperto desenvolve um Sistema de Energia para quantificar e administrar seu poder. O meu é esse relógio. Usar habilidades gasta sua energia REM
Ele apontou o dedo para os agentes, que avançavam rapidamente.
— Eu sou um Invocador. Crio bestas com habilidades únicas. Se a besta causar dano direto à energia inimiga, a ação não me custa nenhum ponto de REM. Se eu falhar, o custo é cobrado das minhas "horas".
Os agentes dispararam. Dois feixes letais de energia vieram rasgando o corredor diretamente na nossa direção.
David não piscou.
— Aegis! — ele bradou levantando uma das mãos.
O ar espiralou e a mesma criatura bizarra da noite anterior apareceu em sua frente: o porco com asas. O bicho abriu a boca desproporcional e engoliu os dois ataques com um ruído seco.
Olhei para o relógio de David. Um dos marcadores azuis, saiu da posição 12 para a posição 10
— Algumas habilidades defensivas ou de transporte, como o meu porco, têm cinquenta por cento de chance de custar energia REM, não importa se funcionem ou não — ele explicou de forma didática, enquanto o porco desaparecia em fumaça. — Perdi essa aposta. Mas agora... a ofensiva.
— Lupus. — gritou ele
O chão reflexivo de Sinapsis vibrou quando duas feras espectrais — lembrando lobos feitos de relâmpagos dourados — saltaram das mãos dele. Eles atingiram os engravatados em cheio. A estrutura onírica dos dois homens cedeu sob a pressão bruta do impacto, fragmentando-se em milhares de pedaços brilhantes antes de evaporarem no ar. O corredor voltou ao silêncio. lentamente a Redoma de energia que se formou entre nós foi se dissipando.
Os marcadores no relógio de David permaneceram inalterados.
— Dano direto. Custo zero — ele sorriu, virando-se para mim. — Fim da aula.
— Você...matou eles? — questionei um pouco temerosa, a adrenalina pulsando nas veias.
Não, eu usei uma das minhas invocações mais fracas, usei apenas a força suficiente para Ejetar eles de Sinapsis, provavelmente agora tão acordados morrendo de dor de cabeça.
suspirei um pouco mais aliviada, mas ainda impressionada pelo fato daquele ser um dos ataques "mais fracos" e então me lembrei do que ele tinha dito antes.
— era...uma emboscada para mim?
— Sim, mas calcularam muito mal — ele respondeu, caminhando até a minha porta e colocando a mão sobre a madeira. sua mão começou a brilhar enquanto simbolos estranhos começavam a surgir na minha porta.
— Eles sentiram a sua fagulha, mas mandaram apenas dois agentes de nível baixo. Provavelmente não esperavam que você estaria acompanhada, muito menos por mim. A nossa sorte foi que eles te subestimaram
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