Sinapsis
5 A Unidade
A sala mergulhada em penumbra era silenciosa, exceto pelo zumbido constante dos servidores que forravam as paredes. As telas ao redor não exibiam batimentos cardíacos, mas gráficos complexos — ondas cerebrais que subiam e desciam em um ritmo hipnótico, mapeando frequências que a ciência tradicional sequer sabia que existiam.
O líder da Unidade — o mesmo homem do terno impecável que na noite anterior matou o prefeito de forma fria e cruel — observava os picos de energia nos monitores com uma satisfação gélida. Ao fundo, uma televisão no mudo exibia o noticiário ininterrupto sobre o vazamento de corrupção e a morte do prefeito.
O político em si nunca importou. Ele fora apenas um Tolo útil, uma ferramenta descartável. O que realmente importava era a reação em cadeia.
A mente humana, quando isolada em seu próprio mundo desperto, é caótica e contida. Mas emoções extremas como o choque, o medo e, principalmente, a revolta coletiva têm um poder magnético. Quando milhares de pessoas em uma mesma cidade experimentam a mesma frustração massiva e vão dormir com esse peso, o corredor de Sinapsis fica turbulento. A uniformidade desse sentimento espelha a antiga consciência original. A energia se alinha.
O homem de terno tocou a borda fria do painel de controle. Era um processo de colheita. Aos poucos, através da fenda deixada pela invasão ao sonho do prefeito, eles estavam sugando essa tempestade emocional bruta gerada pelos cidadãos e canalizando-a para a redoma de vidro no centro da sala.
Ali, mergulhado em um coma induzido há décadas, repousava o Primeiro. O Grande Mestre Obscuro. O homem que entendeu que a individualidade era uma doença. O corpo físico dele definhava, mas cada gota de indignação coletiva injetada em sua mente o aproximava do despertar.
os monitores ao qual o lider olhava marcavam 60% o numero crescia a passos extremamente curtos, cada nova revolta cidadã, fazia esse numero crescer um pouco, mas depois de quase 20 anos alimentando-o mal tinha passado da metade necessaria para que o plano fosse completado.
Aquela cidade era apenas mais um ponto de coleta. mas o lider, lembrou-se da garota que transbordava energia pura a poucas noites atrás, poderia ela ser a fonte que eles tanto buscavam?
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O som estridente do segundo sinal do primeiro horario cortou o silêncio do corredor, me fazendo dar um sobressalto. A tensão daquela manhã insana me sugou de volta para a realidade.
David suspirou, desencostando da parede de tijolos e ajeitando a mochila sobre o ombro. O desconforto da nossa última conclusão ainda pairava no ar denso entre nós.
— Nós precisamos voltar antes que deem falta da gente — ele disse, a voz assumindo aquele tom prático e apressado de representante de turma.
— Espera — eu o segurei pela manga do uniforme antes que ele pudesse se afastar. — Eu ainda não entendi uma coisa básica. primeiro, como você me achou aqui na escola, e segundo, Se a gente só precisa que eu acesse a minha porta para você erguer esse tal escudo, por que eu não posso simplesmente deitar na maca da enfermaria agora, tirar um cochilo de meia hora com você do lado, e a gente resolve isso de uma vez? Por que tem que ser... à noite? Na minha casa?
Ele parou, o olhar impaciente suavizando um pouco, substituído por um tom professoral.
— não sei se você reparou mas, sua estrutura onirica em sinapsis...usa o uniforme da escola. — ele apontou para a plaquinha em meu peito, grudada no uniforme, nele estava escrito em Romaji "Lorie"
ele então se virou pra mim assumindo uma postura explicativa
— Alem disso Sinapsis não abre as portas para cochilos, Lorie — ele explicou. — Você não atravessa a fronteira só porque fechou os olhos. O cérebro precisa mergulhar nas fases mais profundas do sono REM, o que exige ciclos completos, relaxamento absoluto e tempo. Uma soneca à tarde mal te leva à superfície do seu próprio cenário. Para a sua energia transbordar no corredor ao ponto de você se tornar presente em Sinapsis, você precisa de uma noite inteira de sono pesado. física onírica básica.
Esfreguei o rosto com as duas mãos, sentindo uma dor de cabeça começar a pulsar nas têmporas.
— Ótimo. Física onírica. Claro — resmunguei. — Então me explica outra regra dessa física: por que eu fui completamente inútil lá fora? No meu espaço, no mundo que eu criei, eu anulo a gravidade, dobro prédios, mudo o céu. Lá no corredor, eu não consegui sequer acender uma luz. O chão parecia me puxar para baixo, por quê?
David me encarou com seriedade, escolhendo as palavras com cuidado.
— Pensa nisso como o oceano — ele começou. — O seu sonho, aquele lugar onde você tem controle absoluto, é o seu submarino. É o seu espaço pessoal, fechado, mantido com o seu ar e a sua pressão. Você dita as regras ali dentro, porque tudo aquilo é gerado única e exclusivamente pela sua mente.
Ele desenhou um círculo imaginário no ar.
— Mas quando você abre a sua porta e sai para o corredor... você está saindo do submarino e mergulhando no oceano profundo. Você está pisando na estrutura base de Sinapsis. E lá, a gravidade e o ambiente são sustentados pela soma de bilhões de mentes humanas conectadas. É a pressão das profundezas. Você não pode simplesmente cancelar a gravidade com um pensamento, porque o peso coletivo da realidade lá fora é infinitamente maior do que a sua vontade individual.
Fiz uma careta, compreendendo finalmente a sensação de confinamento e resistência esmagadora que senti ao pisar naquele chão reflexivo.
— Certo. Então eu sou fraca em Sinapsis. A garota inútil de sempre.
— Ninguém é um deus em Sinapsis, Lorie. Nem nós.— ele corrigiu, sério. — Mas existem maneiras de dobrar as regras temporariamente. Aqueles agentes da Unidade não alteram o ambiente inteiro. Eles concentram a energia REM deles em pontos extremamente específicos para forçar a realidade coletiva a ceder por um segundo. É assim que eles materializam aquelas armas. E é assim que nós lutamos contra eles.
— Lutar? — a palavra soou estranha e afiada na minha língua.
— Nós chamamos de Duelos REM — ele explicou, a voz baixando. — É um embate de vontades brutas. Você canaliza o REM que acumulou em seu espaço e o projeta contra o REM do seu adversario. Se a sua mente for mais forte, o ataque do outro quebra. Se você for mais fraca... a sua estrutura onírica recebe o impacto.
Na hora me lembrei da morte do prefeito.
— E você morre?
— Não de primeira — ele balançou a cabeça. — Quando você perde um duelo REM, sua estrutura cede e você é ejetada de Sinapsis. Acorda de forma abrupta no mundo real, com o coração acelerado, como você fez hoje cedo. A sua porta fica bloqueada, e você não consegue voltar para lá por algumas horas.
Soltei um suspiro aliviado.
— Então não é letal.
— Não seja ingênua — o olhar dele endureceu, não me deixando escapar da realidade da situação. — Cada derrota cria uma microfratura na sua psique. Se você perder muitas vezes e ultrapassar um certo limite, ou receber um ataque direto que o extrapole, o seu cérebro sofre um colapso irreversível. E aí, sim, você morre. o limite é diferente de pessoa pra pessoa.
— E o prefeito? — perguntei, sentindo um gosto amargo. — O limite dele era zero?
— Ele era um Tolo. Tolos não têm nenhuma proteção inata, Eles não resistem expostos a sinapsis, nem mesmo a um ataque de REM. Um ataque direto em um tolo causa a desconexão absoluta, o que leva à parada cardiorrespiratória aqui.
O silêncio caiu pesado entre nós. A ideia de que a minha vida agora dependia de uma métrica invisível de "fraturas mentais" me deu vertigem.
— Olha — David continuou, parecendo cansado —, eu sei que a ideia de eu ir para a sua casa hoje é desconfortável. Mas não tem outro jeito. Se eu não destrancar o seu acesso o quanto antes. para que você volte a acumular energia REM, você vai começar a sentir os efeitos de privação de REM, e se eu não estiver fisicamente do seu lado para erguer o escudo de ancoragem na mesma hora... a Unidade vai rastrear a sua porta antes que possa imaginar.
Eu soltei a manga dele, dando um passo para trás. A vida inteira eu observei o mundo por trás das cortinas. Fui o cenário, indiferente. Foi nos meus sonhos que eu encontrei o meu lugar. descobri que não precisava ser invisível. E agora, até mesmo lá, eu estava sendo reduzida a uma vítima em potencial.
A indignação superou o medo. Eu me recusava a aceitar aquilo. Não no único lugar onde eu sempre pude ser eu.
— Eu aceito que você vá lá para casa hoje — falei, erguendo o queixo e sustentando o olhar dele com uma frieza que eu nem sabia que possuía. — Mas você vai fazer mais do que apenas me proteger.
Ele estreitou os olhos.
— O que você quer dizer?
— Eu nasci com esse poder inato não é? transbordando de dentro de mim, uma Desperta Natural como disse mais cedo.
— Teoricamente. O seu REM inato deve ser absurdo, mas...
— Então me ensina a usá-lo — decretei, a voz não tremendo nem por um segundo. — Você vai me treinar, David. Se eu vou ter que voltar para aquele mundo com pessoas querendo fazer sabe-se lá o que comigo, eu me recuso a ser apenas a garota indefesa que você tem que proteger. Me ensina a me defender, me ensina os Duelos REM, me ensina a atirar de volta.
David me encarou por um longo tempo, os músculos do maxilar tensos.
— Lorie, ser um sinapster não é uma brincadeira. vivemos em uma guerra contra a Unidade, eu não quero trazer qualquer pessoa que não precise para esse mundo.
— Se eu não souber lutar, o meu destino ja está traçado. O prefeito não sabia se defender e olha o que houve com ele.
Ele buscou qualquer traço de blefe ou hesitação no meu rosto. Não encontrou nenhum. Com um suspiro pesado, o garoto de ouro da escola passou a mão pelo cabelo, derrotado pela lógica da garota invisível.
— Tudo bem — ele assentiu lentamente, a expressão sombria. — Vamos erguer o seu escudo esta noite. E amanhã...eu te mostro como é que se sobrevive em Sinapsis.
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