Simplesmente para Provar que Eu Existo...
4 Mariposa
Notas iniciais
Mizu acorda apavorada e ofegante, temo que ela ainda esteja... má.
–Dare... – ela me olha com lágrimas nos olhos – O que houve?
–Esperava que você soubesse – falei com receio – Acabei dormindo. Não lembra de nada?
–Lembro que as trevas estavam em volta de mim, eu estava gritando e sentia muita dor. Mas não sei o que aconteceu depois. – diz Mizu chorosa – Você se machucou por minha causa?
Mizu começa a chorar, nem parece à mesma garota que tinha dito sádica aquelas palavras enquanto dormia. Como ela está chorando não tem problema eu abraçá-la para reconfortá-la. O faço.
–Não chore Mizu, agora está tudo bem, nós estamos bem.
–Eu estou com medo Dare, estou com medo de ser dominada pelas trevas.
–Eu não vou deixar que isso aconteça, vou protegê-la – prometo, mas não tenho certeza de que conseguirei.
–Mas como se não consegue nem se proteger direito? – ela não quer ser rude, mas está me chamando de fraca e não gosto disso – Eu sou só um peso a mais pra carregar, não é?
–Não – minto – Você... vai me ajudar a derrotar as trevas.
–Não vou conseguir.
–Tenha mais fé em si mesma – digo tanto pra ela quanto pra mim mesma.
–Por que você quer derrotar as trevas? Eu acho que quero isso por medo. E você? – ela questiona.
Essa é uma boa pergunta, não é só para saber quem sou e onde é meu lugar. Eu quero ser vista e ouvida pelo mundo, quero parar de me sentir invisível...
–Quero derrotar as trevas para provar que eu existo – conto.
–Mas você existe, não entendo.
–Meu nome é “Ninguém”, todos fingem que sou invisível, os dias são todos iguais e não suporto viver a vida inteira sem ser vista e lembrada pelos outros. Preciso provar minha existência, mostrar que não sou uma ninguém, fazer algo grande para que finalmente me amem – explico.
–Acho que compreendo, ninguém nos vê ou sabe que existimos. Não há significado em nossa existência, precisamos achar um – assimila Mizu – Talvez eu também queira isso.
–Então tome coragem e vamos seguir em frente – me levanto e percebo que não sinto dor – Como que depois de toda aquela luta eu não sinto nada?
–Eu também não, talvez nós tenhamos eliminado todas as trevas em nós por isso estamos bem – palpita Mizu, não tenho certeza, a imagem dela dormindo com aquele sorriso não sai de minha cabeça.
Vejo que estou sem minha máscara e a pego para cobrir meu rosto.
–Você vai colocar isso de novo? – Mizu parece triste – Por que coloca a máscara? Você é linda! Não esconda essa beleza por trás de um disfarce.
–Linda? – não consigo conter o riso de deboche – Eu sou horrível, não vê? Um monstro...
Começo a chorar sem querer, minha verdadeira face é deprimente demais pra mostrar.
–Não chore – pede Mizu – Todos temos um lado sombrio, mas o seu nem transparece, você é boa e cheia de luz, quer me proteger e derrotar as trevas. Está agindo como uma heroína.
–Heroína...é tudo o que eu queria ser...
–E vai ser, acredite, você é capaz de alcançar – ela segura minha mão e sorri – O mundo que você procura está mais perto do que imagina.
–Do que você está falando? – fico impressionada por ela saber que procuro um mundo melhor pra mim.
Ouço um grito vindo de longe e isso me tira dos pensamentos, alguém corre pela floresta com as mãos nos ouvidos, é uma garota com asas negras nas costas e cabelos bem negros e ondulados. Não sei de quem ela foge, mas quando chega perto de nós para.
–Quem são vocês? – ela pergunta ofegante.
–Do que está fugindo? – indago ignorando sua pergunta.
–Das trevas – responde, ela tem símbolos no rosto.
–Qual seu nome? – questiono.
–Mari.
As trevas se aproximam e grito:
–Cuidado!
Mari corre rapidamente pra perto de mim, a escuridão vem e eu fico com raiva disso, não é justo isso nos perseguindo toda hora, não tenho descanso nunca!
–Agora vocês não vão me incomodar! – grito com Mizu e Mari atrás de mim.
As trevas chegam a nós, mas não vão na gente, só dá um vendaval momentâneo e elas nos contornam. Engulo em seco. Será que fui eu quem as afastei?
–Que aconteceu? – Mari e Mizu questionam em uníssono.
–Não sei – falo de olhos arregalados, é realmente estranho.
–Bem, de qualquer forma. O que as duas fazem no meio da Floresta dos Corações Corrompidos? – pergunta Mari.
–Nós... – Mizu começa a falar cabisbaixa como se estivesse com vergonha -...vamos derrotar as trevas.
–Sério? Como? – Mari fica admirada.
–Queremos provar que existimos – conta Mizu – Não agüentamos ser invisíveis.
–Nossa! Quem são vocês?
–Eu sou Dare e ela é Mizu – nos apresento.
–“Dare”, do tipo “ninguém”? Que estranho!
–É que ainda tenho de descobrir quem sou – explico.
–Como se você fosse...falsa.
Olho para o chão, ela tem razão, sou falsa e suja.
–Desculpe, nunca conheci alguém assim – ela se desculpa.
–Tudo bem – ajeito minha máscara, não quero mostrar que estou frustrada. Não importa como Mizu me olhe, só quero fugir disso tudo – Você sabe onde é Kusatta Kankyo?
Mari arregala os olhos como se eu tivesse dito algo proibido.
–Que foi? – Mizu fica confusa.
–Isso é verdade mesmo? Querem morrer? – Mari está pasmada.
–Não vai fazer diferença eu morrer ou não, parece que sou um fantasma, não seria difícil me acostumar – zombo.
–Não brinca, Kusatta Kankyo como o próprio nome diz, é um lugar apodrecido. Foi lá que as trevas nasceram, ninguém nunca saiu vivo pra contar como é o demônio que massacra as pessoas, nem os mais corajosos têm a audácia de enfrentá-lo. Vocês são loucas? Ou querem uma morte terrível e dolorosa pelo demônio?
–Não precisam vir se não quiserem – digo – Eu não tenho o que perder se morrer, vocês não sei, mas ainda preciso provar minha existência. Fui mandada numa missão e cumprirei.
–Quem foi o louco que te mando numa missão assim?
–Morte – respondo.
–Quem? – elas não entendem.
–A Morte me trouxe a esse mundo eu para que eu derrotasse as trevas, descobrisse quem sou e onde é meu lugar. Porque no meu mundo eu não sou bem-vinda.
–Mas pra isso tem de se matar? –Mari tenta me dissuadir.
Não sei o que dizer, me viro e começo a andar, já está amanhecendo e eu ainda tenho um longo caminho pela frente.
–Ei, nós já vamos? – pergunta Mizu.
–Você e Mari não vão, voltem pra onde vieram ou sei lá – ordeno.
–Mas eu quero ir junto – choraminga ela.
–Pois não vai! – me altero, minha máscara cai.
As duas estão assustadas, percebo que estou com o punho posicionado para um soco. Meu coração se acelera de receio e coloco a máscara rapidamente.
–Me perdoem – peço desculpas – Se é tão perigoso assim é melhor não virem, mas eu não posso deixar que tudo continue assim. Morte disse que as coisas só pioraram daqui pra frente, as trevas dominarão tudo e não existirá mais amor no mundo. Então preciso fazer algo.
Continuo a andar, sem ligar para os murmúrios de Mizu. Até que Mari grita:
–Espere! – e eu paro – Se isso for acontecer eu...acho que...vou junto. Admito que tenho medo de morrer, mas seria muito horrível se não existisse mais amor. Quero lutar.
–Eu também – concorda Mizu.
–Mas...
–Não adianta dizer não, vamos segui-la, não pode nos impedir, iremos até Kusatta Kankyo pra lutar contra as trevas – Mari decide.
Não sei por que, mas tiro minha máscara e sorrio.
–Podem vir!
–Eh! – elas correm e me abraçam.
–Ei! – protesto meio rindo – Não gosto de...tudo bem.
Fico feliz por ter conseguido amizades apesar da discussão anterior, mas me preocupo com elas, não posso deixar que morram na batalha contra as trevas. Devo estar preparada pra me sacrificar por elas, devo protegê-las.
De repente vejo uma sombra negra e tenebrosa no meio das árvores, sinto trevas, sinto um poder sombrio enorme como se ela fosse a pior das trevas. Não consigo expressar o que acontece comigo nesse momento, parece que estou vendo...eu mesma, minha verdadeira “eu”, meu lado negro. Quase desmaio e ouço a sombra falar, ou melhor, cantar assustadoramente:
–“Hakidashite sarakedashite
Hontou no jibun wo
Minikukute migurushikute
Subete kowashitai kedo
Kono sekai de jibun no imi ga
Tanin ni kimesareru na
Koko ni iru sonzai shoumei o
Sakebe! Ikite iru kagiri!”
Koroshite! “Onore wo shimese!”
Tradução:
Cuspa e diga
Sua verdadeira personalidade
Pode ser feio, pode ser repugnante
Mas ainda quer destruir tudo
Qual o significado de sua existência nesse mundo?
Só pode ser decidido por você mesmo
Você está aqui então provou que existe
Grite! Gostando de estar vivo!
Mate! Mostre quem realmente é!
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Uma das garotas, Nightmare, a garota quebrada. De tanto que matou foi parar num lugar horrível. Lá ela tinha de lutar com monstros ou sofrer, e ela não se entregaria à dor. Lutou e enlouqueceu cada vez mais. Ela e ele, e tudo, e o Inferno estavam ruindo, quebrando, eram monstros lutando.
A outra garota chegou a poupar um garotinho e fez dele seu aliado. Ele não queria matar, mas também não queria morrer, então teve de sujar as mãos com sangue. Deixou as trevas o dominarem e enegreceu seu coração. Acabou matando a própria família e não pôde conviver com a culpa em si...
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