Notas iniciais
Então vamos começar os trabalhos

— Nossa Milo vem ver o ruivo que se mudou para a casa da frente! –Marin se debruçou sobre o encosto do sofá para observar a mudança do novo vizinho –Não sabia que o Saga tinha conseguido vender a casa.

— Não sabia mesmo Marin? Existe alguma coisa que acontece nessa rua você não saiba? – Milo acompanhou o tufo negro que passava atrás do sofá em direção a porta – Ikki!

Milo Savalas parou de arrumar a estante de livros para observar o pequeno Ikki retroceder com um bico enorme nos lábios.

— Milo, acho que precisa trocar a cueca do Shun. – Aiolia vinha com os braços esticados e no fim deles um menininho de cabelos castanhos e lindos olhos verdes.

— Ah não de novo não! Shun é para pedir para usar o sanitário! – Milo pegou o filho que apenas mordia o dedinho o olhando – O que eu faço com você?

— Dar um banho é uma boa opção. – Aiolia foi para junto da esposa, ver o que ela observava com tanto interesse na janela – Com aquele palhaço dos jogos mortais na tampa do vaso, o garoto nunca vai chegar perto daquele troço!

— Você sabe quem é o novo vizinho?

— Ele é o Camus, Marin. É diretor financeiro da empresa onde o Saga trabalha, está se mudando definitivamente para a Grécia e tem um filho pequeno. Eu o conheço da época em que ele andava com Aiolos e Saga na Sorbonne em Paris.

— Divorciado também? — Marin continuava a olhar para a casa da frente.

— Acho que não, pelo que eu soube o garoto é filho de um relacionamento rápido que ele teve com uma bailarina russa.

— E o seu irmão concordou em vender a casa? – Marin estava surpresa. A casa era o marco do casamento de Aiolos e Saga, quando ele e Aiolia começaram a namorar eles haviam acabado de comprar a casa e estavam radiantes com isso – Pensei que ele nunca ia se desfazer dela!

— Agora que ele passa mais tempo viajando do que aqui e com a persuasão daquele espanhol... É uma boa casa, merece alguém cuidando dela. – Aiolia deu de ombros – Só faltava isso para oficializar o divórcio.

— Que besteira não é? Eles se amam e o Saga... – a jovem ruiva estalou a língua.

— Vamos lá falar com o Camus? Saga pediu que eu fosse falar com ele, mais tarde talvez apareça aqui.

O jovem casal atravessou a rua até a bela casa da frente. Aiolos e Saga compraram a bela propriedade quando se casaram há oito anos, com a ideia de formar uma imensa família e abrigar os sobrinhos que viriam futuramente de Aiolia, Milo e Kanon o irmão gêmeo de Saga. Aiolia namorava firme Marin e tinha planos de casar quando terminasse a faculdade de medicina, Milo já era noivo de Miori e moravam na casa de herança dos Savalas. Era um drama grego que das promessas firmes de formar família, apenas Aiolia estivesse casado e que o romance dourado e perfeito de Aiolos e Saga tivesse chegado ao fim.

Saga e Kanon Papadoupolos não tinham sorte no amor. O gêmeo mais velho sucumbira aos encantos de um francesinho afetado que conhecera em uma das viagens com Kanon e todas as suas pequenas escapadas vieram a tona, acabando com o seu casamento com Aiolos. Kanon vivia se desdobrando entre suas ex-mulheres, a mais recente Hilda Polares era uma advogada impulsiva e meio possessiva com quem tinha uma filha de quatro anos, June. Moravam no fim da rua, Hilda e June , os gêmeos moravam duas casas antes da casa delas.

O único que não se divorciara fora Milo. Miori um dia sumira no mundo deixando-o só para criar o filho recém-nascido e Ikki de dois anos ,Milo relegara boa parte de sua carreira de pintor e escultor para cuidar pessoalmente dos filhos. Por um tempo esperou que Miori voltasse, mas nada... Soubera recentemente que ela estava em Tóquio com a família japonesa.

— Seja bem vindo Camus. – Aiolia e Marin se aproximaram do esportivo de tração que estava parado na entrada do estacionamento da casa da frente. O grego falou para se fazer notar pelo ruivo, que estava atrapalhado entre carregar o filho e tirar algumas malas do porta-malas que acabara acabara de abrir .

— Oh ele é lindo... – Marin fez festa para o loirinho que acanhado escondeu o rosto no pescoço do pai — E é tímido! Aiolia ajuda o seu amigo com as malas pelos deuses!

Aiolia se apressou em ajudar Camus com as malas e coisas do bebê enquanto o ruivo ainda segurava o filho.

— Ele ‘tá um garotão Camus! – comentou o leonino pegando no bracinho do menino – Quantos anos ele tem agora?

— Você também cresceu Aiolia, até casou! – Camus olhou divertido para a ruiva que revirou os olhos e sorriu também — Eu não vejo você há anos. Há e ele tem dois anos... E vocês como estão? Falei com Aiolos em Paris, ele estava em lua de mel com o novo namorado.

— Pois é... – Aiolia e Camus riram enquanto entravam na casa junto com Marin – Me casei ano passado, essa é a Marin como você já pode ver. Você lembra-se do Milo?

— Vagamente. Pelo que eu lembro, ele ia casar com uma japonesa mestiça que o Aiolos detestava.

— E não sem motivo. – Marin interveio – Camus a casa ficou linda!

— Sério cara o que foi que você fez aqui? – Aiolia olhou em volta – Totalmente diferente e ficou até melhor, você conhece o gosto duvidoso do Aiolos e a incapacidade do Saga em refreá-lo.

A casa estava muito elegante mobilhada de forma a combinar o prático e elegante em tons brancos, preto e bege. Funcional e discreta como o novo dono.

Camus Chateaubriand era um jovem diretor financeiro de vinte sete anos, pai solteiro. Natássia e ele se envolveram há quatro anos aproximadamente, a jovem bailarina russa ansiava conseguir seu tão almejado lugar na companhia de balé de Paris, ele tinha acabado de entrar para a Kido S/A. Um relacionamento intenso que sem querer gerou o pequeno Hyoga, para deleite da rígida família Chateaubriand. Porém quando chegou o momento de escolher entre a família e a carreira, Natássia não hesitou em voltar à terra natal e deixar Camus com o pequeno em Paris. Para criar o filho longe da família, Camus aceitou de bom grado a oferta da empresa de assumir o setor financeiro da sua sede em Atenas.

— Posso ver o quarto do bebê? – Marin ficou animada – Você quer tentar me dar ele Camus?

Petit Marin aller avec vous*? — Camus disse para o garotinho que apesar de envergonhado obedeceu, Marin quase teve um ataque pela fofura pelo menino.

— Você fala em francês com ele? – Aiolia indagou subindo as escadas com Camus, os dois levando as malas.

— As vezes porque ele entende mais. Procuro falar em grego com ele também, mas vou contratar de uma babá bilingue. – Camus entrou no cômodo no fim do corredor, largando as malas no chão do quarto e indicou para que Aiolia fizesse o mesmo — Em Paris só falávamos francês.

— E você vai ficar de vez na Grécia agora?

— Sim, a Kido aceitou meu pedido de residência fixa e é melhor criar Hyoga longe dos meus pais.

— Quem foi que escolheu esse nome para o garoto?

— Fui eu ora, é um bom nome! – Camus franziu o cenho para Aiolia que deu de ombros pouco convencido – Melhor que Alexei!

— Você não tem a desculpa de Milo de uma esposa nipônica Camus.

— Aiolos me disse que a esposa do Milo sumiu...

— A Miori foi embora e agora ele cuida do Ikki e do Shun praticamente sozinho, nós ajudamos em alguma coisa, mas ele faz questão de cuidar de tudo.

— Aiolia vai até em casa pegar um pouco de sopa e almoço para o Camus também! A dispensa está vazia eu já verifiquei. — Marin trazia Hyoga no colo que já parecia bem à vontade com a ruiva – Vocês devem estar famintos! Ah Camus o quarto é lindo, tudo organizado uma coisa maravilhosa. Até as gavetas!

— Não se preocupem vou mandar pedir comida...

— Ora bobagem vem com a gente! – Aiolia bateu as mãos nos joelhos se levantando da cama onde sentara — O Milo deve ter servido o almoço.

— Vem Camus, o Milo vai adorar te conhecer. Eu já troquei o Hyoga vamos almoçar? – Marin perguntou ao menino que mesmo não entendendo bem o que a jovem dizia, sorriu encabulado em resposta a animação da grega – Camus ele é lindo!

Marin saiu andando com o menino nos braços e os homens a seguiram depois de rir do ataque de fofura dela.

Milo se espantou ao ver aquele ruivo desconhecido entrar na sua sala acompanhado de Aiolia, Marin já entrara com uma pequena beldade loira que depositou no cercadinho onde ele também colocara Shun. A criança era linda e Milo estava embevecido pelas bochechas coradas do anjinho que seu filho brincava.

— Papai ele não fala. – Shun balbuciou apontando o outro menino – Não fala!

— Fala sim querido, ele só é tímido. – Milo se virou para os recém-chegados – Onde estavam, vamos almoçar?

— Milo lembra do Camus? – Aiolia e Camus se aproximaram do cercadinho – Amigo do Aiolos e do Saga da Sorbonne?

— Vagamente. – eles apertavam as mãos, o aperto do francês era firme e decidido e a pele gelada. Camus observou como Milo tinha um aperto caloroso e amistoso como o belo sorriso no rosto bronzeado. Era muito bonito, constatou o francês.

— Papai! Não fala! – Shun ainda tentava fazer Hyoga falar com ele, mas o loirinho apenas balbuciava algumas coisas que ele não entendia.

— Camus você tem que arrumar logo uma babá bilingue. – Marin acariciou o cabelo dos dois meninos – O Hyoga precisa se comunicar com outras crianças. Viu como o Shun gosta de conversar?

Hyoga viennent ici.**. – Camus pegou o filho no colo falando em francês com ele que respondeu aos risinhos apontando para Shun que tinha seus grandes olhos ainda nele. O francês sorriu para o filho e falou mais alguma coisa e então em grego disse – Olá Shun meu nome é Hyoga.

O menino repetiu o que o pai dissera e Shun lhe presenteou com um sorriso imenso, desatando a falar. Os adultos sorriram e Milo pegou o moreninho no colo, todos indo para a sala de jantar onde o almoço estava sendo servido.

— Aiolia pegue a antiga cadeira que era do Ikki para o Hyoga. – pediu Milo ao irmão mais novo.

— Não precisa, ele ficará bem. – Camus acomodou o filho no colo começando a servir a comida e o loirinho ficou animado ao ver que ia comer – Fazemos isso sempre.

Aiolia sentou ao lado do francês o auxiliando com os pratos, Marin surgiu na sala trazendo Ikki e sentou ao lado do menino o servindo também. Estranhamente Milo ficou do outro lado da mesa sozinho com Shun, que animado batia os talheres na cadeirinha.

— Quem é ele? – o menino moreno como toda criança de quatro anos notou logo o bebê, esquecendo-se dos adultos.

— Ikki não seja mal criado. – ralhou Milo – Diga olá para o Camus e para o Hyoga, nossos novos vizinhos. Camus esse é Ikki meu filho mais velho.

— Olá Ikki como vai? – Camus falou com o garotinho que ainda tinha os olhos curiosos sobre o anjo loiro em seus braços, Hyoga também parecia encantado com Ikki.

— Seu bebê é uma menina moço? Como é o nome dela?

— Ikki! — Marin dessa vez, Camus apenas sorriu para Ikki bagunçando os cabelos espetados escuros.

— Não é uma menina e ele se chama Hyoga.

— Hum... – Ikki se sentou entre Camus e a tia – Posso segurar ele?

— Depois de comer o que acha?

O almoço seguiu assim, todos ocupados com as crianças, principalmente Milo que tentava alimentar Shun que parecia um pequeno furacão falando e brincando com a comida. Enquanto Hyoga apenas falava algo entre uma colherada e outra, quieto apenas esperando pelo pai, Shun distribuía comida por todo o seu raio de alcance. Ikki não parava de fazer pergunta a Camus depois que descobrira que o novo vizinho era francês e lutava jiu jitsu e outras artes marciais, o menino o bombardeou com perguntas.

Camus achava aquilo maravilhoso, gostou imediatamente do garotinho e daquela movimentação. Filho único de uma família rígida, aquela "desordem" familiar lhe era atraente e pela alegria do seu pequeno, Hyoga também estava achando tudo um máximo. O loirinho até arriscava repetir algumas palavras que eles falavam em grego.

— Nossa ele é um anjo! Olha como fica quietinho e ele nem se sujou. – Aiolia comentou olhando para Camus e Hyoga em seguida olhando Milo e Shun – Como você consegue Camus?

— Hyoga é um bom menino. – respondeu o ruivo limpando a boquinha do filho.

— Camus como vai fazer com Hyoga? Você vai trabalhar e com quem vai deixar o menino? – Milo não estava gostando de toda aquela bajulação para aquele francês perfeito e seu filho perfeito.

— Estou de férias por agora. Adiantei-as para me mudar definitivamente e arrumar uma babá, eu já consegui uma, aliás, amanhã ela começará. – Hyoga se inquietou e deixou o colo do pai para ir até Ikki que esqueceu a comida já quase finalizada para pegar a criança, os dois trocando a primeira impressão o loirinho remexendo nas bochechas morenas do outro e Ikki pegando nas madeixas douradas — Volto a trabalhar no próximo mês e já acertei meus horários de trabalho de forma que possa almoçar em casa, sair as quatro do escritório e trabalhar o resto do dia em casa. Isso até que Hyoga fique com mais idade.

— Viu Milo não é tão difícil conciliar.

— Marin está certa eu sempre disse que você poderia apenas organizar as exposições de modo a conciliar as crianças. – Aiolia ajuntou

— Eu considero seus trabalhos maravilhosos Milo. Conheci suas esculturas em Amsterdã e inclusive comprei sua Atena guerreira que está na minha biblioteca agora. – Ikki cutucou Camus, Hyoga o puxava pelos cabelos e foi preciso Aiolia intervir para separar os meninos.

— Esse garoto é uma peste! — gritou o menino mais velho olhando feio para o menino loiro que estava corado e ofegante.

— Ele nunca fez isso! – Camus estava surpreso ralhando com Hyoga em francês.

— Anjinho hein? – Milo quase gargalhou, mas resolveu guardar essa vitória para si.

— Camus o que acha de eu ensinar grego ao Hyoga? – Marin sugeriu de repente percebendo o clima de competição que o grego possessivo instaurou entre eles.

— Ah Camus a Marin é professora de jardim de infância e sabe lidar com crianças, você viu como eles se deram bem na sua casa.

— É uma possibilidade Aiolia.

— Vou levar o Shun comigo. Não vai gostar de conversar com o Hyoga Shun? Ele não é um anjinho?

Shun fez festa e Milo revirou os olhos. Até seu pequeno estava conquistado.

Começou ali certa rivalidade velada entre Milo e Camus, embora de forma inconsciente do lado do francês. Logo os Chateaubriands estavam tão incorporados à rotina da família Savalas que nem pareciam apenas vizinhos e sim parte da família. Marin ia todos os dias ao fim da tarde para a casa de Camus ensinar grego a Hyoga e sempre levava Shun, às vezes Ikki, estabelecendo um convívio entre os três meninos. Para terror de Milo não foi só a Hyoga que Ikki se apegou.

— Pai vou ver o Camus.

Nem deu tempo de Milo dizer que ainda estava cedo demais para que o filho estivesse no vizinho, quando percebeu Ikki já estava na porta do ruivo que o recebeu com um sorriso e Milo ficou indignado. Resolveu ir atrás do filho que aquele francês metido estava subvertendo-o. Onde já se viu o garoto ter toda aquela intimidade com aquele francês?! E quem era Camus para lhe roubar o filho daquela maneira?

Encontrou o filho e Camus no jardim interno um ao lado do outro. Perdeu o foco ao ver o dorso de alabastro do ruivo nu e a calça de malha aderir as pernas torneadas enquanto Camus executava alguns movimentos de uma arte marcial que ele desconhecia, Ikki estava olhando tudo atentamente concentradíssimo.

— Sua vez agora Ikki. – disse o ruivo em sua voz macia e controlada, Ikki imitou os movimentos sob o olhar de aprovação de Camus.

— O que está fazendo?!

— Treinando pai, não atrapalha, por favor! E fale baixo o Hyoga está dormindo.

Era só o que faltava! Ser repreendido pelo filho de cinco anos por causa daquele ruivo.

Notas finais
*petit vá com marin sim? ** Hyoga vem aqui.