Notas iniciais
Algo me diz que essa noite de sábado promete!

— Você imaginaria algo assim? Nossos pais e a gente saindo juntos? – Shiryu perguntou para Ikki ao ver Aiolos e Milo passarem vestidos casualmente na sua frente. O pai do japonês vestia jeans, all star vermelho e uma camiseta por cima.

— Se eu perder alguém para o meu pai hoje, juro que vou me traumatizar pelo resto da vida. – Ikki respondeu rindo. Milo vestia uma calça de camurça escura e camiseta com um cardigan cinza por cima. Elegantes e casuais para um show, os filhos estavam de jeans e a camiseta da banda.

— Pai eu quero ir! – Shun resmungava no chão em meio aos seus desenhos, estava cada vez melhor neles e Milo estava pensando em colocá-lo em um curso profissional.

— Mais quatro anos pirralho. – caçoou Ikki.

— Shun, eu prometo que levo você naquela convenção de anime no próximo fim de semana. – Milo tentou confortar o filho.

Camus e Hyoga foram entrando pela sala com Marin que trazia Seiya da rua. A professora acabava de chegar do pediatra com o garotinho.

— Nossa vocês estão de matar! Isso me cheira a noite de sexo selvagem. – disse a grega colocando o filho no chão que foi correndo para perto de Shun, espalhando os lápis e folhas de papel do outro.

— Seiya! Tia Marin! – gritou Shun desolado.

— Boa noite. – Camus cumprimentou tentando soar mais alto do que a balbúrdia daquela família grega. Porém, Milo e Aiolos olharam para o francês ao ouvi-lo falar e ficaram chocados quando o fizeram.

Camus vestia uma calça de couro reforçado negra que parecia ter sido vestida a vácuo, de tanto que estava colada as pernas musculosas do francês. A blusa negra de tecido maleável e gola alta moldava o torso perfeito e Milo se perguntava como Camus conseguia manter aquele corpo, na verdade sabia que o Jiu Jitsu e a musculação ajudavam, mas o ruivo parecia muito ocupado para ficar horas na academia. O cabelo vermelho estava amarrado em um rabo de cavalo firme.

— Nossa Camus! Isso é tudo para o Surt? – Aiolos não tirou os olhos do aquariano que revirou os olhos.

— O Surt vai? – um balde de água fria em Milo que na hora pensou em não ir, mas olhou Camus de novo e resolveu que era má ideia e já estava pronto mesmo.

Hyoga tinha ido se sentar entre Shiryu e Ikki no sofá, orgulhoso por ter conseguido convencer o pai a vestir aquela roupa. Fora bem difícil!

— Seu pai é um gato, loirinho! – Shiryu elogiou Camus para o garoto.

— E não é? – Hyoga se virou para Shiryu – Ele precisa se divertir Shi, ainda bem que vai sair com vocês, pena que eu não posso ir. Mas o importante é que ele se divirta!

— É uma pena que você não vá mesmo Hyoga, ia ser muito legal. – Shiryu apenas para provocar Ikki acariciou a bochecha do loirinho e Ikki lhe deu um cutucão que o fez xingá-lo.

— Fica para outra vez, quero que o papai fique livre sem preocupações hoje e só curta o show. Eu entendo que ele tem que sair sozinho, ainda não tenho idade.

— "Eu entendo" mimimi, "ainda não tenho idade" mimimi – Shun resmungou jocoso do chão onde catava suas coisas – Seu idiota! Senhor certinho, compreensivo... É uma boneca mesmo!

— Boneca é a puta...

— EI PAREM COM ISSO JÁ! – gritou Milo para os dois – Shun o que é isso?! Peça desculpas ao Hyoga!

— Peço porra nenhuma! Eu odeio vocês!

O garoto se desvencilhou de todos e saiu pelo corredor indo se trancar no quarto, Camus pegou o filho com a desculpa de arrumá-lo repreendendo o garoto em francês de forma baixa e contida.

— Ele anda tão sensível! — Aiolos observou.

— Energia acumulada, vai passar. Quem sabe aquele curso no liceu de música hein? – Marin ajeitou a roupa do irmão – Quem sabe tocar violino não ajuda o Shun? Ajudou a June, a Hilda me falou muitas coisas boas do curso.

— O papo ‘tá ótimo, mas eu quero ir para o show pai! Vamos?

— Vamos Ikki.

Começaram a sair e depois de uma profusão de abraços e beijos em Hyoga e Seiya todo mundo se dirigiu aos carros.

— E o seu namorado Shiryu?

— Vai nos encontrar lá pai, podemos ir. — Shiryu entrou no carro do pai, Milo iria com Ikki e Camus no carro do francês.

— Ikki pega uma palheta do Matt! 'Pra mim, por favor! – implorou Hyoga da varanda quando o pai manobrou o carro, Ikki assentiu e então Hyoga sorriu.

— Vem loirinho, quer bolo? Fiz o seu favorito hoje, o de cenoura com chocolate. – Marin perguntou para Hyoga que tinha Seiya no colo e apertava o menininho em um abraço, a criança esperneava um pouco tentando se soltar – Shun sai já desse quarto e vem comer! – gritou para dentro da casa já no vestíbulo.

— Marin cadê o Aiolia?

— De plantão. O bom é que amanhã ele está livre e na segunda também, então vai poder me levar para sair.

— Eu posso olhar o Seiya para você. – a ruiva observou o loirinho correr atrás do garotinho menor que engatinhava pelo tapete tentando escapar, Hyoga pegou Seiya pelas perninhas roliças e o apertou de novo – Não canso de abraçar ele, é tão fofinho!

— Não se preocupe meu anjo, o Aiolos vai cuidar dele. – a grega tirou o filho dos braços do loirinho antes que ele morresse sufocado – Shun!

***

— Está calado Milo. – comentou Camus a certa altura do trajeto até o local do show. Milo estava em silêncio desde que entrara no carro, Ikki estava no celular como todo adolescente mesmo que não tirasse a atenção do dois no banco da frente. Tinha um palpite da causa do mau humor do pai e talvez o confirmasse naquela noite.

— Pensando em como você conseguiu entrar nessa calça Camus. – rebateu o grego cínico. Estava contrariado, mas não daria aquele gostinho para o francês tripudiar dele.

— Gostando do que vê? – Camus pode ver pelo retrovisor Ikki segurar o riso. Admitia que andasse implicando mais do que o normal com Milo, ultimamente as provocações vinham mescladas de um duplo sentido meio inconsciente.

— E o que deu em você para vestir isso hoje francês?! – o fitou exasperado, não entendia porque ficará tão “encucado” com aquela maldita calça. Será que era porque pela primeira vez em muito tempo, Milo conseguia pensar na frase "Que bunda!" para um homem?

— Não liga pra ele não Camus, o Shiryu disse que você ‘tá muito sexy nessa calça.

— Ah Mereço! – Milo bufou e os outros dois gargalharam.

Chegaram à arena onde seria o show e encontraram Aiolos encostado no carro os esperando.

— O Shiryu foi buscar o namorado e aproveitarão para trazer o Surt, eles não conseguiram estacionar aqui perto. – disse o grego de cabelos castanhos quando os outros chegaram perto.

Milo entortou a boca, queria mesmo que o irlandês tivesse se perdido. Lembrava bem dele da audição do Hyoga, o homem também ruivo embora mais esguio e atirado do que Camus, os cabelos mais curtos e aquela trancinha estranha.

— Lá vem eles Aiolos. – apontou Ikki e todo mundo se virou para ver.

Surt vinha à frente e logo notara Camus para desagrado de Milo, vestia uma camisa social salmão e jeans, jogado simplesmente no corpo delgado. Shiryu vinha ao lado de outro homem e conversavam de mãos dadas, o outro era coberto por Surt e alguns transeuntes. Quando finalmente ficou visível além da calça jeans preta e a jaqueta de couro, foi Milo que se pronunciou.

— Puta que pariu! – exclamou o grego, Camus e Ikki olhavam tudo sem entender.

— Oi pessoal aqui estamos nós. Esse é o meu namorado Raphael. – Shiryu indicou o espanhol que olhava Aiolos espantado, o grego não sabia onde enfiar a cara! – Raphael Shura Marquéz, meu namorado.

***

— Acha que eles vão entrar? – Camus perguntou a Milo. Estavam ele, Camus, Ikki e Surt no camarote reservado por Aiolos, o adolescente estava próximo ao muro com os olhos no show que já começara.

— Provavelmente eles estão indo para casa agora com Aiolos tendo um surto. – Milo estalou a língua – Eu não acredito que o Aiolos não sabia que era o Shura!

— Nem o Ikki sabia Milo. Como é que o Aiolos devia saber? – Camus lembrou a conversa deles no restaurante, ficou óbvio que a confusão toda começou com a relutância de Aiolos de aceitar o namorado de Shiryu – Você sabia Surt?

— De forma alguma. Aiolos me contou que o filho estava namorando um cara mais velho que ele não conhecia e que se chamava Raphael, mas não o conhecia. Também não sabia que Raphael também era Shura!

— Foi apenas um mal entendido. – reforçou o francês pensativo.

— Vendo aquele espanhol agora eu entendo porque Aiolos parecia tão saudoso. – Surt piscou para Camus que riu de lado e logo os dois engataram uma conversa animada, Milo olhava tudo de canto de olho se sentindo deixado de lado. Resolveu se levantar e ir para a amurada com o filho.

— Se você não for lá se intrometer eles vão acabar a noite juntos. É isso que você quer?

Milo fitou o filho em choque, nunca esperaria ouvir aquilo de Ikki e nem que o rapaz chegasse àquelas conclusões estapafúrdias. Nem conseguia retrucar!

— Vai dizer que isso tudo não é ciúme?

— Ficou doido garoto?! Ciúme de quem posso saber?

— Da calça do Camus então. – brincou Ikki e Milo o olhou indignado então adolescente se calou, sabia que já fora longe demais. Deixaria o pai descobrir as coisas por si mesmo.

***

— Porque você não foi embora com o outro ruivo Camus? – a volta estava sendo feita em silêncio porque Milo estava circunspecto e Camus levemente adormecido pelo excesso de álcool, Ikki vinha esgotado do show do qual ele cantava todas as músicas a plenos pulmões. Era Milo quem voltava dirigindo.

— E entregar o ouro assim? Non mon ami, Precisamos manter o interesse, o suspense faz com que a presa fique mais empenhada. – se virou para o grego com um sorriso que parecia o sorriso do gato se Alice no país das maravilhas. Milo estava se acostumando com Camus mais soltinho por conta da bebida, era uma boa hora para descobrir algumas coisas. – Ainda está cedo, podíamos esticar até a Santuário o que acha Milo?

— Eu aceito! – Ikki se animou no banco de trás.

— Você não pode entrar, vai voltar para casa isso sim. – Milo disse e Ikki percebeu o olhar de Milo sobre o ruivo ao seu lado então resolveu não insistir em ir. Parecia que alguém havia se tocado, constatou com um riso de lado o adolescente.

***

A Santuário estava lotada naquele sábado a noite, era uma noite temática e bem mais explícita do que a outra noite em que estiveram lá. Milo se sentiu estranho ao olhar em volta.

"Porque estou aqui?" se perguntou olhando o ruivo que andava a sua frente como se fosse o dono do lugar. Dono do lugar talvez não, mas de boa parte do interesse alheio sim, constatou o grego. "Milo, Milo o que você tá querendo”.

— O que vai querer beber? – perguntou Camus quando chegaram ao bar.

— Ouzo.

— Uma dose de ouzo e uma de vodca, por favor.

— Não acha que já bebeu demais Camus?

— Estou perfeitamente bem se quer saber, daqui a pouco vamos dançar e queimar o álcool. – o barman trouxe as bebidas e ao entregar a de Milo aproveitou para dar uma piscadinha para o grego – Humm... Você fez uma conquista.

— Ei ruivo me erra! – Milo tomou sua bebida rindo e Camus gargalhou, se afastando bebendo sua bebida começando a dançar.

A batida incessante reverberava pelo ambiente encontrando o corpo do ruivo que se deixou levar pelo som, tomando a vodca de uma vez para poder ficar livre para se entregar. Era bom se deixar levar com um tanto de inconsequecia às vezes.

Milo devorava o corpo sinuoso a sua frente sem conseguir evitar, como na outra noite nada era mais importante do que aquele ruivo à sua frente. Desde quando Camus sabia dançar assim? As pernas torneadas naquela calça definitivamente...

"Fetiche por couro", concluiu Milo tomando o ouzo para molhar a garganta seca. "Gostoso" constatou e desde a adolescência ele não associava essa palavra a um homem. Se interessar por homens nunca fora um tabu para ele, só achava que definitivamente ser gay estava no passado uma vez que seu interesse era apenas por mulheres.

"Por que com Camus?" olhou para o copo, quando tinha virado a quarta dose? Na pista o ruivo continuava com energia, os cabelos longos balançando com o movimento da cabeça.

Tomou o resto da bebida e foi até o ruivo no mesmo minuto em que outro cara chegada em Camus, se insinuando para o francês que apenas riu de lado, mas não o afastou.

— Cai fora. – disse incisivo o grego para o moreno que o encarou em desafio, mas decidiu se afastar. Havia outros homens na boate e não queria confusão.

Camus levantou os olhos para encarar Milo que estava bem próximo, o primeiro tinha uma sobrancelha arqueada e uma pergunta que Milo respondeu com um beijo.

O francês não se surpreendeu, no fundo esperava por aquilo em algum momento. Permitiu que o grego explorasse sua boca com a voracidade que lhe era característica antes que tomasse as rédeas da situação, segurando a nuca de Milo impôs ritmo ao beijo e colou os corpos sentindo os músculos do corpo vigoroso sob suas mãos.

— Não vai dizer nada? – Milo disse ofegante quando apartearam o beijo.

— Melhor não. –Camus voltou a tomar a boca carnuda na sua, enroscando as línguas e incendiando os corpos. Milo sentia-se ferver como há muito não sentia, aquela dominação estranha a ele e instigante ao mesmo tempo.

Foram para a área dos lounges, Milo deitou Camus sob um puffy largo em meio aos beijos. As mãos por dentro da camisa do francês enquanto as de Camus apertavam os músculos dos braços de Milo, o beijo minando o fôlego dos dois.

— Vamos embora daqui. – Murmurou Camus ofegante com as mãos no zíper de Milo e por isso que sua razão resolveu aparecer.

— Não dá mais tempo Camye. – Milo chupou a orelha de Camus e desceu a língua quente pela jugular do ruivo, as mãos cheias das nádegas redondas e firmes e o quadril pressionando a ereção nas mãos do francês.

— Mas Milo...

— Ninguém liga Camus, porra! – o grego abriu o zíper de Camus com certa dificuldade, começando a acariciar o membro do ruivo para fazê-lo calar a boca. Camus o afastou com um safanão na mão olhando-o indignado – O que é Camus? Ah qual é francês vai me dizer que nunca transou no lounge de boate?

— Não! – foi enfático. Nunca havia passado além das amassos e mesmo esses só com quem já estava saindo há um tempo, não era de "pegar alguém" que acabava de conhecer. Com Milo só foi tudo muito rápido e louco, mas ele era seu melhor amigo e achava que estava tudo bem. Porém, nem com Milo e principalmente porque era ele ali, não se permitiria tal loucura.

— Sérios Camus! – Milo respirou fundo e se afastou do francês, seu tesão insatisfeito estava fazendo-o ficar irritado e impaciente – É quase normal um cara como você fazer essas coisas.

— Um cara como eu?! – mesmo na pouca luminosidade Milo podia ver a expressão endurecida do francês e percebeu que tinha falado besteira – Milo eu sou gay, não promíscuo.

Camus se levantou arrumando as roupas e se desvencilhando do grego com raiva, saindo do lounge quase correndo. Milo saiu atrás assim que se recompôs e ambos acabaram saindo da boate, envoltos em um silêncio furioso indo para o carro onde o francês entrou batendo a porta.

— Camus eu... – Milo começou ao se sentar no banco do carona.

— CALA A BOCA SEU HETERO DE MERDA! – vociferou Camus – Fica com a porra da boca fechada eu não quero ouvir mais a sua voz. Fique satisfeito por eu não deixar você voltar de táxi.

Camus não queria justificativa, já ouvira uma porção delas e conhecia bem os caras como Milo. Machistas que não admitiam a homossexualidade, mas gostavam de curtir de vez em quando. Não esperava aquela atitude de Milo, não consigo. Permitira-se ao ver o interesse do grego porque se sentia atraído por Milo, acreditava também que mesmo que tivesse algo casual àquela noite, Milo lhe trataria com o mínimo de respeito. Não conseguia entender as atitudes daquele grego louco e imaturo! Ver que o seu próprio melhor amigo o achava "presa fácil" e um qualquer lhe magoava profundamente.

Chegaram ao condomínio e depois de estacionar o carro de qualquer jeito na entrada da garagem, Camus saiu dele e foi para casa sem nem sequer olhar para Milo. Ainda sentia o corpo tremer de raiva e tesão não satisfeito, estava visivelmente descontrolado.

Milo saiu do carro e depois de travá-lo pegou as chaves deixando-as na mesinha do vestíbulo e ainda olhou as escadas, pensando em ir falar com Camus. Desistiu da ideia ao pé da escada, do jeito que o outro estava eles acabariam brigando então era melhor ir embora.

Hyoga no alto da escada viu o pai entrar no quarto e Milo ir embora com apreensão. Correu até a porta do pai, mas ficou receoso em entrar então ficou a escuta. Ouviu o barulho do chuveiro e um grunhido furioso de Camus e se assustou, resolveu voltar para o quarto e tentar dormir ou o pai ficaria ainda mais furioso. O que será que havia acontecido?

Na manhã seguinte Milo acordou com a costumeira algazarra na casa, domingo era o dia em que a família Savalas estava inteira no lar doce lar.

— Por deus hoje é domingo porque esse barulho todo logo cedo? – falou entrando na cozinha onde todos pareciam estar se arrumando para sair.

— Vamos à praia Milo, vem com a gente! – Aiolia disse animado – Pedi ao Shun para chamar o Camus e o Hyoga.

— Eles não vão! – Shun chegou nesse momento cabisbaixo – O Hyoga disse que o Camus não está passando bem.

— Deve ser ressaca. – Aiolos comentou e Ikki deu um meio sorriso concordando, mas a cara de Milo não era das melhores.

— Acho que não, o Hyoga só disse que ele está triste e não quer ver ninguém. O loiro não quer deixar ele sozinho o que será que ele tem?

— Não deve ser nada, vamos lá quando chegar da praia. – Milo desconversou e voltou para o quarto para se trocar. Conversaria com o francês mais tarde.

Milo adiou tanto essa decisão que quando resolveu fazer algo era tarde demais.

Deveria ter percebido quando Camus começou a se afastar, quando começou a ficar ocupado demais até para as coisas tradicionais como os almoços de domingo. Hyoga ainda continuava sempre por lá, era apenas a figura do ruivo que passou a ser ausente da rotina de Milo. O grego por seu lado estava às voltas com o trabalho, sua inspiração estava no ápice e ele trabalhava quase incessantemente. Ikki também conseguira entrar para as seletivas das olimpíadas e havia grandes chances de que ele conseguisse uma vaga. Todos estavam em polvorosa.

Aiolos notou o afastamento do ruivo, notou o isolamento de Milo e sentiu que algo acontecera entre os dois. Estava esperando que se resolvesse sozinhos, mas decidiu ele mesmo falar com Camus quando soube que Hyoga havia sido escolhido para estudar balé na Rússia por dois anos. Ia falar com aquele francês difícil!

Atravessou a rua deixando o loirinho contar animado para os Savalas restantes e foi falar com Camus. O encontrou no quarto ao telefone falando em russo.

— Camus! Quer dizer que você e Hyoga vão embora para Rússia? – perguntou quando o ruivo desligou o celular – Por que não nos disse antes? O que tá acontecendo?

— Hyoga não explicou a vocês sobre a bolsa e tudo mais? – retorquiu o francês sem se abalar – Foi repentino nem nós esperávamos e eles vão dar uma boa ajuda de custo e já consegui arrumar um apartamento, o pai de Natássia está providenciando.

— Peraí você vai? Eu imaginei que só o Hyoga ia porque tem a família dele na Rússia, achei que você ia ficar aqui. E o seu trabalho?

— Sai da Kido Corporate há dois meses Aiolos, assim que vi que a consultoria financeira deu certo. Acredito que já tenhamos conversado sobre isso.

— Lembro vagamente você ter me contado que desejava trabalhar para si próprio e que tinha já alguns clientes para consultoria financeira. – piscou o grego confuso – Você falou com o Milo Camus?

— Não vejo necessidade uma vez que vocês todos já estão sabendo. Estava pensando em levar todos para jantar amanhã, nosso vôo sai de madrugada então queríamos reunir todos para nos despedir.

— Você não pode ir embora Camus!

— Não vou deixar o Hyoga sozinho na Rússia por dois anos Aiolos! Está fora de cogitação. – Camus suspirou enfim perdendo um pouco a fleuma – Olha Aiolos, eu gosto muito de vocês, sei que Hyoga também não queria ir, mas é uma oportunidade única! Fora o fato de que ele vai poder conviver um pouco com a família de Natássia e ver o outro lado um pouco. Vai ser bom para nós dois. São apenas dois anos, nós vamos voltar.

— Eu pensei que você e o Milo... – ousou Aiolos e Camus o olhou semicerrando os olhos – Se é isso que quer.

O jantar acabou sendo na casa dos Savalas, que decidiram dar aquela despedida alegre aos Chateaubriands. Marin estava chorosa por ver Camus e Hyoga partirem. Não adiantava dizer que eram apenas dois anos, que eles voltariam e que existia a internet e o telefone. Camus ficou tocado e se sentindo culpado por não ter avisado antes, mas que fosse! A viagem veio a calhar para ele também.

Precisava refletir e se refazer, quem sabe quando voltasse poderia resgatar sua amizade com Milo? Esperava que pelo menos ela pudesse ser salva.

Refletira aqueles dias todos afastado, dentro de si mesmo para descobrir que estava magoado com Milo porque havia mais coisas entre eles do que admitia. No fundo Camus viu que esperava de Milo algo além da amizade porque apesar dos vários defeitos, sabia que Milo o entendia e completava como ninguém. O seu problema fora que se esquecera de colocar os sentimentos do grego (ou a falta deles) nessa conta complicada e acabou tudo sendo uma grande decepção.

Agora aprendera a lição, dali para frente iria tocar a vida e esquecer os relacionamentos. Viveria para si e para o filho de agora em diante.

Durante o jantar Milo procurou de todas as formas o olhar do francês sem sucesso, Camus mal lhe dirigia a palavra. Apesar de todos os votos de boa viagem, sentia-se inquieto e infeliz por ver Camus partir. Porque precisava ser assim? Pensava angustiado. Não conseguiu resgatar a amizade deles há tempo e agora Camus estava indo embora e talvez não voltasse. Estava indo para a Rússia, para Natássia e quem podia saber o que aconteceria? Eles tiveram um filho juntos!

Milo estava arrasado.

***

— Eles brigaram não foi? – Hyoga perguntou a Ikki. Estavam na área da piscina com os pés na água enquanto todos estavam lá dentro – Você sabe de alguma coisa? Acha que eles ficaram e agora estão com vergonha um do outro?

— O mais provável é que meu pai tenha rejeitado Camus. – Ikki balançou os pés na água – Eu sei bem como é isso, ser rejeitado por um idiota bancando o hétero.

— Não entendo porque eles parecem se gostar de verdade.

— Meu pai morre de ciúmes do Camus, mas vai saber?! – Ikki olhou o loirinho pensativo ao seu lado. Hyoga crescera e a cada dia perdia aquela "cara de boneca" que o Ikki costumava caçoar, porém moreno admitia que começasse a olhar o pequeno com um novo olhar – Hyoga você vai lá 'pra Rússia, mas continua quieto ok? Nada de garotos lá também, não vou estar por perto para te defender.

— E você nada de garotos aqui também então. – Hyoga fixou os olhos de céu em Ikki, um sorriso maroto nos lábios de coração. Alguém de dentro da casa o chamou e se levantou sacudindo a água dos pés e olhando para o moreno outra vez.

Enfim se inclinou sobre Ikki que continuava sentado na borda e encostou os lábios nos de Ikki, que surpreendido não esboçou reação então Hyoga se permitiu provar com a língua timidamente o lábio inferior do moreno.

— Me espera Ikki, eu vou voltar.