Simplesmente Complicado
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— São fantásticas Milo! A crítica vai cair aos seus pés. – Kanon andava pelas estátuas, maravilhado com o trabalho do amigo e cliente escultor. Anos sendo marchand do Savalas nunca havia visto o trabalho dele tão intenso e perfeito – Como vai chamar essa nova fase? Michelangelo de vidro? Adônis das águas?
— Mago do gelo. – respondeu Milo ainda lixando a última estátua que tinha a sua frente, o corpo lustroso de suor e coberto apenas pelo jeans desgastado. As mãos passavam pelo corpo sinuoso da estátua procurando alguma falha, verificando protuberâncias, mas tudo estava perfeito.
— Há algo nelas que parece igual em todas, embora eu não consiga verificar o que seja. Os críticos vão identificar talvez, mas isso ainda dá mais mistério a elas... Eu vou falar com os donos da galeria e programar tudo. Vai ser um estouro!
— Isso faça o seu trabalho. – Milo falou distraído olhando a estátua ainda.
Eram os rostos. O mesmo rosto em todas elas, vidro, mármore, metal. Materiais diferentes para compor seu mago frio, misterioso e inalcançável! Até nas que podia vislumbrar apenas os olhos, o perfil perfeito... Aqueles traços que não saíam da sua mente e de suas mãos.
Fazia seis meses que Camus se fora para a Rússia e Milo sentia falta dele como se o tivesse perdido, como quando Miori se fora. Perguntava-se se assim como Miori, o orgulho faria com que perdesse Camus também. Devia ir até lá e procurá-lo, pedir perdão e implorar que voltassem pelo menos à amizade. Camus se foi porque Milo não assumiu que precisava dele.
Ele o amava! Todos aqueles anos, dia a dia construindo aquela cumplicidade e amizade cheia de respeito e admiração que um tinha pelo outro. Quem seria melhor que aquele francês para aturar suas manias, entender seus filhos temperamentais do modo como Camus fazia? E Hyoga! Amava o loirinho como se fosse seu próprio filho, eles praticamente o criaram! Eram uma família há muito tempo só não se aperceberam disso.
Desrespeitou tudo isso naquela fatídica noite e por isso Camus estava tão magoado com ele, o francês tinha toda a razão. Camus não ficou magoado apenas por Milo cogitar que eles poderiam transar ali, naquele lounge. Porém, Milo agora entendia que a maior ofensa era por tê-lo tratado como um puto! Eles eram melhores amigos o que Milo tinha na cabeça?!
Camus apesar de todo o seu jeito incontido e indiferente estava disposto a dar uma chance a eles e Milo a dispersou.
***
— Whirled, развернулся... Один, два ,три! Присоединяйтесь! Hyoga снова (Rodopiou, girou... Um, dois, três! Levantar! Hyoga de novo)
Camus olhou acima dos óculos para o filho junto aos outros bailarinos e o professor russo, às portas de uma grande apresentação e os ensaios estavam ficando cada vez mais exigentes. O francês acompanhava tudo e quando achava que era demais intervinha, conhecia o filho e sabia que Hyoga se cobrava além do aceitável. Além do próprio padrão de exigência da companhia russa. Mas aqueles meses estavam sendo enriquecedores para o loirinho.
Para ele também! Não esperava que sua pequena empresa de consultoria financeira fosse dar tão certo. Trabalhando como consultor ele tinha a oportunidade de trabalhar para si próprio e arrumar seus horários de modo que pudesse acompanhar Hyoga quase sempre, as viagens não passavam de um ou dois dias. Ele fazia quase tudo pela internet! Voltariam para Atenas no fim daqueles dois anos na Rússia, o loirinho tinha um contrato com a companhia de Atenas e depois da experiência com o balé russo, Hyoga teria grandes possibilidades de ser um dos bailarinos principais da companhia.
Levantou os olhos do notebook para dar a devida atenção ao ensaio do filho, depois de dar uma última revisada no seu relatório de contas.
"Ele cresce a cada dia", pensou consigo. Logo o filho seria independente e não precisaria mais da sua companhia constante, do seu cuidado e isso o deixava apreensivo. Mesmo com os Savalas, por muito tempo foi apenas ele e o filho e aquele tempo na Rússia toda a sua vida girava em torno de Hyoga. Se um dia Hyoga simplesmente se cansasse dele, Camus não sabia o que fazer a partir dali. Quando chegaram houve a convivência com a família de Natássia, o pai dela mais precisamente e a própria, Camus ficou por dias com um aperto no peito ao ver Hyoga e a mãe juntos, mas permaneceu firme e começou a cogitar a possibilidade de ficarem ali para que Hyoga pudesse conviver com a mãe.
Porém Hyoga por vontade própria renovou o contrato com a companhia de Atenas e manteve a promessa de que voltaria para a Grécia, aliviando o coração do pai. Natássia não fez objeção à decisão do loirinho.
As palmas marcaram o fim do ensaio e Camus começou a arrumar suas coisas, estava moído de estar sentado naquela cadeira e só pensava no seu banho quente e na cama macia.
Hyoga puxou a franja para trás respirando fundo e sentido os músculos reclamarem, olhou o pai massageando o pescoço e estalou a língua para aquilo. Estava preocupado com Camus. Um ano e ele parecia mais gelado que a neve lá fora, com ele o francês ainda era o pai amoroso e atencioso. No entanto, quanto a todo o resto Camus parecia um bloco de gelo e isso perturbava o loirinho porque não queria ver o pai tão infeliz daquele jeito.
Tinham de voltar à Grécia, lá estava a sua felicidade e a do pai.
Alguns amigos do ensaio o cercaram convidando-o para comer assim que se trocassem. Hyoga olhou o pai de relance, que vinha para junto deles.
— Pai o pessoal vai sair para jantar, vem com a gente?
— Ah é?! Pode ir então. — Camus olhou todos aqueles rostos jovens e se sentiu incomodado à perspectiva de ser o único mais velho em meio deles – Voltarei para casa.
— Sozinho pai?! Ah não vem com a gente. – Hyoga fez um muxoxo – Por favor!
— Tenho muito trabalho a fazer, melhor não. – beijou a testa do filho – Não chegue muito tarde, tem ensaio cedo amanhã. Bom jantar para todos.
Depois de cumprimentar todos Camus se foi do estúdio para o metrô, voltar para o apartamento que dividia com o filho. Hyoga foi com os amigos para o vestiário se trocar, apesar do convite se sentia desanimado por deixar o pai sozinho.
— Его отец так красиво Hyoga !**(Seu pai é tão bonito Hyoga!) – uma das bailarinas mais velhas disse ao rapaz — Я не понимаю, почему жить в одиночку.(Não entendo porque vive sozinho).
— Мой отец любит человека, который оставил Грецию.(Meu pai ama uma pessoa que deixou na Grécia)– explicou o loirinho olhando em sua bolsa, no celular uma foto de Ikki — Мы оставили наши сердца в Афинах Мы должны вернуться туда.(Nós deixamos nossos corações em Atenas, Precisamos voltar para lá.)
***
Camus no pequeno apartamento que dividia com Hyoga abriu um vinho e colocou um DVD dos seus amados filmes franceses, eles seriam sua companhia para o jantar aquela noite. Decidiu por fazer uma sopa verde encorpada com bacon, era uma das receitas favoritas de Milo.
Balançou a cabeça como se assim pudesse afastar aquele grego teimoso dos seus pensamentos, era sempre assim quando estava sozinho e ocioso.
Depois de tudo pronto foi sentar-se na pequena sala de estar, no tapete mesmo em meio aos edredons para espantar o frio que era muito até para ele naquele inverno russo. Pegou o celular para verificar os emails, as redes sociais. Acompanhava a festa em Atenas por Ikki ter conseguido sua primeira medalha nas olimpíadas, todos estavam radiantes e nos jornais gregos não se falava em outra coisa. Ligara cedo para o rapaz felicitando-o e ficou um tanto emocionado com as palavras de agradecimento de Ikki a respeito de todo apoio, amava-o como a um filho e sentia-se lisonjeado pelo respeito e carinho que Ikki tinha por ele.
O celular tocou e Camus se surpreendeu deixando um pouco da sopa cair, se xingando por isso. Atendeu meio desajeitado tentando limpar a roupa.
— Oui?
— Cacete até que enfim! Malditas ligações internacionais.
Camus deixou a tigela de sopa cair de uma vez, a voz no outro lado da linha fazendo-o perder o prumo.
***
— Você está bem?
"Idiota!", xingou a si mesmo cerrando os dentes " Que pergunta idiota Milo!".
Estava estendido em uma espreguiçadeira na piscina do hotel, olhando a noite e pensando em Camus até não resistir e ligar para o francês. Todos haviam saído, a comissão técnica e Ikki estavam jantando fora comemorando, Shun ficara na Grécia. A noite em Londres era quente com um céu límpido.
— Acabei de jogar meu jantar no chão, mas estou bem e você? – retrucou o ruivo naquele sotaque impossível. Milo observou que ele teve o cuidado de falar em grego, embora pela falta de uso a língua parecesse travada. Um ano sem ouvir aquela voz grave e baixa!
— Estou em Londres...
— Falei com Ikki de manhã...
"Eu sinto sua falta." Camus não disse, embora as palavras ecoassem na sua cabeça.
"Volta para mim!", Milo engoliu as palavras. Não sabia se era certo pedir.
— Parabéns pela medalha, você está muito orgulhoso dele. – continuou Camus incerto.
— Estou. Sabia que ele conseguiria.
— Eu também.
Silêncio incerto permeado de sentimentos conflitantes. Os dois eram orgulhosos, Camus avesso a demonstrações de sentimentos e Milo não sabia como por em palavras tudo que sentia com medo da rejeição.
— Estava tentando jantar sopa verde.
— Minha favorita Camye. – Milo nem se apercebeu que usara o apelido para falar com o francês, Camus sorriu do outro lado da linha ao ouvir – Não encontro alguém que faça tão deliciosa quanto você.
— A minha é a melhor que existe você não vai conseguir encontrar quem faça melhor mesmo.
— Presunçoso. – outro sorriso ao ouvir a risada baixa no outro lado da linha – Eu soube que o Hyoga vai se apresentar aí! Eu queria muito estar com vocês para vê-lo em sua primeira apresentação oficial.
— Eu também queria que estivesse aqui. – PRONTO! Escapou e Camus fechou os olhos à espera de uma desculpa esfarrapada para desligar o telefone, uma negativa, qualquer coisa que afastasse o grego de vez de si. Porém, só houve o silêncio e Camus sentiu apreensão.
— Camus me perdoa. Olha cara eu sei que pisei na bola, que estou um ano atrasado, mas eu ainda queria que soubesse que independente de tudo nós somos amigos e que pelo menos da nossa amizade eu não abro mão.
Camus apertou o celular em sua mão, ainda não era "eu amo você", ainda parecia repleto de culpa e vergonha. No entanto Milo queria reatar a amizade e já era um começo, embora ele quisesse muito que Milo se permitisse. A sopa derramada ficou esquecida no tapete.
— Vai ter que trabalhar muito para conseguir que tudo volte como era antes. – Milo quase podia ver a expressão presunçosa do outro e ele sorria também. Não era uma negativa, ele estava ganhando uma nova chance que não ia desperdiçar.
— Não quero que seja como antes Camus, quero que seja ainda melhor! Que seja como devia ser desde o começo e quando você voltar, eu vou fazer a nossa noite juntos terminar de um jeito diferente da última vez.
A gargalhada do ruivo era música nos seus ouvidos, Milo riu também completamente feliz como há meses não se sentia.
— Como está aí na Rússia? Muito frio ruivo abusado? – brincou quando parou de rir.
— Muito seu loiro arrogante. Como está tudo pela Grécia?
***
Quando Hyoga chegou encontrou o pai dormindo no sofá enroscado na manta e mesmo dormindo, tinha um sorriso nos lábios. O loirinho achou estranho, mas não perguntou nada ao pai.
Nos dias seguintes aquele mesmo sorriso estava lá, sempre que Camus recebia certo telefonema e às vezes no meio da conversa era trocado por uma careta de desagrado ou um revirar de olhos. Depois o sorriso estava na webcam via Skype e Hyoga enfim descobriu o dono do sorriso.
Isso foi motivo de uma noite inteira de conversa com Ikki pelo Skype. Por falar em Ikki, Hyoga esperava voltar logo para Atenas, para viver o seu romance via internet. Conversas por telefone, via web e mensagens não estava sendo suficiente. Queria tocar beijar e se entregar por inteiro para o seu amado, sentia-se um bobo apaixonado, mais estava feliz.
— Ikki como vai o Shiryu e o Aiolos? Ainda estão sem se falar desde aquele dia? – perguntou a certa altura o loiro, em uma das conversas via skype.
— O Shiryu se mudou. O Saga comprou um apartamento pra ele no centro perto da faculdade. Mas ele voltou a falar com o Aiolos, só que você sabe que o meu tio prefere se enfiar em um buraco de vulcão a ver Shiryu e Shura juntos. – Ikki gargalhou e o loirinho também – Você precisa ver as reuniões de domingo, são engraçadas.
Depois da descoberta catastrófica, a relação de Aiolos com o filho andava de mal a pior. Shiryu inclusive decidiu morar sozinho e Saga, claro o apoiou totalmente. Agora o jovem japonês morava em um apartamento no centro perto da faculdade e do estágio, estágio esse que era no Metropolitan jornal que Shura era editor-chefe e fora justamente Aiolos que colocara Shiryu lá. A sensação de Aiolos era de que ele colocara seu doce filhote na boca dos lobos.
Shiryu era mais sensato que o pai, então foi o primeiro a dar o braço a torcer e voltar a falar com ele normalmente. Porém, evitava o contato do pai e do namorado. Shura e Aiolos não se falavam, Shiryu tomava cuidado para não deixar o pai vê-los juntos e assim estava sendo.
— Estou louco de vontade de voltar. – confessou o russo.
— Eu também loirinho! Não vejo a hora de te pegar!
— Seu pervertido. – Hyoga riu sem graça, mesmo pelo webcam deu pra ver a face de anjo corada pela vergonha.
Precisavam voltar para a Grécia com urgência.
No entanto, foi um motivo bem diferente que fez com que Hyoga adiantasse a viagem em três meses. Começou com um rumor na internet e logo surgiram as fotos, até o próprio Shun confirmar para o loirinho.
— COMO ASSIM NAMORANDO?! – gritou Hyoga quebrando o quarto inteiro – Não acredito que ele fez isso comigo!
Camus veio até o quarto do filho para ver o motivo do surto.
— Pai nós vamos voltar para Atenas! Amanhã resolvo tudo na companhia de balé, você tem quatro dias para resolver tudo, devolver o apartamento essas coisas. Quero estar em Atenas no domingo!
— Sim senhor mestre! – ironizou Camus e recebeu um olhar furioso do loirinho.
— AAAAAHHH IKKI EU VOU TE MATAR!
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