Simplesmente Complicado
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Camus passou a mão no rosto e voltou a olhar para as planilhas de custos que fazia, mas não conseguia prestar atenção realmente no trabalho. Sentia certa inquietação e não parava de pensar no filho. Olhou de esguelha para o celular, a quinta vez só aquela manhã.
— Preocupado com o pequeno?
Levando os olhos para ver que Saga estava à sua frente lhe estendendo uma pasta, nem percebera ele entrar na sua sala e se amaldiçoou por isso. Estava distraído.
— Não é educado entrar sem bater. – retorquiu em tom indiferente.
— Eu bati você não ouviu. Aqui estão os relatórios dos novos empregados que você pediu.
— Obrigado Saga. – pegou a pasta e voltou à planilha ignorando Saga deliberadamente.
— Camus.
– Não.
O francês continuou a mexer no computador esperando que Saga se fosse. A relação entre eles estava indo de mal a pior, depois do fracasso do almoço de sábado Camus ainda tentara continuar como se nada tivesse acontecido. Porém, aqueles encontros fortuitos e o fato de Saga não querer assumi-los estava enervando-o. No último encontro resolvera que não daria mais nenhuma brecha para reatar nem que fosse a amizade com Saga. Agora só se viam no escritório e às vezes na casa dos Savalas quando ele ia ver o Shiryu, Camus não atendia mais seus telefonemas.
Há algumas semanas, fora o aniversário de Hyoga de doze anos e soubera que Aiolos tinha voltado para o namorado espanhol. Ali estava o motivo de Saga o estar procurando novamente.
— Já faz algum tempo Camus, não seja difícil. – Saga apoiou os punhos na cintura com enfado — Você há de convir que a culpa seja sua. Por que você não deixou tudo como estava?
— Quero estabilidade Saga, coisa que você não sabe o que é. – o ruivo retrucou no mesmo tom indiferente – Agora, por favor, me deixe trabalhar.
O seu celular tocou impedindo Saga de falar e Camus atendeu com os olhos no grego. Em um minuto catou todas as suas coisas e disparou porta afora.
— Fica difícil competir com esse moleque Camus. – Saga resmungou.
***
"Pai vem me buscar." e o tom choroso do filho foi suficiente para Camus largar tudo. Chegou ao colégio de Hyoga em pouco tempo e encontrou o filho na diretoria com a psicóloga e a diretora.
— Bom dia. – cumprimento rapidamente em seguida se abaixando para ficar na altura do loirinho, pegando o rostinho entre as mãos olhando apreensivo para o seu anjo choroso – O que aconteceu?
— Senhor Chateaubriand agora está tudo bem. – a diretora começou a falar apaziguadora – Hyoga teve uma pequena briga com outro aluno, mas está tudo resolvido agora.
— Pai ele me chamou de bichinha! Disse que ia me surrar por isso! – gritou Hyoga e Camus sentiu o sangue estalar na têmpora pela fúria que se apossou dele.
Levantou-se segurando a mão do filho e encarou as duas mulheres à sua frente com o olhar que exigia uma explicação. A diretora engoliu em seco e começou a balbuciar desculpas.
— A professora disse que eles trocaram insultos no pátio porque o outro menino estava colocando apelido nos outros alunos, uma bobagem que já foi contornada com uma boa conversa senhor Chateaubriand.
— O Andreas estava chamando todo mundo de bicha, veados de merda! Até o Shun! — o loirinho estava furioso, os orbes celestes crispando para o outro menino que estava ao lado da diretora o olhando com desdém.
Nesse momento outra pessoa entrou na sala ganhando a atenção de todos.
— Andreas outra vez na diretoria. – balançou a cabeça de forma reprovadora o outro ruivo, o menino apenas soprou a franja sobre os olhos e revirou os olhos. O outro homem se virou para Camus – Sinto as circunstâncias, sou Surt Elkpyrnir senhor...
— Chateaubriand. – respondeu Camus frio e um tanto descortês – Seu filho...
— Sobrinho. – corrigiu o irlandês estendendo a mão para o outro que não retribuiu o gesto – Sinto que Andreas tenha causado transtornos, ele está passando por uma fase difícil perdeu os pais recentemente.
— Que não lhe dá direito a insultar alguém ou ameaçar outras crianças! Sugiro senhor Surt que procure ensinar ao seu sobrinho bons modos, não vou tolerar insultos ao meu filho. Vamos Hyoga! – Camus pegou as coisas do filho e se dirigiu a professora – Espero que ele seja punido ou então vou tirar Hyoga dessa escola. Como posso confiar uma criança a vocês se não há garantia da integridade física e moral dela?
— Senhor Chateaubriand fique descansado que todas as providências serão tomadas. – assegurou a diretora no lugar da outra – Isso não vai se repetir.
Camus assentiu e se foi com Hyoga fazendo um meneio de cabeça à Surt, que ficou impressionado com a figura do outro homem. Mas não poderia dar atenção a isso agora porque tinha assuntos urgentes ali.
— Senhor Surt aqui estamos novamente! – a diretora suspirou.
***
— Ele é um babaca pai!
— Sem palavrões Hyoga!
— Desculpe. – o menino mordeu o canto da boca – Não me incomoda por ele me chamar de bichinha, ele é só um idiota! Mas fez o Shun chorar e ele tem muita sorte de o Ikki não estar no nosso bloco porque se não ia ser trucidado!
— Mas você estava chorando. – Camus aproveitou o sinal para olhar o filho que ainda estava com as bochechas coradas do choro recente – Ele disse mais alguma coisa? É sobre a surra?
— Andreas disse por causa da dança. – Hyoga falou baixinho – A diretora chamou todos no pátio hoje para avisar as novas modalidades de aula extra, fiz o teste para o dança e a professora disse que eu tenho jeito.
— Dançar?
— Balé. – e os dois ficaram em silêncio. Tudo que remetia a Natássia era um ponto complicado entre os dois.
Agora sabiam que Natássia era uma bailarina famosa e por isso a maternidade passou de quase para inexistente. A bailarina estava no auge da carreira e suas visitas escassas se tornaram uma raridade e reduzidas a telefonemas, apesar de não falar Hyoga se ressentia e muito com isso.
— Se você quiser mesmo, pode dançar não vejo problema. Só acho que dançar não vai fazer com que sua mãe se aproxime novamente mon age.
— Eu gostei! Acho que vou tentar agora que podemos escolher a modalidade de esporte na escola. – Hyoga remexeu na alça da mochila – A maioria da turma é menina, mas tudo bem. – finalizou com uma careta.
— Você que sabe. – Camus afagou os cabelos do filho – Só fique longe daquele Andreas e longe de confusão, por favor!
— Pai o nome daquele cara é muito esquisito. – Hyoga começou a rir, Camus mordeu o lábio para não rir também embora concordasse com o filho.
Apesar de não ter mais visto o senhor "nome engraçado", não foi tão fácil se livrar de Andreas para Hyoga. Depois de duas suspensões o garoto mais velho trocou de colégio e durante uns dois anos ficou tudo bem, Hyoga acabou por se habituar ao balé e agora era a sua atividade extra na escola. Ele e Shun agora estavam no mesmo lado da escola que Ikki e por isso eram raros os garotos que ousavam implicar com os dois, pois ninguém queria ser merecedor da fúria de Ikki Savalas.
Ikki contava então com quinze anos e já era o melhor aluno da sua turma, além de uma jovem promessa no jiu Jitsu, já ganhará torneios estudantis e estava animado com a possibilidade de poder seguir carreira no esporte. Quem sabe participar de uma olimpíada? Milo estava explodindo de orgulho e Camus também, afinal fora ele o maior incentivador do menino. Shun por outro lado não queria saber de esportes, sua paixão era desenhar!
— Anda Shun vou me atrasar! – Hyoga esperava impaciente Shun arrumar suas coisas para saírem da sala.
— Shun! Vai a minha casa mais tarde? – June se aproximou com as amigas dos dois meninos.
— Eu tenho que... – o garoto coçou a cabeça olhando Hyoga de esguelha que já estava com os lábios de coração torcidos em uma expressão de impaciência.
— Pode levar o Hyoga também. – uma das meninas disse, as outras soltaram risinhos e o loirinho ficou ainda mais aborrecido e saiu puxando o amigo dali, deixando as meninas para trás.
Sairam para a área livre da escola, mais um dia de aula chegava ao fim e todos os alunos estavam alvoroçados para chegar em casa, Shun voltaria para casa e Hyoga ficaria por ter ainda o balé. Voltaria com Ikki que também estava treinando para as competições.
— Shun você 'tá namorando a June? – perguntou o loirinho a certa altura.
— Não sei. – Shun deu de ombros – Ela gosta de lanchar comigo às vezes, me pede para ir na casa dela...
— Você já a beijou? Ela parece gostar de você.
— Parece não?! – Shun corou sorrindo não era tão tímido, mas ainda ficava encabulado com o assunto. Ambos os garotos estavam na idade da descoberta dos interesses, então ainda era tudo muito novo.
— Já beijou ela? – Hyoga insistiu.
— Ainda nem 'tô namorando com ela!
— Você podia pedir umas dicas para Ikki, ele já deve ter beijado uma garota.
— É verdade. Vou perguntar! – Shun olhou de esguelha para o amigo que continuava andando de cabeça baixa – E você Hyoga? Ainda não beijou uma menina? Nenhuma garota das aulas de balé? Elas são muito bonitas!
— Mas não me interessam. – o loirinho deu de ombros chutando uma pedra e Shun ficou olhando-o abismado pensando que Hyoga só podia ter algum problema para não se interessar pelas garotas do balé. Elas eram fantásticas na opinião dele.
— Sério Hyoga?! Eu não acredito!
— É verdade Shunny. – Hyoga revirou os olhos – Vou indo nessa. Leva meus livros?
Shun assentiu e Hyoga lhe entregou os livros, o moreninho correu para o carro do pai que já esperava por ele no portão da escola.
— Hyoga espere o Ikki! Não quero você andando sozinho por aí, mato você se for sozinho para casa. – gritou Milo do carro para total vergonha do loirinho. Milo sempre fazia isso, mas Hyoga nunca se acostumava.
Deu um aceno tímido para o grego e depois saiu correndo de volta para o colégio, em direção ao ginásio para trocar-se e preparar para a aula. Vestiu a roupa de treino e atravessou correndo o ginásio sob o olhar atento de Ikki que treinava na quadra.
— O loirinho é seu irmão? – perguntou o seu adversário.
— É e se você importuná-lo eu quebro a sua cara Andreas. – avisou Ikki calmamente e o outro garoto soprou a franja desdenhoso.
Quando terminou o ensaio Hyoga veio correndo até o ginásio para sentar na arquibancada, como todos os dias, a espera que Ikki terminasse o treino para irem embora. O moreno treinava até mais tarde aqueles dias porque estavam próximos do campeonato estudantil. Hyoga não se preocupara em trocar de roupa, apenas colocara um moletom por cima do colam e da calça de polaina que usava para o balé. Já tinha treze anos e era um tanto alto para a idade, embora o corpo se conservasse esguio e pouco a pouco começava a moldar-se por conta do balé.
— Olá belezinha! Assistindo os treinos de jiu Jitsu? Que tal algo mais interessante? – ouviu alguém dizer ao seu lado e quando se virou para ver quem era se deparou com dois outros garotos mais velhos o olhando – Ah é um garoto! Parece uma bonequinha.
— Eu não me importo. – o mais baixo respondeu com um sorriso para Hyoga que corou, mexendo nos cabelos para disfarçar seu desconforto – Como se chama loirinho?
— Não interessa.
Ikki estava na frente dos dois garotos que quando o viram se encolheram assustados, o moreno fez menção de pegar um deles pela camisa, mas os dois saíram correndo de lá. Andreas estava ao lado de Ikki e começou a rir.
— Você aqui?! Pensei ter me livrado de você. – Hyoga vociferou para o outro.
— Vocês se conhecem?
— Era o Andreas que me aterrorizava na terceira série. – Hyoga entortou os lábios – Tomara que o Ikki te dê uma surra.
— Não vai rolar loiro, eu sou muito bom no jiu Jitsu. – Andreas fez pouco caso e Ikki o pegou pelas abas do quimono.
— É bom? Experimenta mexer com o Hyoga de novo então!
— Estou em missão de paz cara! Sério, eu não posso me meter em confusão. – o menor olhava para Ikki apreensivo – Meu tio vai me matar!
Ikki largou o outro e ainda lançou um olhar de advertência a ele antes de acrescentar.
— Fique longe do Hyoga! – avisou antes de com um gesto de cabeça, chamar o loirinho para sair dali.
Deixaram Andreas para trás e começaram a deixar o ginásio, o moreno não trocara de roupa, apenas trocara a parte de cima do quimono por uma camiseta. Andaram em silêncio por um tempo até que Hyoga perguntou.
— Eu pareço uma menina Ikki? – os olhos de céu fitando o moreno em expectativa pela resposta, Ikki fingiu analisá-lo com atenção fazendo-o rodopiar em volta de si mesmo para "avaliá-lo".
— Vestido assim parece. – concluiu com deboche, Hyoga fechou a cara mostrando a língua – Mas você ainda vai crescer quem sabe perde essa cara de boneca.
— Até você! – Hyoga cruzou os braços emburrado com um bico nos lábios, Ikki riu – Eu não sou uma boneca!
— É sim você faz até balé!
— Seu estúpido! – Hyoga pisou no pé de Ikki que fez uma careta, mas ria. Adorava implicar com o garoto.
— Os garotos confundiram você com uma garota! Você viu.
— Não foi bem assim. – Hyoga corou quando lembrou o que o outro garoto disse e Ikki viu com interesse o loirinho corar.
— Não? O que foi que ele disse Hyoga?
— Nada!
— Hyoga...
— Ele disse que não importava. – murmurou e o rubor ficou mais forte, Ikki se aproximou mais – Disse que não se importava que eu fosse um menino Ikki! – apesar da vergonha Hyoga olhou para o moreno assombrado.
— E você gostou de ouvir ele dizer isso? – sondou Ikki. Nunca tinha parado para pensar nessas coisas com relação a Shun e Hyoga, embora soubesse que June e Shun estavam aos flertes, mais pela parte de June porque Shun era meio "lento". Mas Hyoga era tão fechado e avesso a meninas que Ikki achou que estava tudo bem.
Pensando por outro lado não fazia muito tempo que ele mesmo começava a descobrir sua sexualidade e agora as vésperas dos seus dezesseis anos, sabia que definitivamente não eram as meninas que o atraíam.
— Ah sei lá! – coçou a nuca sem jeito – Nunca parei para pensar nisso Ikki! Eu nem sei se quero namorar meninas... Talvez nem vá namorar!
— Isso mesmo, fique sem namorar por um longo tempo sim? – o mais velho colocou as mãos nos ombros do garoto – Nada de pensar nessas coisas.
— Hahaha agora é meio tarde Ikki! – Hyoga deu a língua para o moreno e saiu correndo na frente.
— Que moleque? Volta aqui!
***
Só por segurança Ikki começou a estar atento aos dois garotos, um pouco mais a Hyoga. Foi assim que descobriu que Shun e June enfim haviam trocado o primeiro beijo e eram oficialmente namorados. Quanto a Hyoga, o moreno estava apreensivo de que a descoberta do interesse dos garotos em outros garotos, só fizera atiçar a curiosidade do pequeno aquariano.
— Shun eu não gosto de meninas. – o ouviu confessar a Shun em um dia em que os dois estavam estudando sozinhos na casa do virginiano.
— Você já beijou alguma para saber?
— Já. As meninas amigas da June. – eles trocaram risinhos. – Todas elas!
— Hyoga! – mais risinhos, Ikki aprumou o ouvido a espera do que viria a seguir.
— Mas foi melhor beijar o Isaak, ele é muito bom e disse que eu sou bom também e logo posso passar para a segunda fase.
— Meu deus Hyoga e você vai?!
— Se for tão bom quanto o beijo... – os garotos gargalharam.
Mas Hyoga não riu quando viu Isaak ser arrastado para o banheiro masculino por um Ikki furioso, depois de um tempo lá dentro, Ikki saiu de lá e o olhou de um jeito que fez Hyoga estremecer de medo. Depois desse episódio Isaak nunca mais beijou Hyoga, nem chegava perto dele.
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