Simplesmente

12 Capítulo 12: Santa Helena


Notas iniciais
Hoje eu to triste, muito triste. Minha amiga chegou na faculdade dizendo que abriu as inscrições pro curso de ITALIANO ofertado pela faculdade (ou seja de graça) e com objetivo do Ciência sem Fronteiras. Quando vou ver é em outra cidade (perto daqui), mas pela manhã quando eu to bem em aula ç_____ç PORQUE DEUS? T_T
Quase que não ia postar hoje, mas lembrei que tinha prometido um capítulo por dia, então estou cumprindo minha palavra u.u

Pov Shay

Acho que uma das vantagens de ser mimada, é saber como mimar. Ivy mal saia de minha casa, ficava comigo e com o Sean, o levando e trazendo da escola, fazendo nossas refeições, cuidando de mim como a melhor enfermeira que eu poderia sonhar. Em todos os sentidos. Às vezes me perguntava onde estava a burguesinha filhinha de papai, mas ela sempre aparecia incomodada por ficarmos apenas na casa e começava a fazer planos de me levar para os locais prediletos dela. Ou seja, todos luxuosos e caros.

Tentava desviar do assunto, sabia que não poderia me bancar, ou simplesmente a beijava, isso sempre funcionava para que o mundo e qualquer outra coisa além de nós desaparecessem como um passe de mágica. Era quinta-feira quando havia recebido uma ligação muito importante. Estava com uma culpa enorme no coração, como podia esquecer desse compromisso? Era um dos mais importantes quando entrava de férias! Por isso quando Ivy chegou em casa, já usando uma cópia de chave própria, eu estava arrumada para sair. Usava uma calça jeans com leves rasgos, uma regata lilás e um colete aberto de preto por cima.

-Aconteceu algo? – Ivy perguntou logo pondo as chaves sobre a mesa.

Ela estava deslumbrante. Eu havia simplesmente parado no meio de caminho, sem conseguir fazer qualquer outra coisa a não ser admirá-la. Ivy usava um vestido rosa claro, um palmo acima do joelho, havia flores desenhadas nas bordas e o estilo era tomara que caia. O cabelo castanho descia como uma cascata em seus ombros, cobrindo os seios com pontas onduladas. Ao erguer meu olhar, ela sorria divertida e mantinha os olhos azuis muito claros nos meus.

-Gostou do que viu? – ela provocou.

-Não me culpe se mia bambina é muito linda – sorri sem jeito, passando a mão no cabelo enquanto a olhava novamente – Mas respondendo a sua pergunta, aconteceu sim, eu lembrei de algo muito importante para mim e tenho de resolver ainda hoje. Gostaria muito que fosse comigo.

-Vamos sair?! Finalmente! – Ivy comemorava quase pulando no lugar – Para onde vamos?

-Bom... Não é para nenhum desses lugares que você está pensando. Mas agora gostaria de fazer uma surpresa. É... Como posso dizer... É realmente importante para mim. Então, não fique esperando muito, porque eu nunca tive muito, então não vai ser algo tão grande assim ok?

Ela sorriu. Aquele sorriso que parecia parar o tempo e espaço. Ivy caminhou até mim para envolver os braços em meu pescoço. Eu era um pouco mais alta que ela, mas graças a sapatilha com um salto mediano ela estava basicamente na mesma altura que eu. Aqueles olhos azuis, tão claros quanto o mar mais límpido, me fazia mergulhar e me afogar de uma forma que não tinha salvação.

-Sei que é estranho vindo de uma garota como eu... Mas não me importo mais com os lugares, desde que você esteja ao meu lado. A não ser é claro que vá me levar para algum canto realmente esquisito, sujo e maltrapilho – Ivy disse fazendo uma careta leve.

-Mia donna é uma dama, vou trata-la como tal, não se preocupe – respondi em um tom de quem fazia um juramento.

Ivy sorriu e sem hesitar me beijou com vontade. De inicio ela nunca tomava a iniciativa, mas nunca me negou, ao contrário, parecia esperar ansiosa. Foi em uma noite que resolvi provoca-la ao máximo, mas sem beijá-la, que ela me agarrou cheia de frustração e parecendo fazer questão de matar isso aos beijos. Desde então ao que parecia ela havia se acostumado. Como agora, a língua da italiana invadia a minha boca sem permissão, ávida em sentir cada espaço e dominar minha própria língua. Mas nunca era fácil, eu tinha um costume natural de querer dominar e aquela dança se tornava uma pequena e deliciosa guerra. Por instinto, mordi de forma suave a língua dela e a suguei antes de passar a beijar em uma intensidade forte, virando o rosto para ter um encaixe melhor das bocas. Minhas mãos deslizaram pelas costas dela diretamente para o bumbum e quando lá chegaram eu apertei com vontade, a fazendo colar ainda mais em meu corpo. Ivy gemeu em meus lábios, se rendendo completamente a mim. Sorri entre o beijo o deixando um pouco mais carinhoso enquanto tirava uma das mãos para acariciar os fios castanhos do cabelo dela.

-Nós temos de ir – falei ainda com a boca colada a dela.

-Temos? Eu estou onde eu quero – Ivy mordia o meu lábio inferior.

-Eu quero te mostrar esse lugar – finalmente me afastei – Veio de carro?

-Você sabe que io odeio dirigir. Vim de táxi.

-Então espero que esteja pronta para andar de ônibus.

-O QUE?

-Ônibus. Não tenho dinheiro para táxi e não, você não vai pagar o táxi.

Ivy bufou alto e eu sorri. Sabia que era pedir demais e podia apostar que ela nunca havia andado de ônibus. Não era horário de pico ainda, não seria tão traumatizante quanto poderia ser se fosse ao fim da tarde ou inicio da manhã. Tudo o que precisei fazer foi ir ao quarto pegar meu violão e deixar um bilhete para Sean mandando-o ficar com Brandon quando voltasse da escola. Ivy ainda estava emburrada quando saímos de casa, não falando nada e de braços cruzados, ainda mais com aquele beicinho involuntário que ela fazia.

-Não é tão ruim assim – argumentei começando a andar.

-Io não gosto! É muito cheio, pessoas andando em pé em um veículo em movimento, apertando uma as outras! – ela reclamou – O que custa deixar-me pagar o táxi ao menos dessa vez?

-Porque sei que haverá outras vezes que não vou poder argumentar e você vai pagar – dei de ombros e ri – Não é horário de muito movimento.

-E o que disse sobre me tratar como uma dama? – Ivy atacou apontando o dedo para mim – Isso não é tratamento digno.

-Só dessa vez, se você odiar com todas as suas forças, eu me viro com o lance dos táxis ok? Mas não vai saber se não gosta tanto se não experimentar.

Ela bufou novamente e andou um pouco mais a frente. Mimada. Revirei os olhos e passei a mão sobre a coxa ferida. Ainda não conseguia andar tão bem, mas conseguia. Meu braço ainda estava parcialmente enfaixado, mas estava bem melhor do que antes. A falta de costume de me mover fazia que meu passo fosse lento e mesmo caminhando um pouco mais a frente, Ivy olhava por sobre o ombro para conferir se estava bem. E todas às vezes eu sorria ou lhe lançava um beijo. Quando chegamos ao ponto de ônibus, ela sentou no banco de espera e cruzou as pernas virando o rosto para não me encarar. O engraçado era que apesar de ter um lugar vago ao lado dela, ninguém que chegava ali sentava, primeiro a olhava de queixo caído e depois se acomodava em qualquer outro canto, menos ao lado dela. Tive de segurar o riso, Ivy estava brava e toda moderna, provavelmente estavam com medo dela ou de incomodá-la com a presença.

-Ivy, nosso ônibus está chegando – chamei a atenção dela e a vi tremer o lábio.

Não havia muita gente para aquele ônibus, apenas uma senhora e uma criança. Ivy foi na frente e subi logo depois, ela me encarou sem saber o que fazer lá dentro. Sorri achando aquilo tão engraçado que mal podia conter o riso. Peguei na mão dela e me aproximei do caixa para poder pagar nosso passe e sem soltá-la a levei até um dos últimos bancos. Apontei para o banco da janela e só então sentei ao lado dela.

-Viu, é só isso. Claro que ficar atenta aos pontos para não perder o seu – comentei com um sorriso vitorioso.

-Eu sei, só não gosto! – ela exclamou olhando para a janela.

-Você viu quanto custou a passagem? – arqueei a sobrancelha.

-Não, mas isso você me paga e não me deixa pagar pra você um táxi!

-Se fossemos de táxi custaria no mínimo 60. Sendo que de ônibus pagamos só 2.25 a viagem inteira – tentei explicar – Tirando o balanço e o incomodo de quando está muito cheio, é totalmente conveniente para mim.

-Só 2.25? Agora entendo porque lota – Ivy finalmente olhou para mim.

Não pude evitar rir. Mas assim que o ônibus entrou em movimento, Ivy segurou minha mão com força e eu pensei se havia mesmo feito o certo. Ela era uma riquinha que provavelmente nunca havia andado de metrô ou ônibus, mas mesmo assim, mesmo emburrada, havia me acompanhado sem brigar muito. Por sorte, o ônibus ficou mais vazio do que o normal. Passei o caminho mostrando alguns lugares pela janela para Ivy como o lugar onde eu comprava meus CDs e DVDs, ou o parquinho onde levava o Sean quando tinha acabado de chegar a minha vida. Aos poucos ela foi relaxando, apesar de ainda olhar atenta cada vez que o ônibus parava, parecendo temer que enchesse do nada o lugar. O caminho levou cerca de meia-hora para chegar até onde eu queria. Quando déssemos tive de segurar um pouco em Ivy para conter uma dorzinha que havia sentido na coxa. Estávamos em uma rua de classe média baixa, havia algumas casas de comercio, uma escola pública bem simples e apenas para o primário. Porém o lugar que apontei para Ivy foi uma pequena mansão de cor branca, mas estava com o portão enferrujado e com alguns desenhos e palavras pinchados nas paredes. O lugar parecia velho e funcionando no limite, mas eu sabia que apesar de parecer pobre era a salvação para muita gente.

-A Casa de Santa Helena – murmurei depois de abaixar o braço, a olhei e sorri amarelo – Bem... Foi ali que fiquei uma parte da minha infância antes de ser adotada.

A compreensão de Ivy foi rápida, ela pós a mão sobre os lábios para conter a surpresa, mas era inevitável. Ajeitei o violão nas minhas e peguei a mão de Ivy para atravessarmos a rua. O senhor da barraca de doces ao me ver gritou meu nome e acenou animado, dizendo que estava demorando muito a visita-los. E ao gritar meu nome outra senhora saiu da banca de jornal apenas para me abraçar e dizer que havia crescido. Quando entramos o primeiro cômodo foi um pequeno saguão que possuía apenas uma escada que levava ao piso superior, o lugar por dentro era melhor do que por fora, afinal Olivia, a diretora do lugar, sempre fizera questão de manter o melhor ambiente para as crianças.

Eu mal percebia que segurava a mão de Ivy ainda, era tão natural e parecia tão bom que mal me dava conta do que fazia. A levei por dois lances de corredores e parei em frente a uma porta de madeira clara. Bati duas vezes e sorri ao escutar uma voz calma e já bastante cansada. Abri a porta devagar e quando entrei Olivia quase saltou da cadeira, pondo as duas mãos na boca emocionada. Ela havia envelhecido tanto! Os cabelos antes grisalhos estavam totalmente brancos, seus vestidos comportados e sempre de cor branca escondiam a pele alva e enrugada. Olivia sempre parecera àquela avó boa e gentil, que abraçava e mimava seus netos da melhor maneira possível.

-Shay! Minha menina! Olha como está linda! – Olivia exclamava.

Olhei para Ivy antes de soltar sua mão e fiz um aceno de cabeça para que ela entrasse mais na sala. Só então fui abraçar a minha terceira e principal mãe. Olivia havia cuidado de mim apesar de ter dado tanto problema. Sentia como se abraçasse mesmo a minha mãe, meus olhos lacrimejavam e eu mal podia soltá-la, não queria, era tão reconfortante aquele abraço! Mas Olivia nos separou para poder segurar meu rosto entre as mãos e me deu aquele sorriso orgulhoso.

-Você está tão bem minha menina – ela murmurava contente – Mas venha, sente. Essa é sua amiga?

-Ah perdão! Olivia essa é Ivy, Ivy essa é Olivia a mulher que cuidou de mim e me fez o que é hoje – apresentei com um enorme sorriso.

-La signora deve ser incrível para ter tanta paciência com essa ragazza teimosa – Ivy comentou não deixando de me provocar.

-Ah, Shay sempre foi muito hiperativa – Olivia concordou rindo.

Elas se abraçaram e eu sorri mais ainda. Foi então que decidi algo, sabia que Ivy poderia brigar comigo depois, mas eu queria que Olivia soubesse. Então, peguei a mão dela novamente, entrelacei nossos dedos e mesmo corando sorri sem jeito para Olivia.

-Bem... Ela não é apenas minha amiga – falei um tanto tímida.

Ivy me olhou surpresa por ter revelado. Olivia me olhava intrigada e logo sorriu grande. A senhora sabia, sempre soube, de minha opção sexual, talvez fosse a primeira a saber mesmo antes de mim. Quando beijei a primeira garota, fora para Olivia que eu tinha contado, não para meus pais adotivos.

-Oh, finalmente! – Olivia exclamou botando a mão no coração – Minha menina finalmente encontrou alguém para se aquietar. Você deve ser uma mulher e tanto minha jovem, porque Shay nunca trouxe nenhuma outra para cá além de você.

Isso era verdade. Não havia percebido isso, apenas achava que seria bom Ivy conhecer o lugar que tinha sido criada e aproveitei a oportunidade. Mas... Eu nunca havia pensado nisso com as outras garotas, não mesmo! Quando a italiana me olhou, eu desviei o olhar encabulada, Deus, estava mesmo gostando dela, do tipo pra valer mesmo!

-Sentem-se meninas, vamos conversar um pouco! – pediu Olivia quebrando o momento.

Tirei o violão das costas e deixei encostado em uma das paredes, olhei para Ivy que já sentava em uma das cadeiras a frente da mesa e fiz o mesmo. Meu coração ainda estava disparado, ainda tentando entender o que eu havia feito tão naturalmente. Mas tive de empurrar isso tudo para depois quando Olivia começou a conversar com Ivy e consequentemente a contar todas as minhas traquinagens. Não preciso dizer que fiquei mais que vermelha e incomodada com a situação. Eu era um pequeno demônio quando criança e não havia dado sossego para a senhora a nossa frente, mas o que eu podia fazer? Não tinha mais culpa disso! Ivy se divertia, perguntava coisas e cativava Olivia cada vez mais, podia ver o brilho nos olhos de Olivia enquanto conversava, como se estivesse conhecendo sua nora.

-Já está na hora não? – perguntei um pouco emburrada.

-Ah sim, as crianças vão amar saber que você está aqui. Vou chama-las e leva-las para a sala recreativa, espere lá sim? – Olivia disse levantando da cadeira.

Fiz que sim com a cabeça e a senhora saiu. Ivy pegou meu violão primeiro que eu e deu de ombros enquanto oferecia o seu braço para que eu pegasse.

-Só para deixar claro, você é a dama aqui ok? – reclamei mas mesmo assim enlacei meu braço no dela.

-Si mio cavaleiro – Ivy ria divertida – Eu adorei a signora Olivia.

Sorri ao escutar aquilo. Seguimos direto para uma sala, uma das maiores do lugar, onde havia varias mesas pequenas com cadeiras igualmente pequenas para crianças. Havia desenhos por todos os lados, brinquedos amontoados em um canto e livros em uma prateleira. Aquele foi o meu lugar predileto, sem sombra de dúvidas. Foi então que me lembrei de algo, caminhei até a prateleira e puxei algo que havia escondido a muito tempo atrás, provavelmente Olivia havia encontrado, mas deixado no mesmo lugar. Puxei uma folha de papel escondida atrás da madeira. O papel já estava velho, mas o desenho ainda estava perfeito. Sorri com as recordações de quando o fiz. Era uma casa perto de uma praia, não era grande, mas tinha duas janelas e um cachorro na frente. Tinha o sol sorrindo, nuvens mal feitas e até pássaros voando. Aproximei de Ivy com o desenho nas mãos, ela me olhava curiosa, mas esperou eu esticar a mão o oferecendo para poder pegar e ver o que era.

-Eu o fiz um pouco antes de sair daqui, antes de saber que iria sair – respondi a pergunta no olhar dela – Era uma atividade de onde queríamos morar um dia. Eu nunca tinha visto o mar na época, só nos desenhos e filmes que assistia às vezes.

Ela nada comentou, apenas olhou de mim para o desenho. O que ela pensava? Porque estava tão séria? Arqueei uma sobrancelha e quando ameacei pegar o desenho ela o afastou no ato.

-Agora é mio – ela decretou – Quero isso.

-Claro que não, é meu desenho! – reclamei – Isso são só rabiscos.

-Não é só isso. Eu quero para mim. Algo especial seu. Posso?

Aquele beicinho e olhar pidão. Tentei ficar brava, com todas as minhas forças. Mas eu só pude revirar os olhos e suspirar alto. Ivy pulou em mim e me deu um abraço, mas tomando todo o cuidado com o desenho. Assim que ela se afastou as crianças apareceram. A maioria eu já conhecia, havia umas cinco novas no mínimo. E o melhor? Todas elas se jogaram em cima de mim, fazendo montinho enquanto eu era esmagada por um bando de pequenos humanos. Ivy apenas ria e me deixava em meu momento. Foi Olivia que me salvou, porém eu não me movi, fingindo de morta. Então as crianças se aproximaram e eu dei um salto, assustando elas. Apresentei Ivy como uma amiga muito especial para mim e as crianças logo a saudaram animadamente.

-Tia Shay! – chamou uma das garotinhas, essa se chamava Joana e não tinha como negar, era uma das minhas prediletas – Vai tocar hoje?

-Claro que sim, Ivy trás meu violão?

Sentei em uma das almofadas, não longe de mim Ivy fez o mesmo, a minha frente uma plateia de pequenas crianças, sendo Olivia a única a ficar de pé. Comecei cantando músicas infantis e alguns pedidos que elas fizeram. Cantei por um bom tempo, recebendo aplausos a todo o fim. Depois disso fomos fazer o lanche que como sempre foi tumultuado. O melhor de tudo? Ivy se dava mais que bem com as crianças. Interagia de uma forma mágica, como se fosse a fada mágica no meio de tantas pequenas sonhadoras. Ela fazia as crianças rirem, brincava, conversava e logo estava no meio como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.

Foi no fim da tarde, depois do almoço e lanche da tarde claro, quando estávamos no jardim que eu finalmente pude parar para pensar. Estava sentada em um banco velho, observando Ivy brincar de cabra-cega, sendo ela a de olhos vendados que tentava pegar as crianças ao redor. Eu não podia por causa de minha perna, mas Ivy supriu toda a expectativa das crianças de um dia divertido. Será que ela havia percebido que a barra de seu vestido estava suja? Ou que o cabelo estava levemente bagunçado? Se sabia, não parecia se importar. Estava mais linda ainda para mim, exibindo uma aura fascinante enquanto brincava com as crianças. Ela... era perfeita. Mesmo com seus mimos, suas manias de princesinha e seu temperamento forte... Ela era perfeita assim. E eu estava terrivelmente apaixonada por ela. Não, isso era pouco para o sentimento que transbordava dentro de mim, muito mais forte, a tão ponto de sentir um friozinho na barriga só de pensar. Eu a amava.

Claro que no inicio houve apenas paixão. Desde antes mesmo de conversar com ela direito, antes daquela festa, da tarefa inusitada da professora, eu a desejava como metade do colégio. Apenas algo físico, ela era linda, charmosa, elegante, uma dama que aprecia fogosa por baixo daquelas máscaras sociais. Mas depois... Quando nos conhecemos, tudo foi se intensificando de uma forma tão rápida e forte que mal tive controle ou escolha. Estava simplesmente, profundamente, perdidamente amando uma garota. Esperei pelo medo, pela ansiedade, pelo desastre que seria ter me apaixonado de tal forma. Mas essa sensação não veio. Sempre tive certa desconfiança com o amor, desde pequena quando este foi me negado tantas vezes. Mas me descobrir sentindo isso não me assustava, pelo contrário, piorava todos os meus outros sentimentos. Queria proteger Ivy com todas as minhas forças, arrancar sorrisos dela todos os dias, estar com ela a todo o momento. Era como um vício. Uma necessidade que só era suprida com o contato dela.

No fim, quando nos despedimos das crianças. Muitas já a abraçavam chorando e implorando para que viesse mais cedo. Ao que aparentava, eu não era a única a me descobri totalmente apaixonada pela Italiana. E o engraçado foi quando ela virou para as crianças e gritou um emocionado:

-Arrivederci!

As crianças se entreolharam e Olivia traduziu para elas. Então elas gritaram da melhor forma que conseguiriam pronunciar um arrivederci. Quando olhei para Ivy, pude ver os olhos dela lacrimejarem apesar do sorriso bobo que brincava em seus lábios. Peguei na mão dela e começamos a atravessar a rua.

-Acho melhor voltarmos de táxi, esta no horário de pico já. Mas vou ajudar a pagar ok? – ofereci encolhendo os ombros.

-Grazie – Ivy sorriu mas logo tornou a ficar um pouco séria – Você cresceu nesse ambiente, tão simples e aconchegante.

-Não se precisa de muito dinheiro para se sentir em um lar. Muitas vezes aquela instituição é melhor do que a própria casa – disse dando de ombros. Como estávamos perto do centro eu soltei a mão de Ivy e pus dentro do bolso, era perigoso encontrar algum conhecido – Por isso eu tenho planos de adotar crianças no futuro.

-Adoção? – repetiu Ivy surpresa – Já pensa nisso?

-Na verdade, eu já pensei em muita coisa – sorri sem jeito – Tenho de pensar, não posso ser tão irresponsável quando tenho Sean do meu lado. Tenho de pensar nele também.

-E quais seus planos?

-Bom, são coisas básicas, que tenho de conseguir de um jeito ou de outro. Entrar na faculdade, de preferência com algum tipo de bolsa. Continuar trabalhando enquanto estudo para poder sustentar o Sean e juntar dinheiro para coisas necessárias, um carro por exemplo. Quando me formar conseguir um bom emprego para conseguir comprar uma boa casa. Adotar crianças... Ter um cachorro. Sempre quis ter um cachorro.

-Hum. Nada de casar?

Olhei para Ivy e já ia responder que talvez. Mas era tão fácil agora imaginá-la ao meu lado em todos os planos que já fiz! Então senti novamente aquele friozinho na barriga enquanto sorria de forma tímida.

-Provavelmente irei casar sim – respondi toda boba – Apesar de não pensar assim até um tempo atrás.

-Ah...

Foi tudo o que ela disse, compreendendo a tudo e sorrindo de forma igual a mim, boba e apaixonada. Ao chegarmos ao ponto de táxi, não falamos mais nada, estávamos cansadas e com uma estranha felicidade nos dominando. Se amar era daquele jeito, eu preferia ficar apaixonada pelo resto de minha vida.

Notas finais
Fiquei com preguiça de por as partes italianos em itálico, mas acho que vocês já se acostumaram com as palavras que mais uso em italiano mesmo. Ah italiano.. tão perto e tão longe de mim ç.ç (eu fico dramática quando eu to triste).