Notas iniciais
Sem música pra esse capítulo. Espero que gostem.

25 de julho de 2011, 10h00 a.m. – Thomas

Terça-feira, certo? Hoje preciso conseguir informações sobre os pacientes que escolhi ontem, quando acabei a primeira entrevista encontrei aquela moça, a Charlotte, me disse que a 103 não era uma maníaca, e que iria me contar a história dela depois que eu falasse com ela hoje. Eu juro que estou curioso e juro que estou tentando fazer-la falar alguma coisa que faça sentido, mas desde que entrei aqui a uns 4 minutos atrás ela só me disse “bom dia” e ficou parada olhando para aquele livro.

– Você poderia, por favor, falar alguma coisa? – perguntei.

– Que tipo de coisa? – com a voz mais que calma, ela ergueu a cabeça devagar, tipicamente perturbada.

– Qualquer coisa, desde que cheguei você não para de olhar pra esse livro, e não muda de página nem nada, – eu disse, curioso – você poderia me deixar ver oque esta escrito nele, né?

– Nós não confiamos em você. – ela disse dando um sorriso irônico meio assustador. Mas não fiquei apavorado porque isso é tudo coisa da cabeça dela, certo?

– Porque não?

– Porque você vem aqui e fica fazendo perguntas, sem nem querer conversar.

– Eu tentei conversar com você ontem, mas seu amigo não deixou. – eu disse sorrindo ironicamente, como ela tinha feito.

– Não, Thomas. Você só queria saber meus problemas pra uma pesquisa idiota. Sabe a quanto tempo eu não recebo uma visita só pra conversar, sem ser a Charlotte? Faz umas três semanas. – Ela disse enquanto olhava pras próprias mãos concentrada, ela não parecia triste, nem nada, apenas pensativa. E oque ela me disse me deixou com um pouco de pena, realmente, não deve ser fácil viver ali sozinha num quarto, sem conversar com alguém real.

– Ok, sobre oque você quer conversar?

– Quero te fazer perguntas também.

– Faça. – me sentei na cadeira ao lado da cama dela.

– Porque você nunca me ajudou? Porque você viu tudo e fingiu que nada estava acontecendo? Se eu estou aqui a culpa é sua. Eu estou presa aqui e graças... – ela se levantou da cama e ergueu a voz num nível considerável – GRAÇAS. A. VOCÊ. – ela gritou pausadamente e me atacou. Literalmente me atacou, ela pulou no meu pescoço e eu levantei segurando-a pelos pulsos, sem apertar muito, apenas o suficiente para segura-la longe do meu rosto. Ela parou com o rosto perto do meu e eu pude ver nos olhos dela: dor, medo. Ela sofreu muito e tudo oque ela acabou de me dizer, não fazia sentido, mas parecia que ela estava muito convencida de que a culpa toda era minha. Não disse nenhuma palavra, apenas esperei a expressão de medo desaparecer. Não aconteceu. – Por favor, me solta. – ela fechou os olhos, como se estivesse esperando que eu fizesse alguma coisa ruim com ela. Uma lágrima caiu do seu olho direito. Ela estava visivelmente assustada. – Por favor, Thomas. – ela disse num tom baixo, ainda com os olhos fechados.

– Abre os olhos. – eu disse a ela e abriu devagar. Eu precisava fazer alguma coisa, não poderia deixar uma garota assim, e eu fiz. Eu soltei seus pulsos e a abracei. Ela se assustou no começo, mas retribuiu. Eu senti que era disso que ela precisava, um pouco de compreensão. Não de uma pessoa pra ficar repetindo constantemente que ela era louca. Era evidente que ela tinha sofrido muito, e eu vou ajuda-la como eu puder. Depois disso, ela se acalmou e se sentou novamente na cama e eu na cadeira ao seu lado. Ela olhou pro lado colocando a mão na cabeça. – Esta tudo bem? – eu disse e ela me olhou aliviada.

– Esta passando. – Ela disse.

– Oque esta passando? – ela não respondeu, apenas sorriu e abriu seu livro, na página 200, como sempre. Entendi que ela não falaria, então mudei a pergunta. – Qual é seu nome? – Ela não disse nada. Continuou na mesma posição. – Qual é seu nome? – repeti.

– Não posso. Você sabe que não.

– Mas nós somos amigos, certo?

– Somos.

– Então porque não me conta?

– Nós não confiamos em você. – aquele ar sombrio voltou. E se o objetivo dela era me assustar, não conseguiu. Ela não me dá mais medo.

– Ah, por favor! Pensei que já tínhamos passado por isso. – ela riu olhando para aquele livro idiota. Página 200. Ela não respondeu mais nada. Entendi que meu tempo tinha acabado. – Ok, até amanhã. Levantei, e quando fui abrir a porta, ela disse calmamente:

– Você ainda não passou por nada e temos muito tempo, ainda é o segundo dia. – eu sorri, pensando no quanto ela é misteriosa. Saí do quarto, deixando para trás a paciente 103.

Saí dali para o próximo paciente. A Chloe. Li a ficha dela rapidamente e fui à procura do quarto 1667. Entrei no quarto dela e não vi nada de diferente, apenas uma garotinha loira, com um vestido amarelo, sentada em uma cama cor de rosa, aliás, cor é oque não falta aqui, ao contrario do quarto da 103, que é todo branco.

– Olá! – ela disse animadamente correndo para me abraçar. Agachei-me para ficar do tamanho dela enquanto a abraçava.

– Oi, Chloe. – eu disse pegando-a no colo. – Como você esta hoje?

– Estou muito bem, obrigada. Qual seu nome?

– Thomas.

– Ok, Thomas. Você quer saber alguma coisa? – Chloe disse sorrindo e eu a coloquei no chão.

– Sim, algumas coisas.

– Pode perguntar.

– Na verdade, prefiro que você fale um pouco sobre você.

– Ta. Meu nome é Chloe, tenho 8 anos, gosto de conversar e gosto de abraços e de ler alguns livros que tenho aqui. Tenho uma amiga muito legal, as vezes quando insisto muito, a doutora Charlotte me leva pra conversar com ela.

– Hum, legal. – Eu disse escrevendo algumas coisas que ela disse num papel. – Quem é sua amiga?

– Ela não gosta de contar o nome dela pra ninguém, mas você a conhece, ela me disse ontem na hora do café, que um garoto tinha ido fazer perguntas a ela. Um garoto gentil e bonito. – ela disse com um sorriso inocente – Gentil e bonito? Só pode ser você, né? – Fiquei muito surpreso, não esperava isso.

– É, pode ser.

– Continuando. Gosto de desenhar também. – ela sorriu – já te contaram porque eu vim morar aqui? – pedi para que ela continuasse – Porque o papai disse pra mamãe que eles precisavam viajar pra longe resolver uns problemas e eu estava atrapalhando. – ela disse com uma carinha confusa, que sinceramente, me deu muita pena. Fiquei confuso, ela parecia estar certa, mas nada do que ela dizia estava condizendo com oque estava na ficha – E então ele me deixou aqui. Mas eu não sou louca, pode perguntar para minha amiga ou para a Charlotte.

– Acredito em você. – eu sorri.

– Você poderia ajudar a melhorar a minha amiga né? Ela iria adorar.

– Vou ajudar.

– Obrigada, Thomas. – ela disse e eu a abracei me despedindo. Ela veio até mim e sussurrou no meu ouvido:

– Só peço pra você tomar cuidado com o Sean, ele anda meio nervoso ultimamente. Digo, ela acha isso, desde que eu a conheci, ela morre de medo de desobedece-lo.

– Ele não pode fazer nada, ele não existe. – eu disse, tentando convencer a mim mesmo.

– Isso é oque você acha – Chloe disse, e quando ouvi isso, ela me pareceu muito mais inteligente do que aparenta. – Conversa com a Charlotte depois, ela vai te contar toda a história dela. Ouvi falar que a história dela é muito complicada. – ela disse.

– Ok, até amanhã, Chloe. – Eu disse e sai dali, com mais milhares de perguntas na minha cabeça. E se eu quisesse eu poderia até enumera-las.

Notas finais
Até eu ficaria curiosa para saber sobre a história dela, o nome dela, o porque dela ter medo desse Sean... Esperem pelos próximos capítulos. Beijosss.