Simple Pleasures
3 All Eyes
Notas iniciais
26 de julho de 2011, 9h30 a.m. — THOMAS
Não lembro que dia é hoje, só me lembro de que nem comecei esse trabalho, e também me lembro dela. Iria de bicicleta até o Psychiatric Hospital Harvey II com a minha mochila, dentro dela apenas meu caderno, uma caneta e um moletom, eu pretendia voltar tarde e em Roswell, bom, nunca se sabe quando vai cair uma tempestade, não precisaria de mais nada. No caminho passei por uma biblioteca pequena e tive uma ideia, resolvi entrar.
– Charlie? – disse chamando minha amiga que estava distraída com um livro qualquer.
– Ah, oi, Thomas. Você por aqui? Na biblioteca? – Ela disse rindo.
– Como você esta?
– Bem, mas você não deve ter vindo aqui só pra me visitar né – ela sorriu.
– Preciso de ajuda com um livro. Preciso de um livro que transmita uma mensagem boa, que mostre como superar algo ruim. – pareci um hippie dizendo aquilo, mas era oque eu precisava – Romance, aventura, qualquer coisa.
– Tenho um aqui, se chama Forgetting The Pain (esquecendo a dor). É drama, mas tem uma mensagem boa, tem oque você quer. – Charlie me entregou um livro antigo, com a capa azul que era inteiramente decorada com pequenas palavras em branco “Love, piece, pain, overcome...” entre outras, e o titulo escrito em preto “ESQUECENDO A DOR – Lanna Carter”.
– Sobre oque fala?
– Leia.
– Não é pra mim.
– Pra quem é?
– Uma amiga.
– Ah, ok. – Ela riu – o livro é sobre uma garota que sofreu muito, a Kate, ela conta como foi a infância dela e conta como superou, ela teve alguns problemas com drogas e essas coisas. Ela teve a ajuda de um amigo, o Chris, ele era um garoto alegre que foi fundamental para a recuperação dela. É um romance. Um romance dramático.
– Parece perfeito. Quantas cópias têm? – Eu disse entusiasmado. E ela riu.
– Quantas você quer?
– Duas. – Eu disse.
– Thomas, você não vem aqui a anos, você nunca mais veio pegar livros, a ultima vez foi para um trabalho escolar, porque isso agora?
– É um trabalho escolar.
– Não era pra uma amiga? – ela me conhecia muito bem, claro, ela é minha melhor amiga.
– Uma amiga-trabalho. – eu disse rindo.
– Tommy, – ela nunca vai esquecer esse apelido? – é alguma coisa relacionada ao trabalho sobre os pacientes do Harvey? – como ela me conhece tão bem?
– É, tem uma garota. Ela esta internada lá, eu quero ajuda-la.
– Você sempre foi chegado a uma loucura né? – ela disse – como ela é? A personalidade, e tal?
– Ela é fechada demais, não se abre muito e não confia nas pessoas, mas pelo pouquíssimo que a conheço, ela é uma boa pessoa. Ela sofreu muito. – eu sorri apreensivo.
– Eu nunca te vi assim, preocupado com alguém que mal conhece. Essa garota... – Charlie disse meio pensativa – essa garota ta mostrando o melhor lado que você tem, ela com certeza é uma boa pessoa. – ela entregou os livros pra mim e me abraçou.
– Obrigado, Charlie.
– Vê se aparece mais por aqui. E me liga.
– Claro, até mais.
Sai dali com os livros e fui até o Hospital Harvey II. O lugar mais estranho de Roswell, se não da Geórgia toda. Todos aqueles corredores, aqueles gritos, era definitivamente um lugar louco, mas enquanto estava no quarto, era extremamente quieto, como se o quarto fosse a prova de sons só pra quem estava dentro dele. Não ia passar no quarto da 103 primeiro, iria ao escritório da psiquiatra Charlotte. Bati na porta. Ela abriu e me mandou entrar.
– Oi, Thomas. Sente-se. – Me sentei. – Porque não veio ontem?
– Eu fui falar com a 103 e depois com a Chloe, fiquei tanto tempo com elas que acabou meu tempo, eu já tinha que ir embora.
– Ah, já conheceu a Chloe. Ela é uma menina adorável, não?
– Muito. – sorri. Eu tentei disfarçar minha ansiedade em querer saber sobre a 103. Sem sucesso.
– Ok, vejo que esta curioso. Vou contar tudo oque sei, e saiba que isso são informações extremamente confidenciais e só vou te contar porque vejo que você é um menino bom e que pode ajuda-la muito. Nada que você sabe pode ser contado para outra pessoa. – concordei. – Bom, ela morava com sua mãe e seu padrasto aqui mesmo em Roswell, o pai dela morreu um mês antes dela nascer, Alicia, a mãe dela, se casou com Anthony dois anos depois do nascimento dela. Alicia não superou a morte do marido e a cada dia ela ficava mais e mais perturbada. Anthony se sentia traído, e descontava toda a sua raiva na enteada. Ela foi abusada e espancada, e quando decidiu contar pra mãe, Anthony a puniu, trancando-a no porão da casa. Ela ficou lá por muito tempo, ela tinha seis anos e era muito inteligente, a única coisa que tinha pra ela se distrair era um livro com uma capa vermelha. Quando ela finalmente saiu de lá, sua mãe estava muito doente, e quase não se lembrava dela, e Alicia foi internada aqui em Harvey, e um vizinho ficou sabendo do que Anthony fez e o denunciou, ele esta preso até hoje. 103 foi mandada a um orfanato quando estava com 11 anos e levou o livro, ela leu o livro tantas vezes que pensou que era a personagem da história. Uma menina de 16 anos que se chamava Annie, que se sentiu pressionada por seu melhor amigo Sean e matou todos os colegas de classe. Inclusive Sean. Ele a perdoou e ficou perto dela até o fim. – escutava tudo no absoluto silencio, tentando entender oque se passa na cabeça da 103. – O problema é que ela se apegou muito a Sean, e realmente acredita que ele é real, ela queria desde sempre alguém para protegê-la, e ela encontrou isso em Sean, um personagem fictício. Quando ela estava com 14, mandaram-na pra cá. E desde então estou tentando resolver o problema dela. Mas faz dois anos e ela não teve nenhum progresso significativo, tentamos de tudo pra tirar aquele livro dela, sem sucesso. Olha, eu pedi sua ajuda porque se desistirem dela e a mandarem pra ala D, não tenho mais oque fazer, eu não vou poder ajuda-la.
– Ala D? – eu só consegui dizer isso, eu estava totalmente perplexo, ela não era só uma louca, ela tinha sido abusada, ela sofreu de verdade e só precisa de alguém para protegê-la, não poderia ser assim tão fácil tirar aquele livro dela. Mas eu posso tentar.
– Ala A, os órfãos com poucos problemas, os que têm medos considerados “leves”. Ala B, ficam os que são considerados perturbados por um trauma maior, como o abuso e cárcere privado, como a 103.
– E a Ala C?
– A Ala C, abriga os mais doentes, aqueles que não têm mais jeito. Os mais perturbados do país estão lá. Ela agora está na B, mas se for mandada pra C, não posso mais tira-la de lá.
– Ela não vai ser mandada pra C. – eu disse tentando convencer mais a mim mesmo do que a própria Charlotte.
– Por isso preciso da sua ajuda. Geralmente não consigo permissão pra deixar outras pessoas entrarem nos quartos dos pacientes B. Mas consegui permissão pra você, os seus outros colegas estão com os pacientes A.
– Porque achava que eu poderia ajudar?
– Thomas, eu não acho, eu tenho certeza. Não convém dizer o porque agora, preciso que vá conhecer o próximo agora. O nome dele é Tyler, está no A, nada muito complicado. Já está num nível avançado de recuperação, esta quase saindo – concordei – Por favor, passe na 103 depois – como se esse não fosse meu objetivo desde o começo – com sorte você consegue descobrir o nome dela.
– Ok. – me despedi e sai de lá mais ansioso do que entrei, eu preciso saber o nome dela. Não estou conseguindo dormir tentando imaginar o nome.
Entrei no quarto 333 da ala A.
– Oi. – Tyler disse. Loiro, olhos castanhos escuros, sorriso normal.
– Oi. Meu nome é... – ele me interrompeu.
– Thomas. É, Chloe me contou tudo sobre você. – ele disse rindo. – Veio fazer a pesquisa, certo?
– Certo.
– Oque quer saber?
– Fale sobre você. – eu disse pegando o caderno e escrevendo o nome dele numa folha em branco.
– Ok. Meu nome é Tyler Harding, tenho 17 anos, estou aqui a 4 anos porque sofri um acidente de carro com minha família e sobrevivi. Perdi minha memoria e depois, quando comecei a me lembrar, coloquei na minha cabeça que a culpa da do acidente era minha, eu tentei me matar e vim parar aqui, depois disso os transtornos continuaram. Felizmente, Charlotte me ajudou, estou quase saindo, ela disse?
– Disse. Isso é muito bom, cara. Fico feliz.
– Obrigado. Fiquei sabendo que esta ajudando a... – ele parou de falar imediatamente, quando percebeu a besteira que ia fazer, no caso, falar o nome dela seria um alivio pra mim, pra ela seria provavelmente um motivo de surto – ajudando a 103.
– Aparentemente todo mundo sabe o nome dela, menos eu.
– Muitos anos de convivência, uma hora ela teve que contar. – ele revirou os olhos – espero que você consiga cara, ela é muito legal e com sua ajuda, quem sabe ela descubra o quanto a vida pode ser boa. Ela precisa confiar mais.
– Eu vou conseguir, ela vai melhorar. Eu prometo.
– Claro que vai. – ele sorriu e eu percebi que meu trabalho ali já tinha acabado.
– Prazer em te conhecer, Tyler. – estendi a mão pra ele.
– O prazer é meu. – ele apertou minha mão sorrindo. – Se quiser voltar semana que vem, estou sempre aqui para conversar.
– Vou voltar. – sorri e sai do quarto. Agora é hora de ver meu objetivo. Quarto 1890, Ala B.
Entrei no quarto e lá estava ela. Sentada do mesmo jeito, com a mesma página aberta, a 200. Sorri involuntariamente ao vê-la, ela parecia melhor que da ultima vez que a vi, e quando entrei, um pequeno sorriso se formou no seu rosto.
– Bom dia, Thomas.
– Bom dia.
– Oque quer saber hoje? – ela foi tão direta que até me assustei.
– Hum... – tirei a mochila e sentei ao lado dela na cama, diferente do que eu sempre fazia, ela me olhou de lado, meio assustada, eu acho. Abri a mochila e tirei o livro que tinha pegado pra ela. – Tenho um presente.
– Um presente? – ela levantou os olhos do livro dela rapidamente e me encarou, olhando nos meus olhos. E por um momento, vi toda a dor dela visível ali, foi como se eu tivesse visto todas as cenas de camarote, e ao mesmo tempo, vi o quanto ela precisava de uma pessoa para protegê-la. Perdi o foco quando olhei pra boca dela, como ela podia ser tão frágil e ao mesmo tempo tão desafiadora? Voltei ao normal logo depois dela dizer: – Qual presente? – curiosa.
– É... – eu desviei o olhar dela para o livro e disse: – Vi o quanto gosta de ler, e peguei um livro pra você na biblioteca no caminho para cá. – ela sorriu abertamente e olhou para o livro, ela parecia muito agradecida, mas não soltou aquele livro vermelho.
– Você fez isso?
– Fiz.
– Eu nunca ganhei um presente. – ela me olhou – Muito obrigada. – ela sorriu e soltou o livro vermelho na cama, pegando o azul da minha mão. Quando vi aquela cena, fiquei muito surpreso, não poderia ter sido tão fácil. – ela olhava para o livro, curiosa. De repente ela olhou para livro vermelho e o sorriso desapareceu. Ela colocou o livro azul no colo e pegou o vermelho, abriu ele na página 200 e parou por um instante, parecia que estava pensando. “Não foi tão fácil.” Pensei. Logo depois ela pegou um marcador rosa que estava no meio do livro vermelho e o fechou. O titulo era “Minha alma perdida”. Ela pegou o marcador e colocou na primeira página do presente que dei a ela. Eu estou ficando louco? Ela desistiu do livro vermelho? É bom demais pra ser verdade. – Thomas? – Ela disse com uma expressão confusa.
– Pode falar.
– Leva ele daqui. – ela disse.
– Ele quem?
– O livro. Por favor. Eu não preciso mais dele. – ela me entregou o livro vermelho.
– Você... Você esta me dando? – eu estou pirando, literalmente.
– Sim, tire ele de perto de mim, não preciso mais do Sean pra me proteger. Agora eu tenho você. Eu posso confiar em você, certo?
– Claro que pode. Sou eu quem vai te proteger agora. Mas precisamos nos conhecer mais, não acha? Você passou muito tempo com o Sean, você realmente o conhecia. – eu sorri e ela retribuiu.
– Meu nome é Grace, Grace Alrich. – ela sorriu. E eu não consegui não sorrir também. – Thomas, porque você está me ajudando?
– Porque somos amigos.
– Mas quando você veio aqui pela primeira vez, nós não éramos.
– Estou te ajudando porque eu acredito em você, acredito que vá melhorar e quando você melhorar, eu vou poder te tirar daqui. – eu sorri e ela também. E esse foi o ponto alto da semana, talvez o do ano todo. Ela sorrindo e confiando em mim, eu não poderia estar mais orgulhoso dela.
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