Simple Man
1 Prólogo
Notas iniciais
PRÓLOGO
Era mais um dia frio e vazio em Londres, o que me faz novamente pensar em ir embora. Mesmo sem ter lugar algum para ir, era só o que eu conseguia pensar nos últimos dias. O Battersea Park estava tão absurdamente calmo e silencioso que podia ouvir meus pensamentos e, só assim percebi o quão ridículos eles soavam. Para onde eu iria e por quê? Sentei num dos bancos ainda úmidos sem me importar muito para observar as pessoas chegarem e irem embora, seguirem seus destinos e vidas sem que precisem de mim. Me convencendo de que eu não tenho um papel a cumprir com a sociedade e que todas as tentativas possíveis e impossíveis eu havia tomado.
As gotas começaram a cair geladas e lentamente sobre o meu rosto quando eu a vi. Andando no sentido contrário de todas as pessoas que fugiam da chuva. Vestia apenas um suéter vermelho e jeans, nas mãos carregava uma enorme câmera fotográfica, por onde ela observava e capturava tudo. Suas botas marchavam com a maior calma possível, não estava com pressa. Não se incomodava
com o frio ou o vento, não protegia os longos cabelos negros ou o rosto. Era tão magra e baixa que me ocorreu que, se fosse uma tempestade, talvez ela não aparentasse tanta coragem e indiferença. Seus lábios rosados e carnudos se curvavam em um sorriso atrás das lentes a cada fotografia que ela tirava. Parecia livre. Alheia a toda podridão presente no meu universo que por um minuto pensei estar sonhando, mas ela se virou e sorriu de forma tão ingênua que eu me de alguma forma errado e disse:
- Que dia maravilhoso! — Então o flash disparou sob meus olhos e ela tirou um retrato meu.
Não tive tempo de por a mão no rosto e também não me importei, apenas cocei os olhos e pisquei algumas vezes para recobrar a visão, quando consegui vi que ela havia sentado ao meu lado e se deliciava com a minha confusão.
- O que você faz aí sozinho? — Perguntou com o seu sotaque britânico, mas um jeito delicado de falar.
- O que você faz por aí sozinha? Está ficando tarde — Retruquei. Eu não tinha intenções de revelar nada a uma estranha, ou melhor, a ninguém.
- Eu perguntei primeiro, cara — insistiu.
Pensei em todas as razões que contribuíam o fato de eu estar sentado na chuva, num banco molhado de um parque observando uma garota estranha e que não fazia ideia de quem eu era, mas eu não conseguia simplesmente desviar os olhos e pensar em alguma resposta que não a assustasse ou a que fizesse entender, porque de fato ela nunca acreditaria na verdade. Nem eu acreditava mais. Foi quando meu celular tocou pela milésima vez naquele dia e, para evitar a menina eu lhe dei um sorriso forçado e atendi já sabendo quem era.
- Eu te ligo de volta — Disse a ele e guardei o celular novamente, forcei um sorriso sem graça e percebi que não sabia sequer seu nome, mas só me levantei e fui em direção ao carro.
- Se cuida, cara! — Ela gritou.
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