Simple Man
2 Clímax
– Ok, naná não vou voltar tarde, boa noite! — Cobri-a com o edredom, desliguei a TV e dei um beijo em sua testa antes de sair. A calma como ela fechava os olhos antes de adormecer às vezes me assustava. Eu sabia que ela não era mais saudável como antes e se sentia muito triste desde a morte do meu avô, mas eu não estava preparada para deixá-la ir. Ela era tudo o que me restava e também o que eu mais amava no mundo. Fechei a porta com cuidado e desci as escadas com a mesma calma para não fazer barulho.
– E aí? Como ela está hoje? — Perguntou Summer.
– Está bem, já adormeceu. Vamos?
Summer era minha melhor amiga e morava comigo e minha avó há um ano, nos conhecemos na faculdade de fotografia na University of the Arts London e quando meu avô faleceu e eu percebi que não conseguiria cuidar da casa e da vovó sozinha e, ao mesmo tempo trabalhar fora, propus a ela que me ajudasse. Nós somos estagiárias em um estúdio de fotografia a três quadras de casa, revezamos os turnos e cada uma cuida da vovó durante um período do dia, o dela é sempre a noite, mas era sábado e nós duas sempre saíamos pra nos divertir aos sábados.
Ela usava um vestido azul royal que entregava suas curvas, botas e um casaco fino apenas, mas jurava não estar sentindo frio algum. Eu estava de jeans e uma blusa branca decotada, porém simples. Não gostava de exagerar e fugir do natural, meus cabelos estavam soltos e tinha uma jaqueta preta de couro que aquecia bem em noites como aquela.
– Então, como foi o seu dia? — Ela perguntou.
– Estranho e o seu?
– Entediante, fiz uma maratona de Game of Thrones com a naná hoje — Ela riu enquanto puxava meu braço para atravessarmos a rua — Ela ficou feliz quando o Joffrey morreu.
Dei um leve tapa em seu braço.
– Por que você me contou? Eu não sabia disso — E rimos, mas ela de repente parou na calçada e enfiou as mãos no bolso do casaco — O quê? — Perguntei.
– Nós nunca entramos nesse aqui, o que acha? — Ela sugeriu.
Eu observei a porta minúscula de entrada para o bar, realmente nunca havíamos ido ali e talvez fosse obvio o motivo. Dava de esquina a um beco escuro e silencioso demais, um bairro assustador pelo qual raramente passávamos. Geralmente era frequentado por caras repugnantes e americanos que gostavam de chegar em casa bêbados para não ter de ouvir a mulher, mas eu nunca fui o tipo de garota que tivesse medo desses caras. Na verdade, eles tinham medo de mim. Fiz que sim com a cabeça e esperei Summer entrar primeiro, quando avistei um Impala do outro lado da rua, um carro de atitude. Imaginei se o dono pudesse estar dentro do bar e sorri, mordiscando de leve os lábios.
– O que você vai beber? — Sum perguntou enquanto sentávamos em bancos altos na lateral do bar, que era sempre o melhor lugar para ficar. Longe da mesa de sinuca que sempre me tentava quando a bebida fazia seu efeito.
– Vodca! Duas por favor! — Eu disse ao garçom.
– Então me conte, por quê o seu dia foi estranho?
– Eu estava voltando da casa de uma cliente, fui entregar aquele álbum hoje, lembra? — Tomei minha dose de uma vez e Summer assentiu para que eu continuasse — No meio do caminho para casa decidi fotografar o parque, o clima de chuva fraca estava tão lindo e...
– Anne vá direto ao ponto! — Sum fez sinal ao garçom para mais duas doses.
– Eu vi um cara sentado lá, era americano eu acho, estava molhado e sozinho — Parei por um minuto — Mas a sensação que eu senti foi tão estranha quando me aproximei, ele parecia... Vazio, sabe?
– Ah, qual é Anne! Você e essa sua mania de tentar interpretar as pessoas — ela bufou — ele era bonito?
– Ele era incrível, mas parecia muito abalado e eu nem sei o seu nome — Disse antes de tomar mais uma dose.
A noite estava começando a ficar divertida, alguns caras pagaram bebidas para a gente, o que era uma das vantagens de se sentar próxima ao bar. Um ou outro tentou flertar com a Summer, mas ela não dava bola pra nenhum. A Summer era americana e bonita, alta e magra, mas com curvas nos lugares certos. Tinha o cabelo liso e dourado na altura dos seios e, apesar de uma aparência fútil ela era bastante focada no trabalho e nas responsabilidades do dia a dia. Raramente se relacionava com o que chamávamos de "problema" e sabia lidar com a situação se ela aparecesse, mas eu não, eu tinha o dedo podre para o amor. Só me sentia atraída pelos bad boys e isso só me levava a um caminho possível: decepção.
Só me despertei de minha distração quando Summer me beliscou, tinha um rapaz a nossa frente e ela estava nos apresentando. Era Brad ou Brian o nome dele, não lembro, sorri e disse que ia ao banheiro. Minha cabeça estava perturbada, eu não conseguia me divertir, ou não queria. Estava pensando no rapaz que encontrei mais cedo, em como ele tirava o meu ar com aquele olhar duro e misterioso e em como ele parecia diferente dos outros caras na cidade. Se eu soubesse ao menos seu nome. Me repreendi pelo pensamento e observei o espelho pequeno do banheiro mais pequeno ainda daquele bar, ajeitei o cabelo e tentei me convencer que não havia nada de especial nele, todos os homens eram iguais, afinal.
– Uou! Cuidado aí gatinha — Um homem com a camiseta do Guns 'n Roses me disse quando esbarrei nele e quase derrubei seu copo de cerveja.
– Foi mal aí, é que com essa sua barriga enorme fica difícil ter espaço para andar — Esbravejei e segui em frente, mas o braço dele me segurou e me puxou de volta.
– O que foi que você disse? — Ele sussurrou em um tom ameaçador no meu ouvido.
– Que você é gordo, agora solta ela! — Não era uma voz estranha, mas não conseguia me lembrar quem era até eu me virar.
O homem barbudo nos fuzilou com o olhar mas voltou para o seu grupo de amigos.
– Valeu, "cara do parque", mas eu sei me defender — Sorri para ele e estendi a mão — Anne, Obrigada!
– É você é dura na queda mesmo — Ele me devolveu um sorriso fraco e com uma das mão apertou a minha, a outra levou ao bolso — Eu sou o Dean! — Disse.
– Nome legal, então — Me aproximei do bar ainda sustentando o seu olhar — Dean, posso te pagar uma bebida? — E me sentei.
– Geralmente os rapazes fazem isso não é? — Ele sorriu e se sentou no balcão ao meu lado — Ou na Inglaterra é diferente?
Nós nos sentamos e eu pedi duas vodkas, ele pareceu gostar da escolha e não demorou a tomar sua dose então eu o acompanhei. Procurei Summer do outro lado do balcão mas ela não estava lá, o que era estranho Summer nunca saía do bar com alguém sem me avisar antes. Peguei o celular e mandei uma mensagem "Onde você está?" devolvi no bolso e fuzilei o cara do meu lado tentando imaginar o que se passava pela sua cabeça, mas ele não deixava nada transparecer. Dean era o tipo de cara que guardava todo o fardo do mundo sob suas costas e não dividia com ninguém.
– Na verdade em todos os lugares é sempre a mesma coisa, só as pessoas são diferentes — Peguei a garrafa que o garçom havia deixado perto de nós e nos servi outra dose, essa já era a terceira — De onde você é Dean?
– Lawrence, Kansas — Ele se virou pra mim, parecia mais animado do que estava quando o vi no parque — Mas eu não vivo mais lá há muito tempo.
– E por quê? — Perguntei divertida.
– Muitas perguntas mocinha — Ele virou mais uma — O fato de eu salvar a sua vida não te dá o direito de perguntar tantas coisas, seus pais não te ensinaram a não falar com estranhos?
– Mas você não é um completo estranho, é o cara do parque — Dei uma pausa e me aproximei mais dele antes de sussurrar — E eu não preciso ser salva.
Dean era absurdamente lindo, visivelmente mais velho que eu, expressão séria e carregava dor no olhar. Quando pensava sobre algo que eu acabara de dizer, suas sobrancelhas se curvavam e seus lábios bem desenhados também, tentava me decifrar. Vestia uma camiseta preta em gola V que exibia um pouco do seu peitoral, não era malhado, mas era forte. Suas calças jeans justas na medida certa, não era alto, porém maior que eu. Cabelos dourados e espetados, uma jaqueta de couro marrom pendurada no balcão. Seus olhos eram verdes, mas pareciam sombrios como se ele estivesse muito cansado ou preocupado. Natural que estivesse bebendo vodka pura com tanta sede e nem ao menos fazer cara feia. Ele estava me contando alguma história sob seu pai viajar muito a trabalho quando ele era criança quando meu celular vibrou, era uma mensagem de Summer.
"Estou em casa, não estava me sentindo bem. Divirta-se".
– Namorado? — Dean interrompeu.
– O que? — bufei — Não! Era uma amiga — Guardei o celular no bolso e voltei a olhar pra ele — Meu pai também viajava com bastante quando eu era criança, ainda espero ele voltar — Sorri com certa dor e abaixei a cabeça. Certamente a bebida estava fazendo mais efeito do que eu esperava, eu nunca falava dos meus pais a ninguém a não ser naná.
– Você não precisa dizer — Disse Dean, apoiando sua mão sob a minha no balcão — Eu entendo — Era claro que ele tinha entendido, talvez também tivesse perdido os pais. Não quis perguntar.
Quando o bar fechou ele me ofereceu uma carona e embora eu não morasse longe, não recusei, estava realmente tarde e eu era espera o suficiente pra saber o que acontece com garotas bonitas e sozinhas por becos como aqueles. Entrei no carro e fui explicando onde era minha casa, em poucos minutos eu estava entregue e eu não sabia como agradecer a Dean. Não por me salvar de um gordo bêbado qualquer, pois eu enfrentava caras como aquele sem medo algum com bastante frequência, mas por ter me entendido e feito com que eu me divertisse. Poucas pessoas sabiam tocar no assunto sem me magoar, ou melhor, ninguém sabia.
– Você devia se cuidar mais, garota — Dean disse quando parou o carro.
– Sério, quantos anos acha que eu tenho? — Perguntei ao tirar o cinto — Posso ao menos saber onde você mora? Não é sempre que eu encontro um americano legal por aí, na maioria das vezes eles são babacas.
– Na verdade eu só estou de passagem — Ele sorriu sem graça e mordeu os lábios não sei de preocupação ou arrependimento — Acho que vou embora amanhã, foi um prazer Anne!
– Bom, nesse caso...
Não pensei muito antes de agir, mas sabia exatamente o que estava fazendo. Toquei seu rosto com uma das mãos e me aproximei tão rápido que ele não teve tempo de hesitar. Aproveitei a chance que tive e o beijei antes que ele desaparecesse noite a fora. A surpresa foi que ele correspondeu e me puxou para mais perto, ansiando por mais daquele beijo. Só quando eu passei por suas pernas e sentei em seu colo foi que ele me interrompeu e me fitou nos olhos.
– Anne, não podemos — Ele passou uma mecha por trás da minha orelha — Você é tão nova... Eu... Nem ao menos sei sua idade. — Disse.
Coloquei o dedo indicador sob seus lábios.
– Olha... — Respirei fundo e retribui o olhar intenso — É só uma noite, então, qual o problema? Você vai embora amanhã e eu nem sei pra onde vai ou se vou te ver de novo algum dia, além do mais, eu sou uma mulher decidida e sei o que quero.
– E o que você quer? — Ele suspirou e fechou os olhos, lutando contra si mesmo.
Me aproximei mais e sussurrei em seu ouvido:
– Você.
Ele demorou para abrir os olhos novamente e, quando me pegou pela cintura e colocou de volta no banco do carona eu já estava abrindo a porta do carro, mas ele segurou a mesma e olhou para mim. Esperei até ele ligar o carro novamente e dizer:
– Só uma noite.
Talvez fosse esse o motivo de eu nunca dar certo com ninguém, eu era feita do momento. Meu vício era a sensação de poder que invade o teu corpo quando você consegue algo ou alguém que desejava muito. Eu era decidida, tinha iniciativa e não me permitia deixar uma oportunidade voar por entre meus dedos. Herdei isso da minha mãe. Eu desejava Dean e não tinha medo de onde isso poderia dar, eu queria aquele momento. Queria me divertir e conhecê-lo melhor, saber o que se escondia por trás daquela fortaleza que ele mesmo construiu. Afinal, eu não via problema em uma garota de vinte e um anos sair e se interessar por alguém. Mas os caras de Londres não viam dessa forma.
– Chegamos — Ele disse estacionando.
Ele estava hospedado no So Park hotel, próximo ao parque, o que talvez explicasse o fato de ele estar lá sozinho mais cedo naquele dia. O quarto é simples, mas não o vejo ali dentro, parece deslocado, como se não fosse feito para esse lugar. Me sentei na cama e o observei. Ele tirou a jaqueta, puxou um banco e se sentou em frente a cama olhando diretamente para mim. Me estudando.
– Você é tão diferente Anne, se vamos nos aventurar desse jeito... — Ele sorriu e ignorou o celular vibrando no bolso — Preciso saber mais sobre você, você sabe, para ter algo do que lembrar.
– Então, você quer se lembrar? — Ousei e sorri, cruzando as pernas.
– Talvez eu precise no lugar para onde vou.
– Meu nome é Annabeth — Comecei a dizer enquanto me aproximava, passei a mão direita pelo seu cabelo e continuei — Eu tenho vinte e um anos e vou fazer você feliz essa noite.
– Vinte e um! — Ele berrou assustado e divertido ao mesmo tempo — Anne, por quê? Por quê eu? Eu sou muito mais velho que você e mal me conhece.
– Se eu fosse uma garota tímida e não te desse a menor bola, talvez nós estivéssemos aqui mesmo assim — Levantei, tirei a jaqueta e deitei na cama — Você pode, por favor, curtir o momento?
Dean parecia muito incomodado com o fato de eu ser mais nova, mas algo naquele olhar entregava o quanto ele queria aquilo assim como eu. Ficou ali por alguns minutos em pé próximo a cama, me observando e tentando resistir, mas quando eu fiz menção de me levantar ele pulou sob o meu corpo e segurou meus braços sob a cabeça. Não queria que eu fosse embora e me beijou.
O beijo não era calmo nem violento, porém repleto de desejo de ambas as partes. Ele me queria tanto quanto eu queria estar com ele, com movimentos rápidos tiramos as camisetas um do outro e lentamente ele tirou sua calça e então a minha, quando voltou eu girei na cama até estar por cima dele. Dean sussurrava coisas como "Eu quero sentir você" e "Você me deixa louco" e aquela altura eu não sabia se era a bebida, o sotaque ou algo sobrenatural, mas o que eu estava sentindo era novo. Uma sensação única, diferente e eu sabia que para ele estava acontecendo da mesma forma. Joguei meu sutiã para um lado do quarto e a calcinha para o outro, mas não tinha pressa. Queria e iria explorar cada pedaço do corpo dele e ele do meu.
Suas mãos percorriam pelo meu corpo, seus braços fortes me envolviam e de repente ele parecia enorme, ou eu era pequena demais, mas nossos corpos se encaixavam perfeitamente um no outro. Ansiavam um pelo toque do outro e não pudemos evitar mais, precisávamos daquela sensação percorrendo as veias, fazendo o sangue bombear mais rápido e enlouquecendo nossas mentes. Mergulhei dentro do corpo dele, joguei a cabeça para trás e me entreguei a gloriosa sensação de penetração. Ele gritou e se sentou na cama, com uma mão enroscada pelos meus cabelos e a outra apoiada na cama ele me olhava. Os olhos oscilavam do verde para o azul agora, mais suaves e descontraídos, me buscavam. Eu me mexia encima dele e talvez de tanto desejo acumulado nossos corpos explodiram juntos num orgasmo indescritível. Rebolei uma última vez por cima dele antes de desabarmos na cama.
Quando acordei ele estava na cozinha, falava baixo e eu presumi que estava ao telefone. Já era dia, nove da manhã e haviam três ligações perdidas de Summer no meu celular. Desabei de novo na cama e a única coisa que eu ouvi foi Dean, aparentemente irritado e aumentando seu tom de voz. "Estou em Londres Sam, estou bem. Não procure por mim". Imaginei que fosse outro homem no telefone, talvez um irmão, mas não me atrevi a perguntar.
– Bom dia, sunshine! — Disse ele e me deu um beijo na testa.
Me cobri com o lençol enquanto me levantava e ia em direção ao banheiro. Senti que ele me observava, mas não dei importância. Chegando no banheiro deixei o lençol cair no chão e me enfiei debaixo do chuveiro, a água gelada foi como um choque para mim, mas era necessário. Meu corpo todo estava exaurido, esgotado e colando; a cabeça explodia de dor devido as doses seguidas de vodca. Tomei meu banho sem pressa e fui para o quarto ainda secando o cabelo. Quando me viu, Dean sorriu exibido e se aproximou.
– É uma pena eu ter que ir — Disse e beijou meu pescoço levemente molhado.
– Você nunca prometeu ficar — Sorri e selei meus lábios nos seus — Mas é realmente uma pena.
Enquanto eu me vestia ele conferia se tinha tudo em suas malas, foi a primeira vez que eu reparei em uma tatuagem no seu antebraço. Era um símbolo, eu já havia visto aquele símbolo em algum lugar, só não me lembrava o que era ou significava. Era forte e tinha algo sobre ele assustador, além do fato de ser vermelho. Talvez fosse queimadura, eu não sei, mas no momento em que ele percebeu que eu estava olhando escondeu a tal tatuagem e pegou sua jaqueta. Estava de saída.
Me vesti rapidamente enquanto ele pagava a estadia na recepção, desci as escadas correndo e no momento em que eu parei de correr ele parou de andar, mas não se virou.
– Ei! Dean! — Chamei e esperei.
Ele se virou, deu mais três passos e abriu o porta-malas do Impala 67 então me encarou.
– Você vai ficar bem? — Perguntei.
Ele se aproximou, depositou um beijo na minha testa e disse que sim, então se foi.
O lado bom de nunca ter conhecido caras legais com os quais valesse a pena me envolver era que, bem, eu conhecia os caras ruins. E eu não esperava nada deles. Quando eu encontrava algum, eu fazia por diversão e sabia o que viria depois, ou melhor, o que não viria. Coisas como telefonemas; bilhetes; flores e chocolates não eram pra mim. Eu não me permitia mais acreditar que relacionamentos como estes ainda existiam, por isso, ver Dean ir embora não foi difícil. Embora estranho de uma forma que nunca havia sido com nenhum outro cara. Eu queria saber mais dele, talvez poder ligar de vez em quando e saber por onde ele estaria viajando. Me preocupava em saber se ele ficaria bem, se precisava de ajuda. Mas o fato de eu ter pessoas que precisavam muito mais de mim me distraiu do pensamento e eu segui meu caminho pra casa.
Summer já havia acordado e levado naná para sala, nós tomávamos café juntas todos os dias, então, naquele domingo quando eu cheguei elas ainda me esperavam. A TV só passava os programas que a minha avó gostava, fiz questão de gravar um por um quando ela começou a adoecer. No início era só tristeza e saudades do meu avô, depois veio a diabetes e agora ela precisava de cuidados especiais. Ao sentar entre as duas no sofá, cruzei os pés sob a mesa de centro e permanecemos daquele jeito até a hora do almoço. Fomos almoçar no parque, levamos naná em sua cadeira de rodas e aproveitamos o céu sem nuvens apesar da previsão de chuva.
Depois do lanche de atum e água com gás, minha preferida, demos uma boa volta pelo parque; pelas ruas da cidade e observamos os pássaros e árvores e carros e o clima típico de Londres antes de voltarmos pra casa. Nenhuma das duas me perguntou sobre a noite passada ou questionou meu atraso para o café, não era do feitio delas. Eu não gostava de me abrir sobre as coisas que fazia ou deixava de fazer e elas entendiam isso, voltamos em silêncio e só quando — depois do banho — deixei naná em sua cama foi que Summer olhou pra mim de maneira curiosa.
– O que? — Perguntei e observei naná pondo os óculos para ler antes de ir deitar.
Fiz menção de descer as escadas e Summer me acompanhou, coçava a nuca, curiosa.
– O que aconteceu ontem a noite? Eu não te achei no bar.
– Eu fui ao banheiro, conheci um cara na volta; bebemos juntos do outro lado do balcão e passei a noite fora — Bufei rindo, tentando entender onde ela queria chegar — Por quê?
– Eu fiquei preocupada, até quando você vai agir dessa forma Anne? — Disparou — Sair com caras que acabou de conhecer e passar a noite fora? E se ele fosse um psicopata?
– Ei! Garotos fazem isso o tempo todo Sum! — Retruquei — Conhecem garotas, seduzem, levam elas para cama e somem no dia seguinte. Por quê é tão errado que eu faça isso só por ser mulher? Não posso me divertir? — Levantei as mãos ao ar e fui em direção a cozinha.
– Não Anne! Não é isso! — Disse cerrando os dentes, se esforçando para não gritar.
– Então o quê Summer, desembucha! — Falei me aproximando dela, com o copo d'água agora na mão.
– Eu só... — Pausou — Só acho que porque você teve o coração despedaçado uma vez, não deve pensar que todos os homens são iguais. Se jogar encima deles como se você não tivesse valor algum. É deprimente!
Não havia resposta ao alcance então eu me calei e deixei-a ir. De fato, não havia resposta alguma, pensei. Puxei a mesa da cozinha e me sentei. Sum estava certa, eu não podia andar mais por aí me entregando como se fosse uma qualquer só pra suprir o desejo e a falta de alguém que pouco me importava se estava vivo ou não. Ninguém merece viver assim, mendigando amor por onde passa. Talvez não fosse parte de quem eu sou, talvez fosse só o reflexo do que me fizeram pensar que eu era. Subi as escadas, passei mais uma vez pelo quarto de naná e parei na porta para vê-la só então segui ao meu quarto no fim do corredor. Tomei um banho breve, porém relaxante e me deitei pra dormir. Foi quando eu vi seus olhos verdes.
Estava ciente de que era minha mente, uma lembrança do modo como ele me olhava na noite passada. Meu corpo desejou o dele ali, mas só para retribuir o olhar. Virei de lado repreendendo tais pensamentos e me forcei a imaginar minha lembrança mais feliz.
Era verão, estávamos na América, meu pai tinha feito um castelo de areia para mim, minha mãe nos fotografava. Eu era toda bater palmas e sorrir para a câmera, estava feliz. Era minha primeira vez na praia e primeira vez fora da Inglaterra, estava fascinada com a sensação dos grãos de areia tocando meus pés e se acumulando por entre os dedos. Eu amava estar ali, amava estar com os meus pais.
E adormeci.
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