Simbionte: Anger
4 Simbionte.
A criatura então voltou para dentro do corpo do rapaz, fazendo-o voltar a sua forma normal.
“Está feito, Timur. Mas saiba que eu só atendi ao seu pedido porque só estou vivo graças a você.” Dizia a criatura.
“Ok, só pra começar, o que é você e por quê está dentro de mim?” Perguntava Timur, como se falasse sozinho, se dirigindo ao monstro que nem sequer podia enxergar.
“Bom... Vamos lá então... Senta que lá vem história.” Dizia a criatura enquanto saia pela barriga de Timur e materializava seu rosto na frente dele, como se fosse uma sombra saindo do corpo do rapaz, que, sentindo-se assustado e cansado, sentava-se na areia.
“Eu sou um simbionte alienígena de uma raça muito antiga chamada Klyntar. Nós não possuímos um corpo sólido definido, e, fora de nosso planeta, por algum motivo, precisamos nos fundir a alguma forma de vida para podermos sobreviver. Nós nos alimentamos da adrenalina e outras substâncias do corpo de nossos hospedeiros, e em troca, os proporcionamos alguns... “poderes”...” A criatura o explicava pacientemente.
“P-poderes? Como assim?” Indagava Timur, assustado com a aparência da criatura.
“Fala sério, você não viu o que nós fizemos? Nós destruímos um carro blindado e trucidamos 5 homens como se fossem insetos. NÓS! SOZINHOS! COM NOSSAS PRÓPRIAS MÃOS!” Exclamava o monstro. “Um Klyntar, quando em simbiose com um humano compatível, é praticamente invencível! E olha só que coincidência... Nós somos compatíveis!” Complementava, parecendo empolgado.
“Mas como você entrou em mim!? Por que eu!?” Questionava o soldado. Sua cabeça estava repleta de perguntas sobre tudo aquilo, e ele mal conseguia organizar seus pensamentos depois de tantos eventos marcantes um atrás do outro em um intervalo tão curto de tempo.
“Bom... Você não é um escolhido, Timur. Foi pura coincidência. Eu estava em um estado lamentável antes de te encontrar. Meu tamanho só era suficiente pra preencher um pequeno frasco. Por sorte, após meu despertar, eu encontrei um rato, que usei como carona até encontrar um humano em quem pudesse me hospedar. E eu encontrei você, o primeiro que apareceu na minha frente, e pra facilitar ainda mais, você estava dormindo. Tudo isso aconteceu noite passada. Por coincidência, nós alcançamos a simbiose, e eu pude me nutrir e aumentar meu tamanho e força dentro de você.” Respondia o alienígena.
“Você está dizendo que eu dei sorte? O que aconteceria se essa tal simbiose não tivesse acontecido!?” Perguntava Timur.
“Então eu nem teria conseguido ficar tanto tempo dentro do seu corpo sem começar a destruir seus órgãos internos. Sem dúvidas você morreria em algumas horas, e eu teria que buscar um novo hospedeiro.” Dizia o simbionte.
“Então... Eu poderia ter morrido...” Dizia o rapaz, arrepiado.
“Isso não importa, Timur! O que importa é que agora nós somos um! E você só está vivo agora por MINHA causa!” Dizia a criatura num tom arrogante.
“Meu nome... Você está me chamando pelo nome desde a primeira vez que falou comigo, mas eu nunca te contei! Como diabos você sabe?” Perguntava o soldado, ainda sentindo-se confuso.
“Eu estou dentro de você, Timur, dentro da sua cabeça! Todas as informações que existem na sua mente agora também existem na minha. Eu sei TUDO sobre você!” Respondia o alienígena.
“E... E como VOCÊ se chama? Se é que possui algum nome...” Indagava Glazkov.
“Eu... Eu e você... Nós... SomosAnger!” Respondia a criatura, num tom tão profundo e impactante que provocou um calafrio no rapaz.
“...Nós? C-como assim!?” Perguntava o soldado.
“Timur... Eu e você agora somos apenas um!” Dizia o simbionte.
“Eu não quero ser “apenas um” com você. Você é um monstro, um parasita! Você se apossou do meu corpo sem nenhuma permissão!” Retrucava o Soldado.
“Escuta aqui, seu merdinha, se não fosse por mim, você estaria rastejando numa pilha de corpos em decomposição no quinto dos infernos gritando pelo perdão de um Deus que te abandonou enquanto um demônio fura sua bunda com uma faca enferrujada e ri da sua cara desfigurada pelo tiro que você teria levado. Se eu conheço bem os seres humanos, sei que ninguém precisa de permissão pra fazer uma boa ação ao próximo, e foi o que eu fiz: salvei sua vida. Então dobra essa sua língua antes de insultar dessa maneira alguém que salvou sua cara de um buraco de bala.” Dizia o simbionte, num tom ameaçador, aproximando seu rosto da face pálida de Timur. Em meio a tantas palavras de baixo calão que Anger proferia, o rapaz, desacostumado, ficou ainda mais assustado com sua personalidade.
“Falando nesse tom, você não parece ter me protegido por altruísmo. O que teria acontecido se me deixasse morrer?” Questionava o soldado, tentando vencer o medo e afrontar a criatura, que dava uma risadinha cínica ao ouvir sua pergunta.
“Não tenho motivos para mentir pra você, garoto. Te protegi porque se meu hospedeiro morrer, eu também morro.” Respondia a criatura, demonstrando que em meio a tantos maus costumes, ainda permanecia honesta com seu hospedeiro. “Entenda, Timur, eu preciso de você tanto quanto você precisa de mim. Eu sei como você quer destruir esses terroristas e acabar com essa guerra pra ver sua noiva novamente. Com esse seu pelotão de humanos fracos e vulneráveis você NUNCA vai conseguir extinguir aqueles vermes terroristas. Eu e você, juntos, podemos exterminar todos eles!” Dizia Anger, fazendo com que Timur lembrasse da frase que o simbionte falou ao proteger seu rosto do projétil.
O homem sentia que o que estava acontecendo ali era muito mais sério do que poderia imaginar, mas apesar de se sentir infectado por um parasita, sabia que aquilo era uma arma muito poderosa, e que poderia usá-la contra os terroristas para causar um dano tão inimaginável que faria o mais potente dos rifles parecer um simples estilingue. Mas o sentimento de medo não abandonava seu coração.
“Eu... Eu não sei...” Dizia Glazkov, sentindo-se inseguro. Ele refletia um pouco e observava a paisagem desértica que o cercava enquanto o sol começava a se pôr, até seu olhar encontrar com os corpos de Polak e Oslov, fazendo com que Timur lembrasse do que havia acontecido. Apesar de todos os sentimentos horríveis que aquilo provocava no soldado, ele ainda tentava se concentrar no fato de que estava em serviço e precisava cumprir com suas funções. “Eu tenho que relatar o ocorrido ao Sargento Kovak...” Ele mudava de assunto.
“Se você pretende contar a ele sobre nós, pode esquecer, eu não vou deixar.” Dizia Anger, soando ameaçador como sempre.
“O quê? Por quê? Eu preciso contar tudo o que aconteceu, se não eu posso ser inclusive suspeito pelas mortes dos outros dois soldados!” Dizia o soldado.
“Eu passei uma boa parte da minha vida preso em um laboratório, sendo feito de cobaia. E se você contar isso aos seus superiores eu vou voltar a virar uma cobaia, e você com certeza você iria ser arrastado comigo.” Anger o respondia. “Eu juro, Timur, se for contar pra alguém, é melhor que não seja alguém que você ama, porque eu vou destruir e me banhar no sangue de seja lá quem souber disso além de nós.” Ele complementava.
“Você não consegue não soar tão ameaçador o tempo todo, não é?” Dizia Timur, demonstrando indignação com a mania que Anger demonstrava ter de intimidar os outros a todo momento.
“Você sabe... Nem todo mundo coopera com um bom samaritano educado e respeitoso... Alguns são até crucificados e assassinados...” Dizia o simbionte em um tom debochado, com um sorriso presunçoso no rosto, porém ainda com uma postura e aura intimidadoras.
Timur tentava ignorar a arrogância de Anger, voltando ao centro do assunto.
“E então, o que devemos fazer quanto a isso? Se você não quer que eu conte sobre tudo isso para meus superiores então a gente precisa de outra versão pra contar, e algo que possa ser comprovado se investigado.” O soldado dizia, pensativo.
“Pra um atirador de elite você é bem inocente, garoto.” O Simbionte dizia após dar uma risada. “Passa esse corpo pra cá.” Ele dizia enquanto dava uma rápida investida contra o rosto de Timur, o fazendo assumir novamente a forma monstruosa de Anger.
“Eu já tinha um plano desde o início.” Dizia o simbionte, em um tom presunçoso.
A criatura então carregava os corpos dos terroristas que foram mortos do lado de fora do carro para dentro do veículo, e então, com sua pura força física, arrastava o veículo para outro lugar, na direção do local de origem do mesmo, depois abria a tampa do compartimento de combustível. Após isso, ele expandia suas mãos e bagunçava a areia do caminho por onde o veículo passou e foi arrastado, escondendo o rastro de que o veículo esteve em uma posição diferente.
“Você é bom de mira, não?” Anger perguntava a Timur, que naquele momento, encontrava-se de baixo de sua pele.
“É...Pode-se dizer que sim.” Dizia o soldado, que era um atirador e já possuía pouco mais de dez mortes confirmadas em combate.
O simbionte, então, voltava para o interior de Glazkov.
“Agora é sua vez. Tome uma distância segura e atire no tanque de gasolina daquele carro. Mas sério, a distância é importante, eu sou sensível ao fogo.” Dizia Anger.
“Nossa, pra um monstro destruidor sua fraqueza é bem genérica.” Dizia Timur enquanto tomava distância do veículo.
“Cala a boca e atira!” Respondia o simbionte, parecendo ofendido.
Timur permanecia em silêncio, mas segurava uma risada. Ele estava começando a achar engraçado o fato do simbionte se irritar muito facilmente.
O soldado então se posicionava, mirava e atirava no tanque de gasolina do carro, que gerava uma grande explosão, e, logo após, um incêndio.
“Então... Você estava em seu posto com a sua equipe, e apareceu um veículo inimigo, que abriu fogo contra vocês e matou os outros dois soldados. Então você conseguiu atirar no tanque de gasolina do carro em movimento e ele explodiu, matando todos os terroristas lá dentro... O que acha?” Dizia Anger, mostrando a Timur a história que deveria contar aos seus superiores.
“Eu acho que se ocorrer algum tipo de investigação, o estado dos corpos vai deixar bem explícito que não foi uma explosão que matou esses homens... Mas eu não sei, talvez nem ocorra nenhuma investigação, e se ocorrer, há chances de nem questionarem nada a mim...” Dizia o soldado, parecendo ansioso. “Bom... Tanto faz. É melhor isso do que nada, pelo menos tenho alguma versão aceitável para contar.” Ele concluía seu pensamento, tentando cessar a preocupação com a pior das hipóteses.
“Não vai me agradecer?” Indagava Anger, em tom de bom humor.
“Estou atrasado, preciso voltar ao ponto de encontro.” Dizia Timur, olhando para seu relógio de pulso e ignorando a pergunta do simbionte.
“E os corpos dos seus parceiros? Não vai fazer nada sobre isso?” Questionava a criatura, deixando a sua última pergunta pra lá.
“Eu já carrego muito peso com a mochila, utensílios e armamentos. É humanamente impossível carregar dois corpos comigo até o ponto de encontro. Eu vou comunicar a localização deles aos outros e provavelmente irão mandar alguém com um veículo para buscá-los. Eu só não sei se vão enviar os corpos para serem enterrados na Rússia, em nossa terra natal, ou vão fazer alguma pequena cerimônia e enterrá-los em algum lugar por aqui.” Respondia o soldado.
“Bom... Se está dizendo...” Dizia Anger.
Timur então começou sua caminhada de volta para o ponto de encontro, em silêncio. Ele queria esquecer tudo o que havia visto naquele dia. Ele queria sair daquele país e cessar todo aquele sofrimento físico e emocional que sentia, e que corria risco de sentir ainda mais. Se ele iria ser obrigado a aceitar aquela criatura dentro de seu corpo, o que ele ainda não tinha feito, ele queria pelo menos estar longe de qualquer oportunidade do simbionte cometer aquele tipo de atrocidade novamente.
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