Simbionte: Anger
5 Perigo em Potencial.
Notas iniciais
A caminhada até o ponto de encontro era longa e Timur se sentia física e mentalmente cansado e faminto por conta de tudo o que havia acontecido.
“Timur... Eu tô com fome...” Dizia Anger, com sua voz tenebrosa, após um grande período de silêncio. O soldado se assustou com a criatura, já que estava distraído com seus pensamentos e ainda não tinha se acostumado com um monstro falando em sua cabeça repentinamente em momentos aleatórios.
“É... Eu também...” Respondia o soldado, após recuperar-se do susto.
“Aí... Eu preciso te contar uma coisa importante...” O Simbionte mudava o assunto, demonstrando que ele só precisava chamar a atenção de Timur para dizer algo completamente distinto.
“Ah, pronto... Fala, o que houve?” Indagava o homem, que parava sua caminhada para conversar com a criatura, parecendo preocupado com novas más notícias em potencial.
“Você precisa me escutar: Eu passei muito tempo inibido de crescer e me desenvolver novamente enquanto estava preso em um laboratório. Mas nesse tempo que estive lá, pude assistir tudo com atenção. Diversos estudos sobre minha raça eram feitos naquele lugar e eu aprendi praticamente tudo o que eu não sabia sobre minha espécie. O que acontece é que uma das coisas que aprendi é que a cada geração um simbionte gera um descendente de maneira assexuada...” A criatura explicava didaticamente ao homem, que parecia estar entendendo até então. “Eu nunca passei por esse processo, e no período em que fiquei isolado do mundo preso naquele laboratório, não possuía os nutrientes e a energia necessária pra poder gerar uma cria... Acontece que...”
“Agora você tem.” Completava o homem, em um tom preocupado, mas demonstrando que compreendeu o que o simbionte quis dizer.
“Pois é, e já faz algumas horas que me sinto estranho... Não foi muito tempo depois de eu ter entrado em você... Eu acredito que meu corpo já estava disposto a iniciar o processo a muito tempo, e só precisava dos nutrientes pra começar instantaneamente... Eu sinto que estou realmente começando a gerar um “filho”. Acontece que descendentes de Klyntar que nascem aqui na Terra são sempre mais fortes que seus ascendentes, e quando ele sair de mim e de você, irá instantaneamente buscar por um hospedeiro. Se ele cair nas mãos erradas, em sua posição, seria um grande problema para nós, Timur.” Dizia Anger.
“Um problema? P-por quê? Ele não pode ficar hospedado em mim junto com você?” Indagava o homem, começando a sentir-se aflito.
“Não. Isso é óbvio. Dois simbiontes distintos não podem ocupar o mesmo hospedeiro. Nem dois nem mais. Apenas um. Esse é o problema. A partir do momento em que a simbiose ocorre, o simbionte começa a absorver as características da personalidade, das vontades e do psicológico de seu hospedeiro gradativamente. Ou seja, se essa “cria” acabar, sei lá, se arrastando até um daqueles terroristas psicóticos, vamos ter que enfrentar um simbionte muito mais forte que eu, pronto pra dilacerar o primeiro “herege” que aparecer na frente dele. Isso se você realmente pretende impedi-lo.” Dizia o simbionte.
“É claro que eu quero impedir! Em quantos meses esse seu... “filho” vai nascer?” O soldado questionava.
“Algumas horas ou dias, eu acho....” Anger respondia.
“Tão pouco tempo?! E o que a gente vai fazer quanto a isso?!” Perguntava Timur, se desesperando.
“Bom, a gente pode se isolar em algum lugar muito remoto como um deserto ou o subterrâneo no momento em que o “parto” acontecer, aí, quando esse novo simbionte nascer, não vai encontrar nenhum hospedeiro a tempo, e então vai secar e morrer... Eu vou poder “segurá-lo” por um tempo antes dele vir a sair de nós, mas não podemos abusar dessa prorrogação...” Respondia Anger, deixando Timur surpreso e assustado pelo fato de nem sequer hesitar ao falar em matar algo que seria como seu próprio filho.
“Cara, você realmente não se importa com a morte desse seu... filho?” Indagava o soldado, parecendo receoso.
“No momento eu tô me importando mais em permanecer vivo e não ter que lidar com outro simbionte sanguinário do que em fazer um chá de bebê e escolher o nome da criança, Timur, mas pelo visto você é ingênuo de mais pra pensar da mesma forma.” Respondia o simbionte, arrogante como de praxe. O rapaz então ficava pensativo por um momento, organizando sua mente com tudo aquilo e pensando em uma forma de resolver o problema com a cria de Anger.
“Okay, tudo bem, nós vamos fazer o seguinte: Depois que estivermos no acampamento, quando a madrugada chegar e todos estiverem dormindo, a gente vai sair e correr para o mais longe possível de qualquer tipo de forma de vida, acredito que com seus poderes a gente consegue, sei lá, se enterrar bem fundo na areia do deserto, aí você dá a luz a essa “criança” num lugar onde ninguém vai ter acesso. Depois você enterra ela e missão cumprida! Eu acho que essa é a melhor forma que a gente pode encontrar de neutralizar essa... ameaça.” Dizia Timur, esperando pela opinião do simbionte sobre seu plano. A criatura permanecia em silêncio por alguns segundos.
“Bom... Pode funcionar... Estou de acordo...” Anger quebrava o silêncio em um tom sério.
O soldado russo, que àquela altura já estava sentado no chão, levantava a fim de seguir com seu caminho até o acampamento.
“Bom... Podemos ir ou tem mais algo que queira me contar?” Indagava o rapaz antes de voltar a caminhar.
“Anda logo que eu tô morrendo de fome...” Respondia o rude simbionte, demonstrando que já não haviam mais “comunicados” a fazer.
Após aquele diálogo, Timur pegava uma bússola em seu bolso, confirmava sua direção para não se perder e seguia sua caminhada em silêncio, após guardar o objeto. O rapaz parecia cansado demais para pensar, porém aquilo não passava de aparência, pois naquele momento sua mente já estava muito mais do que agitada. Apesar de o proporcionar poderes incríveis, ele sabia que Anger poderia significar um perigo muito grande à sua vida no geral. Ele sentia que aquela história de uma “cria” que poderia os gerar problemas era só o início das dificuldades que aquela criatura viria a atrair, e sentiu que no momento em que fossem se livrar da prole do simbionte, seria uma boa oportunidade para tentar removê-lo junto ao seu “filho”. Anger não podia saber exatamente no que Timur estava pensando, mas conseguia sentir cada vibração de seu ímpeto em retirá-lo de seu corpo. Ele sabia que aquele soldado o via como um parasita, e se era desse jeito que ele tinha que ser visto, então ele daria tudo de si para não perder o seu hospedeiro.
Após mais algumas dezenas de minutos de caminhada, o soldado chegou no ponto de encontro. Era um lugar demarcado por uma pequena bandeira com o brasão da SPETSNAZ fincada na areia daquele grande deserto. Os outros combatentes de seu esquadrão deveriam estar reunídos ali para serem buscados pelos outros companheiros e levados para o acampamento em um veículo, porém, mais de trinta minutos haviam se passado após o horário combinado, e mesmo assim não havia ninguém no local. Eles não retornariam ao acampamento abandonando o trio de Timur sem deixar soldados vigiando a área e patrulhando o deserto e o caminho até seu ponto de guarda em busca deles, então ele sabia que seu atraso não era o motivo de não ter ninguém ali e, além disso, era tarde de mais para considerar que ninguém havia chegado ainda. Timur não levou muito tempo para deduzir o motivo mais plausível para aquilo: os outros trios também haviam sido atacados.
O rapaz não conseguia pensar em outra hipótese além daquela. Absolutamente nenhum dos combatentes retornou, e não havia nenhum sinal de que alguém sequer passou por ali no período entre a chegada do esquadrão e o retorno de Timur, e o céu já estava quase totalmente tomado pela escuridão da noite.
Ao ter sua mente dominada por essa hipótese, o homem caiu sobre seus joelhos. Seus olhos começavam a lacrimejar a medida que ele se lamentava pelas mortes de seus companheiros, e dessa vez, não apenas dos que morreram diante de seus olhos. Timur não conseguia organizar sua mente pra chegar a uma conclusão objetiva sobre o que havia acontecido, mas ele tinha uma certeza: aquela nova estratégia de posicionamento havia sido interceptada pelos terroristas, e ele estava determinado a descobrir como.
O soldado tinha como seu maior objetivo sair daquele país vivo e voltar para sua casa, onde viveria tranquilo com sua esposa, mas naquele momento, viu-se rendido às emoções e tomou para si um novo objetivo naquela guerra. Timur tinha certeza de que seus companheiros foram mortos, e estava determinado a descobrir o que havia acontecido por trás daquele fato. O simbionte, dentro de seu corpo, passou a sentir cada vibração de ódio e angústia no coração do rapaz.
“Isso sim é algo intenso, era disso que eu precisava para melhorar meu humor” Pensava ele. A criatura parecia empolgada, porém quebrou seus padrões de comportamento permanecendo em silêncio.
Timur levantava-se do chão. Ele havia se decidido. Se livrar do simbionte não estava mais em seus planos. Ele retornaria para seu acampamento, informaria aos outros sobre o ocorrido e, após se livrar da cria do alienígena, se prontificaria voluntariamente a investigar sobre o ocorrido e garantir que os culpados seriam punidos... Nem que pra isso precisasse usar os poderes de Anger.
“Anger, vamos nos transformar.” Solicitava o homem, num tom firme e sério.
“Ué? Assim, de repente? Por quê?” Perguntava a criatura.
“Parece que vamos ter que voltar pras proximidades do acampamento correndo... Ou talvez saltando.” Dizia Timur, pretendendo usar os super saltos de Anger para poder se locomover rapidamente até a remota localização do acampamento russo.
“Acho que eu já entendi...” Respondia o simbionte num tom assustadoramente empolgado, enquanto transformava o corpo do rapaz.
A figura monstruosa se agachava, preparando-se para dar um grande impulso, e logo saltava. A força exercida por suas pernas era tamanha que um grande gêiser de areia foi erguido no lugar de onde “decolou”, por causa da onda do choque de seu poderoso salto.
“Parece que você já consegue controlar melhor nosso corpo quando transformado, não?” Dizia Anger num tom curioso.
“N-nossa! Na verdade isso foi tão espontâneo que eu nem percebi. Parece que sim!” Respondia o homem, surpreso. Anger estava empolgado com tudo aquilo, e ansiava para descobrir o que iria germinar de todo aquele ódio que Timur estava sentindo.
O resto do caminho foi seguido em silêncio, enquanto o rapaz, na forma de Anger, saltava em grandes distâncias na direção do acampamento. A cada salto que dava, se sentia mais unido àquela armadura viva, e sabia que estaria preocupado com isso se não estivesse tomado por aquela determinação. Para Timur, Anger era um perigo em potencial, mas ele sabia que o simbionte era uma chave importante, e que ele seria necessário para que o soldado alcançasse seu objetivo. E ele o alcançaria a qualquer custo.
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