Simbionte: Anger
2 O ronco que precedia a desgraça.
Notas iniciais
Timur abre seus olhos e se encontra em uma sala quadrada completamente fechada e mal iluminada. Ele se sente confuso e assustado, nunca havia estado num lugar como aquele. Ele analisa seus arredores por um momento até perceber que a sala não possuía portas ou janelas. Como ele havia sequer entrado ali? Teria sido sequestrado em uma emboscada dos terroristas durante seu sono? O soldado tentava não se desesperar enquanto um líquido esverdeado, escuro, viscoso e espesso começava a inundar a sala. Como aquela substância estava entrando na sala? Não haviam ralos, buracos, rachaduras ou tubos no local. O líquido só surgia no chão e sua massa aumentava lentamente.
Ao estar com seus pés já submersos na estranha substância, que já quase alcançava seus joelhos, ele procurava por uma forma de sair daquele lugar medonho. Ao olhar para cima não via nada além de uma escuridão, era como se a sala não tivesse teto, como se fosse apenas uma caixa sem tampa flutuando no espaço. Ele se sentia hipnotizado encarando aquele vazio, seduzido por alguma força sobrenatural. “As vezes, quando se olha de mais para o abismo...” Uma grave e tenebrosa voz ecoava pela sala, fazendo o soldado experimentar um pânico que nunca havia sentido antes. “O abismo te encara de volta.” A voz completava sua frase, deixando o soldado, agora já coberto até o abdômen pela substância estranha, completamente aterrorizado. Duas grandes figuras brancas e brilhantes, uma ao lado da outra, como se fossem olhos de um predador, surgiam no vazio que Timur encarava. Aqueles olhos o observavam em um silêncio ensurdecedor enquanto o homem era engolido pelo líquido, já incapaz de mover um membro sequer. Ao ter seu rosto coberto pela substância, silenciando seus gritos desesperados, Glazkov despertou de seu sono, completamente ensopado de suor, sentindo-se exausto. Tudo não havia passado de um terrível pesadelo.
O dia seguinte iniciou-se como todos os outros. O esquadrão de Timur acordou sob o soar do alarme despertador e todos foram ao local onde se alimentavam. A comida era a mesma de sempre, porém, por algum motivo, Glazkov sentia-se faminto. Ele comeu o dobro do que costumava, a uma velocidade nada saudável.
“Compensando o que não comeu ontem?” Dizia o Sargento Kovak, com um sorriso amigável no rosto.
O soldado o respondeu com uma breve risada, e continuou comendo. Após a refeição, o esquadrão começou a se aprontar para o início de um novo dia de ataques contra a base terrorista. os combatentes armaram-se e partiram para os veículos blindados que os levariam até o campo de batalha. Ao chegar no local, começaram a se posicionar estrategicamente, separando-se em grupos de três soldados por ponto. O ponto do grupo de Timur era o mais afastado dos outros e mais próximo das linhas inimigas, diferente do usual por algum motivo. O soldado sentia um pouco de receio, mas não tinha escolha se não seguir as ordens da tática de seus superiores, então seguiu para o local com seu grupo, composto por ele e outros dois soldados: Oslov e Polak. Eles fizeram uma breve varredura no novo local de guarda, buscando por possíveis ameaças em proximidades perigosas de mais. Não encontraram nada, então se prontificaram a alvejar o local alvo: o pequeno QG dos terroristas que eles atacavam diariamente.
Após algumas horas em prontidão, com os olhos já cansados depois de tanto tempo observando aquele lugar através das lentes ampliadoras das miras de seus rifles, os três soldados começaram a se perguntar o motivo da incomum falta de movimento inimigo no local alvo. A construção era uma das bases da organização terrorista, e, diariamente, tinha constante fluxo de combatentes inimigos, que eram os alvos do esquadrão de Timur, exceto por aquele peculiar dia. Glazkov se sentia desconfiado e inseguro. Aquele incomum sossego o deixava perturbado, e o fazia inclusive lembrar daqueles olhos famintos que o encaravam em silêncio no pesadelo que teve naquela noite, mas o soldado balançava sua cabeça em negação, tentando apagar de sua memória as cenas tão realistas e traumatizantes daquele sonho medonho.
Após aquilo o silêncio logo foi cessado pelo barulho de motores que vinham de um ponto cego do grupo de Timur, não muito distantes. Os três soldados olhavam para a direção do barulho, e antes que pudessem identificar a origem dos veículos, o soldado Polak teve sua cabeça atingida por um disparo de rifle. Timur correu para tentar socorrer o parceiro, que estava desfigurado pelo grosso calibre do projétil que o matou instantaneamente. “Como isso é possível?” pensou Glazkov, agora tomado pela adrenalina do medo, ajoelhado diante do corpo de seu parceiro, agora morto. “Não tem jeito! Esquece ele! O carro tá vindo pra cá, a gente tem que recuar agora!” Gritava o soldado Oslov enquanto atirava contra o veículo blindado inimigo que se aproximava mais dos combatentes russos.
Ao se levantar rapidamente, Glazkov teve sua coxa atingida por um disparo inimigo, e caiu sob seus joelhos novamente, gritando agoniado tanto pela dor quanto pela situação. Ele olhava para o céu, tinha certeza de que morreria ali, mas ainda queria viver para ver sua amada Lena novamente. Sua visão e audição embaçavam à medida em que ele sangrava, mas essa tontura era cessada por um grito:
“Nós não vamos morrer aqui!” Era o soldado Oslov, que colocava o braço de Timur sobre seus ombros e tentava fugir dali carregando seu companheiro ferido.
“Como os inimigos sabiam da nossa posição? Como foram tão precisos em um veículo em movimento? Porque Oslov resolveu tentar me carregar com ele ao invés de salvar a própria vida? Merda, nós vamos morrer...” Foi tudo o que Glazkov conseguiu pensar até Oslov ser atingido nas costas e os dois caírem no chão. Glazkov não conseguia se levantar, sua coxa ferida não permitia que ele caminhasse, então ele ficou caído no chão olhando para o céu. Enquanto o barulho do motor do veículo inimigo se aproximava. Ele sabia que o tão temido dia do seu fim havia chegado, mas não conseguia pensar em nada além do rosto de sua noiva. “Espero que ela não esqueça de mim...” pensou ele enquanto ouvia o motor do carro já diante dele. O carro desligava-se e cinco homens armados e mascarados desciam. O soldado russo conseguia ouvir os diálogos dos terroristas, mas não podia compreender nada pois conversavam em uma língua que ele não conhecia. Provavelmente se tratava de árabe, mas não era algo com que o soldado estava se preocupando naquele momento.
Os homens inspecionavam o corpo de Polak, tomavam suas armas e utensílios e partiam na direção de Glazkov e Oslov. Após tomar os pertences e armamentos do corpo de Oslov, partiram para Glazkov e perceberam que o soldado ainda estava vivo. Eles dialogaram entre si por alguns segundos, e logo após, um deles sacou uma pistola de sua cintura e apontou para o russo ferido. Ao perceber que sua hora definitivamente havia chegado, Timur fechou seus olhos em silêncio e esperou pelo seu fim, visualizando em seus pensamentos o sorriso de sua amada uma última vez.
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