Sim, meu mestre
7 Capitulo VI
Notas iniciais

A noite estava escura e fria, a lua foi coberta pelas nuvens. A janela entreaberta era impelida com graça e suavidade pela brisa gélida, os pequenos flocos brancos eram soprados para dentro do aposento.
Raiden jazia sentado na cadeira almofadada no lado direito do quarto. O pequeno abajur no criado-mudo oferecia uma luz branda com tons alaranjados. Os cabelos de Yuki estavam bagunçados, mas não deixavam de ter sua graça. O lençol branco de algodão modelava seu corpo, sua boca estava rosada e suas bochechas tinham uma cor rubra.
O maior observava-o dormir sem fazer qualquer barulho, e assim desta mesma maneira, se passaram horas, em sequer um segundo Raiden deixou de desejar pegá-lo em seus braços e oferecer-lhe proteção e cuidados, ainda mais no estado em que se encontrava. Yuki parecia tão frágil quanto um fino cristal de gelo.
8 hours ago
– Não deixe que ele continue. – Sussurrou. – Detenha-o, detenha-o antes que seja tarde.
– Patrick? – Kal o puxou.
– Ele não fez por mal, não fez... – O ruivo desmaiou em seguida nos braços de Benatti.
Aquelas palavras soaram na mente de Raiden por longos segundos, ele já tinha ouvido a mesma frase antes, as exatas mesmas palavras. Mas de quem? Estava preocupado demais com o moreno para conseguir lembrar. Ao montar no cavalo, sentiu uma forte dor de cabeça, e próximo a esquina daquela rua, um jovem de capuz segurava uma caixinha preta de música enquanto girava a manivela.
Agora com mais rapidez, Raiden se apressava para a mansão, abandonando todos ali presentes. A neve dificultava os galopes do animal, e o jovem apenas o apressava ignorando o clima.
Após alguns minutos a mansão já podia ser vista, o que fez Raiden apenas apressar mais e mais o cavalo, o manto negro de algodão que usava era balançado pelo vento frio, assim como seus cabelos, sua cabeça latejava.
Chegando próximo à porta, desmontou e correu para dentro, Connor, Oliver e Pierry estavam sentados em frente à lareira do lado direito da ampla sala, eles tentavam acender o fogo.
Os olhares estavam todos voltados ao jovem que entrara abruptamente pela porta, ele os ignorou por completo, subindo em passos rápidos a escada. Aos poucos sentia como se o ar o deixasse e aquilo o espantou, mas não o impediu de correr em direção ao quarto de Yuki.
Pierry sorriu enquanto olhava o fogo da lareira surgir aos poucos.
– O que está havendo? – Indagou Connor aos garotos.
– Sei tanto quanto você. – Respondeu Oliver se levantando. – Vamos segui-lo.
Raiden chegava rápido ao aposento, a porta estava trancada e nada podia-se ouvir do outro lado, o homem gritou o nome do moreno algumas vezes, o ar lhe carecia cada vez mais. Adotando distancia, com toda a força que tinha arremessou-se de lado na porta, que foi ao chão.
Com a visão levemente embaçada, Raiden olhou para os lados. Yuki estava próximo a janela e seu pescoço estava tomando uma cor roxa, onde os dedos ficavam marcados, seus olhos estavam inchados e avermelhados, como se o mesmo chorasse por horas. No lado esquerdo do quarto o homem encapuzado segurava a caixinha de musica e girava a manivela.
– Rai... – Sussurrou Yuki.
O maior conseguiu se erguer e ver o menor ser empurrado pela a janela, o vidro de estilhaçou em numerosos pedaços, e antes que pudesse pensar em algo, Raiden já se via caindo junto ao moreno. Envolveu-o em seus braços, alocando em cima de seu corpo, por fim chocando-se contra um pequeno monte de neve.
O rapaz de cabelos brancos forçou seus pulmões a aceitar o ar frio, ofegante e aliviado, precisava de mais, e mais. Yuki se encolhia por cima de Raiden, o maior olhou-o e viu que o mesmo respirava, parecia estar dormindo.
– Senhor! – Gritou Connor da janela. – Está bem?!
– O meu Deus! – Disse Oliver ao lado. – Estamos indo!
White cerrou os olhos e afagou os cabelos do moreno enquanto sentia-o respirar, estava cansado demais para qualquer coisa no momento, como se algo tivesse levado toda sua energia, ele se sentia fraco e quebrado. Aquilo o fazia lembrar-se das horas de treinamento com Senhor John, um sorriso forçado surgiu em seu rosto.
Connor saia primeiro pela porta da frente, seguido se Oliver e por ultimo Pierry. O negro apanhou com cuidado Yuki, as manchas roxas em seu pescoço haviam esvaecido, mas seus olhos permaneciam inchados.
– Senhor... – Oliver estendeu sua pequena e delicada mão a Raiden.
White abriu os olhos devagar, suas pupilas dilataram e se contraíram em uma velocidade surpreendente, o roxo parecia rasgar cada vez mais as íris procurando por espaço e misturando-se ao azul calmo. Ele suspirou e olhou para o pequeno enquanto abria um sorriso de canto, levantou-se só e bagunçou os cabelos ruivos do rapaz.
– Está tudo bem Oliver, obrigado.
– O que aconteceu, senhor? – Indagou Connor.
Raiden massageou a nuca dolorida enquanto sentia o liquido quente escorrer por sua bochecha, onde havia uma leve ardência.
– Acho melhor colocarmos Yuki na cama e limparmos isso, senhor... – Disse com calma, Oliver.
Pierry observava a cena com indiferença, sem se mover ou argumentar alguma ou qualquer coisa. O rapaz de cabelos platinados passou a ponta dos dedos pela bochecha, o liquido espeço e vermelho agora estavam em seus dedos.
– Leve Yuki para meu quarto Connor. – Ordenou White.
– Como quiser senhor. – E assim o fez.
Virando-se para o ruivo, Raiden apenas movimentou suavemente a cabeça verticalmente. A ordem havia sido dada e entendida.
Ambos passaram por Pierry, o mesmo encarou o monte de neve onde seu senhor e Yuki haviam caído. Tirou sua luva branca e caminhou para mais perto, os cacos de vidro rodeavam o local, abaixou e pegou o pequeno botão da Dama-da-noite. Cerrou os punhos, destruindo-o.
Connor colocou lentamente o moreno na grande cama, Raiden sentou-se na cadeira almofadada no lado direito do quarto e observou o menor.
O negro se retirou em seguida, enquanto no mesmo instante Oliver entrava com uma pequena caixinha para o tratamento do leve corte. Colocou-a no criado-mudo e abriu, pegando um pano branco de algodão, respingou um liquido no mesmo e dirigiu-se a White.
– Não é grave, Oliver. – Disse o maior.
– Sim senhor, mas...
– Pode apenas limpá-lo para mim? – Raiden o olhou.
– Como quiser senhor.
Após fazê-lo, Oliver se retirou levando consigo a pequena caixinha.
Horas se passaram sem que o maior tirasse os olhos de Yuki, seu corpo estava dolorido e ele estava exausto, mas o cansaço não o derrubaria, o sono, as dores. Absolutamente nada faria com que ele saísse daquele lugar sem que sentisse que o moreno está seguro.
Três batidas leves na porta podem ser ouvidas.
– Quem é? – Perguntou seco Raiden.
– Eu, senhor. – O rapaz deu uma pequena pausa. – Pierry.
White ajeitou-se na cadeira, tentando não sentir tantas dores nas costas, tentando não sentir ou apenas ignorar todas as outras que vieram à tona.
– Entre.
O loiro entrou devagar pela porta trazendo consigo uma bandeja, chá e torta, colou-a sobre a escrivaninha não muito distante de onde o homem se encontrava e enchia a pequena xicara com um liquido vermelho.
– Connor pediu que trouxe-se, senhor. – Falou o pequeno entregando-lhe o chá. – Não teve tempo de comer hoje ainda, não é?
Raiden apenas movimentou a cabeça afirmativamente enquanto observava o loiro.
– Mas não sinto fome. – Bebendo um pouco o liquido, ele voltava a observar Yuki. – Hibiscus Sabdariffa.
– O senhor sempre acerta. – Pierry sorriu. – Ele havia dito que esse chá é rico em B2 e ajudaria com osso, e sobre alguma coisa de energia. – O loiro forçou uma risadinha. – Sou realmente péssimo para guardar coisas.
– É...? – Pierry não conseguiu entender se aquele “é” foi uma afirmação ou pergunta. – Você gosta de flores não?
O loiro o observou em silencio por alguns segundos antes de conseguir falar, pôs-se a cortar a torta.
– Sim, senhor. – Com delicadeza ele colocava o médio pedaço do doce em um pratinho. — Cresci com muitas, e ainda faço questão de tê-las por perto, como a Dicentra spectabilis em meu quarto. – O menor se virou sorrindo e deu o pratinho a Raiden. – É uma das minhas preferidas.
– Não é essa a coração-sangrento? – Perguntou White enquanto saboreava um pedaço da torta.
– Sim, senhor.
– Um nome curioso para uma flor tão graciosa.
O loiro riu.
– Acho que devo concordar.
O rapaz de cabelos platinados devolveu o pratinho a Pierry com metade do pedaço ainda, terminou de beber o chá e suspirou.
– Eu vi uma flor, na verdade um botão, ele era branco e de certo modo, grande. – Raiden deu uma pequena pausa. – Além de ter certos tantos de pontas ao seu redor, como se algumas pétalas mais finas abrissem antes. Pode me dizer algo sobre essa flor?
– São insuficientes informações, senhor... – Pierry pegou a bandeja e caminhou até a porta. – Sinto não poder ajuda-lo.
– Senhor! Estou entrando! – Falou Oliver abrindo a porta enquanto carregava algumas roupas e duas toalhas. O ruivo usava um vestido largo, comprido e branco, meias compridas e na mesma cor, além de um cachecol grande e vermelho. – Temos que deixar Yuki limpinho! – Ele riu.
– Han? – Raiden o olhou incrédulo no que acabou de escutar.
Pierry riu e inclinou-se levemente.
– Boa noite senhor. – Disse por fim o loiro e depois partiu.
O ruivo aproximou-se da cama e colocou as peças de roupa em cima da mesma, enquanto soltava umas risadinhas olhou para o moreno.
– Yuki tomou banho logo depois de comer comigo e Pierry. – Ele levou um dedo ao queixo e olhou para cima fazendo biquinho. – Pouco antes de tentarmos acender a lareira! – Entre as vestes, ele pegou uma blusa larga, fina e branca. – Senhor, acho melhor que ele durma com algo confortável, minhas roupas não servem, e Pierry usa o mesmo tamanho que eu, Connor é pouco menor que o senhor... Estava pensando se podíamos...
– Claro. – Raiden o interrompeu.
O ruivo sorriu e deu a blusa a ele, enquanto se dirigia ao banheiro.
– É... Oliver. – Chamou o maior.
– Sim?
– Não vai trocá-lo...? – As bochechas de Raiden ficaram ligeiramente rubras ao imaginar Yuki nu, e aquila não foi a única alteração que sofreu em seu corpo com tal pensamento, e essa outra mudança deixou um grande volume em sua calça.
– Eu não tenho permissão senhor; esquentarei sua água para o banho... – Falava o menor do banheiro. – Não pode trocá-lo? Vocês são tão próximos.
White hesitou por um momento, mas por fim levantou e foi até a cama, onde se ajoelhou ao lado de Yuki. Retirando com calma e afabilidade peça por peça que o moreno trajava, aproveitava para tocar em sua pele pálida e macia, seus toques não continham malicia alguma.
Recusou tirar a ultima peça, deixando-a lá, afinal não queria que Yuki se aborrecesse. Abriu os botões de sua blusa e puxou com calma o moreno para si, deixando-o sentado, ao passar a roupa em suas costas, sentiu as mãos do menor segurarem seu cachecol, o mesmo afundou o rosto no ombro largo de Raiden.
O sorriso abriu aos poucos nos lábios do maior que apenas continuou a vestir o moreno, tirou seu cachecol colocando-o devagar no pescoço de Yuki, deitou-o logo em seguida, acariciou seus cabelos e se levantou ao ouvir a porta do banheiro abrir.
De fato Oliver enrolou o máximo que pode, estava ótimo espiar pela fechadura da porta, o amor que viu nos toques do homem realmente o espantou, Raiden White havia se tornado mais amável de um tempo para cá e isso surpreenderia a qualquer um, mas talvez ele só quisesse que Yuki visse esse seu lado, Oliver estava feliz por ele, por seu novo amigo e gostava do rumo que as coisas estavam tomando, ignorando os estranhos acontecimentos.
– Senhor, sua agua está quente. – O ruivo pegou os trajes na cama e deu ao maior que sorriu. – Ficarei aqui com Yuki até que termine!
Raiden Caminhou até o banheiro e se virou para o pequeno.
– Obrigado, Oliver.
– Não agradeça, senhor. – O ruivo sorriu enquanto se sentava ao lado do moreno. Abaixando-se pouco, o pequeno ficou próximo o suficiente de Yuki para que pudessem “conversar” sem que fossem ouvidos. – Connor disse que tem algo errado e que pode ser perigoso... Estou com medo Yuki... Não entendo o que está havendo, ou porque dessas coisas começarem agora, não entendo porque vocês pularam... Você tem que acordar logo.
Oliver abraçou os joelhos e esperou por longos minutos, independente do que acontecesse sabia que Connor o protegeria e que todos ficariam juntos, porque eles eram quase uma família, até mesmo White estava mais próximo. O ruivo sorriu e abraçou um tanto mais forte, tentando aquecer-se.
– Tem o cheiro... – Sussurrou Yuki.
– O que? – O pequeno o olhou.
As bochechas do moreno estavam rubras e ele segurava o cachecol com um sorriso ingênuo no rosto. Oliver moveu os lábios quando a porta do banheiro se abriu, a blusa escura estava aberta dando a visão de um abdômen bem definido. As calças se ajustaram com perfeição, num tamanho que deixava a visão em geral, melhor.
O ruivo cutucou o abdômen de Raiden que secava os cabelos húmidos.
– É... – O maior o olhou.
– Oww! – Falou Oliver espantado. – Da pra lavar roupa aqui! – E então fez biquinho. – Porque o meu não é assim? Que maldade...
White riu e bagunçou o cabelo do pequeno.
– Vá dormir Oliver.
– Sim, chef! – O ruivo colocou a mão horizontalmente em frente à testa e depois marchou em direção à porta.
Raiden se sentou na cadeira e começou a observar Yuki, antes de sair Oliver se virou, olhou para o homem e sorriu.
– Durma do lado dele hoje.
– Ahn? – Ele forçou uma risada e massageou a nuca. – Não posso.
– Ele estará mais seguro em seus braços, não?
Raiden parou para pensar nisso por alguns instantes, talvez fosse melhor que Yuki ficasse bravo com o ato do que ser machucado novamente.
– Pense nisso! – Continuou o pequeno. – Boa noite, senhor.
– Boa noite, Oliver.
Now
Depois de algumas horas, os olhos de Raiden pesavam, mas ele queria vigiar o menor e ter a certeza que nada faria mal a ele. Pensou durante muito tempo no que Oliver havia lhe dito, e com toda certeza o sono e o cansaço o derrubariam logo. Ele já foi mais resistente, em um passado não muito distante.
Levantando, ele caminhou em passos lentos em direção a cama, puxou o lençol e se deitou ao lado de Yuki. Aquilo parecia errado, já que não tinha a permissão do moreno, mas ele não estava em condições e aquilo era preciso, ou não, mas preferia prevenir.
Seus dedos passaram levemente pelo cabelo macio do menor, Yuki ainda segurava o cachecol, Raiden o puxou com cuidado e envolveu-o com seus braços, sentiu o calor do corpo do menor e o aroma doce que seus cabelos tinham.
Ele fechou os olhos e pela primeira vez estava feliz por estar ali. Pela primeira vez, ele estava realmente feliz.
Fale com o autor