Sim, meu mestre
10 Capitulo IX
Notas iniciais

Raiden abriu os olhos enquanto a luz envolvia a sala, sua cabeça latejava e sua visão estava turva. Sentia algo preso em seus pulsos e o mesmo nos pés, ele não podia se mexer, seus estomago estava doendo, além de vários músculos de seu corpo.
O rapaz olhou para os lados após recuperar a nitidez de sua visão. O local onde estava era estranho. Preso a correntes grossas e levemente enferrujadas, via um pequeno banco no meio da sala, não havia janelas, apenas uma porta e uma vela no fim.
White debateu-se tentando se soltar, em vão. A porta se abriu e uma mulher loira usando um vestido preto caminhava devagar até ele, ela trazia consigo o cheiro da morte. A moça apenas o encarou durante longos segundos, sua pele acinzentada deixava visíveis as veias escuras, suas íris escarlates chamavam total atenção de Raiden.
– Quem é você? – Perguntou o jovem de cabelos brancos.
A resposta recebida foi o silencio, a mulher se sentou no banco na cor branca e cruzou as pernas enquanto o olhava atentamente, seus lábios tinham uma bela forma, porem a cor negra os estragavam.
– Quem é você? – Insistiu. – Onde estou?
Aos poucos as correntes se soltaram, Raiden massageou os pulsos e olhou para frente, para sua surpresa a moça não se encontrava mais lá. Sentindo novamente uma forte “dor no estomago” desabotoou a blusa fina – levemente azulada – e se deparou com um enorme corte que o rasgava, ao tocar no ferimento, ele se abriu.
O espeço liquido escorria pelo abdômen definido do maior, enquanto ele sentia viu a única saída do local se abrir. O vento frio e fúnebre invadiu o local, o jovem dirigiu-se a porta entreaberta e a empurrou.
No corredor mal iluminado havia desenhos espalhados pelas paredes – num tom marrom –, os rostos lhe eram familiares e não era pra menos. Na seguinte ordem se encontravam: Hellen, Juny, Ruby, Pietra e Sophie num único desenho, as garotas sorriam e um leve traço vermelho em seus rostos deixava a imagem que elas choravam lágrimas de sangue. Após tal, o Padre Aulisio Michellin estava ajoelhado com sua cruz em mãos, do objeto escorria sangue, assim como de seus olhos.
Raiden olhava ambas as figuras – de certo modo, perturbado – era tão ruim quanto à imagem que havia visto pessoalmente. A próxima imagem trazia consigo uma garotinha sorridente e uma mulher atrás, a pequena tinha metade de seu rosto queimado e a maior tinha o liquido espeço e escarlate saindo de sua boca.
O nojo e o ódio voltaram ao corpo de Raiden, assim ele apenas ignorou a dor que sentia, não sabia como nem o porquê de estar ali. Não sabia quem e quando haviam o pego, eram perguntas e White sabia, nunca conseguiria respostas.
Continuando a andar, o desenho seguinte estava borrado impedindo que Raiden reconhece-se, então apenas seguiu ao próximo e para sua surpresa, era seu pequeno tesouro. Yuki. Arrancando o papel da parede, ele o observou, enfiando-o no bolso da calça em seguida, prosseguiu. Por ultimo havia um espelho oval.
Raiden olhou sua própria imagem no objeto e viu que seu rosto estava completamente machucado, além dos cortes e pequenos locais avermelhados, seu lábio inferior estava levemente inchado e rasgado. Sua imagem no espelho começou a se mexer, assim o assustando.
A sua imagem ergueu a mão e mostrou o pequeno botão de Dama-da-noite, – completamente manchado de sangue – os lábios do reflexo se mexeram e Raiden conseguiu lê-los, a fúria o tomou e antes que pudesse pensar seu punho já estava no espelho, agora quebrado.
Algo frio caiu repentinamente no rosto de White, o mesmo levou os dedos até o liquido e em seguida encarou a própria mão, sangue. Ao olhar para cima a escuridão o engoliu.
Algum tempo depois, sentiu algo fofo e frio cobri-lo, a brisa fria e os fracos raios de sol fizeram-no acordar. A neve embaixo de si estava vermelha por causa de seu próprio sangue, o maior suspirou cansado, e se levantou olhando tudo em volta. Aquele bosque lhe era familiar, estava tão confuso, estava com medo. Não medo de morrer, Raiden White não sentia medo, o homem menosprezava a morte – Idiotice ou coragem, ele não se importava – nunca ligou para a própria vida e culpou Deus por muito tempo, culpou-o por todo seu sofrimento, até que seu coração ficou vazio. Mas quando Yuki veio, sentiu uma enorme necessidade de cuidar do mesmo, e o medo voltou a seu coração, assim como outro sentimento que havia perdido.
Em sua frente um homem com uma caixinha de musica o encarava, o capuz da capa cobria sua cabeça e o impedia de ver seu rosto. Raiden se levantou rapidamente e prendeu-o contra uma arvore, quanto maior o esforço que fazia mais as dores de seu corpo ficavam maiores. Por Yuki, vale a pena.
– Quem é você?! – Perguntou o maior levantando o homem do chão. – Porque está atrás do Yuki?!
– Eu sou a dor, daquilo que já foi amor. – O homem riu. – Não estamos atrás dele, senhor White.
Raiden franziu as sobrancelhas e tirou o capuz do homem, seu rosto estava queimado e seus olhos eram negros, tão negros quanto pedras ônix. O homem o olhou, indiferente.
– Me perdoe. – O rapaz de olhos escuros sussurrou para que apenas White ouvisse, mas eles estavam sozinhos. – Que Deus o tenha.
Assim dizendo se desfez em chamas negras, o jovem de cabelos brancos sentiu uma pontada no peito e seus olhos se encheram, sua visão ficou turva e ele se apoiou em uma arvore qualquer.
– Se tocar em Yuki... – Ele pronunciava as palavras com dificuldade. – Eu o matarei... Matarei!
O céu se tornou escuro e ele não podia ver nada adiante, Raiden fechou os olhos enquanto as lagrimas quentes traçavam um caminho até seus lábios avermelhados. Seria pecado amá-lo vinte e quatro horas por segundo?
* * *
Yuki andava de um lado para o outro no quarto de White, mexia em suas coisas e em seus bens íntimos. Queria achar qualquer coisa, qualquer pista que deixasse-o dar um passo na direção do maior.
– Yuki? – Disse Oliver enquanto empurrava a porta entreaberta.
– Estou aqui.
– Ainda procurando algo? – Indagou o ruivo, preocupado.
– Ele sumiu.
– Ele sempre faz isso... Pode ter saído com Senhor Buwi. – O pequeno pousou a mão no ombro do amigo. – Não se preocupe tanto, ele deve estar bem.
– Não, Oliver! – Yuki o olhou. – Ele...
O moreno olhou para baixo e sentiu uma pontada no peito, e por alguns segundos sentiu uma enorme vontade de chorar.
– Ele me avisaria... – O maior engoliu o choro. – Ele nos avisaria.
– Tente esperar um pouco mais, ele vai voltar. – O ruivo tentou sorrir. – Desça logo, Connor fez alguns bolos e chá.
Yuki viu o amigo sair do quarto, e em seguida sentou-se na cama bagunçada, deitou-se e abraçou o lençol. Por um longo tempo não se mexeu, o cheiro de Raiden no tecido fazia com que o coração do moreno se acalmasse.
Levantando com dificuldade, o jovem saiu do quarto lentamente e fechou a porta, descendo as escadas ele pode ouvir a voz de Pierry não muito longe.
– O fez? – Perguntou o loiro.
– Sim, senhor. – Uma voz feminina respondeu.
– E como está agora?
– Não durará muito.
– Tem certeza?
– Tenho, senhor.
O moreno pulou os últimos degraus da escada e correu para fora, onde viu Pierry abaixado fazendo pequenas bolinhas de neve e cantarolando. Yuki o encarou e mordeu o lábio inferior, queria perguntar, mas não sabia ao certo o que. O loiro virou levemente a cabeça para o lado e o viu, sorriu e se levantou.
– Bom dia, Yuki.
– Bom dia... – Ele respondeu sem muita animação. – Pierry...
– Sim? – O sorriso do garoto se abre um pouco mais.
Repentinamente Oliver sai da porta da frente com duas sobrecasacas em mãos e um pedaço de bolo. Se aproxima dos jovens que conversavam e joga uma das vestes em Yuki.
– Vamos. – O ruivo começava a andar.
– Onde? – O moreno o seguia enquanto colocava a peça de roupa.
– Ajudar Raiden.
Pierry cerrou os punhos enquanto segurava uma bola de neve, ele olhava os dois garotos partirem em passos largos até os estábulos, enfiou a mão no bolso da sua sobrecasaca cinza e tirou de lá uma flor da Dama-da noite. Suspirou e guardou novamente a flor, caminhando lentamente em direção à porta principal.
Yuki montou no corcel preto de Raiden e olhou para Oliver que tentava subir em um cavalo branco. Após sucesso, ambos começaram a cavalgar, o moreno apenas seguia o ruivo.
– Sabe onde ele está? – Perguntou ao menor.
– Sim, Senhor Buwi ligou agora pouco, ele está no bosque pouco depois da cidade. Disseram pra que nós nos apressássemos. – Respondeu Oli.
– Por quê? O que aconteceu? – A preocupação encheu o peito de Yuki.
O ruivo movimentou a cabeça negativamente.
– Ele não disse.
O moreno segurou com firmeza as rédeas do cavalo e rezou para que nada de ruim tivesse acontecido, a nevasca quase havia engolido a cidade na noite passada e os cavalos galopavam com dificuldade. Passando pelos pequenos comércios, viam algumas lojas abrirem e outras fecharem.
A brisa fria balançou o cabelo de Yuki, a cidade estava deserta e a igreja próxima, em frente a mesma uma mulher de vestido preto e longos cabelos loiros olhava para o céu, seus olhos sem vida e os do moreno se encontraram em uma fração de segundos, Yuki sentiu o frio percorrer sua espinha.
Antes de adentrarem ao bosque, Kall os esperava montado em seu cavalo, parando aos poucos. Ambos garotos olharam para ele, seu olhar estava carregado, Yuki não sabia direito como interpretar aquilo, então apenas ficou mais preocupado.
– Onde ele está? – Perguntou Oliver.
Kall apenas se virou e começou a cavalgar, os menores o seguiram. Chegando ao local, os três desceram dos cavalos, Yuki ficou paralisado ao ver o estado de White. Sua camisa azulada estava completamente vermelha, seu rosto estava totalmente machucado e sua respiração estava tão fraca quanto seu coração.
Oliver se aproximou rapidamente do homem encostado a arvore e colocou dois dedos em um determinado local em seu pescoço, virou para Georgy e Kall balançando a cabeça afirmativamente em seguida.
Ajeitando Raiden em um cavalo, levaram-no para casa, Oliver era jovem, mas era um excelente “medico”. Georgy e Kall carregaram Raiden para seu quarto, e o deitaram na cama. Yuki estava com os cavalos, não teve coragem suficiente para vê-lo daquela forma novamente, não teve força.
Georgy saia enquanto arrumava o chapéu preto e mexia em seu bigode, Kall apressou-se para montar em seu cavalo, o moreno mexia em um botão de sua própria blusa, inquieto.
– Senhor Buwi! – Chamou Yuki antes que o velho partisse.
– Sim? – Ele se virou ao menor.
– Se não for pedir muito... – O garoto suspirou. – Pode me dizer como o achou?
O senhor e Kall se olharam, Georgy segurou firme a rédea do cavalo e montou no mesmo, ajeitando seu bigode novamente.
– Não sabemos. – Disse Kall
– Na verdade. – Interrompeu o velho. – Eu e Kall resolvemos caçar hoje pela manhã e quando entramos no bosque sentimos um cheiro estranho, e então o achamos.
– Então quer dizer que se não o achassem... – As palavras travaram na garganta de Yuki.
– Provavelmente. – Disse Kall após um longo suspiro.
– Temos que ir. – Georgy se virou. – Cuide bem de Raiden, jovem Yuki.
O moreno esfregou os braços e em passos lentos se dirigiu de volta a mansão White, Connor estava sentado no sofá cabisbaixo e Pierry olhava pela janela. Oliver descia logo em seguida, trazia sua caixinha de primeiros socorros e panos ensanguentados.
– Ele só precisa descansar. – O ruivo sorri.
* * *
15 hours later
Yuki se revirou em sua cama, mas não conseguia dormir, esfregou os olhos e encarou o teto, estava preocupado demais para conseguir fazer qualquer coisa. A noite já havia chegado e o frio a acompanhava.
O moreno se levantou e estralou as costas, pulou na cama, deitou de cabeça para baixo, plantou bananeira, penteou o cabelo, escreveu versinhos, desenhou, escreveu uma carta, dobrou as roupas, organizou por cores, organizou por tamanho, organizou por tecido, organizou desorganizado.
Saiu de seu quarto e caminhou pelo corredor, pulou os degraus da escada e olhou para os lados, parecia que estava tudo muito calmo. Deitou no sofá e olhou o teto, o teto incrivelmente bege. Rolou pelo chão e ficou olhando as poeirinhas no carpete, em seguida levantou dando um longo suspiro e foi em direção a cozinha.
Chegando perto da mesma, pode ouvir alguns barulhos, a porta do local estava entreaberta, se inclinando levemente, pronto para bater em algum tipo de assaltante, pode ver Connor, mas porque Connor estava nu? E porque Oliver estava nu? E porque ambos estavam nus?! Essas perguntas rodaram a cabeça do moreno, a visão daquilo deixou seu rosto como um tomate maduro, ele correu até o andar de cima e esfregou a testa inúmeras vezes. Esqueça!
Ao parar percebeu que estava na frente do quarto de Raiden, encarou a porta por longos minutos, até tomar coragem e bater de leve algumas vezes. Não houve resposta, o pequeno mordeu o lábio inferior e entrou sem fazer barulho.
A luz da lua e a vela – que já estava no fim – iluminavam o quarto, Yuki pegou uma coberta no singelo guarda roupa e cobriu White, sua pele estava mais pálida que o normal, mas ele parecia estar tendo bons sonhos, o moreno se sentou ao seu lado e passou a mão por seu cabelo bagunçado, observando os curativos em seu rosto.
– Raiden... – Os olhos do menor se encheram. – Me perdoe, eu não terei coragem para falar quando estiver acordado! Eu senti tanto medo, e achei que não te veria mais, achei que não poderia brigar contigo novamente... Mas eu nunca quis brigar, eu só não sei lidar com isso... – Yuki chorava e enxugava suas lágrimas com a manga da blusa – Eu nem sei ao certo porque estou chorando, não me abandone, eu não quero que vá embora novamente!
Raiden o olhava com um sorriso fraco no rosto, ele jogou a coberta para o lado e Yuki se assustou com o movimento, foi quando percebeu que o maior estava acordado. White puxou o moreno para si e os cobriu.
– Eu nunca fui.
As lágrimas ainda escorriam pelo rosto de Yuki, suas bochechas e seus lábios estavam rubros. Raiden se aproximou e colou seus lábios, num beijo rápido, sua boca ainda estava machucada, mas ele precisava, ambos precisavam.
– Prometo não te abandonar. – Raiden acariciou seus cabelos. – Então, só fique comigo.
As bochechas do menor ficavam cada vez mais vermelhas e as lágrimas ainda insistiam em cair.
– Fique comigo, Yuki.
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