Sim, meu mestre
4 Capitulo III
Notas iniciais
O padre desceu os pequenos degraus da escadinha enquanto um jovem ruivo o seguia, ambos vestidos de maneira adequada para o local, a sotaina do padre era larga e confortável, a veste do jovem era tanto quanto à do senhor.
– Senhor. – Disse o garoto. – A igreja tem autoridade para perdoar os pecados através do sacramento da penitência?
– É claro. – Respondeu o homem de cabelos grisalhos e pele enrugada. – A Igreja tem esta autoridade porque a recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu”.
– Mateus 18:18. – Completou o ruivo. – Mas senhor, por que confessar e pedir perdão para um homem igual a mim?
O padre virou-se para o garoto e o olhou com um sorriso nos lábios.
– Só Deus perdoa os pecados, meu filho. O padre, mesmo sendo um homem sujeito a fraquezas como outros homens, está ali em nome de Deus e da Igreja para absorver os pecados.
– Como um intermediário ou instrumento do perdão de Deus? – Questionou-o.
– Assim como um médico é um instrumento para restituir a saúde física. – Respondeu o homem.
– Mas senhor... – O ruivo foi interrompido.
– Vá para casa, Patrick, está tarde. – Falou o velho.
– Poderei voltar amanhã? – Perguntou.
– A casa de Deus estará com as portas sempre abertas. – Respondeu.
– Voltarei assim que acordar! – Disse o jovem entusiasmado. – Boa noite, senhor.
– Boa noite, meu filho. – O senhor esperou que o garoto saísse da igreja e se dirigiu à pequena cabine onde ouvia as confissões.
Pegando a pequena cruz, ele a segurou e levou-a para perto da boca, onde sussurrou algumas palavras e colocou-a de volta. Ouvindo a porta da Igreja abrir, ele fica em silêncio, e espera, vendo apenas um jovem, não sabe ao certo se é uma garota ou um garoto por suas roupas largas e o capuz que cobria seu rosto.
O jovem se sentou no pequeno banquinho ao lado e abaixou a cabeça.
– Padre, eu pequei. – A voz masculina fina e doce saía dos lábios avermelhados.
– Diga, meu filho.
– Sinto que meu coração está apodrecendo.
– Por quê?
– Porque o ódio o habita e as sombras o devoram. – O jovem falou da maneira mais calma possível.
– Deixe que vá, abra seu coração para que o bem entre nele.
– Padre.
– Diga.
– Eu quero que aquele homem sofra, até os últimos dias de sua vida. – As palavras saíam da boca do garoto cada vez mais rápido. – Eu quero que seu sangue seja derramado lentamente, quero que sua dor seja tanta que possa ser palpável, eu quero que sua alma queime no inferno.
O garoto se levantou e começou a andar em direção à porta lentamente. O padre saiu apressado da pequena cabine.
– Meu filho!
O menor abaixou a cabeça e se virou, ainda impedindo que o padre visse seu rosto.
– Perdão, padre. – Ele sussurrou. – Agora que o senhor sabe, espero que teu Deus te proteja.
O homem de cabelos grisalhos deu alguns passos para trás e sentiu o ambiente ficar frio, o arrepio percorreu por todo seu corpo, ele correu até as escadinhas e tentou alcançar sua bíblia, quando sentiu mãos frias em seus pés...
* * *
– Yuki... – A mulher loira nua caminhava em sua direção, o que a diferenciava de Lizi eram seus olhos negros e a pele acinzentada. – Yuki...
O moreno olhava fixamente para aquela que se aproximava.
– Quem é você? – Perguntou.
– Yuki... – As paredes brancas ao redor tomavam uma cor escura conforme o sangue escorria por elas.
– Não se aproxime! – Gritou o jovem.
– Vamos dançar... – A garota sumiu e a música da pequena caixinha de música podia ser ouvida.
Yuki se virou e viu o homem, o mesmo que segurava a pequena caixinha escura, ele girava lentamente a manivela e sorria, o objeto se abriu e a miniatura do moreno estava lá, dançava de forma lenta, com passos que continham graça e suavidade.
Yuki acordou assustado e passou a mão pelo lençol, viu que estava em seu quarto, respirou fundo e olhou para a janela, Raiden estava parado olhando para ela. A luz da lua era a única que iluminava o local.
– O que está fazendo aqui? – Questionou o menor.
O maior o olhou e aproximou-se.
– Me responda. – Yuki elevou o tom de voz.
Raiden suspirou e subiu em cima do moreno e passou os lábios por seu pescoço.
– Ei! – Falou alto o menor enquanto batia no rapaz de cabelos brancos.
O maior segurou forte os punhos de Yuki e beijou-o, enquanto sua coxa roçava pelos membros íntimos dele. Aquilo era assustador para o moreno, as lágrimas brotaram em seus olhos, escorrendo por seu rosto em abundância.
Raiden sentiu o liquido e se afastou, o olhando em seguida, de certo modo aquilo o chocou.
– Está me machucando! – Gritou Yuki enquanto chorava.
O homem de cabelos brancos saiu rapidamente de cima do menor, e em passos largos se dirigiu à porta, ele se virou e seus lábios se movimentaram, porém, as palavras não saíram. Aquilo travou em sua garganta e seu peito estava apertado.
– Eu te odeio, Raiden! – Gritou o moreno, cobrindo-se por inteiro com o lençol logo em seguida.
Encolhido em baixo do tecido macio, ele parava de chorar, o barulho da porta pôde ser ouvido, o silêncio dominou o local, mas sua mente barulhenta fazia todo o serviço. Aquilo foi embaraçoso, algo que ele realmente não esperava, na verdade, o menor não sabia como se sentir em relação a tudo.
O mesmo fechou os olhos e quis sumir, estava com medo de dormir. Ele já não sabia se a realidade ou seus sonhos o assustavam mais.
* * *
Oliver debruçou-se sobre a mesa da cozinha naquela manhã, bocejando em seguida, ele olhou para Connor, que tirava um bolo do forno.
– Onde está Pierry? – Perguntou o negro.
– Dormindo. – Bufou o ruivo.
– Yuki? – Novamente.
– Também.
– E o Senhor White?
– Não o vi ainda, mas ouvi barulhos essa madrugada. – Oliver se sentou na cadeira, ajeitando a saia azul. – Vinha do quarto dele.
– Entendi. – Connor pegou uma fatia de bolo e deu ao menor, sentou-se na cadeira ao seu lado e encarou o teto.
O menor dava grandes mordidas no bolo fofo enquanto o homem pensava, algo estava errado e ele podia sentir, não apenas por ter um sexto sentido “aguçado”, mas as coisas davam passos errados há algum tempo, o trem estava de fato saindo dos trilhos.
A porta da cozinha se abriu e Raiden entrou por ela. Olhou para ambos que estavam sentados, os jovens se assustaram com a presença dele ali.
– Senhor... – Disse o ruivo, engolindo rapidamente o que tinha na boca.
– Oliver, pode nos dar licença? – Perguntou secamente o de cabelos brancos.
O pequeno movimentou a cabeça afirmativamente e saiu da cozinha com o resto do bolo, Raiden se sentou e olhou para Connor, o homem negro estava calmo de certo modo, porém, aquilo era algo incomum. Pegando uma xícara na bandeja no meio da pequena mesa, ele a enchia com chá, dando-a para o Senhor White.
– Camellia sinensis... – Disse Raiden, levando a xícara para perto da boca. – Chá branco.
– O senhor nunca erra. – Sorriu Connor.
Depois de um gole do líquido quente e de gosto suave, ele o olhou.
– Não tenho tempo para erros, mas talvez minha vida seja um.
– O senhor não veio aqui para tomar chá, certo?
O homem de cabelos brancos suspirou.
– Preciso que faça algo para mim.
– Diga e farei, senhor.
– Creio que algo está errado com Yuki, ele está estranho desde ontem quando voltamos. – O homem deu uma pequena pausa.
– Talvez ele só esteja assustado com tudo que viu.
– Talvez, mas não creio que seja só isso. Algo está o...
A porta se abriu e um homem de cabelos curtos e castanhos entrou lentamente, a roupa já dizia tudo, ele fazia parte da polícia e sua face era familiar para Raiden.
– Senhor White? – Perguntou o rapaz.
– Kal, certo? – O mesmo era assistente de Georgy, o chefe da polícia.
– Sim, senhor.
– Em que posso ajudar? – Perguntou Raiden.
– O Senhor Bruwi pediu que o chamasse imediatamente. – Respondeu Kal.
– Uh... Certo. – O homem se levantou e ajeitou o casaco, antes de ir para a porta, virou para Connor, que o observava em silêncio. – Não deixe que Yuki saia, e descubra o que está acontecendo, se possível, conto com você.
– Sim, senhor. – Disse o negro.
Raiden acompanhou Kal até a porta, Oliver já estava lá fora agasalhado e segurando as rédeas dos cavalos. Ambos olharam para o menor e movimentaram a cabeça, montando em seguida.
Kal Benatti seguia na frente e o Senhor White logo atrás. Da janela do seu quarto, Yuki olhava enquanto ambos se afastavam, o homem de cabelos brancos se virou lentamente e viu o moreno, que fechava as cortinas.
O trajeto foi longo e cansativo, começava a nevar e isso era um incômodo, ao menos no momento. O silêncio reinava e a única coisa que Raiden podia ouvir era sua própria respiração junto aos galopes do cavalo preto.
Chegando à igreja, um jovem ruivo estava sentado nas escadas em frente à mesma, ele chorava e parecia assustado, abraçando as pernas, afundava a cabeça nos joelhos. Ambos desceram dos cavalos e se aproximaram do garoto.
– Patrick. – Disse Benatti. – Vá para casa, não é uma boa hora e não queremos que apareçam mais pessoas. Vá.
– Como pode dizer algo com tanta calma?! – Gritou o garoto, debulhando-se em lágrimas. – Você viu?!
– Se acalme e vá para casa, é o melhor que tem a fazer. – Continuou.
– Eu não consigo! Eu estou com medo! – Continuou.
Kal sentou-se ao lado do menino e tentou acalmá-lo, olhando para o homem de cabelos brancos, ele balançou a cabeça. Raiden entendeu e prosseguiu só, degrau por degrau ele subia a pequena escada para a igreja, a grande porta estava entreaberta, ele só a empurrou.
A cena era grotesca. Os bancos cobertos de sangue e a trilha no meio deles levavam ao pior.
– Senhor White. – Disse Georgy se aproximando.
– O que aconteceu? – Perguntou Raiden, retirando as luvas brancas e enfiando-as no bolso.
– Padre Aulisio Michellin, setenta e oito anos. – Falou o senhor. – Ele foi encontrado pela manhã por Patrick Galleas.
O jovem observava o local enquanto ouvia Georgy, ao final daquela trilha, um homem estava pregado pelas mãos e pés nas paredes ao lado da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Seus olhos teriam sido arrancados de forma bruta, assim como o buraco que havia no meio do peito, aparentemente seu coração foi levado. O sangue que escorria do corpo dele passava pela parede, formando o desenho de um cálice. Como se seu corpo fosse oferecido a tal.
Caminhando em passos largos, Raiden aproximou-se do corpo, o cheiro de sangue se misturava a um cheiro desconhecido, a única certeza que tinha no momento era que aquele perfume doce pertencia a alguma flor.
O livro de capa preta estava jogado no chão, onde a poça de sangue o rodeava, o jovem abaixou-se bem próximo do objeto e o pegou, apenas uma bíblia. Algo marcava a página, com cuidado, porém já sujando suas mãos com sangue, Raiden o abriu. Para sua surpresa, a miniatura do boneco de Yuki estava lá, e próximo a Mateus 18:18, a palavra “Perdoado” estava escrita.
Raiden se assustou, o corpo se despregou da parede e caiu de bruços na poça de sangue, respingando assim no corpo do jovem. Ao olhar novamente para a bíblia, no lugar da pequena miniatura estava um pequeno botão de dama-da-noite.
Soltando a bíblia, Raiden corria em direção à porta da igreja, ele tinha de protegê-lo, independente do preço que teria de pagar, não deixaria que o tirassem dele, não ele, não Yuki.
– Senhor White! – Gritou Georgy. – Senhor White!
Ao chegar do lado de fora, pulava os pequenos degraus, quando Patrick levantou-se repentinamente e agarrou os braços de Raiden. Seus olhos estavam brancos e sua pele acinzentada.
– Não deixe que ele continue. – Sussurrou. – Detenha-o, detenha-o antes que seja tarde.
– Patrick? – Kal o puxou.
– Ele não fez por mal, não fez... – O ruivo desmaiou em seguida nos braços de Benatti.
Aquelas palavras soaram na mente de Raiden por longos segundos, ele já tinha ouvido a mesma frase antes, as exatas mesmas palavras. Mas de quem? Estava preocupado demais com o moreno para conseguir lembrar. Ao montar no cavalo, sentiu uma forte dor de cabeça, e próximo a esquina daquela rua, um jovem de capuz segurava uma caixinha preta de música enquanto girava a manivela.
Yuki, estou indo.
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