Sim, meu mestre
3 Capitulo II
Notas iniciais

Enquanto as flores caírem e nascerem novamente, terei motivos pra sorrir.
– Pierri e xxxxxx River
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O garotinho de cabelos brancos fazia abdominais com tábuas grandes de carvalho nas costas. O shorts curto deixava à mostra suas pernas roxas, o suor traçava o caminho por seu rosto pálido, os olhos estavam fixos no chão, a terra macia passava por seus dedos cansados, seus músculos estavam no limite, a respiração pesada junto a força do centésimo nono movimento estavam o matando.
– FORÇA, RAIDEN! – Gritou o homem alto e ruivo que segurava uma barra de metal.
– Senhor John... Eu não aguento mais... — Sussurrou Raiden.
O vento frio balançava as folhas das árvores, retirado da cama com febre, o pequeno White não tinha muita escolha, melhor dizendo, nenhuma. O homem levantou o objeto em suas mãos.
– Mais rápido! – Gritou novamente.
Os braços do jovem falharam por uns segundos, olhando levemente para o lado, ele pôde ver a forma alta e forte, bem vestida, seu pai o olhava com desprezo, nojo. A troca de olhares entre ele e o senhor John foi rápida e de certo modo, muito clara. O ruivo acertou em cheio um dos braços do menor com o metal, o estralar de seu osso quebrando foi alto e agoniante, seu corpo se chocou contra o chão gelado.
Aquela dor percorreu todo o seu corpo, mas ele não gritou, não se mexeu e nem ao menos pediu ajuda, ficou parado enquanto seus olhos se enchiam de ódio, de tristeza e todo o resto que ele tinha guardado durante quatro invernos, quatro longos invernos.
Sua visão ficou embaçada ao longo que as primeiras gotas da chuva começavam a cair, ele queria que a chuva pudesse fazê-lo derreter, queria que o vento o soprasse para longe como faz com as folhas no outono, que sua mãe pudesse sentir orgulho, que seu pai o tratasse como filho e não como um nada qualquer. Queria ser reconfortado com um pingo de esperança, ao invés de dor e mais dor, aquele coração não era mais o mesmo, infelizmente, os ciclos o tornaram frio.
“Querida Morte,
O relógio anda devagar, mas a dor me acompanha tão rápido,
por onde andas? Estou demasiado cansado para prosseguir, por favor, não demore.”
Yuki encarava o teto, a cor salmão do papel de parede o hipnotizou de certa forma, o barulho dos talheres vinha da pia onde Connor preparava algo para que o rapaz comesse. A ideia de puxar assunto e começar uma conversa tinha sido descartada após um longo pensamento.
O homem bronzeado tirou a forma do grande forno, o cheiro de biscoitos tomou conta de todo o local, e consequentemente fez o estômago do menor roncar. A porta se abriu lentamente e por ela entraram Pierri e uma garotinha da mesma altura.
– Bom dia, Yuki! – Disseram em coro.
– Ah... Bom dia. – Respondeu.
Virando-se para o homem alto, eles sorriram.
– Bom dia, Connor! – Novamente em coro.
O jovem negro observou os dois e suspirou.
– Por que está vestido assim? – Perguntou o mesmo à garota.
– Como assim? – A ruiva deu uma risadinha. – Estou brilhando como de costume! – Ela se virou para o moreno que estava sentado. – Você não acha, Yuki?
– A-ah... – Ele coçou a nuca. – Desculpe... Eu te conheço?
Pierri caiu na gargalhada e Connor abriu um sorrisinho de canto.
– Que maldade, Yuki! – A mesma fez um biquinho.
O loiro se aproximou da garota e abaixou sua saia de forma bruta, depois bagunçou seu cabelo. O moreno não sabia como reagir, sua boca se abriu e fechou em seguida, uma garota... Com três pernas, talvez?
– Reconhece agora? – Pierri, retirou as meias do sutiã de Oliver.
– Que maldade! – Ele levantou a saia. – Devolva meu busto!
Connor colocou os biscoitos em um prato de porcelana e deixou-o na mesa. Lançando um olhar para os dois menores, os mesmos abaixaram a cabeça e se afastaram do lanche.
– Quer comer, Yuki? – Perguntou o negro enquanto pegava leite.
– Não. – Seu estômago roncou alto.
– Coma. – Continuou o homem, colocando o copo cheio em sua frente.
O moreno não disse nada, apenas suspirou e pegou um biscoito, macio e de sabor suave, o que dava o gosto eram as pequenas gotas de chocolate. Eram grandes e idênticos aos de sua mãe.
– Tente não comer muito, Yuki... – Disse Pierri.
– A não ser que tenha um estômago forte. – Completou Oliver, arrumando as meias no sutiã.
– Deixem que ele coma. – Raiden estava parado na porta com as mãos enfiadas no bolso escuro da calça.
– Bom dia, Senhor White! – Disseram os menores em coro.
– Bom dia, garotos... – O jovem de cabelos brancos apenas movimentou levemente a cabeça ao olhar para Connor, que fez o mesmo, ao olhar novamente para o moreno sentado que engolia o biscoito inteiro à força, abriu a boca, mas a fechou em seguida, encarou o chão e abriu um sorriso de canto. – Te espero na minha sala, Yuki.
Em seguida ele se retirou, Connor se sentou na ultima cadeira e os menores se olharam e depois sorriram.
– Ele nos deu bom dia! – Risinhos foram seguidos de pequenos pulos de vitória.
Yuki encarou o resto do grande biscoito antes de comê-lo, ele nem ao menos sabia se queria terminar aquilo.
– Não o deixe esperando muito tempo. – O homem negro apoiou o queixo na palma da mão.
Mastigando o resto do lanche, o moreno engolia rapidamente o leite, se dirigindo a porta logo em seguida.
– Boa sorte, Yuki.
Há três dias no local, o moreno já estava completamente recuperado, ao menos fisicamente. Passando em frente à longa escada, ele se dirigiu à porta branca não muito longe. Parando em frente a ela, ele ainda tentava controlar o ódio que sentia pelo homem que estava do outro lado da porta.
Olhando para baixo, ele cerrou os punhos se preparando para bater na porta e foi em frente, mas ao invés de sentir a dureza e a frieza da madeira, sentiu o tecido em sua mão. Olhou para frente e viu que Raiden o olhava, seu punho estava no tórax do homem.
–... – O maior o olhou.
–...
–...
– O que está fazendo? – Perguntou enfim, quebrando o silêncio.
Pense rápido, Yuki, rápido, rápido, rápido, rápido.
– Me vingando. – Respondeu o moreno.
–...
–...
–...
–...
– A punição não é tão ruim, posso me acostumar com isso. – Raiden se aproximou.
– Se você tentar de novo... – A aura negra se formava em torno de Yuki. – Vou chutar seu traseiro até Marte.
– Hum... – O maior massageou a nuca. – Isso é mal.
– Tsc. – Bufou o menor. – O que queria?
Raiden entrou na sala e se dirigiu até a janela, Yuki o seguiu parando pouco atrás. O sol estava escondido atrás das nuvens, estava escuro lá fora, mas a neve já havia parado de cair.
– Como meu novo servo, preciso de seus serviços.
– Eu não sou seu servo!
– Não? – O maior o olhou. – E se sair daqui vai para onde, Yuki? Como vai viver? Ninguém te espera lá fora.
O coração do rapaz apertou e ele encarou o chão, talvez alguma parte dele acreditasse que um dia poderia voltar para casa e ver sua mãe na janela esperando sua volta. Seu pai trazendo lenha para aquecê-los durante as noites frias. Talvez ele quisesse que nada daquilo tivesse realmente acontecido. Mas era só uma mentira? A mentira que mais o confortava. As lágrimas brotaram em seus olhos, mas ele não queria chorar, era forte, não podia fraquejar agora.
Ele sentiu a mão quente passar por sua cabeça e automaticamente olhou para frente. Raiden o olhava sem expressão, seus dedos corriam de maneira suave pelos fios finos do cabelo do moreno. E aquela sensação que sentia pelo maior só crescia, aquilo era ótimo, mas era completamente distinto para o menor.
Com os punhos cerrados, ele começava a chorar, e ao mesmo tempo bater no tórax do maior, que só o observava, socos seguidos de outros, até que a repetição deles foi parando, Raiden segurou o punho do menor que parava de bater.
– Não olhe para mim. – Disse Yuki encarando o chão.
– Não estou olhando.
– Está mentindo.
– Talvez, você não está vendo.
– Eu odeio você, Raiden.
O maior riu.
– Posso viver com isso.
O menor suspirou e continuou a olhar para baixo.
– O que tenho que fazer?
* * *
One hour later
Parando em frente à casa, vários carros e alguns cavalos podiam ser vistos por perto. Os policiais conversavam entre si numa roda em frente à porta. Alguns vomitavam próximo ao jardim, mas o que todos tinham em comum, eram as expressões, choque talvez.
Raiden se aproximou da porta e um dos senhores virou para cumprimentá-lo. Yuki o seguia enquanto observava os homens ao seu redor.
– Senhor White. – Disse o policial de mais idade.
– Peço desculpas pela demora, Georgy.
– Não se preocupe.
– Então, como estão as coisas? – Perguntou o rapaz.
– Bem... Veja você mesmo. – Suspirou o senhor.
Entrando pela porta, o cheiro forte de carne podre e o sangue por todos os lados, além de órgãos, tais como tripas, olhos e línguas, deixavam qualquer estômago mais forte fraco. O estômago de Yuki embrulhou e ele tampou o nariz, assim como tentava respirar o menos possível. Raiden ainda seguia o senhor, que agora subia as escadas sujas.
– Raid... – O moreno tentou, mas infelizmente aquilo só o deixou mais enjoado.
– Vá para fora, Yuki. – Disse o maior.
O menor não gostava de se sentir frágil, abriu a boca e engoliu o ar, inchou o peito e andou. Os três caminharam pelo corredor até o ultimo quarto.
O senhor empurrou a porta entreaberta, nas paredes havia mais sangue, assim como órgãos pelos cantos.
– Impossível... – Os olhos do policial se arregalaram. – Elas estavam todas aqui! – Ele saiu marchando pela porta. – Kal! Kal! Onde elas estão?! Eu mandei não mexer em nada!
Raiden andou pelo quarto e observou os vestidos pendurados ao lado da cama, rasgados e ensanguentados, o cheiro, por mais incrível que parecesse, era menos mal naquele ponto.
– Você está sentindo? – Perguntou Yuki.
– O quê? – O maior o olhou.
– Esse perfume. – O moreno se aproximou da escrivaninha e observou a pequena caixinha rosa. – Dama-da-noite.
– A flor? – Perguntou o outro se aproximando. – Não sinto cheiro de nada, além de sangue.
– Minha mãe costumava cultivar este tipo de flor.
A caixinha se abriu, a música suave e doce era acompanhada do perfume da flor e da pequena bailarina que dançava, em seu peito, uma mancha vermelha que se transformou em gota e escorreu por ela.
– Vamos. – Raiden segurou o braço do menor e puxou-o com força para fora.
– Ei, me solte!
Antes que pudesse continuar a falar, já estavam fora da residência, o maior se aproximava em passos largos do policial que brigava com um pequeno grupo.
– Georgy. – Disse secamente o jovem de cabelos brancos.
– Desculpe, Senhor White... – O senhor o olhou cabisbaixo. – Não sabemos o que aconteceu.
– Quero todas as informações que pode me dar no momento. – Continuou.
– Eram cinco garotas, os pais foram atrás de mim após elas não terem voltado dos bailes que ocorreram no decorrer da semana, na residência da senhora Kris. Hellen, Juny, Ruby, Pietra e Sophie, todas na faixa de dezesseis a dezessete anos.
– Mais algo que eu precise saber?
Yuki observava o local em volta enquanto esfregava os braços, na esquina, não muito longe, pôde ver um garotinho no chão, olhou para Raiden e em seguida seguiu em direção ao pequeno, já próximo, o mesmo se levantou e correu, virando à esquerda.
– Ei, espere! – Disse o moreno.
Raiden ouviu a voz do menor, que já estava longe.
– Yuki! – Gritou o jovem de cabelos brancos enquanto corria em sua direção.
O moreno virou à esquerda quando viu um homem, ele segurava uma caixinha escura, com uma pequena manivela ao lado. Lentamente, ele começou a mexer no objeto, o perfume da dama-da-noite ficou forte, Yuki olhava fixamente para a caixinha, que se abria conforme a manivela era girada, uma miniatura do moreno estava dentro dela, e ele dançava, não como a pequena bailarina de antes, mas de uma forma tão doce quanto tal.
– Dance... Dance... – Sussurrou o homem. – Feche os olhos e deixe que se vá...
– Yuki! – Raiden segurou forte seu braço, parando ofegante atrás do menor.
– Ahn? – O moreno o olhou assustado, ao se virar novamente para frente, o homem já não estava mais lá.
– O que estava fazendo? – Indagou secamente o maior.
– Eu... – Yuki parou para pensar por um momento. – Eu não me lembro...
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