Sim, Senhor.

45 Capítulo 45


Notas iniciais
Como estão ? Espero que esteja tudo certo com vocês ! Vamos para mais um capítulo :D

Grissom não sabia como havia chegado em casa, mas naquele exato momento, tinha estacionado a sua SUV na garagem bem organizada. Seu olhar estava fixo no retrovisor interno do carro e tudo que refletia era o seu olhar perdido e o seu nariz levemente inchado e manchado de sangue.

Desligou o carro e prendeu a respiração até o motor desligar. Escutou alguns passos e imaginou que seria sua mãe e sua filha o aguardando. No entanto, ele não queria que nenhuma das duas o visse daquela forma. Retirou a sua jaqueta e tentou limpar o sangue seco em seu rosto, mas não teve sucesso.

— Ei, Gil. — Sua mãe estava parada ao lado da janela do motorista. Se ela havia percebido o seu rosto machucado, soube disfarçar muito bem. — Desça logo desse carro.

Ele obedeceu. Seu corpo pesado deslizou para fora do carro e ele soltou o peso na lataria preta. Fechou os olhos ao sentir o toque delicado de Beth em seus cabelos desgrenhados e depois os dedos finos descerem até a altura do seu nariz.

— Não sabia que o meu menino era bom de briga. — Ela deu uma risada discreta e Grissom também a acompanhou.

— Você precisa ver como eu deixei o meu oponente. — Abriu um sorriso cansado e depositou um delicado beijo na palma da mão de sua mãe.

Eles riram novamente e Beth abraçou o corpo largo de seu filho. O cheiro suave do shampoo de canela de Sara estava fixo em sua blusa, e ela aspirou. Sua mente maquinava a ironia da vida, seria ela quem devia segurá-lo em seus braços, mas Beth praticamente sumia nos braços largos do perito.

— Gil ! Maggie está aqui. — Ela deu um passo para trás e segurou em seus braços. — Ela chegou tem uns 30 minutos.

— Esse dia nunca vai acabar. — Suspirou fundo e levou as mãos espalmadas ao rosto. Gemeu baixinho quando encostou em seu nariz.

— Vamos até o lavabo dar um jeito em seu rosto. Depois você deve subir e terminar o seu dia.

Caminharam em silêncio até o interior da casa. Ambos sentiam que o clima ainda estava tenso, e as sombras de todos ainda estava pairando no ambiente. O pequeno lavabo ficou apertado para os dois, mas Beth com destreza conseguia limpar o sangue.

— Isso me lembra quando você caiu de bicicleta. Entrou em casa escondido e foi direto para o banheiro lavar o seu machucado. Eu quase desmaiei quando vi a toalha de rosto branca toda suja de sangue e você tentando colocar um curativo no seu rosto.

Ela encostou levemente na pequena cicatriz que Grissom tinha perto da sobrancelha.

— Obrigado, mãe. — Segurou as mãos delicadas dela entre as suas, depositou um beijo em seus cabelos bem arrumados e piscou para ela.

— Agora vá ! Eu acho que você ainda tem o pior obstáculo para enfrentar, mas sei que você é prudente o suficiente para contornar toda essa situação.

Ele apenas concordou. Temia pela reação de Emma e não fazia ideia de como poderia abordar aquela assunto com a caçula. Ela era apenas uma criança e não merecia uma descarga emocional tão forte como aquela que se aproximava.

Rumou para o segundo andar, reparou que tinha um pouco de sangue em sua camisa e achou melhor trocar, não queria questionamentos a respeito. Abriu os botões da camisa social ainda no corredor e foi em direção ao seu quarto.

— Não houve grandes mudanças por aqui ! — Maggie surgiu da pequena sacada do quarto. Ele não havia percebido a presença dela e assustou-se com a voz no escuro. Apenas as luzes externas davam um pouco de luminosidade para o quarto. — Não quis te assustar.

— Não havia percebido a sua presença. — Ele estava visivelmente incomodado com a presença dela ali, ainda mais que ele estava sem camisa.

— Sério, Gilbert ? — Apontou para o peito nu do seu marido e mordeu os lábios para reprimir uma risada. — Nós temos dois filhos, ou seja, já tive acesso ao pacote completo. — Apontou o indicador por toda a extensão do corpo dele.

Grissom decidiu ignorar o comentário ácido e virou-se para procurar uma blusa limpa. Vestiu uma camisa azul e manteve uma distância de Maggie. Não sabia ao certo como tratá-la quando estavam a sós.

— Agora me resta conversar com Emma e por último: você.

— Nós já conversamos Maggie.

— Não estou falando sobre a minha ausência, Gil. — Em um único impulso, aproximou-se do perito. Percebeu que ele retesou com a proximidade. — Estou falando sobre nós dois. Estou falando sobre o nosso casamento.

Grissom fechou os olhos por breves segundos. Estava totalmente no escuro a respeito daquele assunto e odiava sentir-se vulnerável daquela forma.

— Uma outra hora, Maggie. Por favor.

Ela concordou, naquele momento eles não eram a prioridade.

— Eu gostaria muito de ver a Emma. Preciso saber se ela ainda cabe dentro do meu colo. — Ela deu um sorriso abobalhado. Grissom sentiu o peito apertar, a mulher parada na sua frente havia perdido momentos importantes na vida de seus filhos por culpa dele.

Culpa dele

Saiu do quarto e sentiu que podia respirar melhor. De alguma forma, a presença de Maggie estava o sufocando. Caminhou a passos lentos e pesados até o quarto de Emma, duas batidas na porta para anunciar a sua presença, e encontrou a menina entretida no pequeno DVD portátil.

— Como está, abelhinha ? — Empurrou a coberta felpuda para a lateral da cama e sentou-se próximo a ela. Sustentou um sorriso bobo enquanto observava Emma fazer um esforço para desviar a atenção do filme, ela realmente estava crescendo.

— Oi pai. — Ela ergueu o olhar da tela e sorriu. — Cadê todo mundo ?

— Eles precisaram sair.

— Até a Stelinda ? Ela não saí para nada.

Grissom sorriu, aquele fato era verdade. Stella praticamente se ausentava daquela casa quando pedia alguns dias de férias ou em alguns feriados.

— Venha cá ! — Ele retirou o DVD das mãos dela e desligou o aparelho. Deu duas batidas no colchão ao lado dela e Emma preguiçosamente se arrastou até ao lado dele. — Precisamos conversar.

— O que aconteceu com o seu nariz ? — Ela tocou delicadamente e percebeu que seu pai contraiu o corpo e prendeu a respiração.

— Um pequeno acidente. — Ele virou o rosto para o espelho da penteadeira e constatou o inchaço no local. — Mas não é sobre isso que eu queria falar com você. — Ensaiou um sorriso mas contrair o músculo da face era dolorido.

— Aprontei alguma coisa ? — Emma era impaciente e muito curiosa.

— Em, precisamos conversar sobre a sua mãe. — Ele percebeu a menina arregalar os olhos e prender a respiração. Os dois sabiam que aquele era quase um assunto proibido entre eles, e ela assustou-se com a fala. — Antes de mais nada, você precisa saber que eu sempre vou estar ao seu lado e você não precisa se assustar com nada.

— O que está acontecendo ? — A voz da menina dos cabelos dourados estava embargada e seus lábios estavam perdendo a cor, aquilo era um péssimo sinal.

— Meu amor, a sua mãe está de volta. — Ele soltou o ar dos pulmões e fechou os punhos com força, estava aterrorizado com a expressão de sua filha.

Emma balançava a cabeça em negativa. Tinha o olhar fixo para o chão e repetia em um sussurro a palavra não. Ela não estava acreditando no que estava acontecendo e sentia uma vontade absurda de chorar, mas por algum motivo que ela não conhecia, simplesmente não conseguia.

— Ei, Em. — Grissom agachou-se na sua frente e segurou as mãos frias da menina. Levou uma mão até o rosto dela e a forçou a encarar. — Calma ! Confie em mim, eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você.

— Por que ela voltou ? — As palavras saiam entrecortadas.

— Porque eu amo você. — Maggie apareceu na porta. Ela esteve o tempo todo no corredor ouvindo a conversa entre pai e filha. Não aguentava mais não poder estar ao lado de sua filha e poder finalmente abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.

Grissom fechou os olhos com força, a ansiedade de Maggie poderia custar caro naquela conversa. Emma olhava desesperada e a primeira reação dela foi reprimir o toque dela, encolheu o ombro e desviou de sua mão.

— Eu não quero ser abandonada de novo. Eu prefiro ficar só com o meu pai. — Emma olhava fixa para as mãos firmes de seu pai, ele era o seu único porto seguro.

— Emma, olhe para mim. — A voz de Grissom era firme mas tranquila. A menina obedeceu e encarou a imensidão azul do olhar de seu pai. — Você precisa escutar a sua mãe ! Ela jamais faria alguma coisa para te deixar triste.

— Mas ela me deixou sozinha. Eu nem lembrava mais da voz dela. — Aquela última frase morreu no ar.

Maggie sentiu como se tivesse acabado de levar um soco forte em seu estômago. Sentiu um pouco de falta de ar e enjoo. Emma era muito nova para ter aquele tipo de experiência e principalmente aquela dureza na voz.

Emma pulou nos braços de Grissom e afundou seu rosto na curva do seu pescoço. O abraço era mais apertado que o habitual e ele retribuiu a altura. Por cima do ombro da menina, ele pode ver Maggie tentando se recuperar.

— Eu estou aqui com você. — Grissom sussurrou em seus ouvidos e afagou os cabelos macios. — Por favor, deixe a sua mãe conversar com você. Eu prometo que não vou sair do seu lado em momento algum.

Grissom fez um sinal discreto para Maggie se aproximar. A mulher assim o fez, queria poder tocar em sua filha, mas o movimento negativo de cabeça do supervisor a repeliu da ação.

— Querida, eu precisei partir para poder proteger você, seu irmão e o seu pai. Você ainda é muito pequena para poder entender tudo o que aconteceu comigo, mas enquanto eu estive fora, não teve um dia que eu deixei de pensar em você.

— Abelhinha, isso é verdade. Talvez você seja muito miúda para entender esses assuntos de adulto, mas eu jamais mentiria para você. — Grissom precisou fechar os olhos. Seu coração partiu em mil pedaços ao saber que ainda poderia decepcionar sua filha.

Emma apenas apertou ainda mais o seu corpo contra o peito do seu pai e começou a chorar baixinho. Pensava que aquele poderia ser algum pesadelo que ela tinha quando conseguia assistir algum filme de terror escondido de Sara e Stella. Ela sentia medo que o seu pai também pudesse abandoná-la.

— Você me promete que nunca vai me deixar sozinha ? — A voz embargada e o soluço reprimido penetrava a alma de Grissom e Maggie.

— Jamais, meu amor. Para sempre ao seu lado. — Aquela era a frase do filme predileto de Emma. — Eu e a sua mãe sempre vamos fazer o que for melhor para você.

Maggie limpava as lágrimas que deslizavam em seu rosto sem pedir licença. Seria uma longo e dolorido processo reconquistar a confiança de seus filhos. Ela sabia que o processo com Jason seria um pouco mais simples, ele já tinha idade para entender a gravidade de todo o problema.

— Ei, Em ! — Maggie sentou-se ao lado de Grissom. Levou a mão aos cabelos macios da menina e abriu um largo sorriso. Era uma sensação indescritível estar perto de sua família novamente, mesmo que isso fosse turbulento. — Eu sei que agora pode parecer assustador para você, mas você um dia vai entender tudo o que aconteceu.

— Emma, olhe para mim ! — Com cuidado e delicadeza, Grissom segurou o rosto frágil de sua filha entre as suas mãos. Com os dois polegares, tratou de secar as lágrimas que deslizavam em seu rosto. — Tudo está estranho agora, eu sei. Nem consigo imaginar o que está passando dentro dessa cabecinha linda, mas precisamos que você confie na gente.

— Eu nunca mais vou sair do seu lado, Emma. — Maggie sorriu, mas nenhum dos dois acompanhou o seu sorriso. Reparou em algumas mudanças em sua filha, ela ainda mantinha o mesmo olhar angelical, mas já começava a ganhar novos traços.

Emma ignorou novamente a fala de sua mãe e afundou o rosto no pescoço do seu pai. Grissom balançou a cabeça em negativa, sua mente já estava cansada e ele não sabia mais o que fazer para amenizar aquela situação. Ficaram em silêncio por um longo tempo, estava muito difícil digerir o que estava acontecendo.

Grissom levou uma das mãos até o rosto de Emma e sentiu a sua pele quente, afastou um pouco a menina para tocar em sua testa e certificou que ela estava febril. A menina tinha um olhar desolador e permanecia cabisbaixa.

— Emma está quente.

Ele continuava tateando a pele de sua filha. Maggie levantou e sentou-se à frente de sua filha, fez o mesmo movimento do supervisor, e dessa vez sua filha não repeliu o seu toque. A médica conseguiu esboçar um pequeno sorriso, sabia que Emma ficava manhosa quando não sentia-se bem.

— Ainda temos um termômetro ?

— No nosso quarto. Segunda gaveta do banheiro.

Nosso quarto

Aquela fala não passou despercebida por Maggie. Mas ainda não era o momento para se importar com aquele tipo de comentário. Voltou para o quarto de sua filha com uma pequena caixa de primeiros socorros e observou atentamente o seu marido colocar o aparelho na axila de sua caçula.

— Como você se sente ? — Grissom acariciava os cabelos de Emma, havia deitado a menina para o conforto dela. Percebeu que ela havia perdido novamente o brilho no olhar, assim como quando Maggie havia partido.

— Minha cabeça dói um pouco. — Ela fechou os olhos e apertou com força.

Grissom olhou por cima do ombro e viu Maggie apreensiva parada na porta do quarto. Seus olhares se encontraram, mas nenhum dos dois conseguiu esboçar alguma reação. No fundo, ele estava tranquilo por ela estar por perto naquele momento. O aviso sonoro do termômetro ecoou pelo o quarto, e Maggie adiantou-se para conferir a temperatura.

— Ela está febril. Um antitérmico pode funcionar por enquanto. — Ela olhou com ternura para a sua filha que estava quieta. Sentou-se ao seu lado e fez um delicado carinho em sua bochecha. — Você ficará bem minha abelhinha, eu prometo.

— Eu quero a Sarinha. — Emma olhou no fundo dos olhos do seu pai, quase em uma súplica. Nos últimos tempos quem estava ali por ela era Sara. Era Sara que fazia companhia quando não conseguia dormir, era Sara que a ajudava com as tarefas escolares. Era Sara quem esteve ao seu lado, quando a sua mãe havia a abandonado.

— Em, você não precisa da sua babá, eu estou aqui. Eu posso cuidar de você. — Maggie tentou sustentar o seu sorriso mas era inevitável, sua filha não estava dando atenção.

Grissom desviou o olhar de sua filha, sabia que por culpa dele, aquele pedido não poderia ser atendido. Sentiu o olhar pesado de Maggie e balançou a cabeça.

Beth apareceu no quarto, ela já não aguentava mais a curiosidade para saber o desenrolar daquela conversa. Ela sabia que nenhum dos três merecia estar passando por aquele momento complicado. Os três estavam cansados, principalmente o seu filho.

— Grissom e Maggie, por que vocês não vão providenciar o remédio para Emma enquanto eu faço companhia para ela ? — Ela percebeu que Maggie iria protestar. — Isso não é uma negociação.

Os dois saíram sem reação do quarto e Beth fechou a porta atrás de si. Na saída, Maggie explicou para sua sogra que provavelmente era uma febre emocional, mas ficaria ali para observar de perto.

— Vovó, você se importaria em chamar a Sarinha para ficar comigo ?

— Minha querida, eu acho que isso não vai ser possível. — Ela sentou na cama e puxou sua neta para repousar em seu peito. — Acredito que a Sara esteja ocupada agora.

— Mas ela me prometeu que jamais iria me abandonar. — A voz da menina embargou novamente e só então Beth percebeu o problema que eles tinham na mão naquele momento. Apertou ainda mais sua neta em seu abraço e beijou o topo de sua cabeça.

— Isso não é abandono, meu anjo. Ela apenas tem outras responsabilidades nesse momento. Se você quiser, eu posso expulsar os seus pais e ficar aqui, até você melhorar.

Emma balançou a cabeça em negativa, a única companhia que ela queria naquele momento era de Sara. Maggie e Grissom retornaram para o quarto, e apenas com um olhar, o perito entendeu que sua filha não tinha cedido a ideia de estar com Sara naquele momento.

— Em, esse remédio vai fazer você melhorar. — Maggie esticou o copo, mas a menina recusou. — Filha.

— Eu quero a Sara ! — Ela elevou o tom de voz. Era raras as vezes que ela tinha aquele tipo de comportamento.

— Eu estou aqui, Emma ! Olhe para mim. — Maggie sentou na cama e segurou as mãos finas de sua filha, mas ela estava irredutível. — Eu sou a sua mãe. — Abriu um sorriso triste, pensando que a babá e namorada de seu marido pudesse ter pego o seu lugar. — Tome o remédio, é para o seu bem.

A menina negou.

Grissom percebeu o desespero na fala e na ação da médica. Não iria julgá-la por isso, porque em seu lugar teria o mesmo tipo de atitude. Mas aquela ação repentina, iria somente afastar Emma.

— Emma, tome esse remédio, agora ! — A voz dele saiu em um tom mais alto, e assustou a todos. Ele estava cansado e aquele dia parecia não querer terminar nunca. Estava estressado, desolado e principalmente perdido. Pediu perdão internamente por aquela atitude, mas não tinha mais paciência.

Emma começou a chorar em silêncio. Beth reparou que ela tremia dentro do seu abraço, e ela teve vontade de levantar e dar uma surra em seu filho e em Maggie por fazer a menina passar por tal situação. Ela não era culpada por aquela história e muito menos pelos deslizes dos seus pais.

— Me dê o celular, Gilbert. Agora ! E nem pense em desacatar uma ordem minha, estou pouco me lixando para a sua idade e status social. E o mesmo vale para você, Maggie.

Os dois arregalaram os olhos com a fala. A contragosto, ele entregou o celular para a sua mãe, mas tinha dúvidas se Sara iria aceitar uma ligação vinda de seu celular. Beth acessou a agenda e o número de Sara era um dos primeiros. Aguardou alguns segundos até a morena atender a ligação.

Oi. — A voz era arrastada.

— Oi minha querida, sou eu, Beth. Será que você poderia conversar brevemente com a Emma?

Beth, eu não sei se é uma boa ideia. Tenho medo da reação dela ao saber de tudo o que aconteceu.

— Não se preocupe. Ela só não está se sentindo muito bem e queria falar com você. — Sara pode ouvir o suspiro cansado da senhora do outro lado da linha. — Isso vai fazer muito bem para vocês duas.

Tudo bem.

Beth passou o celular para Emma, que imediatamente mudou de fisionomia. Maggie sentiu o seu coração falhar com aquela atitude, não sabia se aguentaria sua filha renegando daquela forma. E doía ainda mais em saber que ela preferia a namorada de seu marido.

— Sarinha, você pode vir para cá ficar comigo ? Por favor.

Ei, Em. — Sara respirou fundo, sentia um nó na garganta. - Aconteceu alguma coisa ?

— Eu só queria você por perto, por favor…

Os três adultos assistiam aquela cena quietos. Naquela noite nenhuma daquelas presenças bastava para Emma, apenas Sara. Maggie saiu desolada do quarto, não conseguia raciocinar naquele momento.

Em, tome o remédio. Eu chegarei em alguns minutos.

Sara deixou o orgulho do lado de fora. Emma não estava bem e ela não tinha culpa alguma daquela situação. Talvez estivesse sendo egocêntrica em querer aproveitar alguns últimos momentos ao lado da menina, saberia que logo chegaria aos ouvidos inocentes toda a sua relação com o seu pai.

E sabia que ver a decepção no olhar de Emma iria a destruir por completo.

Mas naquela madrugada, ela só queria aproveitar um pouco mais ao lado daquela menina que tanto havia se apegado.

— Obrigada por ter vindo. — Grissom estava parado na porta. Ele não conseguia sustentar o seu olhar e quando ela reparou na presença de Maggie, ela entendeu. — Ela está no quarto.

Ela apenas assentiu e cruzou a sala, olhou para o lado e encarou Maggie. Naquele momento ela não parecia tão ameaçadora. Subiu as escadas e encontrou Emma abraçada a Beth.

— Sarinha ! — O rosto da menina transformou-se no exato momento em que ela entrou no quarto. Desfez o abraço com sua avó e esticou os braços para a morena.

— Como você está se sentindo ? — Sara correu para aceitar o abraço caloroso da menina, ela precisava mais que nunca daquele momento. Prolongou um pouco mais que o habitual o abraço e sentiu a mão de Beth em seu ombro, havia entendido, ela as deixaria a sós. — Tomou o seu remédio como combinado ?

— Sim, eu jamais descumpriria uma promessa nossa.

Sara amava aquela menina. Fechou os olhos por breves segundos e lembrou-se de todo o acontecimento do dia anterior. Lembrou dos gritos de Jason, a reação decepcionada de Stella e o olhar desolado de Grissom. Tudo aquilo poderia ter sido evitado se ela fosse como Emma, se ela não tivesse descumprido uma promessa, tudo estaria bem.

Mas ela encontrou amor onde ele não deveria estar

E ele estava parado na porta observando aquela cena.

— Você promete não me abandonar ?

— Jamais faria isso, Em. Eu posso estar longe de você, mas nunca a deixaria para trás. — Sara suspirou fundo, ela sabia o motivo daquela pergunta. — Emma, talvez você seja muito pequena para entender tudo o que está acontecendo agora, mas o que você precisa saber é que a sua mãe ama muito você.

— Mas ela foi embora.

— Ela precisou ir embora, meu anjo. — As duas sentaram-se apoiadas na cabeceira da cama e com as pernas esticadas. — Sabe quando a gente precisa tomar um remédio amargo, igual esse que você acabou de tomar. — Ela fez uma careta e Emma a acompanhou, depois soltou uma risada baixa. — Foi isso que aconteceu, ela precisou se afastar de você, mas porque foi obrigada.

Emma não entendia aquela situação. Não conseguia entender o amor de quem abandonava.

— Lembra que você me falava que gostava das tardes de domingo no quarto dos seus pais, que vocês assistiam algum filme ou desenho juntos ? Ou quando vocês passavam o dia todo na piscina nos dias quentes ? — A menina assentiu em silêncio. — E quando ela fazia o seu bolo predileto e deixava você lamber a colher com a calda de chocolate ? — Sara segurou a mão de Emma. — Tudo isso é amor, Em. E agora ela está de volta e vocês podem fazer tudo isso de novo.

Grissom assistia tudo aquilo anestesiado. Sara fez parecer tudo mais fácil, ela tinha conseguido transmitir tudo para Emma de uma forma tão singela e simples, que pela primeira vez naquele dia, sentiu o seu coração bater em harmonia.

— Aproveite que você é criança e não precisa se preocupar com todo esse assunto chato de adulto. — Ela piscou para a menina, que parecia estar maquinando as suas últimas falas. — Quando você tiver maior, vai entender tudo o que aconteceu. Mas por enquanto, mate a saudade dos bons momentos que você teve ao lado da sua mãe.

Emma abraçou Sara e elas ficaram assim por um tempo. A babá ergueu o olhar e percebeu que Grissom ainda estava ali. Ele parecia estar tão absorto em seus pensamentos, que ela tinha medo de trazê-lo à realidade.

Será que ele também pensava nos bons momentos que teve ao lado de Maggie ?

Apagou o abajur quando percebeu que Emma havia dormido em seus braços. Sabia que ela tinha o sono leve e decidiu aguardar mais alguns minutos antes de sair do quarto. Percebeu o olhar fixo do supervisor sobre ela, e fez questão de sustentar.

Obrigado.

Ele sussurrou antes de sumir pelo o corredor.

Sara aproveitou para fechar os olhos, não planejava voltar naquela casa, mas ali estava ela ao lado de Emma. Sabia que não seria tão fácil desvincular daquela família, mas ao menos desejava não se afastar de uma forma tão bruta como estava acontecendo.

Como qualquer outro ser humano de carne e ossos, o cansaço havia sido mais forte que ela.

Dormiu ali mesmo.

Maggie queria aferir a temperatura de novo, fazia mais de uma hora que Sara estava com ela no quarto e desde então não entrou mais no cômodo. Estava deitada na cama de casal em seu antigo quarto, depois da insistência de Grissom e Maggie, ela acabou cedendo e foi repousar por alguns minutos.

Sua vontade era arrancar aquela mulher ao lado de sua filha e expulsá-la de suas vidas, não queria ter o trabalho nem de agradecer pelos serviços prestados em sua ausência, mas sabia que aquilo iria ferir as pessoas que ela mais amava.

Sara não tinha o direito de apossar de tudo que era dela. Não tinha o direito de se sentir como mãe dos seus filhos e principalmente, esposa do seu marido. Ali não era o espaço para ela brincar de “casinha” ou “faz de conta”. Estava disposta a reivindicar tudo o que ela tinha se apropriado.

— Gil. Eu quero verificar como Emma está. — Colocou a mão em seu ombro. Ele estava sentado no sofá da sala, distraído com o seu notebook aberto.

— É melhor eu subir e verificar. Não quero agitar Emma novamente.

— Não quer agitar Emma ou não quer que eu me aproxime de Sara ?

Ele fechou o notebook e ignorou a fala da médica. No fundo ele não queria nenhum dos dois. Subiu as escadas e encontrou as duas dormindo tranquilamente, seria um pecado movimentar qualquer uma das duas, mas Sara estava em desvantagem e acordaria com um belo desconforto muscular.

Aproximou-se e parou ao lado da cama. Abaixou o suficiente para ficar próximo de Sara. Levou uma mão até o seu rosto, e desenhou com o seu polegar toda a superfície da sua pele macia. Como ele desejava um outro cenário para eles dois.

— Querida, acorde. — Sussurrou e sorriu ao perceber que ela relutava em acordar. Fez um carinho em seu cabelo e sorriu quando os olhos castanhos afundaram-se em seu olhar. — Dormir nessa posição não será nada agradável.

— Você tem razão. — Gemeu baixo ao sentir uma pequena fisgada em sua lombar. Piscou os olhos com força, tentando espantar o sono. Remexeu tentando não acordar Emma e finalmente sentou-se na cama. — Preciso ir embora.

— Espere ! — O sussurro saiu desesperado, queria ter tempo de agradece-la. — Só vou medir a temperatura dessa abelha teimosa.

Sara sorriu junto a ele. Era encantada pela forma como Grissom cuidava bem de seus filhos, mesmo com todas as suas dificuldades e um pouco de falta de atenção. Com cuidado para não despertar Emma do seu sono, colocou o termômetro novamente. Ela resmungou um pouco, mas não despertou.

— Obrigado por tudo o que você fez. — Ele sentou ao lado dela e segurou a sua mão, sem medo ou pudor. — Você é incrível.

— Eu amo essa menina como ela fosse minha filha. — Olhou por cima do ombro e viu Emma imersa em um sono tranquilo. — Não deveria me apegar dessa forma.

— Você seria uma mãe sensacional. — Apertou um pouco mais a sua mão. Os dois encararam as mãos unidas e sabiam que aquilo era um péssimo sinal. Eles deviam entender que já não existia mais nada e que o certo seria se afastarem…

O sinal do termômetro avisou que a aferição estava completa. Sara virou-se para trás e pegou o aparelho, entregou para Grissom que respirou aliviado.

— A febre passou. Maggie suspeita que possa ter sido uma febre emocional.

— Não deve ter sido fácil para ela. — Sara ajeitou o cobertor felpudo sobre Emma. Levantou-se e Grissom a seguiu pelo o corredor. — Eu preciso ir. Preciso descansar.

— Será que podemos conversar ? — Ele não queria que ela fosse embora. Queria que ela ficasse ali com ele, queria poder deitar com ela ao seu lado, simplesmente queria que ela continuasse em sua vida.

— Sinto muito, Grissom, mas acho que não temos mais nada para conversar. -Agora com mais atenção e a luz do mezanino, ela pode reparar no nariz inchado dele e no pequeno curativo bege. — O que aconteceu ?

— Isso ? — Ele apontou para o seu rosto. — Robert. Eu não me importo com isso, desde que ele a trate com respeito.

— Céus, Grissom ! — Ela reduziu o espaço entre eles e tocou delicadamente o machucado. Ele gemeu com o contato. Estava tranquilo porque Maggie havia garantido que não tinha quebrado nenhum osso. — Agora você entende porque não podemos ficar perto ? Eu sou a sua queda. Eu estou caindo e levando todos vocês juntos.

— Não quero que pense assim. — Ele puxou a mão de Sara e colou os seus corpos.

— Você merece os seus momentos felizes de volta. Merece a sua esposa, merece a felicidade com os seus filhos.

— Fico triste quando você julga o que é o melhor para mim, sendo que eu já falei o que eu considero ser o melhor. — Abaixou o olhar e suspirou resignado. — Eu não tenho o direito de pedir para você ficar por mim, você tem voos muito mais altos para alcançar.

— Eu não julgo o que é o melhor para você, apenas estou tentando abrir os seus olhos.

Ele assentiu em silêncio. Era uma batalha perdida.

Maggie estava parada na porta do quarto deles. Assistia quieta toda aquela cena, os dois não pareciam se incomodar com o silêncio, estavam abraçados apenas aproveitando a companhia um do outro.

Ela teve a certeza que Sara era uma pessoa muito especial para Grissom, mas se o supervisor demonstrasse o mínimo de esperança que eles ainda poderiam ter um casamento feliz, ela faria de tudo para dar certo. Sabia que tinha capacidade de lê-lo em cada detalhe, cada expressão.

Estaria disposta a provar para ele que Sara teria sido apenas uma aventura.

Sara foi a sua queda.

Mas ela sempre seria o seu paraíso.