Sim, Senhor.
46 Capítulo 46
Notas iniciais
Havia se passado uma semana desde aquele dia terrível em que tudo parecia ter desabado na cabeça de Grissom. Desde então, as coisas andavam estranhas entre ele e Jason, mas entendia que precisava respeitar o espaço do seu filho. Stella havia pedido licença de alguns dias para poder cuidar de sua saúde, e ele prontamente atendeu.
Sua mãe havia oferecido para ficar um pouco mais em Las Vegas. Com a governanta fora por um tempo, ela ficaria responsável por cuidar de pequenos afazeres, e principalmente ficar com Emma, já que Sara havia oficializado a sua demissão.
Ele ficava cada vez mais no laboratório, não por conta da demanda de serviço, mas sim porque sabia que Maggie estava em sua casa. Mas, afinal de contas, esse era um direito dela. Apesar dela ter desfeito todos os seus bens quando saiu de Las Vegas, ali ainda era o lar dela.
— Um minuto da sua atenção ? — Brass estava parado na entrada de sua sala. O capitão aguardava autorização e prontamente fechou a porta atrás de si quando o supervisor fez um sinal para ele se aproximar. — Como está ?
— Estou aqui ! — Deu de ombros e pegou a pasta parda que Brass empunhava em sua direção. Em uma leitura dinâmica viu que se tratava do caso da dominatrix que Robert havia espancado, fechou e devolveu para ele. — Entregue ao supervisor diurno, eu me afastei do caso.
— Fazendo caridade ? — Brass soltou a pasta sobre a mesa e cruzou as mãos atrás da nuca. — Você sabe que esse caso é a chance de nocautear aquele babaca, mas mesmo assim age como fosse sua obrigação protegê-lo.
— Não faço isso por ele, faço por mim. Com certeza ele será sórdido o suficiente para jogar tudo o que aconteceu na minha vida privada para justificar essa investigação, não duvido que seria capaz de alegar que eu implantei alguma evidência.
— Você tem razão, vou entregar esse relatório para o Steve. — Pegou os papéis e deixou sobre o seu colo. Fez uma rápida análise de seu amigo e percebeu como ele estava cansado, sabia que não era o trabalho que sugava as suas energias, porque Grissom amava tudo aquilo. — Como estão as coisas depois da volta de Maggie ?
O laboratório todo já sabia do assunto. Na realidade, aquela história não ficaria no escuro por muito tempo. No entanto, nenhum funcionário teve a ousadia de falar algo a respeito com o supervisor. Ele não sabia até onde aquela confusão havia sido exposta e não iria se justificar para ninguém.
— No começo eu achei que iríamos descer ao inferno novamente, mas as coisas estão se encaminhando, talvez não da forma como Maggie imaginou, mas não julgo os meus filhos por não conseguirem responder a altura.
— E você ? Como tem sido encarar tudo isso ?
— Nada fácil, capitão. — Ele fez aquele pequeno desabafo. — Eu me sinto um completo imbecil por ter deixado tudo isso acontecer. Maggie sofreu por três anos e eu não consigo sustentar o meu olhar para ela.
— Saia desse pedestal que você mesmo se colocou. — Grissom arregalou os olhos com a fala de seu amigo. — Isso não é sobre você, isso é sobre a Maggie. Ela foi ameaçada, ela tomou a decisão certa e sabia das consequência de tudo.
— Sua fala me faz passar como um egocêntrico. — Havia uma pontada de revolta em sua voz.
— Céus, homem ! — Brass espalmou as mãos. — No lugar de Maggie você faria a mesma coisa. Acontece é que você se culpa por ter criado um pensamento errado sobre esse abandono, e agora que vê que tudo isso caiu por terra, não consegue lidar.
Grissom girou a língua dentro da boca, entendia que seu amigo tinha razão.
— Você está se culpando por ter deixado os seus filhos alimentarem a ideia que tinham sido abandonados pela própria mãe, mas você precisa se lembrar que até alguns dias atrás, você não sabia nada sobre esse caso. E agora que vê a reação de Jason e Emma, se crucifica por não conseguir mudar o passado.
— Como você quer que eu me sinta ?
— Não sei, Gil.- Aquela era uma resposta sincera. — Mas você precisa saber que a três anos atrás, você era um homem ferido e perdido. Você não inventou mentiras a respeito da ausência de sua esposa e mãe dos seus filhos, porque você mesmo não sabia como lidar com tudo isso.
— Maggie não merece o meu desprezo.
— Eu concordo com você. Mas Gilbert, eu estive aqui quando tudo aconteceu, eu vi o morto vivo que você se tornou nesse laboratório. Não faço ideia de tudo o que você sentiu, mas eu posso te garantir que eu reconheci o meu velho amigo quando aquela moça apareceu na sua vida.
— Jim, por favor. — Ele suplicou, não queria ouvir sobre Sara, não naquele momento.
— Me escute. — Ignorou, aquele olhar pidão não o amolecia. — De alguma forma improvável, Sara trouxe um pouco de ânimo para a sua vida, e não o julgo por você ter tentado algo diferente com ela. Ela te restaurou em um momento difícil, não foi ? — O supervisor meneou a cabeça discretamente. — Te ergueu e não pediu nada em troca. Mas mesmo assim, você ainda tinha essa batalha insana dentro da sua cabeça em dar um passo adiante com ela, ou continuar se escondendo atrás de um casamento de fachada.
O silêncio imperou na sala. Grissom estava tão perdido em seus pensamentos, que o capitão teve receio em continuar com as suas explanações e aquele homem quebrar ali mesmo, diante dos seus olhos.
— Você teve medo, Grissom. Teve medo de entregar tudo para aquela jovem e ela fazer o que a Maggie fez com você. Porque você sabia que se isso acontecesse de novo, você não iria ter forças para se erguer. Só que quando você se deu conta que Sara não era Maggie, já era um pouco tarde, não é ?
— Maggie chegou destruindo tudo. — O supervisor respondeu saindo de seu devaneio. Era doloroso escutar aquilo de uma forma tão crua. Reconhecia que seu amigo não controlava as suas palavras, e no fundo admirava isso, mas quando a ponta do canhão estava direcionado para o seu peito, era complicado.
— E agora você se sente um lixo por não conseguir amar Maggie. Se sente o pior ser humano por não conseguir retribuir o amor para uma pessoa que abandonou tudo para salvar a sua pele, mas você está errado. Maggie não merece o seu desprezo, mas também não merece tê-lo ao seu lado apenas por gratidão.
— Eu prefiro deixar que ela decida isso, Brass.
O capitão pegou a pasta parda e levantou-se, olhou em seu celular e viu a notificação o requisitando na delegacia. Olhou para o supervisor que desviou o olhar, talvez envergonhado.
— Eu me questiono se o sentimento vai ser o mesmo quando você olhar para o lado e ver Maggie. — Caminhou até a porta mas te ateve antes de sair. — Isso não é justo com nenhum dos três.
…
Depois de um turno tranquilo, Grissom estava parado no sinal aguardando o momento certo para arrancar com o seu carro. A conversa quase unilateral entre ele e Brass ecoava em sua mente, mas ele não conseguia deixar de se culpar por tudo o que estava acontecendo. Sentia-se responsável por aquela situação desagradável.
Estava em uma rota diferente, Maggie havia telefonado mais cedo e pediu uma carona para retornar para sua casa. Ela estava fazendo companhia para Stella que agora estava repousando em seu apartamento funcional. A médica passava todos os dias de manhã para visitá-la e reabastecer a dispensa, e claro, fazer uma boa companhia.
— Obrigada por ter desviado a rota. — Maggie acomodou-se no banco do carona após certificar que Emma estava segura no banco de trás.
— Sem problemas. — Meneou a cabeça e deu partida no carro. Não deixou de perceber a presença de Stella na janela, apenas a fitou por breves segundos e percebeu que a governanta permanecia chateada. — Como Stella está ?
— Está se recuperando bem. Alteramos algumas medicações e ela ainda está se adaptando, mas ainda teima que quer retornar para a nossa casa. — A médica capturou o olhar de sua filha pelo retrovisor interno e sorriu. — Gostou do passeio, Emma ?
— Sim, estava com saudades da Stella. — A menina desviou olhar para a rua e ficou fitando as nuvens brancas que corriam sobre o carro.
Maggie ligou o som do carro e percebeu que Grissom assustou-se com o barulho repentino, sabia que ele não tinha o costume de dirigir ouvindo música ou tendo algum outro tipo de distração. Sussurrou um pedido de desculpas que ele prontamente aceitou.
— Gostaria de conversar com você quando chegarmos em casa. — Ela levou a sua mão esquerda até a altura do joelho de Grissom e apertou brevemente, chamando a sua atenção. — Merecemos essa conversa.
Ele apenas desfez o toque dela e concordou. Não via muitos motivos para prolongar e estava curioso para saber qual seria a postura que Maggie iria assumir dali para frente. O resto da viagem foi feita em um silêncio parcial, apenas com a voz da médica cantarolando as músicas do rádio.
Já em casa, encontraram Jason e Beth em uma disputa animada de xadrez. O rapaz quando percebeu a presença de seu pai tencionou o rosto e abaixou a cabeça. Sua avó reparou a sua atitude e segurou a sua mão.
— Stella mandou um beijo para todos. — Maggie rompeu o silêncio e percebeu a dupla de enxadrista assentir com o comentário. Jason pediu licença e subiu para o seu quarto, era muito difícil encarar a presença do seu pai.
— Voltamos a estaca zero. — Grissom sussurrou enquanto observava Jason fechar a porta do seu quarto. Percebeu os olhares curiosos de Maggie e Beth, deu de ombros e foi em direção a cozinha.
— Ei Beth, será que você se importaria de ficar um pouco com Emma e Jason enquanto eu converso com o seu filho ? — A médica tinha selecionado bem as palavras, ainda não sentia-se à vontade para pedir alguma coisa para sua sogra.
— Se é isso que vocês querem… — Ela olhou por cima dos ombros e viu o seu filho menear a cabeça em positivo. — Eu mantenho as crianças longe.
— Obrigada. — Fez um delicado carinho no ombro da senhora que respondeu com dois tapinhas em sua mão. — Gil, no nosso quarto ?
— Escritório. — Ele estava de costas. Sorveu de uma vez a água gelada e sentiu a sua garganta arder. Apoiou as mãos no balcão escuro e abaixou a cabeça, estava tenso e tinha medo do que poderia acontecer depois.
— Nosso quarto ? — Beth ficou assustada com a fala da médica.
— A casa é dela. — Grissom deu de ombros.
— Você não me parece muito seguro. — Beth tocou em seu ombro, o forçando a encarar. — Tem certeza que esse é o momento certo ?
— Acredito que nunca vá existir um momento certo para isso. Maggie merece respostas.
— Você não pode entregar a ela, uma coisa que já não te pertence. Lembre-se disso.
Ele assentiu, entendia as estrelinhas. Encerraram o assunto, Emma estava próxima e os dois sabiam da inteligência da menina. Grissom foi arrastando até o segundo andar, ficou encarando por um tempo a porta, viu a silhueta da médica através do vidro embaçado.
A passos lentos, assistia um filme passar em sua mente.
Acreditava que Maggie um dia estaria de volta, e todo aquele embaraço seria simples de ser resolvido. Ela teria desculpas e ele as certezas, mas a situação era diferente do que ele tinha imaginado.
— Eu gosto dessa foto. — Ela estava encarando a proteção de tela do computador. Era uma antiga foto de sua família em um final de semana em uma praia ensolarada. — Você não sente falta dessa época ?
— Foram bons momentos. — Sua resposta era genérica, não conseguia elaborar algo melhor. Trancou a porta atrás de si e acomodou-se no pequeno sofá, e ficou aguardando os próximos passos.
— Eu realmente não sei como iniciar essa conversa. — Maggie sorriu sem graça. — Tudo o que eu sei é que precisamos falar sobre nós, falar sobre o nosso casamento. Preciso saber o que se passa na sua cabeça e expor o que se passa na minha.
— Me sentiria mais tranquilo se você iniciasse.
— Não, Gil ! — Ela sorriu, sabia da jogada dele. Levantou-se e caminhou até o sofá, e com olhar pediu a permissão para aproximar. — Eu te conheço o suficiente para saber que você vai tentar adaptar as suas respostas de acordo com as minhas expectativas. E eu realmente quero saber o que ainda existe aí dentro a meu respeito. — Com o indicador, tocou o peito dele na altura do coração.
Grissom ficou mudo, ele não sabia a resposta correta. Mas ele não queria machucar Maggie, não queria ser ingrato e insensível ao ponto de aniquilar qualquer sentimento.
— Quando você partiu e deixou aquela carta sem nexo algum, eu tive vontade de te amaldiçoar pelo o resto da sua vida, principalmente pelos nossos filhos. A cada vez que eu via um deles chorando ou tristes por sua ausência, eu pedia ao universo para você estar morta em alguma vala comum. — Suas palavras eram muito duras, tinha consciência disso, mas reviver aqueles dias não era uma tarefa muito fácil.
— Eu imaginei que essa história ia ter esse impacto na sua vida. Eu insisti até o último segundo para Alana desistir dessa fuga, mas o Mont ou o Arthur, era muito mais intenso do que nós duas imaginamos. Imagina como seria a minha vida sabendo que você e nossos filhos sofreram ou até mesmo poderiam estar mortos por uma escolha minha.
— Eu te odiei, Maggie. — Os olhos que antes encarava as mãos fechadas, ergueram para encontrar o olhar da médica. Sua boca estava trêmula e seus olhos úmidos. — Mas eu me odiei mais ainda. Me odiava por não conseguir encontrar uma palavra certa para falar para os nossos filhos, me odiava por estar no fundo do poço e não ter a menor perspectiva de sair de lá.
— Eu sei que eu não posso pedir para você esquecer tudo o que passou. Mas eu pelo menos espero que esses sentimentos se aliviem agora. Você não foi abandonado por um capricho, ou porque eu não te amava mais, pelo contrário, eu fui embora porque eu te amava demais.
— E agora você está aqui de novo, mas eu não sou mais o mesmo Gilbert de três anos atrás.
— Eu também não sou a mesma Maggie de três anos atrás. Na realidade, nos últimos anos nem Maggie Woolf Grissom eu me chamava. — Ela riu daquela ironia. — Você não sabe quanto tempo eu demorei para me acostumar com o nome Melissa.- Afastou do devaneio ao lembrar dos últimos anos. — Era óbvio que eu sabia que seríamos pessoas diferentes.
— Todos nós mudamos.
— E o que Sara significa para você ? Ela não me parece ser uma mera aventura.
Ele fechou os olhos, o nome de Sara ainda lhe causava arrepios. Mas não queria que ela fosse tópico daquela conversa, sabia muito bem o quão ofensiva e ácida Maggie poderia ser, e se isso acontecesse não seria tão cordial.
— Sara é uma pessoa especial.
— Eu me surpreendi quando soube de vocês. Bem, eu acho que surpresa não é bem a palavra certa. — Maggie deslizou as palmas das mãos sobre o tecido de sua calça, sentiu a pele arder e fechou o punho com força. — Mas estou errada em afirmar que não existe mais nada entre vocês ?
— Eu não posso fazer isso com ela. — Sabia que não poderia estar ao lado de Sara com a mente presa em Maggie.
— E nem comigo, Gil. — Ela pressionou os lábios e respirou fundo. Sentiu um nó na garganta e algumas lágrimas deslizarem sobre o seu rosto. — Eu tenho uma proposta para fazer. — Levantou-se e pegou um envelope branco que estava sobre a mesa. — O seu pedido de divórcio chegou na casa dos meus pais.
— Eu fiz isso um pouco antes de você retornar… — O toque na mão macia de Maggie em seu rosto o pegou de surpresa. Estranhou aquele tipo de intimidade, não estava mais acostumado.
— Sinto que eu não posso assinar esse documento antes de tentar mais uma vez com você. — Com o polegar, ela deslizou sobre a bochecha do supervisor e com a palma da mão, brincou com a barba por fazer. — Eu sei que esse pedido já é um aviso que eu não tenho muitas chances, mas eu não acho que seja justo.
Delicadamente, Grissom afastou a mão de Maggie do seu rosto, não sentia-se confortável. Fechou os olhos e lembrou-se da conversa que teve horas antes com Brass. Em seu íntimo admitia que não amava Maggie, mas não poderia fazer aquilo. O seu relacionamento com Sara teve um preço alto e ele se questionava se ainda valia a pena pagar.
Maggie o amava, era a mãe dos seus filhos e foi torturada por eles. Esteve ausente nos últimos anos como uma frágil garantia da integridade de sua família, e enquanto isso, ele nutria raiva por ela e rendia-se à luxúria ao lado de Sara.
Mas Sara era especial, e nos últimos dias era apenas ela que rondava em sua mente. E isso o deixava desesperado porque ele não conseguia reverter esse amor novamente por Maggie.
— Gil ! Nós dois já admitimos que mudamos nesses últimos anos e queria te propor — Ela respirou fundo e segurou o ar nos pulmões por um breve momento. — Por que não tentamos nos conhecer novamente ? Eu sei que pode parecer uma proposta descabida, mas eu ainda não estou pronta para desistir.
— Isso é justo ?
— Não sei. Eu quero ficar aqui, quero saber de cada segundo que eu perdi. Quero saber de todas as histórias sobre os meus filhos, quero saber de todos os casos fascinantes que você participou, de cada palestra que você deu. Eu quero recuperar tudo o que o Arthur me tirou…
Grissom assustou-se, nunca tinha visto Maggie desabar daquela forma. O choro dela era pesado e o seu corpo sacolejava como se quisesse tirar algo preso em seu interior. Ela não pedia nada além da sua vida de volta, e ele precisava dar esse direito para ela.
— Ok. Acho que podemos tentar.
…
Estava sendo incômodo “brincar” de família feliz. Maggie havia retornado para a casa, e agora oficialmente morava ali. Ainda com algumas adaptações, ela tentava de alguma forma retomar de onde tinha parado. Ela e Grissom dormiam em quartos separados, ele cedeu o quarto de casal enquanto ele se acomodava no quarto de hóspedes com sua mãe.
A relação com Jason ainda era a mais tortuosa. O rapaz tinha feito uma espécie de voto de silêncio, e não conversava com Grissom. No entanto, a relação com Maggie já era um pouco melhor, a médica conseguia ser franca sobre os acontecimentos e o rapaz parecia entender e compadecer.
Jason sabia que nada daquilo era culpa do seu pai, mas ainda não conseguia perdoá-lo pela traição. Cada vez que via alguma cicatriz no corpo da sua mãe, a raiva dele aumentava ainda mais. Enquanto Maggie estava escondida, ele a traía com Sara.
Emma já estava se acostumando com a presença da mãe, a conversa que ela teve com Sara foi extremamente produtiva e somado a inocência e bondade da menina, o caminho era mais tranquilo para Maggie.
Stella depois do retorno da médica, havia reduzido bruscamente a sua jornada de trabalho. Na realidade, tinham feito um acordo. Ela ficaria apenas na parte da manhã para auxiliar em pequenos afazeres e depois voltava para o seu apartamento. Havia aposentado o cargo de governanta em tempo integral.
A relação entre a senhora e o supervisor era apenas de cordialidade. Havia um enorme elefante branco na sala e nenhum dos dois queria tocar no assunto. Grissom respeitava a presença da governanta em sua casa, pois não julgava ser justo tirá-la da convivência de seus filhos e nem ser ingrato a tudo o que ela havia feito.
Maggie havia decidido que retornaria para o seu trabalho após o julgamento de MontBlanc/ Arthur Dyer. Precisava ter certeza que aquele maníaco iria pagar por todo mal feito a ela e tantas outras pessoas. Seus pais a aguardavam a qualquer momento no Desert Palms.
— Ei Gil ! Finalmente encontrei você. — Grissom descia as escadas apressado. Havia sido convocado para uma reunião de última hora no laboratório. — Pensei que pudéssemos jantar juntos hoje durante o seu intervalo.
— Ér… Eu… — Engoliu a seco. — Tudo bem.
— Ótimo. Ainda é o mesmo horário ? — O sorriso dela seria capaz de iluminar uma rua escura. Nos últimos dias ela sentia que Grissom estava um pouco mais receptivo a uma aproximação. — Combinado. — Ela passou por ele e fez um singelo carinho em seu ombro e subiu as escadas. Iria convidar Emma e Jason para assistirem algum filme antes dos dois caírem no sono.
Beth estava sentada no sofá e observava atentamente o diálogo entre os dois. Apenas um cego com as luzes apagadas não perceberia que todo aquele envolvimento entre os dois estava fadado ao fracasso.
— Você sabe muito bem que gratidão não sustenta relacionamento. — Ela partiu como um predador para cima de seu filho que revirava o armário da cozinha. — Se você não tem amor próprio e autopiedade, pelo menos tenha com essa moça.
— A senhora sabe onde está a caixa com o relaxante muscular ? Aquele colchão está acabando com a minha coluna. — Ignorou a fala de sua mãe e continuou em busca do remédio. A sua lombar estava latejando de dor e sabia que naquelas condições seria difícil sustentar durante o seu turno.
— Você já é um homem de meia idade, mas mesmo assim eu estaria disposta em te dar umas boas palmadas, Gilbert. — A mulher achou a embalagem com os remédios e bateu com força contra o peito do seu filho. — Pare de brincar com os seus sentimentos e com os sentimentos de Maggie. Você ama outra pessoa.
— Você está enganada.
…
Grissom tamborilava impacientemente os dedos no volante do carro. Estava preso em um engarrafamento próximo ao laboratório, e sabia que no final aquele atraso seria motivo de reclamações durante a reunião. Enviou uma mensagem de texto para o diretor e explicou a situação.
A resposta foi um simples Ok!
Ficou no interior do seu carro por longos minutos, havia informado Catherine que não conseguiria chegar a tempo e que ela distribuísse os casos para os CSI’s. Depois de um tempo, recebeu outra mensagem de texto do diretor informando que a reunião havia sido cancelada, o xerife também não conseguiria chegar no prédio.
Depois que o carro que interrompia o trânsito foi retirado, o fluxo finalmente foi liberado. Ele resolveu pegar um atalho diferente para chegar no seu trabalho, um caminho que ele conhecia muito bem. Passou na porta do prédio de Sara, observou as luzes acesas e a silhueta da morena na janela do seu quarto.
Ela parecia conversar com alguém no telefone e estava distraída. Grissom estacionou o carro e exitou em subir para conversar. Em um impulso, saiu do carro e atravessou a rua. Um casal saia do prédio segurando uma caixa pesada e ele aproveitou a oportunidade para entrar no prédio.
Subiu alguns poucos degraus e parou de frente para a porta do apartamento. A porta estava aberta e ele conseguiu ver o seu interior. Tudo estava vazio, apenas algumas caixas empilhadas e uma mala estava na sala. Com passos suaves, adentrou e não encontrou Sara. Deu duas batidas na porta e aguardou.
Sara saiu do seu quarto falando no telefone e abriu um largo sorriso quando viu Grissom parado em sua sala vazia. Divertiu-se com o olhar perdido dele. Encerrou a ligação e balançou a cabeça sem acreditar.
— 11 dias é o nosso novo recorde ! — Ela disse em um tom brincalhão.
— Sobre o que você está falando ?
— O tempo que ficamos longe um do outro. — A resposta curta e sincera havia atingido Grissom que emudeceu. — Achei que você já tivesse entendido. — Deu de ombros.
— Me desculpe… Eu… — Balançou a cabeça tentando formular frases. — Eu estava passando e decidi subir, agora vejo que não foi uma boa ideia.
— Griss. — Ainda era confortável para ela o chamá-lo pelo apelido. Confortavelmente estranho. — Você precisa se esforçar um pouco mais para virar essa página. Falo isso porque eu quero o seu bem.
— Você me ama ? — A pergunta saiu ansiosa. Tinha entendido o motivo de estar ali — Eu só preciso saber disso.
— Amo ! — Ela assentiu com um sorriso de lado e muita honestidade. — Mas eu posso viver sem você.
Grissom ficou atônito com a resposta dela. Que tipo de amor era aquele preferia a ausência e a distância. E se ela o amava, porque não estava disposta a lutarem juntos para aquilo dar certo ?
— Eu não entendo, Sara. — Balançou a cabeça como se tivesse acabado de ser atingido por um estrondo.
— Eu te amo, mas não posso ficar ao seu lado. Quem saiba se existir outra a vida a gente possa se reencontrar de novo, mas eu sei que não posso estar com você enquanto você tem dúvidas a nosso respeito. É visível, Griss. É quase palpável as suas dúvidas, e eu te juro que não te culpo por isso.
Sara estava muito tranquila e aquilo deixava Grissom desesperado. Não esperava a encontrar tão bem depois de tudo o que tinha acontecido. Era franco que não desejava que ela remoesse eternamente, mas superar tudo de uma forma tão tranquila o deixou duvidoso a respeito dos seus sentimentos.
— Isso não faz o menor sentido, Sara. Todas as minhas dúvidas acabam quando eu vejo você. Se eu ainda amasse Maggie, porque eu perderia o meu tempo lembrando de você ?
— Você se lembra dos nossos bons momentos. Mas quando o remorso começar a te corroer, vai ser o meu rosto que você vai encontrar. Quando você se perguntar porque deixou para trás a mulher que te salvou, vai ser o meu rosto que vai estar ao seu lado quando você acordar. E eu não quero isso.
Sara sentiu uma pequena vertigem, um gosto amargo subiu pela a sua garganta e invadiu sua boca. Já era a segunda vez naquele dia, tinha certeza que o seu organismo não estava bem. Seu corpo estava ansioso e torcia para quando pousasse em Chicago, todos os problemas ficassem em Las Vegas.
— Você está bem ? — Grissom aproximou-se a segurou em seus ombros. Seus lábios estavam pálidos e a sua pele gelada. Sem pedir licença, tocou em sua testa. — Está gelada, Sara.
— Um mal estar passageiro. Toda essa mudança está me deixando maluca.
Grissom a forçou sentar em uma caixa e foi até a cozinha buscar um copo de água. O cômodo também estava vazio e ele pegou uma garrafa vazia e encheu com um pouco da água da torneira.
— Beba devagar. — Observou a reação corporal de Sara e ela parecia melhor, a pele já voltava a sua cor natural e a temperatura ideal. — Sente-se melhor ?
— Sim, obrigada. — Ela afastou a garrafa e secou os lábios úmidos. O olhar preocupado e atento de Grissom estava rente ao seu rosto, e sentiu vontade de acariciar sua pele mais uma vez, mas não era o certo. — Foram dias intensos.
— Quando você viaja ?
— Hoje mesmo. — Ela sorriu mas ele não acompanhou. — Ei gostaria que você entregasse uma coisa para Emma. — Foi até a sua mala e pegou um pequeno embrulho de veludo. — Eu vi esse colar e me lembrei dela na hora. Queria muito poder visitá-la antes de partir, mas eu sei que esse não é o melhor cenário.
— Ela irá sentir muito a sua falta. — Ele ficou encarando o pequeno embrulho roxo em sua mão, tinha certeza que Emma ficaria radiante com o presente.
— O meu presente para o Jason é deixá-lo em paz. Tentei fazer algumas ligações e enviei algumas mensagens pedindo desculpas mas não tive retorno, mas eu vou embora sem mágoas e acho que um dia ele entenda tudo o que aconteceu.
Grissom sentia o seu coração bater em descompasso. Aquilo era um adeus e nenhum dos dois parecia se importar. Não havia pedidos implícitos ou explícitos para que os dois continuassem tentando, parecia não existir nenhum tipo de vontade em fazer algo dar certo.
— Eu posso te levar até o aeroporto. Você se importaria ? — O supervisor parecia um rapaz em seu primeiro relacionamento, o coração batia forte em sua garganta. Quando Sara sorriu e desviou o olhar ele sentiu uma vontade colossal de pedir para ela ficar.
— Griss… Eu...
O celular de Grissom começou a tocar, ele pegou o aparelho e atendeu sem atender o visor. Imaginava ser relacionado ao trabalho. Seu turno já havia iniciado a duas horas e ele ainda não tinha aparecido no laboratório.
Era Maggie, ele havia esquecido completamente do jantar.
— Cariño ! Pronta para irmos ? — Freddie apareceu animado. Aproveitou a porta aberta e encontrou no apartamento. Encontrou Sara sentada em uma caixa com o olhar saudoso encarando o ambiente. — Nosso voo sai daqui uma hora e ainda precisamos deixar a chave com o proprietário.
— Claro, Freddie ! — Ela sorriu. — Será que você pode levar a minha mala enquanto eu me despeço do Grissom ?
— Oh ! — O rapaz não tinha percebido a presença do supervisor. Trocaram um aperto de mão cordial. — Me desculpe, Dr. Grissom, não tinha reparado em sua presença.
Grissom aceitou o pedido e ficaram em silêncio observando o amigo de Sara carregar a sua mala. Era uma mala média e tudo o que ela precisava estava ali dentro, o restante ela vendeu ou enviou para alguma instituição de caridade. De Las Vegas ela queria levar apenas o essencial.
E o essencial cabia naquela mala.
— Então é isso ! — Sara bateu as mãos espalmadas na lateral do corpo, caminhou poucos passos até ficar frente a frente com Grissom. — Está na hora de alçar novos voos. — Abriu um sorriso ansioso. — Me desculpe, eu sou péssima com despedidas.
Grissom sorriu envergonhado, porque ele também era. Eles apenas uniram o corpo em um abraço apertado. Era reconfortante estar presa nos braços do supervisor mais uma vez, era uma ótima experiência a troca de calor entre os corpos.
Sara afundou o rosto no tecido macio na camisa que ele utilizava. Fechou os olhos quando sentiu um carinho em seus cabelos. Ergueu a cabeça e encontrou o olhar azul de Grissom a encarando.
— Espero que tudo se restabeleça para você. Se um dia eu te reencontrar, quero ver esses olhos azuis brilhando de felicidade.
— Com certeza eles estarão...- Encostaram as suas testas e aproveitaram o silêncio. Grissom sabia que os seus olhos estariam brilhando por reencontrar com ela, mas preferiu omitir o final da frase.
Freddie buzinou e ela reconheceu que já era hora de partir. Não podia dar-se o luxo de perder o voo já que tinha compromissos no dia seguinte. Os corpos se separaram e ambos desejaram se encarar como dois desconhecidos, mas era impossível.
Saíram em silêncio, quase que medindo seus passos. Na entrada do prédio, Sara ficou admirando a fachada, levava boas memórias daquele local. Grissom roçou os seus dedos mais uma vez e desviou o olhar para as suas mãos.
Ela sorriu e piscou para ele pela última vez, precisava correr. Não olhou para trás, entrou no carro de Freddie e bateu a porta. O seu amigo ainda olhou para rua, Grissom ainda estava ali parado. Fez um discreto sinal de cabeça e arrancou com o carro.
— Como você está, cariño ? — Freddie soltou uma mão do volante e segurou a mão ansiosa de Sara.
— Estou bem ! — Sara sorriu mas os seus olhos não a acompanharam. Ela confessou que conseguiu evitar aquelas lágrimas por muito tempo, só não queria chorar na frente de Grissom. — Vou ficar bem.
— Encare isso como mais um recomeço, Sara. Nossa vida é feita de ciclos. — Apertou um pouco mais a mão de sua amiga. — Eu sei que você está deixando uma pessoa especial para trás e talvez as coisas não tenham dado certo como você imaginava, mas você é uma Sidle. A mulher mais forte que eu conheço, e não vai ser um belo par de olhos azuis que vai te impedir de ser feliz.
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