Sim, Senhor.
44 Capítulo 44
Notas iniciais
Foi tudo muito rápido. Grissom não teve reação quando viu Jason correndo em direção ao final da rua e Sara entrando em seu carro e dando partida. As duas pessoas que ele mais precisava se acertar estavam tomando rumos diferentes.
No fundo ele sabia que precisaria de algumas horas sozinhos para tentar se recompor. Precisava juntar os cacos para seguir em frente. O que o deixava fora de si era o fato de ser um homem que planejava cada passo que dava. Mas, de repente, um furacão havia passado em sua vida e depois de 1 semana ele ainda tentava remontar.
Trancado e sozinho dentro de casa, jogou-se no sofá e levou as mãos ao rosto liso. Estava perdido e isso o assustava, não conseguia pensar nos próximos passos. Sua mente parecia estar em colapso e a única coisa que ele conseguia assimilar era o seu filho o chamando de covarde.
No fundo, concordava com Jason. Ele tinha sido covarde com as pessoas ao seu redor. Não tinha sido honesto com a sua família e principalmente com Sara. Por conta de seus medos, ela havia passado por uma situação humilhante como aquela. Se estivesse escutado todos os avisos que a sua mente havia enviado para se afastar, nada disso teria acontecido.
Foi covarde com Maggie por achar que ela tinha ido embora por conta de algum capricho secreto, e aquilo doía muito. Ele ainda queria conseguir amar Maggie, e a sua mente o cobrava que ele amasse duas vezes mais depois de tudo o que ela tinha passado, mas simplesmente não conseguia.
Era um covarde.
Jason tinha razão.
Ficar deitado naquele sofá não iria trazer soluções. Pegou a chave do seu carro e uniu forças para começar a reorganizar todo o caos. Dirigiu por alguns minutos até parar em frente a uma casa simples com um jardim muito bem cuidado, esteve ali algumas poucas vezes.
— Oi, Dr. Grissom — Mackenzie apareceu na porta com um sorriso tímido. A jovem foi em direção ao supervisor e fechou a porta atrás de si. O recado era simples: Ele não poderia entrar.
— Oi, Mackenzie. Eu posso falar com Jason ? — Sabia que o seu filho estava ali, e a atitude da menina só havia confirmado.
— Eu acho que não é um bom momento Dr. Grissom. — Ela apertou o seu cardigan contra o corpo. O vento suave de fim de tarde acariciava a sua pele. — Jason está bem chateado e pelo o que eu conheço dele, ele ainda tem um alto poder lesivo para ofender alguém.
— Talvez você tenha razão. — Mordeu o lábio inferior e encarou a janela do segundo andar. Provavelmente eles estavam sendo observados por seu filho. — Só não deixa ele fazer nenhuma bobeira.
— Claro ! Ele só precisa de um tempo para digerir todas essas informações. Não vou deixar ele ir a lugar algum. Não se preocupe. — Ela esticou a mão e tocou no ombro de seu sogro, parecia estar fora de órbita. — Ei, vai ficar tudo bem. Tentei argumentar com Jason sobre o que aconteceu, mas eu acho que isso o machucou muito.
— Eu errei, Mackenzie. Eu errei feio com ele. — Estreitou o olhar e anuiu com a cabeça. — Merecia tudo o que aconteceu.
— Eu acho que os dois estão errados. — Ela deu de ombros. — O senhor merece ter uma vida, só não soube encerrar um ciclo. Jay sempre acreditou que a mãe dele iria voltar e eu acho que de uma forma velada, acreditava que tudo seria como antes.
Grissom estava recebendo conselhos e advertências de uma jovem de 18 anos. E a ele só restava concordar em silêncio com a namorada do seu filho. Despediu-se da moça e voltou ainda desnorteado para o carro. A sua primeira tarefa não tinha obtido êxito.
Novamente nas ruas movimentadas de Las Vegas, dirigiu em silêncio até o apartamento de Sara. Se ainda restava alguma dúvida, todas elas foram sanadas naquele dia. Amava Sara e por isso ficou tão abalado com toda a situação. Se as pedradas e as ofensas fossem dirigidas apenas para ele, as receberia de peito aberto.
Mas Sara foi a mais atingida. Foi exposta e humilhada sem ao menos ter o direito de contraditório. Ela aguentou tudo de cabeça erguida, enquanto ele apenas apequenou-se e praticamente ficou mudo.
Parou o carro na frente do prédio dela e viu a luz do apartamento acesa. Torceu para que estivesse sozinha e estivesse disposta a recebê-lo. Seu foco desviou para o celular que estava tocando, pegou o aparelho e o nome de sua mãe estava no visor.
— Gil, onde estão todos ?
— Aconteceram várias coisas. Em resumo: um desastre.
— Agradeceria se fosse mais específico na sua resposta.
— Jason descobriu que eu estou com a Sara e me culpou por não ter evitado tudo o que aconteceu com a Maggie.
— Eu detesto dizer o óbvio, Gil. — A senhora suspirou do outro lado da linha. A caixa de Pandora havia sido reaberta. — Onde você está ?
— Tentando consertar algumas coisas. — Grissom estava cansado. Não havia visto o dia passar. — Eu não sei se Maggie vai retornar para a nossa casa, Stella acabou passando mal e a levaram para o Desert Palm.
— Céus ! O estrago foi muito maior do que eu pude imaginar.
— Nem me fale.
Grissom comunicou o paradeiro de cada um para sua mãe. Pediu para que ela inventasse algum motivo para todos estarem ausentes para Emma, e principalmente se Jason aparecesse em casa que era para ela comunicá-lo imediatamente
Click.
...
Sara estava um bom tempo sentada encarando a parede branca do seu apartamento, sem entender o que tinha acontecido. Foi tudo muito rápido, sentia que tinha sido atingida por um raio e não teve a menor chance de defesa. As imagens ainda eram muito esparsas em sua mente.
Jason gritando com ela. O olhar desolador de Grissom. Maggie. Stella.
Naquele momento ela tinha resposta para algumas perguntas mas não conseguia desligar do fato de não ter notícias de Stella. As últimas palavras da governanta ainda ecoavam muito forte em sua mente e tudo o que conseguia sentir era vergonha naquele momento.
Havia sido muito ingênua em aceitar uma paixão como aquela. Ela havia se machucado com toda aquela história e consequentemente machucado a pessoa que mais amava e admirava. Em uma prece interna, pediu que nada de ruim acontecesse com Stella.
A campainha do apartamento tocou e já imaginava quem estava do outro lado da porta. Não tinha certeza se queria ter uma conversa naquele momento, mas o quanto antes arrancasse a proteção daquela ferida, mas chances ela teria de se recuperar.
— Podemos conversar ?
— Não sei se devemos fazer isso agora. — Cruzou os braços e ficou esperando uma reação de Grissom. Ele apoiou o braço na soleira da porta e levou a mão aos seus cabelos. Estava visivelmente irritado e principalmente perdido.
— Eu sinto que vou surtar se ficar sozinho agora. Eu pelo menos te devo algumas explicações. — Suspirou fundo e viu que Sara permanecia impassível. — Vou explicar tudo o que aconteceu e acatar o que você me pedir. Só me deixe falar.
Ela não conseguiu deixar de compadecer com o olhar dele. Nunca tinha o visto arrasado e cansado daquela forma. Ele havia envelhecido anos em alguns dias, seus ombros estavam pesados e suas passadas arrastadas. Ele desabou no sofá em silêncio.
— Você sabe que não me deve satisfações.
— Como não, Sara ? — A voz dele saiu um tom acima, estava irritado e ficou incomodado com a fala dela. — Eu amo você, como não te devo satisfações ?
Um silêncio sacro imperou na sala, era a primeira vez que ele falava aquilo em voz alta. Era claro que ele estava apaixonado por Sara Sidle e isso o deixava desnorteado. Ele estava desesperado em saber que não teria mais a companhia dela quase que diariamente.
Grissom envolveu as mãos em seu rosto e liberou o ar dos pulmões. Estava exausto e seu corpo já começava dar sinais de uma grande enxaqueca. Caminhou a passos largos até a cozinha, sabia que a Sara guardava uma caixa com os seus remédios. Engoliu a seco e voltou para a sua posição inicial.
— Eu preciso saber noticias da Stella. — Sara estava acuada andando no centro da sala, não conseguia manter um pensamento linear.
— Vamos aguardar. — Relaxou os ombros — A nossa presença naquele hospital agora só vai servir para inflar ainda mais essa confusão e possivelmente prejudicar a Stella.
Grissom parou na frente de Sara e tocou os seus ombros. Sentiu um nó na garganta ao ver o olhar vazio da morena. Ali não havia qualquer brilho ou esperança, era apenas o castanho do olhar envolto em uma escuridão.
Ela desviou o olhar e apertou os lábios, não aguentava mais chorar naquela noite. No entanto, foi inevitável segurar as lágrimas quando sentiu os braços firmes de Grissom ao redor de seu corpo. Tentava entender qual era o motivo do choro, provavelmente era um misto de medo por Stella e por tudo que ela teria que enfrentar.
— Não quero que você se culpe por nada, Sara. Toda essa confusão é por minha causa.
— Eu não consigo ver dessa maneira. — Balançou a cabeça em negativa. Deu um passo para trás e saiu de dentro do abraço.
— Eu vou te explicar tudo o que ocorreu e então você vai ver que eu estou com razão.
Ele conduziu Sara para o sofá e mesmo com um pouco de resistência ela acabou cedendo e sentado ao seu lado. Respirou fundo algumas vezes antes de iniciar todo o relato, tinha que ser sincero e não iria esconder nenhum detalhe.
A cada parte da história, Sara encolhia-se assustada. Estava horrizada com toda a tortura que Maggie tinha suportado sozinha e em silêncio. Sentiu-se um lixo humano. Grissom era um homem casado e a sua esposa não era presente em sua vida para poder proteger a sua família.
— Tudo isso aqui é muito errado. — Ela apontou para os dois e instintivamente afastou os seus corpos. — Você é casado, Grissom.
— Eu era casado. — Fez questão de enfatizar a palavra era. — Eu não sabia nada sobre o que estava acontecendo com a Maggie. Se eu soubesse eu jamais deixaria chegar ao ponto dela precisar estar no programa de proteção a testemunhas. — Respirou fundo e segurou o ar nos pulmões. — Eu jamais a deixaria partir…
As suas últimas palavras morreram no ar e Sara sentiu um nó apertado na garganta.
Era evidente que Grissom ainda amava Maggie.
Levantou-se e foi até a sua pequena varanda, precisava sentir o ar preencher seus pulmões. Seu corpo parecia trabalhar fora do compasso e o seu coração parecia querer atravessar o seu peito a qualquer momento.
As luzes de Las Vegas ficaram desfocadas, as lágrimas que ela tanto queria evitar deslizavam em sua pele alva. Mordeu o lábio inferior e relaxou suas expressões com uma risada abafada.
“Sara Sidle. Mais uma vez você colocou a mão no fogo e se queimou”.
Sentiu a presença de Grissom em suas costas, e o conhecia o suficiente para saber que ele estava perdido em seus pensamentos e principalmente deslocado naquela situação. Mas ela sabia que não poderia ter outra atitude, não poderia ser compassiva.
— Sara, por favor. Eu sinceramente espero que você acredite nos meus sentimentos sobre você. Eu não planejei me apaixonar por você, e talvez eu tenha até relutado para aceitar… — Com as mãos afundadas no bolso da sua calça social, seu olhar estava perdido nas luzes da cidade.
— Não, Grissom. — Ela virou-se e percebeu quando o supervisor gelou com o seu olhar. — Nós fomos longe demais com toda essa história. Esse relacionamento serviu apenas para ferir as pessoas que mais amamos.
— Isso só ocorreu por minha culpa, eu devia ter colocado toda essa situação em pratos limpos. Devia ter sido franco com meus filhos e com Stella. — Deu de ombros com a última pessoa e aquilo irritou Sara profundamente. — Devia ter sido franco com você e ter tratado o nosso relacionamento com o respeito que ele merece.
— Nossa culpa, Grissom! Tudo isso aqui nunca devia ter acontecido. Será que você não entende ?
— Eu só estou aqui para te fazer entender que você não é a culpada de nada. Você não merecia passar por toda aquela situação e ainda se indispor com a Stella.
— Eu caminhei ao seu lado porque eu quis.
— Eu só preciso de um tempo para tentar organizar tudo o que está acontecendo. — Deu de ombros e fechou os olhos, nem ele mesmo sabia quais rumos aquela conversa deveria levar. — Eu preciso liberar o espaço para Maggie voltar a vida normal dela, conversar abertamente com ela sobre tudo o que aconteceu, explicar aos meus filhos...
— Não ! -Ela interrompeu a fala dele com agressividade. — Você não precisa desse tempo. Você precisa estar ao lado da sua família, ao lado da mulher que largou tudo para proteger vocês. O nosso tempo acabou e eu não quero insistir em algo que não deveria ter começado
— Eu não posso estar ao lado dela por gratidão — Aquela frase era mais um desabafo que propriamente um pedido. A ideia de deixar Sara havia rondado a sua cabeça desde a volta de Maggie, mas ele simplesmente não conseguiria.
— Eu não posso estar ao seu lado por pena. Vocês precisam se reconstruir. Eu estou indo embora, iniciar uma nova etapa da minha vida e não acho justo eu sair daqui com uma bagagem tão pesada.
Grissom saiu do seu pequeno devaneio quando ouviu a palavra pena. Então tudo o que eles sentiam resumia-se a pena ? Não podia acreditar que Sara estivesse tão firme naquele pensamento.
— Pena, Sara ? — Abriu e fechou a boca algumas vezes procurando algo que pudesse expressar os seus sentimentos. — Eu não posso ter me enganado ao seu respeito, Sara.
— Grissom eu gosto de você — Ela pegou a mão do supervisor — Mas não o suficiente para ficar no meio da sua família. Eu não posso estar ao seu lado sabendo que seus filhos e a Stella não aprovam tudo o que aconteceu. Eu não vou suportar ver os olhares de decepção novamente. E se eu não consigo passar por tudo isso, provavelmente deve significar alguma coisa.
Ele levantou-se do sofá e parou de costas para Sara. Se antes a sua mente trabalhava com dificuldade, agora os pensamentos eram metralhados em sua cabeça. Não queria acreditar no que tinha acabado de ouvir. Havia abaixado todas as suas guardas para estar ao lado de Sara.
— Talvez signifique mesmo. — Engoliu a seco e girou sobre os tornozelos, encarando-a novamente.
— Você precisa me esquecer. — A voz dela foi sumindo até o final da frase.
O celular de Grissom rompeu o silêncio na sala, era o número de sua sogra. Relutou em atender, mas imaginou que poderia ser notícias de Stella. Caminhou a passos largos para o quarto de Sara e trancou a porta atrás de si.
— Griss… Onde você está ?
— Estou fora de casa. Você tem notícias de Stella ? — Era Maggie do outro lado da linha. Péssima hora para aquela ligação.
— Ela está fazendo alguns exames, mas aparentemente foi a pressão dela que desregulou. Como eu a conheço muito bem, já mandei realizar uma bateria de exames para certificar que ela esteja bem.
— Me mantenha informado.
— Agora é uma boa hora para conversarmos ? — Ela aguardou em silêncio, mas a única coisa que ouvia era a respiração pesada de seu marido. — Eu só preciso de algumas respostas.
— Não agora, Maggie. Chega de confusões por hoje. Eu estou muito estressado e não quero chatear mais ninguém.
— Ela é tão especial assim ?
Grissom não falou, mas ele sabia qual era a resposta. Despediu-se de maneira breve e desligou a ligação. Sentou na cama e levou as mãos ao rosto, com certeza aquela seria uma noite para ser esquecida.
Encarou a janela aberta e deixou os seus pensamentos vaguear. Ele poderia assumir que amava Sara, mas não conseguiria passar por cima das inseguranças. Sara merecia alguém totalmente disponível ao seu lado, e naquele momento sabia que não conseguiria.
Odiou-se por isso.
Os dois estavam lado a lado, talvez andassem por uma estrada tortuosa, mas o que valia era a companhia dela. Mas agora, ele precisava trilhar sozinho novamente. Talvez aquela fosse a sua penitência por não ter confiado em Maggie.
Saiu do quarto e encontrou Sara chorando quieta no sofá. Ele achava que era humanamente impossível o seu coração se partir tantas vezes em um único dia, mas ela estava ali para provar que era possível.
— Eu realmente preciso saber como a Stella está ? — Os olhos frios pairavam sobre Grissom e ele precisou respirar fundo.
— Ela está passando por exames, mas está bem. — Deu de ombros e sentou ao lado dela.
Em um salto, Sara levantou-se e pegou seu casaco e as suas chaves, não iria ficar ali esperando por novidades. Stella poderia estar em um dos melhores hospitais de Las Vegas, mas não ficaria à mercê da boa vontade da família Woolf para ter notícias.
— Não vou ficar parada aqui sabendo que a Stella está naquele hospital por minha causa.
— Você não vai a lugar algum, Sara. — Grissom foi mais rápido e segurou a mão de Sara na maçaneta, ela não estava pensando de forma racional. — Stella está bem assistida e não precisa passar por outra onda de nervosismo.
— Você não vai me impedir de sair de casa. — Ela aumentou o tom de voz, mas não surtiu nenhum efeito.
— Sara, esse não é um momento para pensar em você. — Precisaria ser um pouco mais incisivo. — Pense verdadeiramente na Stella e o quanto ela precisa se estabilizar nesse momento.
Ela balançou a cabeça em negativo e as lágrimas voltaram a deslizar em seu rosto. Como queria que tudo aquilo fosse um pesadelo e ela pudesse acordar o mais rápido possível. Não saia de sua mente os olhares que havia recebido. Não conseguia apagar a imponente presença de Maggie.
Grissom a puxou para um abraço e ela aceitou como uma criança que busca um acalento depois de uma queda. Ela a aninhou nos braços e sentiu o tecido de sua camisa molhar com o choro dela.
— Eu só queria que nada disso tivesse acontecido, eu só queria não ter me apaixonado por você. — As palavras saiam mais desesperadas do que ela imaginava, ergueu a cabeça e encontrou com um olhar triste de Grissom.
— Nós vamos resolver tudo isso. Eu te prometo. — Ele acariciou os cabelos dela e apertou ainda mais em seu abraço. — Eu te prometo que daqui algum tempo tudo isso não vai significar mais nada para você. Eu vou consertar isso.
Sara fechou os olhos com força, tudo o que ela não queria estava acontecendo. Não queria que as coisas terminassem daquela forma, porque os dois não mereciam. Mas era insustentável, e sabia que os dois não iriam aguentar por muito tempo.
Ela desejou naquele momento rever o Grissom que a tratava com indiferença quando eles se conheceram, e não o homem que estava acalentando e tentando acalmá-la naquele momento. Ele conseguiu que ela sentasse no sofá, sabia que precisava respeitar o espaço dela, mas simplesmente não poderia deixá-la sozinha naquele momento.
No fundo, ele estava com medo de ficar sozinho e finalmente sentir tudo terminar de desabar.
Rumou para a cozinha, sabia que ela guardava algumas ervas e um chá quente seria o ideal para acalmar os ânimos. Em poucos minutos o cheiro reconfortante e suave da camomila se difundiu por todo o ambiente, serviu uma xícara generosa e retornou para sala.
— Beba ! Vai te aquecer e te acalmar.
Ela apenas aceitou e agradeceu com um gesto de cabeça, bebeu um pouco da bebida e sentiu o calor da porcelana aquecer a palma de sua mão. Realmente precisava se acalmar, tinha que colocar as ideias em ordem porque o pior ainda estava por vir.
Grissom retornou ao seu lugar, ao lado de Sara. Soltou o peso do corpo no sofá e fechou os olhos com força. Pensou em tudo que tinha acontecido naquele dia e lembrou-se que ainda havia mais um obstáculo: Emma. A caçula ainda estava no escuro sobre os novos acontecimentos e doía o seu peito só em imaginar como ela iria reagir a tudo.
Temia que a atitude de Emma fosse pior que a de Jason.
— Eu acho que eu preciso ficar sozinha. — Sara olhou por cima dos ombros e viu Grissom apenas mexendo a cabeça ainda com os olhos fechados. Ele não queria ter que sair dali. Mas precisava respeitar a vontade dela.
— Ok, Sara. — Abriu os olhos e sentiu um nó na garganta. Levou uma das mãos na lateral do rosto dela e fez um delicado carinho, e sentiu uma tensão correr pelo o seu corpo quando ela aceitou o toque. — Só quero que você saiba que nada disso é culpa sua, e eu vou arrumar toda essa bagunça.
— Você não…
— Querida. — Ele a interrompeu e novamente acariciou sua face. — Acredite, eu não fiz nada por mal, mas eu estou vendo que tudo isso fez muito mal para você. Eu tive diversas oportunidades de falar isso para você e deixei para fazer isso em um momento deprimente como esse. — Suspirou fundo e retomou o fôlego. — Eu amo você.
Ele experimentou por uma última vez, com calma e aguardando a reação dela, uniu os lábios. Seu coração quase explodiu quando sentiu que o beijo ainda era recíproco e aquilo o dilacerou. O beijo era lento, e ambos pareciam querer aproveitar cada segundo antes do fôlego acabar. Grissom sentiu o seu rosto molhar e o seu peito apertou ainda mais.
Sara apenas se perdeu naquela imensidão do olhar azul dos olhos de Grissom. Ela também sentia o mesmo por ele, mas não era o suficiente. Apertou os lábios e levantou-se, não quis olhar para trás e foi para o seu quarto. Precisava de um tempo a sós para aliviar aquela sensação de perda.
Grissom escutou a porta fechar e logo em seguida ser trancada. Sentiu algumas lágrimas quentes deslizarem em seu rosto mas logo tratou de secá-las e se recompor, aquele era um momento de manter os pés firmes no chão. Tinha que guardar o restante de suas forças para aguentar o próximo round.
Jogou o seu corpo no sofá e deitou por ali mesmo. Não tinha para onde ir e também queria ficar a sós com os seus pensamentos. Acessou o seu palácio de memórias e começou a tentar elaborar saídas para aquele problema. Perdeu-se no tempo — e nas ideias — até o deus do sono compadecer dos seus problemas e permiti-lo dormir.
…
A madrugada já havia avançado quando Sara decidiu sair do seu quarto. Sentia fome e iria sair para buscar notícias de Stella, provavelmente os abutres da família Woolf já não estavam mais no hospital e ela teria paz para conversar com a governanta.
A brisa da madrugada arrepiava o seu corpo. Pegou um cobertor fino e jogou sobre o seu corpo, abriu a porta do quarto e foi em direção a cozinha. No entanto, travou no meio da sala quando viu Grissom dormindo em uma posição não muito confortável em seu pequeno sofá. Naquele exato momento não soube como agir.
Se ela o acordasse, com certeza ele iria desencorajá-la de ir ao hospital.
Mas o deixasse dormindo, ele mal conseguiria se mover pela manhã.
O silêncio foi cortado por um grunhido de Grissom e logo em seguida, abriu os olhos lentamente relutando contra o sono. Uma fisgada em sua lombar o fez lembrar que não estava em um local muito confortável.
— Me desculpe, Sara. Eu acabei adormecendo aqui. — Levantou com uma certa dificuldade e alongou os músculos para se recompor. Ela apenas meneou a cabeça e rumou para a cozinha. Decidiu beber um pouco mais do chá que Grissom havia preparado e logo em seguida sairia para encontrar com a Stella.
Grissom pegou o seu celular e viu que tinha algumas ligações perdidas de sua mãe e Virgínia, que provavelmente seriam de Maggie. Mas o que chamou a atenção foi uma mensagem de texto vinda do celular de sua sogra:
“Stella está bem ! Decidimos que ela deveria passar a noite aqui no hospital apenas para poder descansar.”
— Tenho boas notícias. Stella está bem, mas vai passar a noite no Desert Palm. — Ele apareceu na soleira da cozinha. Sara estava de costas tomando o chá em silêncio
— Existe alguma chance de encontrar com a sua família no hospital ? Porque eu estou indo para lá agora. E dessa vez você não vai me impedir. — Virou para encará-lo e manteve o olhar firme. Ele apenas concordou.
— Sinceramente, eu não sei. Mas eu vou levá-la, se eu ainda estou em posição de exigir alguma coisa para você, essa será a minha condição.
Ela sabia que aquela seria a única forma de encerrar aquele embate. Não queria ser vista junto com ele, mas tinha consciência que aquela seria a última vez que colocaria os pés naquele hospital e pouco iria se importar com a enxurrada de comentários maldosos. E aliás, a presença dele, com certeza iria facilitar a sua entrada.
O caminho foi todo feito em silêncio, mas sentiam a tensão muito palpável dentro da SUV. Sara evitava todo e qualquer contato visual, não suportaria ver o olhar suplicante de Grissom novamente. Na entrada, o hospital parecia estranhamente tranquilo. Uma jovem de sorriso largo os recebeu na recepção.
— Stella Talmage. Quarto 101. — A recepcionista indicou a porta ao fim do corredor. Grissom retesou o corpo e desistiu da ideia de deixar Sara sozinha, tinha grandes possibilidades dela encontrar com alguém da família Woolf e ela seria devorada por eles.
Sara caminhou à frente mas logo obteve a resposta para a sua principal dúvida. Parada na porta do quarto, ela viu Maggie acompanhando a governanta. A senhora estava sendo monitorada por aparelhos e tomando soro direto na veia. A imagem de Stella frágil na cama a atingiu com força.
O olhar de Maggie cruzou com o olhar assustado de Sara parada na porta. A médica certificou que Stella estivesse dormindo e foi até ao encontro da babá e amante do seu marido.
— O que você está fazendo aqui ? — O tom de voz de Maggie era intimidador. Fez questão de entrar na frente da morena para impedir que ela olhasse para dentro do quarto. — Eu não te disse para ficar longe da Stella ?
— Eu preciso me certificar que ela esteja bem. — Sara ignorou a atitude da mulher a sua frente. — E também quero conversar com ela.
— Se você realmente se preocupasse com ela, não teria feito o que fez. Dúvido que pensava nela enquanto você rolava pela a minha cama com o meu marido.
Maggie era um pouco mais alta que Sara, o que fazia que ela ostentasse um olhar de superioridade, mas aquilo não a intimidava nenhum pouco.
— Você quis dizer o seu ex-marido ? — Provocativa, ela fez questão de enfatizar a palavra ex. Maggie ameaçou avançar um passo mas ela se manteve parada e a olhou no fundo dos olhos. — Eu não estou em busca de guerra.
Grissom caminhou apressado, havia parado para atender uma ligação do laboratório, mas quando viu Sara e Maggie conversando, logo tratou de despachar o perito no telefone. Estava incomodado com alguns olhares maliciosos e suspeitava que Robert e Virgínia já haviam se encarregado de espalhar os últimos ocorridos para todo o hospital.
— Gil, não é um bom momento ela estar aqui. Stella não precisa passar por outro susto. — Maggie iria tentar conversar com uma pessoa racional.
— Ele não responde por mim. — Sara vociferou, ela não precisava de um intermediário. — Eu só quero me certificar que ela esteja bem.
— Prazer, querida. Maggie Woolf, médica. — A mulher esticou a mão em direção de Sara, mas como esperado não foi correspondida. — Não estou utilizando um jaleco, mas eu estou assegurando que ela está bem. Agora, pela mesma porta que você entrou, se retire.
Grissom tentou tocar o ombro de Sara para tentar reprimir um contragolpe, mas ela afastou-se de sua mão. Para piorar toda a situação, Robert vinha com um sorriso vencedor no final do corredor. Com as mãos afundadas no bolso do jaleco, ele caminhava a passos lentos até a direção do trio.
— Mags ! Vá até o refeitório comer alguma coisa. O remédio que a Stella tomou vai deixá-la dormindo por um tempo. Deixe a mocinha entrar e certificar que a mulher esteja respirando e depois ela vai embora conformada.
Maggie olhou para o seu pai e não entendeu a atitude dele, mas percebeu que um grupo de curiosos já olhava em direção a eles. Resignada, saiu em silêncio. Logo em seguida, Sara entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
— Ora, Ora, Dr. Grissom ! Estou admirado com a coragem de andar com a mocinha mesmo depois de tudo o que aconteceu hoje.
— O que você ainda quer, Robert ? Você não coroou a sua vitória ? Finalmente conseguiu fazer da minha vida um inferno e a troco de nada.
— Troco de nada ? — Robert deu uma risada carregada de ironia, ergueu o olhar e precisou conter a vontade de acertar um soco no seu genro. — A vida da minha filha foi desgraçada de diversas formas por culpa sua, e você realmente se acha no direito de sair como vítima ?
— Pelo o que eu conheço a sua filha, eu tenho certeza que ela deixou bem claro que eu não tive participação nenhuma nesses desdobramentos.
Sara viu pelo o vidro da porta que os ânimos estavam começando a se exaltarem do lado de fora, temia que o barulho acordasse Stella e ela se deparasse com aquela cena. Segurou a mão da governanta e sussurrou um pedido de desculpas antes de sair do quarto.
— Ora, se não é a deliciosa Sara Sidle. — Robert mordeu os lábios e analisou Sara da cabeça aos pés. — Carne de primeira, não é, Grissom ?
Com um golpe de olhar, o supervisor viu que a porta lateral era o almoxarifado. Tomado por uma fúria, segurou o médico pelo o colarinho e o empurrou para dentro do cômodo. Não iria se dar o desfrute de iniciar uma briga no meio do corredor do hospital.
— Tudo tem limites ! — Com o colarinho do jaleco preso em suas mãos, Grissom pressionou o médico contra a parede. — O seu problema é comigo !
— Um homem de meia idade e apaixonado por uma ninfeta. Deve realmente ser excitante ter uma mulher como ela do lado.
— Eu não tenho mais nada a perder, Robert. Eu poderia facilmente surrar a sua cara nesse cômodo, mas eu sei que você espera que eu faça isso. — Ele abriu as mãos e soltou o corpo do seu “sogro” da parede. — Mas eu sempre soube que eu só deveria deixar você esticar a corda, porque no final eu sabia que você ia cair na própria armadilha.
— O que você quer dizer com isso ? Acabou para você.
— Robert, tudo isso começou por causa de uma pessoa: Lady Heather. Lembra-se dela ? — Grissom quase se divertiu com o olhar perdido do médico. — Alguns anos atrás eu te livrei de um interrogatório indiscreto, e a forma que você retribuiu a gentileza foi reforçando no imaginário de Maggie, que eu poderia ter algum tipo de relação com a dominatrix.
— E eu só provei que estava certo. — Deu de ombros.
— Eu ainda não acabei. — Elevou o tom de voz. — A sua defesa foi querer me acuar, inventar mentiras a meu respeito. Heather me falou que na época você andou sondando sobre o nosso relacionamento, e quando você soube que mesmo depois do caso encerrado eu continuava conversando com ela, e aproveitou para incutir na cabeça da sua filha essa informação.
— Onde você quer chegar, Gil ? — O médico já estava impaciente.
— Nós dois sabemos que Maggie sempre foi ciumenta, e essa mentira quase custou o nosso casamento. Mas, mesmo eu estando certo, eu fui obrigado a aceitar o fato que ela daria uma segunda chance ao nosso casamento. Depois veio a história com a Alana, um pequeno deslize na fala da detetive e já foi o suficiente para você armar todo o seu circo novamente. O tempo passou e você sempre acreditou que eu estivesse na palma da sua mão.
— Sempre esteve, Grissom. Ou a sua namoradinha nunca te contou ?
O olhar de Grissom vacilou naquele momento e Robert teve certeza que ele não sabia de nada. O médico bateu palma e gargalhou um pouco alto, apenas para provoca-lo.
— Scott fez um esforço sobrenatural para não estragar o encontro romântico de vocês em Henderson. Mas isso não o impediu de registrar esse momento. — Robert pegou o celular e acessou a galeria do seu celular, e lá estava a foto de Grissom e Sara abraçados. — Eu acho que eu vou mandar revelar essa foto e distribuir para os seus filhos. Aceita uma cópia ?
Grissom sentiu a sua raiva aumentar ainda mais, se Sara teve acesso aquela foto, com certeza o médico havia a chantageado de alguma forma, ou até feito algo pior. Ele sentiu que ia perder o controle daquela situação a qualquer momento, mas ele não podia fazer aquilo. Ceder a vontade de bater em Robert, seria apenas para decretar o fim de qualquer tipo de credibilidade que ele ainda tivesse.
Precisava aguentar, ele estava prestes a virar o jogo.
— Eu tenho nojo de você. — A voz de Grissom estava carregada de desdém. — Mas eu ainda não acabei, e você vai se arrepender do dia que dirigiu a palavra para Sara. — Respirou fundo e reorganizou seus pensamentos. — Você fez o que queria com a minha vida. Infernizou a cabeça do meu filho, ameaçou a mulher que eu amo e destruiu o meu nome.
— Game Over.
— Eu não tenho mais nada a perder. Você abaixou todas as suas cartas na mesa. A sua reputação ilibada não vai durar muito tempo se depender de mim. Eu não vou cair sozinho, Robert. Heather está disposta a conversar com Virginia a qualquer momento, ela tem o seu longo registro de visita na mansão.
— Virginia jamais acreditaria nessa história.
— Eu não teria essa certeza. Por acaso o nome Gabriela te remete a alguém ? — O supervisor percebeu que o médico ficou pálido. — Pela a sua reação eu vou considerar como um sim. A sua submissa deu entrada no hospital Cleveland, do outro lado da cidade. Me parece que você se excedeu hoje a tarde.
— Esse é o seu blefe ? Aquela puta jamais abriria a boca. Aliás, o trabalho dela é apanhar.
— Gabriela estava de folga e segundo depoimento, ela deixou bem claro que não iria mais atendê-lo fora da mansão. Mas você se sente superior a todo mundo e foi até a casa dela, e quando ela negou o seu pedido, você a espancou. — Grissom sacudiu as mãos próximas ao rosto. — Eu sei que você ofereceu uma grana alta para ela ficar quieta, e até mesmo prometeu que iria cuidar dos ferimentos dela.
— Quer dizer que a palavra daquela puta vai ser mais valiosa que a minha ? — Robert ainda estava muito confiante.
— Palavras e evidências. Acontece que eu sou o perito responsável pelo o caso e enviei o meu melhor CSI para analisar a casa dela, e orientei ele a coletar cada poeira que estiver no chão. Para a sorte do caso, um dos vizinhos tem uma câmera de segurança que filma a porta de entrada. Ou seja, eu vou gastar menos de 1 dia para te colocar na cena do crime. E qual vai ser a desculpa que você vai inventar para a sua família ?
— Seu desgraçado ! — Robert passou a mão nos cabelos brancos e perdeu o controle. Acertou um soco no nariz de Grissom que apenas gemeu de dor. — Eu ainda vou acabar com você !
Grissom controlou-se para não reagir, pensou apenas em seus filhos, não queria acrescentar mais uma decepção naquela longa lista. Robert abriu a porta do almoxarifado e saiu sem rumo pelo o corredor do hospital, tinha pouco tempo para pensar em uma solução para aquele enorme problema.
Grissom levou a mão ao nariz e sentiu o sangue quente deslizar em seu dedo. Olhou para o líquido vermelho e não conseguia esboçar nenhuma reação, ele só queria sair daquele lugar e ir para casa. Não tinha mais forças para o restante da madrugada. Saiu do cômodo e procurou por Sara, mas já não havia mais nenhum sinal dela. Olhou para o quarto de Stella e viu que ela ainda estava sozinha, e em uma prece interna pediu que tudo ficasse bem.
Você precisa me esquecer !
Aquela frase de Sara estava ecoando em sua cabeça.
Ele estava afundando, mas estava fazendo isso ao lado dela. E agora ter que voltar a superfície seria sufocante.
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