Sim, Senhor.
42 Capítulo 42
Notas iniciais
Grissom trancou-se em seu quarto. Ninguém o faria sair dali tão cedo. Precisava de um momento a sós para começar a absorver tudo o que tinha acontecido nas últimas horas, sentia que sua capacidade de raciocinar estava lentamente retornando e isso o deixava aliviado.
Respirou fundo e começou a ponderar em todos os acontecimentos que iriam iniciar a partir daquele momento.
Primeiro: Maggie estava de volta à vida de seus filhos.
Ele tinha muito medo da reação de Jason e Emma. Não sabia se seria prudente expor todas as torturas que a mãe deles havia enfrentado. Aliás, seria traumático para os dois saberem que estiveram sob a mira de um revólver e em poder de um serial killer de alta periculosidade.
Nenhuma criança merecia conviver com a sombra daquela informação, muito menos os seus dois filhos. Jason era um rapaz introvertido e provavelmente não iria esboçar sentimentos e reações sobre o acontecimento. Emma era uma criança espontânea e saber que teve um coração humano ao lado de sua cabeça poderia lhe roubar a sua inocência.
Segundo: Ele ia precisar aprender a conviver com o sentimento de culpa.
Por praticamente 3 anos ele acreditou que Maggie havia partido por motivos egoístas, mas os relatórios do caso provaram ser totalmente ao contrário do que ele tanto julgava. A mãe dos seus filhos foi torturada tanto fisicamente quanto psicologicamente. Foi tirada da sua vida e levada para um local completamente diferente.
Maggie precisou se reinventar para poder sobreviver. Teve que conviver diariamente com a ausência da sua família e a incerteza se um dia voltaria a vê-los novamente.
Enquanto ela esteve fora protegendo o que ela considerava ser o mais importante, ele esteve em Las Vegas maldizendo cada dia de sua ausência. Por um tempo ainda tentou fazer com que seus filhos não compartilhassem o mesmo sentimento que ele nutria, mas a cada dia que a memória de Maggie ia se esvaindo de sua mente, ele parava de se importar.
Primeiro foi Jason descobrindo que havia sido uma escolha de Maggie partir.
Depois foi Emma chorando por não lembrar mais da voz da própria mãe.
E nessas duas ocasiões ele não fez nada por ela. Apenas deixou que o ressentimento pela a mãe ausente fosse cultivado.
Era um péssimo pai
E um péssimo marido
Sua mente saiu do transe quando ouviu algumas batidas na porta. Ele ficou parado na esperança que a pessoa do outro lado desistisse e fosse embora, mas foi em vão quando ouviu o barulho da maçaneta girando.
— Gilbert, o que está acontecendo ? — Beth estava com um olhar nada amistoso para o seu filho. Era um momento muito importante para Sara e ele não deu a devida importância. — Aconteceu algo entre você e a Sara ?
— Mãe, por favor. — Balançou a cabeça resignado. Tinha um problema enorme para resolver e sua mãe se importando com pormenores — Eu não posso perder o tempo agora com essas coisas.
O olhar de Beth seria capaz de petrificar o seu filho. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas já estava farejando um grande problema. Apontou para o interior do quarto e Grissom deu passagem para a senhora.
— Eu vou perguntar novamente. O que está acontecendo ?
Grissom engoliu a seco. Estava perdido e não sabia se deveria confidenciar aquilo para a sua mãe. Beth apesar de ser muito forte e proativa, já era uma senhora de 76 anos e inspirava cuidados. Levou a mão em seus cabelos bagunçados e ficou encarando sua mãe. Relutou com aquela ideia, mas não havia jeito delicado de dar aquela notícia.
— Maggie está de volta.
— Céus ! — A mulher estagnou próximo a porta. A fala de seu filho a atingiu com muito impacto. Ela precisou de alguns segundos para se situar no quarto novamente. Só se deu conta sobre o que estava acontecendo quando viu seu filho acuado como uma criança. — Como assim ?
— É uma longa história, e nós dois estávamos errado sobre ela. — Suspirou fundo e parou com as mãos apoiadas na cintura. A reação de sua mãe o deixou ainda mais nervoso. — Ainda estou tentando digerir tudo isso
— Estava tudo muito calmo, era óbvio que em algum momento as coisas iriam começar a dar errado de novo.
Grissom ficou surpreso com o comentário. Não passava por sua cabeça que sua mãe tivesse aquele tipo de comportamento, mas não era hora de racionalizar sobre o pessimismo.
— Eu ainda não sei como vou dar essa notícia para Emma e o Jason.
— Isso é algo que a Maggie deve pensar e não você. — A resposta dela saiu ríspida. Estava extremamente irritada com todo o acontecimento. Sua família estava novamente vivendo em harmonia e não era justo ela retornar querendo que tudo fosse tratado de forma natural.
— Eu estava errado sobre Maggie. Não é justo deixar que ela resolva tudo isso sozinho. No fundo eu tenho uma parcela grande de culpa.
Ele sabia que a única forma de mudar a visão de sua mãe era contando toda a história. Ele não escondeu nenhum detalhe mas ficou muito atento aos sinais corporais que a sua genitora estava dando. Ela permanecia impassível mas o seu coração parecia querer sair do peito a qualquer momento. Era muito doloroso escutar aqueles relatos.
Ela também sentia a dor da culpa.
Assim como o seu filho.
— Gil, você não tem culpa alguma nessa história. — Segurou o rosto do filho entre suas mãos, com o polegar enxugou a lágrima tímida que escorria no canto do olho — Tudo isso que aconteceu estava fora do seu alcance.
— Eu não consigo não me sentir culpado, mãe. Tudo isso aconteceu debaixo do meu teto e não pude fazer nada. Um serial killer entrou nesta casa, ameaçou os meus filhos e a minha esposa e eu não pude fazer nada.
Beth prendeu o ar nos pulmões. Apesar de toda a situação ser horrenda, ela conseguia fracionar a situação em pequenos pedaços. O mais danoso seria o retorno de Maggie para a vida de seus netos. Ela não sabia quais seriam as reações deles e o quanto isso poderia ricochetear em seu filho.
Assim como ele se sentia culpado, Emma e principalmente Jason poderiam cobrar dele uma postura mais agressiva para ter evitado toda essa ausência e distância.
Mas naquele momento o que mais a incomodava era a junção da atitude e da última frase de Grissom. Ele havia sido muito grosseiro com Sara — e esse era o motivo dela ter ido confrontá-lo — e agora referia-se a Maggie como esposa novamente.
— Gil, vou estar ao seu lado durante todo esse processo. Adianto que você precisará ser muito firme e paciente.
— Eu ainda vou conversar com a Maggie. Depois de tudo o que ela me falou eu não conseguia formar uma frase.
— Vocês dois estão certos. Vão precisar estar com a cabeça no lugar para decidirem o rumo de tudo. — Os dois abriram um sorriso tímido e Beth não resistiu ao impulso de abraçar o seu filho. Havia anos que ela não o via tão fragilizado e aterrorizado. Apertou o grande homem dentro dos seus braços pequenos e beijou-lhe o topo da cabeça. — Vai ficar tudo bem.
— Obrigada, mãe. — Ele piscou para ela e suspirou. No fundo ele se sentia um pouco mais aliviado, não estava sendo fácil suportar toda aquela história sozinho.
— Querido, eu preciso te perguntar sobre isso. — Ela segurou a mão dele e a encarou — E a Sara ?
— Eu não tenho cabeça para isso agora, tenho um problema muito maior para resolver.
Ela balançou a cabeça em negativa, não era aquela resposta que ela queria ouvir e muito menos Sara merecia ser tratada daquela forma. Ela colocou de lado um pouco o retorno de Maggie para poder abordar um assunto que também era muito sério.
— Sara não merece isso, Gilbert. Você tem dois grandes problemas para serem resolvidos. — O seu tom sério fez Grissom encolher os ombros. — Uma coisa é você estar perdido em relação aos próximos passos, outra é você tratar uma pessoa que te ama daquela forma.
Grissom segurou o rosto entre as mãos. Ele era um homem acostumado a lidar com vários problemas ao mesmo tempo e esse era um dos seus diferenciais no trabalho. Mas quando o assunto era ele, e principalmente os seus sentimentos, ainda era um aprendiz.
— Eu vou conversar com ela, não se preocupe. Só ainda não sei quando e em qual momento.
— Então faça isso logo porque ela está indo embora.
…
Sara estava no quarto de Emma dando os últimos retoques em sua maquiagem. A pedido e exigência de Beth e Emma, ela deveria se arrumar ali para a sua colação de grau. Desde o início ela fora contraria aquela ideia, não estava se sentindo confortável em estar naquela casa, ainda mais por ser constantemente ignorada por Grissom.
Eles não conversavam. Ele não atendia as ligações e nem respondia as mensagens.
No fundo, ela se esforçou para estar ali. Queria aproveitar os últimos momentos para estar com aquela família que tanto a acolheu. Sentia o seu peito encher de felicidade quando via o olhar orgulhoso de Stella e sentia-se acolhida por cada vez que Beth enaltecia a sua conquista.
— Uau, Sara ! Vai parar quarteirões hoje ! — Jason entrou no quarto enquanto ela tentava deixar o capelo de forma a não atrapalhar o seu cabelo. Abriu um sorriso sincero quando viu o jovem parado na porta. — Vestida para matar ?
— Vestida para formar. — Os dois riram da péssima piada. — Achava que as provas finais eram a parte mais difícil da faculdade, mas estou convencida que usar essa beca e esse capelo são piores.
— Pare de reclamar. Você está maravilhosa ! — O rapaz piscou para ela. Antes de fechar a porta atrás de si, ele certificou-se que teria um momento a sós com a morena. A passos lentos ele sentou-se na cama de sua irmã. — Podemos conversar, Sar ?
_ Claro, Jason ! O que está acontecendo ? — Ela sentou-se ao lado dele e pode perceber que ele estava um pouco tenso. Jason era fechado como o seu pai, mas a convivência a ensinou a ler os sinais involuntários que ele passava.
— Você sabe que eu submeti a minha documentação para algumas faculdades. Acho que você já passou por esse processo. — Ele soltou uma risada nervosa. — Algumas cartas começaram a chegar e eu descobri que eu não consigo encarar o conteúdo delas sozinhos.
— Jay ! — Segurou a mão dele e teve certeza o quão nervoso ele estava. A palma de sua mão estava gelada e as suas pernas balançavam conforme a ansiedade ia aumentando em seu corpo. Ela já esteve naquela posição e sabia o quão assustador era aquele momento. — Vamos abrir juntos, mas eu quero que você saiba que independentemente do resultado, você é maior que qualquer aprovação.
— Eu preciso passar, Sara. Eu planejei a minha vida dentro de uma faculdade, se eu não for aprovado, vou precisar viver no improviso.
Os dois deram risadas. Jason estava muito nervoso e provavelmente tinha usado o humor como uma arma de defesa. Ela sabia que aquela carta representava muito mais que um novo ciclo para ele, significava também a aprovação do pai.
— Eu não sei se eu consigo, Sar. É muita coisa passando na minha cabeça. Eu estou com muito medo de abrir e descobrir que não passei. — Ele balançou as mãos em frente ao seu rosto e levantou-se. Ficou encarando a grande janela e perdeu o olhar nas delicadas ondulações do pequeno lago artificial. — Desculpe, eu estou sendo egoísta. Eu não deveria estar aqui estragando o seu dia.
— Pare com isso, Jay ! Me escute. — Levantou-se e parou ao lado dele. O rapaz tentava sustentar um sorriso mas estava nervoso demais para fingir algum sentimento. — Eu sou a sua amiga e você não sabe como me deixou feliz em poder compartilhar esse momento com você. — Ela abraçou os ombros dele e o puxou para mais perto. — Eu sei exatamente o que está passando na sua cabeça.
— Justamente. Você sabe como eu me sinto e sabe que isso é uma coisa horrível, e eu não deveria estar aqui te perturbando com os meus problemas.
— Venha cá. — Ela retornou à posição anterior e deu algumas leves batidas no colchão macio. Jason tirou a carta de dentro do bolso de seu blazer e entregou para Sara. — Não se preocupe comigo, Jay. Nada que esteja escrito aqui vai mudar a percepção que eu tenho sobre você. Se você for aceito, eu vou te dar todas as dicas do mundo para você sobreviver na universidade, mas se a resposta for não, eu te ajudo a improvisar daqui pra frente.
Jason não conhecia a história de Sara, e ela julgou também não ser certo em abrir aquele capítulo da sua vida naquele momento. Hoje era um dia de felicidade e não queria se perder em meio a memórias de sua infância e adolescência. Mas ela precisou improvisar em diversos momentos de sua vida.
— Obrigada, de verdade. — Pegou novamente o envelope pardo e suspirou fundo, era o momento de encarar a verdade. Aquela era a resposta da universidade que ele mais ansiava e isso potencializava os seus sentimentos. — Hora da verdade.
Sara assistiu em silêncio Jason abrir o envelope. Ele ainda hesitou antes de retirar o papel e finalmente iniciar a leitura. Os olhos dele corriam freneticamente em busca da resposta, e quando ela viu o olhar azul brilhar como uma estrela no céu, ela teve a resposta. Aquele menino tímido e introvertido, que havia mudado da água para o vinho em relação a ela, era o mais novo aluno da Tisch School of the Arts.
— Bem vindo a fase adulta, Jay ! — Sara esqueceu que já estava praticamente pronta para a sua formatura e deu um abraço apertado no rapaz. Seu peito apertou quando sentiu que ele retribuiu o carinho à altura. Os dois precisavam desse momento. — O que está esperando para contar para todo mundo ?
— Não agora, Sara. Esse é o seu momento — Ele limpou algumas lágrimas tímidas e se recompôs. Deixaria para dar aquela notícia em outro momento, não queria que os holofotes daquele dia fossem divididos. — Agora eu vou deixar você terminar de se arrumar.
Limitou-se a piscar para ele. Jason era outra pessoa e parecia estar bem mais leve e tranquilo. Ele merecia o mundo aos pés dele e aquele era só o primeiro passo.
Ela também precisou se recompor. Deu uma alisada na beca e novamente teve a árdua tarefa de ajustar o capelo. Agora estava pronta, precisava ir encerrar aquele ciclo para iniciar um novo longe de Las Vegas.
— Ora, se não é a nossa formanda ! — Beth anunciou quando viu Sara descendo as escadas. Emma ensaiou puxar umas palmas e logo foi seguida por sua avó e Stella. — Como você está se sentindo, querida ?
— Aliviada mas um pouco assustada.
— Eu acho que eu vou explodir de tanta felicidade, Sara. Você não sabe como eu estou feliz e orgulhosa por você. — Stella tinha os olhos marejados. Os seus dois filhos, Sara e Freddie, haviam se tornado dois seres humanos de alta excelência. — No fundo eu estou com aquela sensação de dever cumprido.
— Sem você e a sua ajuda eu não sei onde eu estaria nesse momento. — As duas trocaram um rápido abraço e Sara limpou as lágrimas da governanta.
— Você está parecendo um aluno de Hogwarts com essa roupa, Sarinha. — Emma interviu com o comentário pontual.
— Você não sabe o calor que faz debaixo dessa roupa, Em. — Sara apertou levemente a ponta do nariz da menina. Ela era encantada pela leveza da menina.
— Ei, é melhor irmos. Sara não é a noiva para chegar atrasada na cerimônia. — Jason surgiu na sala segurando as chaves do carro de Sara. Ele era o mais novo recém habilitado na casa e iria propor em levar o grupo até o campus. — Eu dirijo !
Todas as mulheres ficaram encarando Jason. Beth precisou segurar uma risada sobre o comentário dele e Stella ainda tentava decidir se ficava confortável ou não com o fato do menino dirigir.
— Então vamos ! Mas Jason tenha piedade do meu carro, eu ainda estou pagando as últimas parcelas da manutenção.
O caminho foi feito em meio a muita conversa e risada. Diferente da primeira vez que Jason dirigiu o carro de Sara, ele estava muito tranquilo e seguro. Sara não pode deixar de pensar em Grissom, ele estava muito estranho e parecia pouco se importar com alguma coisa a respeito deles.
Por duas vezes pegou Beth a encarando pelo o retrovisor e sentiu um frio na barriga ao imaginar que ela pudesse ler os seus pensamentos. Logo tratou de mudar o foco. Se Grissom queria a tratar com frieza e distância, não merecia ter a sua atenção naquele dia.
O campus estava abarrotado de pessoas. O fluxo de formandos e seus familiares era intenso e todo mundo queria capturar aquele momento. Assim que ela chegou foi recepcionada por seus amigos. David e Simon rodopiavam no ar, Mary a recebeu com um abraço apertado, ela também iria se formar naquele dia.
Freddie também estava com o grupo. Entregou um pequeno ramalhete de flores do campo para ela e depositou um rápido beijo em sua bochecha.
— Parabéns, cariño.
— Obrigada, Fred. São lindas ! — Ela tinha certeza que estava ruborizada com o gesto do seu amigo. Sabia que ele ainda nutria sentimentos por ela, mas ela não poderia responder a altura. — Obrigada por vocês estarem aqui.
— Claro que não iríamos perder a chance de ver as duas mais inteligentes do grupo se formando.
— Se vocês levassem a faculdade a sério iriam se formar também. Vida acadêmica não é só festa e cerveja.
Os dois homens deram de ombro e ignoraram a fala de Mary. O reitor anunciou no alto falante que os formandos deviam se reunir perto das arquibancadas para o início da cerimônia.
— É o nosso momento, Sara. — Mary segurou a mão de Sara e sorriu para a amiga. Iria morrer de saudades da sua companheira. Ela iria voltar para a sua cidade natal, havia conseguido um emprego em uma escola e iria dar aula para alunos do ensino médio.
Os convidados de Sara foram se acomodar junto com a família de Mary. Conseguiram bons lugares e teriam uma boa vista de toda a cerimônia. Era um dia muito bonito. O céu era azul e sem nenhuma nuvem para atrapalhar. O clima estava agradável, coisa que era rara em Vegas.
Beth estava em silêncio e perdida em seus pensamentos. Não sabia o que o seu filho estava fazendo naquele exato momento, mas torcia para ser algo prudente. Ver a felicidade de sua família não tinha preço, mas estava preocupada porque sabia que a qualquer momento tudo aquilo poderia acabar.
Sara era uma menina encantadora. Não podia deixar de repreender o fato dela e seu filho estarem juntos escondidos. Aquela era uma situação atípica, mas os dois não pensaram nas consequências daquele ato. Ela sabia que a reação de seus netos seriam as piores quando soubesse sobre os dois.
— Oi mãe. — Beth saiu de seu devaneio e viu Grissom parado em pé ao lado dela. Ele encarava a multidão de alunos buscando encontrar Sara. Encontrou ela sorridente conversando com outra pessoa mas seus olhares não se encontraram. — Posso me sentar ?
— Claro. — O olhar dela não era nada amistoso. Se seu filho achava que ela iria aceitar calada o fato de Grissom brincar com os sentimentos de Sara, ele estava muito enganado. — Achei que não viria.
— Reunião. — Limitou-se a responder. Sabia muito bem que sua mãe estava irritada. Achou estranho o ramalhete no colo dela, mas achou melhor não comentar.
— Presente do rapaz ruivo. — Beth disse sem o encarar.
Grissom curvou um pouco o corpo para frente para ver quem era o rapaz em questão. Lembrou-se de ter o visto no apartamento de Sara e também na cafeteria. Freddie era o nome dele. Embora Sara tivesse sido rasa em sua resposta a respeito dele, imaginava que ele fosse muito importante para ela.
— Eu e Stella preparamos uma recepção para Sara, vai ser na sua casa. Espero que esteja lá para prestigiá-la.
— Eu vi a decoração no jardim. Ela ficará bastante feliz.
Beth percebeu que ele desviou o foco do assunto. Provavelmente ele não participaria. Agora restava saber se o motivo era porque evitava a Sara ou algo mais grave estava acontecendo.
O reitor anunciou o início da cerimônia. Alguns professores falaram a respeito de toda a jornada acadêmica e deram alguns conselhos para os graduados. O Sr. Baxter, que era um dos professores mais queridos pelos alunos, utilizou em seu discurso uma música da banda Tears for Fears. Conseguiu arrancar algumas risadas dos seus ex-alunos mas sabia que eles tinham entendido o teor da mensagem:
Conselho aos jovens de coração, logo seremos mais velhos. Quando faremos isso funcionar? Temos o mundo inteirinho em nossas mãos.
E era isso que cada um sentia naquele momento. Todos sentiam o mundo aos seus pés e aquele era apenas o primeiro passo para eles conquistarem tudo o que almejavam. A cerimônia começou a ganhar um viés nostálgico a cada mensagem proferida diretamente para eles. Era um ciclo que encerrava para poder iniciar um novo.
A cada formando que subia ao palco para receber o diploma, era uma festa em cada canto do campus. Familiares mais empolgados gritavam a plenos pulmões enquanto aplaudiam os alunos. Quando Sara foi anunciada, ela só podia sentir alívio e uma felicidade enorme crescer.
Quando virou-se para a plateia precisou conter a emoção. Não imaginava que existiria um grupo de pessoas celebrando a sua conquista naquele momento. Não conteve o sorriso quando viu David e Simon celebrando como um gol em uma partida de futebol. Ficou surpresa ao ver Grissom ao lado de sua mãe, não contava com a presença dele.
Após todas as formalidades e os capelos lançados ao ar, era o momento dos últimos abraços e da despedida. Aos poucos os familiares foram se aproximando e Sara logo recebeu um abraço caloroso de Emma, a menina estava encantada com tudo o que tinha visto.
— Parabéns, Sarinha. Eu gritei o mais alto que conseguia para você me ouvir.
— Pode ter certeza que o campus inteiro escutou, Em. Muito obrigada por estarem aqui. — Ela apertou levemente a ponta do nariz da menina e ergueu o olhar para encarar todo o grupo. — Isso significa muito para mim.
— Você não sabe como estamos orgulhosos por você. — Stella antecipou e trocou mais um abraço com a recém graduada. — Mais um dever cumprido.
— Você fez um bom trabalho, Stella. — Freddie piscou para a governanta. Ele e Sara tinham uma dívida de gratidão eterna com a senhora.
— Não tive trabalho nenhum com vocês. — Ela sorriu.
— Você que pensa. — Sara concluiu em tom brincalhão. A expressão de Stella estava impagável. Ela ainda tentou questionar, mas Freddie levou o dedo indicador ao lábio indicando silêncio. — Não é o momento certo em trazer os nossos podres.
— Se a senhora quiser saber os podres da Sara, eu posso citar em ordem alfabética. — David se intrometeu na conversa e logo recebeu um olhar fulminante de Sara. Ele sabia de muita coisa que não precisava ser dita na frente daquelas pessoas. — Mas o maior podre de Sara foi ter namorado com Freddie.
Com exceção de Sara e Grissom, todos riram do comentário despretensioso de David. O amigo de Sara não sabia do relacionamento dela com o supervisor, mas sabia das intenções de Freddie com a morena.
— Sempre com comentários não requisitados, não é, David ? — Freddie reparou no desconforto de Sara e achou melhor encerrar o assunto antes que alguma coisa pudesse estragar o dia de sua amiga.
Jason achou melhor mudar o clima daquela conversa. Cumprimentou novamente a sua amiga e sorriu quando ela sussurrou em seu ouvido que também estaria presente no dia da formatura dele.
— Parabéns, Sara. — Grissom estava um pouco afastado do grupo que se aglomeravam ao lado dela. A voz dele atraiu a atenção de todos e ele retraiu o corpo. Com as mãos dentro do bolso, limitou-se a balançar os ombros. — Estou feliz por você.
— Obrigada, Grissom. — Ela retribuiu com um tímido sorriso.
— Não vai dar um abraço na Sarinha ? — Emma pegou a mão do seu pai e o puxou para frente. — Hoje é o dia dela.
Os dois ruborizaram com o comentário da menina. Naquele momento, Grissom a evitava porque tinha medo de desabar e acabar levando ela junto. Sara estava feliz e não merecia receber uma carga de tensão sobre os ombros.
Eles estavam no início de um caminho, mas ele precisaria voltar.
O abraço ainda era quente. Era reconfortante estar entre os braços dele, e era acalentador receber o calor do corpo dela.
Talvez o abraço tenha demorado um pouco mais que o normal, porque quando ambos desfizeram o contato, os olhares eram de desconfiança. Jason achou estranho a postura de seu pai, ele sempre evitava o contato e quando o fazia era o mais breve possível.
— O que acham de uma foto ? — Freddie cortou a tensão novamente com a fala dele. O olhar assustado de Stella o deixou preocupado, talvez a governanta soubesse de algo. Iria averiguar mais tarde.
Pediram a um estranho que pudesse registrar aquele momento. Todos ao redor de Sara exibiam o seu melhor sorriso e a felicidade de Sara iluminava o restante. Grissom tentou manter-se afastado, mas o imã que existia entre eles não autorizava. Depois que o estranho devolveu o celular ao seu dono, os olhares de Grissom e Sara cruzaram novamente
Não seria fácil apagar Grissom.
…
Grissom tomou as ruas e deixou o grupo ainda reunido com Sara. Ele tinha um outro compromisso antes de voltar para casa. O endereço do hotel de Maggie estava em suas mãos e ele sabia que não era muito distante de onde ele estava.
Dirigiu por alguns minutos em silêncio. Sabia que para manter uma conversa produtiva sobre o futuro, precisaria abaixar a guarda em algum momento. Ele não tinha dúvidas de tudo o que tinha acontecido com ela.
As evidências não mentiam.
Na entrada do hotel ele exitou algumas vezes, não tinha certeza se estava preparado para aquela conversa. No entanto, deixou qualquer incerteza de lado quando entendeu que aquilo não se tratava sobre ele e sim sobre os seus filhos.
— Quem bom que você veio. — Maggie abriu a porta e encontrou com o olhar perdido de Grissom. Com um singelo toque em seu ombro o trouxe de volta para realidade. — Entre, é melhor conversarmos dentro do quarto.
Limitou-se a assentir. O quarto era modesto, tendo em vista o hotel que ela tinha se hospedado. Uma cama de casal, uma televisão e um banheiro privativo.
— Não pretendo passar muito dias nesse hotel. — Ela reparou que ele estava analisando todo o ambiente. Alguns hábitos não mudam nunca. — Como você está ?
— Bem. — A resposta foi uníssona e ele ficou perdido com a pergunta. Ainda não entendia o motivo de ter tanto receio de aceitar Maggie de volta. Estava mais que provada que ela não tinha culpa na história.
— Jason e Emma ? — Ela se acomodou em uma cadeira perto da janela e indicou a cama para ele sentar. Não era o cenário ideal para uma conversa daquele porte, mas era a única forma deles terem privacidade.
— Estão bem.
— Gil, você poderia ser mais detalhista ? Eu perdi 3 anos da vida de vocês. — Ela deu uma risada abafada, sabia muito bem o quão desconfortável ele estava.
— Me desculpe. — Abanou a mão próxima ao rosto e respirou fundo. — Emma continua a mesma criança falante e amável. — Sorriu ao lembrar-se das peraltices de sua caçula. — Jason vai se formar daqui alguns dias e provavelmente vai para Nova York estudar artes.
— Artes ? — O tom de voz saiu um pouco mais alto que o normal. — Eu sempre achei que meus pais fossem obrigá-lo a estudar medicina e ele para contrariar os avós ia estudar biologia como o pai.
— A personalidade dele é muito forte, lembre-se disso. — Encarou no fundo dos olhos, falou nas entrelinhas e Maggie havia entendido. — Como faremos isso ?
— A única resposta é contar toda a verdade. — Seu semblante estava sério, mas no fundo se sentia mais tranquila em saber que Grissom faria isso ao seu lado. — Não quero ser a heroína da situação, mas não posso deixar que nossos filhos acreditem que eu sou uma vilã.
— Precisamos levar em consideração que isso vai ser traumático para os dois. MontBlanc esteve muito próximo dos dois. Aliás, só devemos abaixar a nossa guarda quando ele finalmente for condenado.
— Alana me garantiu que isso vai acontecer, por isso eu voltei para Las Vegas. — A resposta foi ríspida. — Depois de tantos anos eu não seria irresponsável dessa forma.
— Alana é detetive e não juíza.
— Gilbert, não queria despejar a sua raiva em cima de mim. Eu não tenho culpa se ela não te comunicou do ocorrido. Pare de pensar no passado porque não vamos conseguir mudar em nada.
Ele assentiu em silêncio. Ainda não havia conseguido superar toda a omissão de Alana, ela não tinha o direito de tomar uma decisão como aquela sem ao menos o comunicar.
— Devemos ter conversas separadas. Jason já é maduro o suficiente para entender a gravidade de tudo o que ocorreu, mas Emma não merece ter que carregar uma história dessas sendo tão nova.
— Você está certo, mas eu ainda tenho medo de como vai ser a reação deles. Eles podem achar que tudo isso é uma invenção para ser aceita de volta e o meu medo é de tudo isso ser irreversível.
Levou as mãos espalmadas até o rosto e respirou fundo. A sua intenção seria evitar ao máximo que seus filhos fossem expostos sobre aquela história. As fotos do caso eram pesadas e não queria que Emma e Jason tivessem acesso.
— Eu vou estar com você e confirmar toda a história, Maggie. Só vamos precisar ter paciência e respeitar o tempo de digestão deles.
— Eu quero voltar a ter a minha vida o quanto antes, Griss. Eu não aguento mais viver me escondendo e sendo uma mera espectadora da vida das pessoas que eu amo. — Ela levantou-se e sentou ao lado dele na cama. Ficou aliviada em perceber que ele não tinha reprovado a movimentação dela. — Não quero ignorar tudo o que aconteceu, mas eu preciso estar ao lado de vocês para iniciar essa reestruturação.
— Maggie, muita coisa aconteceu nesses últimos três anos. Eu não vou ser a pessoa que vai impedir que você prossiga sua vida, mas você precisa entender que não vamos continuar de onde você parou.
Grissom permanecia encarando a cadeira que antes Maggie ocupava. Em silêncio ele sentia o olhar pesado dela sobre os seus ombros. Sabia que ela estava procurando as melhores palavras para continuar a conversa. Essa era uma característica dela: não fazia perguntas sem respostas.
— Você tem razão, Griss. Eu acho que perdi muita coisa nesses últimos três anos. — A voz dela saiu um pouco mais baixa que o habitual. Seu coração tinha batido fora do compasso e uma vontade súbita de chorar invadiu o seu peito. — Mas eu acho que algumas coisas eu consigo recuperar.
Ele segurou a mão dela de maneira firme, abriu um sorriso tímido e fez um leve carinho com o polegar. Maggie estava de volta e tudo o que ela queria era suprir os anos de ausência e internamente ele torcia para que seus filhos atendessem o pedido dela.
— Eu ainda estou processando tudo o que aconteceu, está acontecendo e ainda vai acontecer. Eu não sou o mesmo Gil de três anos atrás e você com certeza não é a mesma Maggie de antes.
— Mas podemos nos redescobrir juntos novamente. — Ela abriu um sorriso sincero e ele não conseguiu evitar de acompanhar quando viu as duas “covinhas” marcadas em suas bochechas.
Aquela era a “deixa” para ele ir embora. Estava acessando sentimentos que estavam muito bem enterrados e guardados, e isso não era justo com nenhuma das partes. Maggie havia sido o amor da sua vida e isso o deixava confuso em relação aos seus sentimentos. Não conseguia entender se o seu coração disparava por ainda a amar ou por ter um sentimento de culpa por não amá-la mais.
— Nos vemos em breve ? Eu devo encontrar com os meus pais ainda essa semana e eu sei que depois disso vai ser impossível esconder de qualquer pessoa que eu estou em Las Vegas.
— O mais breve possível. Você merece ter a sua família novamente.
…
Grissom chegou em casa e encontrou sua mãe trancando a porta que dava acesso ao jardim. Para uma casa que estava tendo uma festa, estava silenciosa demais. Beth estava de costas e não percebeu a presença de seu filho. No entanto, quando os seus olhares se encontraram, ela cerrou o cenho.
— Onde está todo mundo ? — Ele olhou por cima do ombro de sua mãe e percorreu o olhar pelo restante do cômodo.
— Onde você esteve, Gilbert ?
— Resolvendo alguns assuntos, mãe. — Não estava gostando do rumo da conversa e não queria tocar no nome de Maggie, pelo menos por enquanto.
— Emma e Jason saíram e Stella aproveitou a casa vazia para repousar um pouco mais cedo. Sara saiu para comemorar com os amigos.
Ele apenas meneou a cabeça. Viu o pequeno ramalhete que Sara havia ganhado em um vaso sobre a mesa da cozinha. Sentiu um leve aperto no peito ao imaginar que poderia perder tudo o que havia conquistado ao lado de Sara.
Sabia que sua mãe ia querer engatar uma conversa séria mas ele não tinha cabeça para isso naquele momento. Estava sentindo falta de Sara mas sentia que ele a segurava apenas pela as pontas dos dedos.
Sara estava indo embora e não sabia como lidar com isso. A amava ao ponto de não querer que ela sofresse com o retorno de Maggie e por isso tendia a cada vez mais se afastar dela.
Novamente havia ganhado as ruas. Na conversa durante a colação de grau, havia escutado o nome do pub onde eles estariam comemorando durante a noite. Estava desconfortável por estar naquele ambiente, mas Sara merecia toda a sua atenção.
— Ei, meu chapa. Alguma coisa para beber ou será o nosso leão de chácara essa noite ? — O bartender de aparência esguia e voz rouca, interpelou Grissom que varria o salão com o olhar. — Se está procurando os coroas da universidade, eles estão à sua esquerda.
Grissom ignorou a fala do rapaz e continuou procurando por Sara. Uma banda local cantava a plenos pulmões no pequeno palco. Um grupo animado dançava em frente o vocalista e os mais tímidos estavam encostados na parede.
— Ei, Sara. Aquele ali não é o Dr. Grissom ? — Mary estava virada para a porta quando viu o supervisor. A música alta a fez falar um pouco mais alto. — Logo atrás de você.
Sara virou o rosto e confirmou que era Grissom parado na entrada. Quando os seus olhares se cruzaram, ele abriu um discreto sorriso e acenou em direção a ela. Ela voltou a encarar a sua amiga que tinha uma incógnita enorme pairando em sua cabeça.
— Longa história.
Mary apenas assentiu com a resposta de sua amiga. Com certeza iria querer saber cada detalhe e principalmente o motivo do futuro ex patrão dela estar ali, mas esse não era o momento certo.
— Oi Sara, espero não estar atrapalhando. — Parado com as mãos afundadas dentro do seu bolso, estava fazendo o máximo para se sentir confortável. — Me desculpe por mais cedo.
— Hoje eu só queria comemorar sem qualquer dor de cabeça. — Deu de ombros. — Podemos deixar qualquer tipo de conversa para outro dia ?
— Claro ! É impossível manter qualquer conversa com todo esse barulho. — Ele sorriu mas Sara não o acompanhou, era visível toda a sua irritação com ele. — Eu não vim até aqui com esse intuito. É a sua noite e você merece aproveitar da melhor forma.
Sara abaixou a cabeça e respirou fundo. Sua vontade era chamar algum segurança e pedir que retirassem Grissom a pontapés dali, mas ela não conseguiria fazer isso. No fundo ela se detestava em saber que o deixou ocupar um espaço muito grande em seu coração.
— Jerry, duas cervejas. — O bartender prontamente entregou duas garrafas para Sara e ela esticou uma em direção a Grissom. — Um brinde a mim. — Ergueu a mão em direção a ele.
— A você e ao seu sucesso. — Selaram o brinde batendo as garrafas. Os dois sorveram o líquido âmbar e gelado e desviaram os olhares para o salão. Os amigos de Sara estavam animados dançando próximos ao palco e alguns professores estavam conversando em uma mesa. — Eu vou sentir a sua falta.
Sara precisou de alguns segundos para assimilar a última fala dele. Ela já estava preparada para um possível fim, mas ouvi-lo falar daquela forma era praticamente uma confirmação.
— Será que no fundo não passamos de uma piada sem graça ?
— Não. — Foi incisivo em sua resposta. Sara havia conseguido despertar sentimentos que a muito tempo não acessava. Estar com ela era leve, mesmo que existisse todo o receio de serem descobertos antes do momento certo. — Eu realmente me importo com você.
Ela sentiu o olhar pesado dele sobre ela, não queria precisar encará-lo naquele momento. Não queria chorar na frente dele e nem ficar triste naquele dia. Respirou fundo e bebeu um pouco mais de cerveja. Fez umas contas rápidas e viu que logo precisaria suspender o álcool.
— Finalmente achamos você. — Os amigos de Sara se reuniram ao lado dela, enquanto Simon pediu mais cerveja, os outros cumprimentavam Grissom. — Vamos voltar porque logo logo eles vão tocar a nossa música predileta.
Freddie, que estava um pouco atrás do grupo falante, estava incomodado com a presença de Grissom. Não era a primeira vez que ele encontrava os dois sozinhos e para uma relação de emprego, era muito estranho esses encontros na surdina.
— Que ilustre presença, Dr. Grissom. — Lucas que era o coordenador do departamento de física aproximou-se do supervisor e os dois trocaram um aperto de mão cordial. — Não consigo acreditar que esteja aqui para escutar a música dessa banda de gosto duvidoso.
— Estamos aqui pelos mesmos motivos.
Lucas avaliou o supervisor e sua ex-aluna, e as coisas ficaram muito claras em sua mente. Somente uma jovem bonita e fascinante como ela seria capaz de levar um homem reservado e provavelmente apaixonado até aquele lugar.
— Vocês dois são dois cérebros fascinantes. Vocês dois juntos devem sair faíscas.
O comentário ficou suspenso no ar. Sara e Grissom se encararam buscando no olhar do outro a confirmação que ambos não agiam como um casal em público. A ideia foi afastada imediatamente quando os acordes de guitarra cortaram o ambiente. Todo o grupo ao redor de Sara saíram correndo em direção ao palco e Mary segurava sua mão.
— Vamos, Sara. Esperamos a noite toda por essa música.
Ela assentiu para sua amiga e depois voltou o seu olhar para Grissom. Ele não parecia estar muito disposto a estar no meio de tanta gente, mas ela merecia curtir a sua noite. Foi em direção ao grupo e sumiu no meio da multidão. Grissom procurou um lugar no balcão e ficou admirando de longe.
Depois de tantos dias ignorando a morena, ele merecia ser colocado em segundo plano. Era a noite dela e ele mesmo não queria atrapalhar. Tinha certeza que ostentava um sorriso bobo vendo ela emanar toda a sua juventude.
Observá-la em silêncio era uma das suas tarefas favoritas. Quantas vezes não a admirou enquanto ela brincava animadamente com Emma ou respondendo alguma provocação de Jason. Às vezes sentia que estava perdendo as rédeas dos seus sentimentos estando ao lado dela, mas o poder de Sara sobre ele o fazia agir de formas impensadas.
Assim como agora, estava em pub lotado apenas para vê-la dançar.
Sabia que ela estava indo embora, mas não tinha forças para segurá-la por perto.
Uma mão em seu ombro o fez sair dos seus pensamentos. Era Sara novamente ao lado dele. Ela parecia ainda estar recuperando o fôlego da última dança e ele achou encantador a forma que ela estava se recompondo.
— Venha cá. — Sara o puxou pela a mão e o levou para um espaço mais reservado perto da porta. Ali a música estava um pouco mais baixa e eles conseguiriam conversar. — Já que você me ignorou a semana e não sei quando você vai voltar a me ignorar, eu preciso te dar uma notícia. Eu vou me mudar para Chicago daqui algumas semanas
— Eu.. Eu… — Não queria gaguejar naquele momento, mas estava sendo difícil raciocinar. — Eu estou feliz por você, de verdade.
Sara limitou-se a rir de uma forma irônica. Grissom não conseguia sustentar um olhar e ao menos comunicá-la do fim. Era terrível ter que aceitar aquilo de uma forma indireta. Se ela pudesse ouvir a frase clichê de todo fim de relacionamento, seria mais fácil lidar com aquilo. Iria ficar triste, chorar e no fim das costas iria se recuperar, como já havia feito antes.
Mas ficar com aquela incerteza e alimentar falsas esperanças que um dia os dois poderiam dar certo era o que mais doía. Já era difícil manter um relacionamento como o deles e o fator da distância só iria agravar todo o mal estar.
Ela queria acreditar que era apenas pela a distância
Mas da parte dele parecia ser muito mais a indiferença.
— Nós sempre andamos por uma linha muito frágil.
Grissom levou uma mão ao rosto de Sara, fez um delicado carinho com o polegar até parar sobre o seu lábio. Com a ponta dos dedos desenhou os lábios finos. Trouxe o corpo dela para próximo de si e uniu as suas bocas. Fazia dias que ele ansiava por aquilo e o seu coração bateu um pouco mais acelerado quando percebeu que ela estava receptiva.
Sentiria falta dos lábios quentes e delicados.
Ele havia encontrado o amor onde não deveria encontrá-lo.
...
A porta do pub foi aberta mais uma vez naquela noite. Dois pares de olhos curiosos e excitantes invadiram o salão. Reconheceram os rostos dos amigos de Sara, mas nada dela.
Mackezie estava um pouco mais nervosa que Jason, os dois não tinham idade para frequentar ambientes como aquele, mas foi convencida por seu namorado que deviam tentar.
A jovem não conhecia ninguém mas continuava escaneando o lugar em busca de Sara. Os seus olhos verdes arregalaram quando encontraram a amiga de seu namorado. Ela tentou ser o mais natural o possível, porém Jason havia percebido a sua mudança repentina.
Ela não precisou falar nada, ele apenas seguiu o olhar da namorada.
Ele esperava encontrar apenas Sara
Mas encontrou Sara e o seu pai.
Se beijando.
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